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Gabinete de Guerra da Rádio Observador, destaque nos próximos minutos para o conflito na Ucrânia, até porque há declarações importantes de hoje, de alguns líderes europeus, mas também de Volodymyr Zelensky. Eu sou Miguel Cordeiro, comigo está o Martim Lucas Pires, do Centro da Faculdade de Direito da Escola de Lisboa da Universidade Católica Portuguesa. Boa tarde, bem-vindo à Rádio Observador.
Boa tarde, Miguel.
Nós já vamos abordar aqui algumas declarações, mas há esta informação já desta tarde, Volodymyr Zelensky discursou e voltou a insistir num ponto que tem dito desde o início do conflito: qualquer conversa de paz, a existir, tem de ter a Ucrânia à mesa. E é uma resposta, uma intenção de se realizar um encontro entre Estados Unidos, Rússia e China para colocar um ponto final neste conflito. Zelensky diz que qualquer negociação sobre o fim deste conflito tem que ter a Ucrânia também presente. É uma reação natural de Zelensky, mas vamos perceber ao certo que objetivo teria esse encontro, sem a presença da Ucrânia, entre Rússia, China e Estados Unidos da América, e se nessa via, de fato, seria possível chegar a pontos de entendimento para encontrar soluções para este conflito.
Muito boa tarde. Um encontro dessa natureza a acontecer sem a presença da Ucrânia, seria sempre mais uma forma só para a Rússia e os Estados Unidos, neste caso, concertarem posições sobre aquilo que deve ser feito quanto à guerra na Ucrânia. Nós sabemos que a guerra, ou seja, que os Estados Unidos, na administração Trump, têm tido uma posição muitas vezes mais ambivalente quanto à duração do conflito. Recentemente, Donald Trump até conseguiu um acordo com a Rússia para conseguir algumas reservas de petróleo de forma a reduzir os custos de vida, que dizem que podem ter influência na forma como os americanos vão votar nas próximas eleições intercalares. E, portanto, esta reunião a acontecer ou a suceder, e a presença da China aqui serviria também para uma espécie de poder moderador ou para até a China marcar uma posição de novo estratega da ordem mundial, daria muito mais força à posição da Rússia do que propriamente à posição da Ucrânia. Portanto, é normal que Zelensky queira insistir que a paz só se faz com a Ucrânia, porque o que viria desta reunião, muito provavelmente, seria uma imposição de lá estar três players internacionais grandes, entre os quais a parte que atacou a Ucrânia, sobre como é que a guerra ou o conflito devia terminar no futuro.
Entretanto, hoje também o chanceler alemão Friedrich Merz falou sobre a defesa na Europa. Alertou que a Europa está a subestimar os verdadeiros objetivos de Vladimir Putin, que de acordo com Friedrich Merz, vão para lá da conquista da Ucrânia e têm como objetivo destabilizar toda a ordem política europeia, incluindo as democracias e as sociedades abertas. Para além disto, Friedrich Merz defendeu o reforço da capacidade de defesa europeia e uma maior autonomia no âmbito da NATO. Isto não são propriamente preocupações novas. Naturalmente, aqui o líder da Alemanha a alertar para a necessidade da Europa se preparar para o pior cenário, e esse cenário da Europa avançar pelo lado da Ucrânia. A guerra híbrida que temos registado ao longo dos últimos meses acaba por dar razão ao que está a dizer aqui Friedrich Merz.
