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Esta é a história do dia da Rádio Observador: o PS pode salvar o governo?
O Partido Socialista será parte responsável para garantir estabilidade política ao país, mas não teme as eleições.
Esta declaração de José Luís Carneiro, na entrevista da semana passada à Rádio Observador, é daquelas que tanto pode querer dizer tudo como não querer dizer nada, mas é bastante reveladora da estratégia do Partido Socialista num momento difícil para o governo. À medida que os casos se vão acumulando e Montenegro perde a capacidade de os estancar, os socialistas mantêm o sangue frio e evitam um passo em falso que possa levar à queda do governo, para já. É sobre isto que eu vou falar hoje com o editor adjunto de política do Observador, o Miguel Santos Carrapatoso. Vamos perceber até que ponto o PS está disposto a ir para manter um governo fragilizado em funções e vamos também olhar para a forma como o governo interpreta este seguro de vida temporário. Eu sou o Pedro Benevides e esta é a história do dia de quinta-feira, 06 de junho. Olá, Miguel, bem-vindo.
Olá, Pedro.
Olha, antigamente costumava dizer-se que este mês de agosto, os meses de férias tradicionalmente, mas sobretudo este mês de agosto, era o mês da Silly Season. Eu digo antigamente porque nos últimos anos isso não tem acontecido e este ano também não é exceção. Não se pode dizer que estamos na Silly Season, pelo menos em termos políticos.
Não, e em grande medida porque chegamos a este mês de agosto com um governo estranhamente desgastado em relação ao seu período real de vida. Não nos podemos esquecer que Luís Montenegro chega aqui já depois de umas eleições difíceis, em que teve de responder por uma crise que lhe dizia respeito, no caso da Spin Viva, e desde então tem somado dificuldades na área da saúde, no acesso à habitação. Apostou todas as fichas, ou grande parte das suas fichas, na questão da reforma laboral e acabou com uma derrota pesada às mãos de André Ventura. E quando o governo como um todo achava que este mês de agosto serviria para respirar fundo, ganhar alguma energia e voltar em força em setembro, acaba por ter de lidar com duas crises diferentes, mas que são muito pesadas para o governo, no caso da educação e os exames nacionais, e neste caso, de Luís Neves, por atos praticados quando Luís Neves era ainda diretor nacional da Polícia Judiciária. Portanto, há aqui uma tempestade perfeita que está a crescer e a ganhar forma e que atinge muito o governo e atinge muito Luís Montenegro.
E portanto, não conseguindo fazer isso neste mês, que podia ser um mês de pousio, onde dava para recuperar algum fôlego. A verdade é que Luís Montenegro e o governo estão nessa posição. Normalmente, quando os governos estão nessas circunstâncias mais fragilizados, a oposição tem, usando aqui uma expressão de Donald Trump, as cartas todas na mão. E no entanto, a ideia que dá é que nem o Chega e nem o PS, em particular, estão com vontade já de destrunfar o governo.
Não, e eu acho que há um motivo que ajuda a explicar isso e que está bem presente na nossa memória coletiva, que é a experiência das eleições relativas anteriores. Luís Montenegro foi muito eficaz em criar a narrativa da vitimização, conseguiu construir um argumentário que lhe permitiu dizer no final do dia: "Não me deixaram governar". E tanto que faz uma campanha cujo slogan era: "Deixem Luís trabalhar". E sabemos quem foi a principal vítima dessa campanha, o PS, que teve um dos seus piores resultados e acabou reduzido à terceira força parlamentar. O Chega é verdade que cresceu, mas André Ventura, desde aí a esta parte, também aprendeu uma lição. Uma lição nas presidenciais, quando apesar de ter conseguido um bom resultado na primeira volta, na segunda volta percebeu que há uma grande taxa de rejeição. O que, se quisermos fazer a transposição para umas eventuais eleições legislativas, indicia que mesmo vencendo umas eleições, ficando por um voto à frente dos demais partidos, o Chega teria sempre muitas dificuldades em governar. E isso pesa e vai pesar sempre nas contas que o próprio André Ventura está a fazer.
E portanto, o que temos é os partidos a fazer contas, que é normal. O Chega talvez seja mais difícil porque é mais imprevisível, se quisermos, e também não temos um histórico que nos permita olhar para o partido e perceber exatamente o que é que vai fazer, e precisamente porque há essa imprevisibilidade e votos de última hora, como aconteceu na questão da reforma laboral. Mas depois temos o Partido Socialista, que teve essa experiência, quando foi a questão da moção de confiança apresentada pelo governo, o Partido Socialista votou contra e isso acabou por levar à queda do governo. Neste momento, que contas é que o Partido Socialista está a fazer?
