Mais do que o resultado, mais do que a primeira derrota em encontros oficiais, a receção ao Benfica deixou várias dúvidas em relação ao AC Milan. Para onde vai? Quando dará o salto? Onde consegue chegar? Ruben Amorim, claro, voltou a estar em destaque – agora negativo. E se esse misto entre desilusão e resignação era visível em San Siro depois do triunfo dos encarnados, o técnico dos rossoneri não teve de esperar muito para ouvir em direto (literalmente) as primeiras críticas ao que acontecera em campo durante 90 minutos.

Marco escreve direito por segundas linhas que não são nada tortas (a crónica do AC Milan-Benfica)

“Não se viu nada de novo neste AC Milan. Teve grandes problemas a nível defensivo. Não se qualificaram para a Champions porque não sabem defender. Vimos isso sempre que o Benfica saiu em contra-ataque: não sabem encontrar a forma certa de defender. Já falou na falta de golos face às oportunidades no primeiro tempo, não acha que devia resolver primeiro os problemas na defesa?”, questionou Fabio Capello, um dos principais senadores do futebol italiano que foi campeão europeu pelos rossoneri e está agora na Sky Itália.

“Parece que estou há dois anos e meio a repetir as mesmas coisas.” As críticas a Amorim, as explicações de Amorim, a defesa de Amorim

“Claro, acho que está tudo ligado, não estamos muito organizados. Se virem no lance do primeiro golo, há um jogador [Lukebakio] que leva a bola fora da área e estamos quase a defender dentro da baliza. São detalhes que temos de melhorar. Repito o que já disse, temos de olhar para os detalhes, o perigo que nos criam é quando perdemos a bola, jogamos todos por dentro, todos juntos, em vez de tentarmos ir por fora. Temos de melhorar a defesa, não podemos conceder golos primeiro porque isso eleva o jogo para outro nível, porque ainda não criámos muitas oportunidades”, respondeu Amorim. “Há muitos jogadores que andam a trocar a bola sem grande propósito, não há uma abertura de jogo elaborada ou rápida, nem uma mudança de flanco. É um AC Milan que anda a trocar a bola. A única equipa que joga com dois avançados é o Inter. Esquecemo-nos de que se pode jogar com dois avançados?”, completou de seguida Capello, em mais uma crítica ao jogo.

A própria antecâmara da receção ao Lecce, na sequência de dois empates (Juventus e Lazio) e uma derrota (Benfica), ficou marcada por algo “diferente”, com o próprio Ruben Amorim a desafiar um jornalista para dar o seu onze inicial para ir fazendo depois algumas questões a propósito dessas mesmas opções iniciais.

– Gila, De Winter ou Gabbia, Pavlovic, Modric, Rabiot, Chukwueze, Diego Moreira, Pulisic, Cissé, Ramos…
– Quatro centrais? Ah não, três… O Chukwueze fez os três jogos, se tiver algum problema quem colocas?
– O [Alexis] Saelemaekers…
– O Saelemaekers à direita, para estar aberto, para o 1×1… E no meio, também era Modric-Rabiot? Depois do que disseram na semana sobre o Modric?
– Que não aguenta três jogos?
– Não, não, não foi isso. O que disseram do Modric? Eu defendo o Modric, vocês é que falam sobre o ritmo de jogo do Modric… Todas as semanas vão ver um onze diferente e depois vão ter de ter em conta os três jogos por semana, depois têm de pensar na gestão das substituições. Se colocas no início estes 11 jogadores, no final queres arriscar, o que fazes?

De uma forma menos comum, Ruben Amorim explicou o porquê de algumas opções à luz do excesso de jogos, da profundidade (ou falta dela) do plantel e das características dos jogadores. Também terá sido isso que o técnico português explanou numa reunião com Gerry Cardinale, proprietário do AC Milan. Apesar de toda a especulação, nunca o lugar do treinador foi colocado em causa mas ficou um “aviso” perante a atual série de resultados com a garantia de que não estava em cima da mesa nesta fase um cenário de trocas. Além de ter contrato a longo prazo de três anos, num sinal daquilo que era pretendido para o futuro, a ideia ainda passar por dar tempo a Ruben Amorim para consolidar a sua ideia e colocar a equipa com outro rendimento acima do presente, com essa garantia de que nada mudou em relação à crença em ficar no top 4 da Serie A. Para isso, e antes da paragem para seleções, o AC Milan estava pressionado a vencer para chegar aos 11 pontos, a dois dos líderes Inter, Roma (que empataram esta jornada no Olímpico da capital) e Lazio.

O entusiasmo era tanto que a energia positiva dividiu-se por Roma e Milão: Koné e Lautaro bisaram e deixaram liderança totalmente em aberto

Contas feitas, e olhando para o onze que tinha sido sugerido, Ruben Amorim fez duas alterações, com aposta em Estupiñan a fazer a ala esquerda e Saelemaekers na frente com Pulisic e Gonçalo Ramos. Mudou dois, ganhou por três. E na exibição mais convincente da época, o AC Milan fez as pazes com os adeptos.

Apesar da boa resistência inicial do Lecce, com duas saídas em transição que deixaram em sentido a defesa rossoneri, Pulisic acabou por ser a chave para desbloquear o encontro, inaugurando o marcador na sequência de um passe longo de Pavlovic na profundidade com grande domínio do norte-americano antes do remate cruzado para o 1-0 (14′). Não haveria mais golos até ao intervalo mas era de Pulisic que saíam todos os lances de perigo dos visitados, com De Winter a desviar de cabeça ao lado após nova jogada do norte-americano. O AC Milan estava mais solto, confiante e seguro em termos coletivos na capacidade de gerir todos os momentos do jogo sem deixar exposta a linha defensiva e no pragmatismo nas abordagens ao último terço, com Rabiot a aumentar a vantagem após combinação com Gonçalo Ramos (61′) e Diego Moreira a fechar o resultado numa grande iniciativa individual (73′). Depois dos assobios, ouviram-se aplausos em San Siro.