Sim, eu creio que sim, ou seja, eu creio que Merz tem visto notícias também de cada vez mais tentativas de destabilização, quer através de objetos voadores não identificados no espaço aéreo europeu e, consequentemente, no espaço aéreo da NATO, quer através de presenças de atividade russa em grupos internos para tentar provocar opiniões públicas dentro do espaço europeu. É preciso relembrar que quatro Estados europeus vão estar com eleições muito em breve. Temos a França, temos Itália, temos Espanha, vão ter todos eleições muito brevemente e deve-se também estar à espera de um possível agravamento da situação política na Alemanha. Friedrich Merz está numa posição eleitoral muito complicada. Estamos num âmbito, num período de muita tensão política na Europa, de uma transição democrática que pode ter consequências muito importantes no continente. E nós sabemos que tem havido várias tentativas de intervenção russa para desinformar eleitores nestes períodos de transição eleitoral, e sobretudo com forças extremistas e mais amigas da Rússia na luta por lugares de relevo nos parlamentos nacionais ou nos cargos executivos ou cargos semiexecutivos, no caso da França, pode ser uma situação muito problemática a ocorrer agora no futuro. Portanto, eu creio que o alerta de Merz vem também desses aspetos, vem não só de eventos que estão a ocorrer agora, mas também de eventos que podem acontecer no futuro e muito proximamente.
Vamos falar aqui também um pouco do Irão, porque, de fato, Donald Trump tem insistido aqui em várias ações no Irão ao longo das últimas semanas. Donald Trump até já falou, por exemplo, nas últimas semanas, de utilizar a mãe de todas as bombas, algo que é uma bomba maior do que as outras, podemos simplificar assim, mas tem prometido diferentes ações para tentar resolver esse conflito. E é natural, os Estados Unidos estão em período eleitoral. Já se vota até nesta altura, quem vota antecipadamente. As eleições estão oficialmente agendadas para o próximo dia 3 de novembro. Hoje, há declarações de responsáveis iranianos, falam na Agência Reuters. Basicamente, dizem que o Irão está a prolongar deliberadamente as negociações com os Estados Unidos da América para enfraquecer politicamente Donald Trump Antes dessas eleições intercalares de 3 de novembro, foram três responsáveis iranianos, uma fonte próxima do regime, que foram ouvidos sob anonimato pela Agência Reuters, que hoje publica esta notícia, afirmam que as autoridades iranianas acreditam que Trump pode ordenar novas ofensivas para desbloquear o impasse no conflito, que dura há oito meses, mas têm tentado por tudo prolongar as negociações e garantir a continuação desta situação para fragilizar Donald Trump. Faz sentido essa estratégia por parte das forças iranianas e pode, de facto, Donald Trump, perante isto e perante a confirmação deste cenário, ter uma atitude mais severa neste conflito?
O Trump ameaça muito para aquilo que depois realmente faz. Por exemplo, o Trump dizia que o conflito no Irão ia acabar rapidamente e ainda está a decorrer e não há uma previsão de quando é que vai terminar. O que Trump diz não se pode depois escrever, ou não se pode pelo menos prever que vá ser exatamente assim como vai acontecer. Também há outra coisa que é, os Estados Unidos estão com as suas forças militares bastante limitadas depois do primeiro embate no Irão e há relatórios de figuras dentro do exército norte-americano que dão conta de que um conflito a continuar, pelo menos nos termos em que estavam, ou seja, sem entrada de tropas terrestres, e mesmo assim com a entrada de tropas terrestres seria uma coisa ainda mais complicada, não provavelmente teria o efeito desejado. Esta ameaça da força ou de regressar à força pode se calhar fazer alguma pressão sobre os iranianos, que também não sabemos em nível de resistência e de força que têm neste momento para aguentar outros bombardeamentos, mas os iranianos claro que quanto mais tempo conseguirem aguentar o bloqueio e quanto mais tempo conseguirem que a situação em Ormuz se mantenha instável, vão continuar a conseguir afetar a situação da crise mundial e os americanos que agora começam a votar, como o Miguel disse bem, votam com o bolso. Se veem o custo de vida aumentar, e não veem o presidente deles a resolver a situação, veem aliás o presidente dele a agravar a situação, isso pode ter um impacto muito grande, e é o que as sondagens todas dizem, vai ter um impacto muito grande na escolha dos membros do Congresso e do Senado, e Donald Trump vai ficar afetado e pode ficar com uma segunda parte do mandato muito limitada neste aspeto.
Três de novembro é a data dessas eleições intercalares nos Estados Unidos da América. Martim Lucas Pires, muito obrigado por esta participação na Rádio Observador.
Muito obrigado