O Partido Socialista percebe que deve seguir aquela velha máxima, que raramente é desajustada, que é: quando vês o teu adversário a cometer um erro, não interrompas. E portanto, o Partido Socialista percebe que o governo está com muita dificuldade em gerir os vários dossiês que queimam, uns estruturais, como os problemas na saúde Ou o aumento do custo de vida, que não resultam necessariamente de medidas tomadas cá, mas de fatores exógenos.
Mas os eleitores muitas vezes responsabilizam os governos quando esses problemas não são resolvidos.
Exatamente. E outros dossiês que, aí sim, resultam de erros cometidos, no caso de Fernando Alexandre, ou de pecadilhos cometidos noutras vidas, no caso de Luís Neves. E, portanto, o Partido Socialista sabe ou pressente que o governo e que Luís Montenegro dificilmente terá uma terceira oportunidade para deixar uma primeira boa impressão. E vai deixar o governo arrastar-se para o pântano. Com esta nuance: o Partido Socialista também sabe que se der um empurrão demasiado evidente a Luís Montenegro, poderá correr o risco de ter de pagar as favas como pagou nas eleições anteriores. Portanto, é um equilíbrio difícil entre pressionar e fazer oposição, entre tentar ativamente que Luís Montenegro tropece e não ser responsabilizado por uma eventual crise política.
Isso concretiza-se como? Em termos de estratégia do Partido Socialista, até onde é que o partido está disponível a ir para segurar o governo, sendo que segurar o governo não quer dizer: "Nós adoramos que o PSD seja governo", quer só dizer: "Nós queremos que vocês tenham todo o espaço para continuarem a fazer aquilo que estão a fazer e que não vos está a correr bem."
O Partido Socialista, aparentemente, está disposto a ir até ao limite e é isso que a Rita Tavares explica bem no texto que assina no Observador. Mesmo que apareça uma moção de censura apresentada por um outro partido, mesmo que Luís Montenegro apresente uma moção de confiança, no primeiro caso, o Partido Socialista chumbará as moções de censura. No caso de uma moção de confiança, o Partido Socialista até está disponível, eventualmente, para viabilizar essa moção de confiança, nem que seja pela abstenção.
Isso é a grande novidade aqui, que é o Partido Socialista vai até onde tiver de ir para que o governo não caia e que não haja qualquer leitura de que caiu às mãos do Partido Socialista.
Exatamente. Com o cuidado de, no Orçamento de Estado, que será também um grande teste para esta nova fase.
O principal teste, até, ao que se imagina agora.
O principal teste. O Partido Socialista está quase, não como fez no exercício anterior, em que anunciou logo que viabilizaria o documento. Neste momento, vai tentar aumentar o tom, mas já dá quase como garantido que vai viabilizar o documento. Portanto, o Partido Socialista está com um enorme cuidado em não cometer o erro, ou aquilo que muitos no Partido Socialista consideram ter sido o erro que Pedro Nuno Santos cometeu: passar a imagem de que está com muita sede de regressar ao poder, que foi uma imagem que acabou por ser muito bem aproveitada pelo PSD e que terá tido também algum efeito nos votos que o Partido Socialista teve ou não teve neste caso.
E é curioso que isto acontece numa altura em que não há tanta pressão para viabilizar o orçamento, porque nós já sabemos, porque essa leitura foi pública, que o atual presidente da República, ao contrário de Marcelo Rebelo de Sousa, não entende que o fato de não haver um orçamento aprovado no Parlamento seja sinônimo de o governo a cair.
É verdade. António José Seguro desimpediu esse caminho. Tirou o peso que se dava ao momento da votação do orçamento, o que dá uma margem de negociação, não diria de negociação, mas dá uma margem de atuação.
Dá mais liberdade de atuação.
Mas eu chamaria a atenção aqui para um aspecto. José Luís Carneiro esteve no Observador, deu uma entrevista ao Observador onde foi confrontado com a questão dos duodécimos. Se seria um drama o país entrar em duodécimos. E a turma, na altura, diz: "Bom, o Presidente da República já disse que não seria um drama." Reconhecendo, porém, que isso teria efeitos de gestão para o Executivo Luís Montenegro. É certo que o chumbo do orçamento deixou de ser sinônimo de uma dissolução da Assembleia da República e convocação de eleições, mas, e eu acho que o governo terá o cuidado de explicar muito bem, de montar muito bem essa linha de argumentação, o país entrar em duodécimos não é de todo ausência de um drama. E acho que Luís Montenegro, se isso vier a acontecer, vai aproveitar o chumbo do orçamento para dizer: "Estes senhores não me deixam governar." A equação tendo se tornado mais simples, nem por isso é mais evidente. O Partido Socialista muito provavelmente terá de tomar a difícil posição, porque é sempre difícil para um partido da oposição aparecer na fotografia ao lado do governo, mas muito provavelmente terá de tomar a posição de viabilizar, nem que seja pela abstenção, o Orçamento de Estado de Luís Montenegro.
E como é que o governo está a olhar para isto? Porque se eu fosse governo e soubesse que o próprio Partido Socialista estava a dar sinais de que ia viabilizar o orçamento com condições que não são para já esdrúxulas, nomeadamente a garantia de que não vai negociar uma revisão constitucional com o Chega. Se eu fosse governo, eu estaria tranquilo, porque ainda por cima olharia para o Partido Socialista e saberia que ele ainda não está propriamente confiante de que vai ter um bom resultado nas eleições. Como é que o governo está a olhar para isso?
Sinto que no PSD e no governo, ninguém está ainda a contar com uma crise já em setembro Há a convicção mais ou menos partilhada de que a legislatura não chegará até o fim. Admite-se que este orçamento possa ser aprovado, o seguinte, o Orçamento Estado para 2028, será chumbado e depois logo se verá em que condições estarão os três partidos que estão nesta dança muito particular. Portanto, este orçamento está mais ou menos garantido. Nunca se pode descartar a possibilidade de haver um chumbo e aí o país entrar em duodécimos, o que seria um grande desafio para Joaquim Miranda Sarmento, mas está mais ou menos adquirido que o orçamento passará. Agora, há aqui um fator importante: Luís Montenegro e a equipa que pensa a estratégia do PSD e do governo sabe que quando chegar o momento da crise política, é preciso que estejam reunidas as condições para fazer aquilo que nós dizíamos há pouco, implementar uma estratégia eficaz de vitimização, novamente, que é para, numas eventuais eleições legislativas, conseguir a tal maioria absoluta ambicionada e desejada por Luís Montenegro. E portanto, convém ir construindo a narrativa até lá. Se a sucessão de casos que têm acontecido, e refiro-me muito concretamente a Fernando Alexandre e a Luís Neves, se prolongar até esse momento, será muito difícil convencer os eleitores de que é o Parlamento ou são as forças da oposição que estão a bloquear o governo. Estes casos resultam, num caso, uma gestão incompetente de Fernando Alexandre, noutro caso, de alguma incúria, para dizer o mínimo, de Luís Neves. Portanto, é muito difícil construir narrativas a partir de sucessão de casos como vimos. Aliás, era muito difícil para António Costa, na fase final do seu período como primeiro-ministro, contrariar a avalanche midiática que se instalou. Portanto, é mesmo importante, e é isso que muitos no governo e no PSD vão dizendo, é mesmo importante virar a página e eventualmente ir pensando num novo ciclo com novos protagonistas. Não estou a falar já de remodelação governamental, embora essa opção esteja sempre em cima da mesa, mas será muito importante na rentrée o PSD e o governo aparecerem de cara lavada, sob pena de prolongarem um estado de agonia que depois será muito difícil de reverter.
Toda a gente a fazer narrativas, o PS na narrativa do desgaste do governo, o governo na narrativa da vitimização, se isso vier a acontecer. Mas para já, crise política não se vê no horizonte mais próximo. Miguel, obrigado.
Obrigado, Pedro.
Eu hoje conversei com o editor adjunto de política do Observador, o Miguel Santos Carrapatoso, sobre a forma como a gestão do tempo é o fator decisivo para a previsível estabilidade política nos próximos meses. O governo precisa de tempo para estancar as más notícias. O PS precisa de tempo para deixar o governo escorregar ainda mais. O problema é que o tempo em política só existe até à nova crise que volta a mudar o tabuleiro de formas às vezes imprevisíveis. Esta foi a história do dia. A sonoplastia da Mariana de Sousa Aguiar, a música do genérico do João Ribeiro. Eu sou o Pedro Benevides. Até amanhã.