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Esta é a história do dia da Rádio Observador: que consequências podem ter as novas tarifas pesadas de Donald Trump?
"They've charged us so much that I'm embarrassed to charge them what they've charged us, but it'll be substantial, and you'll be hearing about that on April 2nd. And it will be Liberation Day because we'll be taking-"
Na visão de Trump da política e do mundo como um enorme reality show, este novo programa já tem um título anunciado pelo próprio: Liberation Day, ou Dia da Libertação. O presidente dos Estados Unidos prometeu para esta quarta-feira o anúncio de novas tarifas alfandegárias contra produtos importados. Trump ameaça com taxas pesadas e deixou todas as hipóteses em aberto, para qual programa de televisão manter o suspense até o grande final. O certo é que a estratégia da ameaça já deu mais uma vez resultado e alguns países apressaram-se a ligar para a Casa Branca para negociações de última hora. O que está, afinal, aqui em causa e que impacto é que tudo isto pode ter tanto na economia americana como na economia mundial? Vou falar com Edgar Caetano, jornalista da seção de Economia do Observador. Eu sou o João Santos Duarte e esta é a história do dia de quarta-feira, 02 de abril. Bem-vindo, Edgar.
Muito obrigado pelo convite.
Edgar, vamos só tentar explicar muito brevemente o mecanismo das tarifas sobre produtos importados. Qual é a lógica por trás disto? Por que Trump defende que pode beneficiar os Estados Unidos?
Ele acha que pode beneficiar os Estados Unidos porque ao aplicar uma tarifa ou uma taxa alfandegária a um produto que vem de fora dos Estados Unidos, ele vai estar, de alguma forma, a incentivar as empresas a produzirem esses produtos no território norte-americano. Ou seja, é uma forma de tentar penalizar as importações e, na cabeça dele, pelo menos, acha que isso vai significar que as empresas vão contratar mais nos Estados Unidos, vão aumentar o emprego e vão, no fundo, produzir mais dentro de portas.
E depois há a questão da receita que o Estado tem com essas tarifas, que é outro dos argumentos.
Ele também quer a receita, que estima que pode ser talvez 100 mil milhões de dólares. Não sabemos se vai ser mesmo assim com aquelas que já estão em vigor. Com as possíveis novas tarifas que aí vêm, ainda pode ser um valor muito mais elevado, o que é importante para os Estados Unidos, porque eles têm um déficit orçamental de mais de 6%, e portanto, também é o esforço que ele quer fazer.
E que posição é que Trump adotou sobre esta matéria no primeiro mandato? Já tinha implementado medidas protecionistas na altura?
Sim, algumas, sobretudo que visaram a China, mas não só. Também ficou muito famosa a tarifa aplicada às máquinas de lavar roupa. E essa foi uma tarifa que foi universal, foi para todas as máquinas de lavar roupa e produtos parecidos. Mas sim, de facto, no primeiro mandato, ele já mostrou que gostava de tarifas. Ele até se arrepende de não ter aplicado tarifas mais pesadas nesse primeiro mandato. Acha que foi dissuadido de o fazer por assessores, conselheiros econômicos, que disseram que ele não devia fazer isso. Ele hoje arrepende-se e, portanto, depois da presidência Biden, ele fermentou esse desejo de mostrar porque ele acha que tarifas são a palavra mais bonita do dicionário.
E portanto, agora, neste regresso à Casa Branca, o que já foi anunciado depois da tomada de posse, e nisto, o que já está em vigor ou o que pode estar prestes a entrar em vigor?
Eu acrescento ainda uma terceira categoria. No fundo, nós temos aquelas que já estão em vigor, temos aquelas que já foram anunciadas, mas ainda não estão em vigor. Algumas até entram em vigor agora por estes dias. E há ainda uma terceira categoria, que são aquelas que ele só ameaçou.
Que é importante também.
Também é importante e também tem um efeito prático, na verdade, no mínimo nos mercados financeiros. De facto, são várias. Ele desde o início deste novo posse, começou logo por ameaçar a Colômbia com tarifas, caso a Colômbia não aceitasse aviões de imigrantes ilegais deportados, depois virou-se para o Canadá e para o México, que são os seus maiores parceiros comerciais, vizinhos a norte e a sul. Depois virou-se para a União Europeia, também para a China, desde o início também, que aplicou uma tarifa adicional de 10%, que entretanto já foi duplicada para 20%. E portanto, já há uma série de tarifas viradas ou direcionadas a países. E a isso ele juntou também tarifas para produtos específicos, como foi o caso do aço e o alumínio, que também se tornou mais caro, ou seja, as tarifas também foram aplicadas nesse tipo de produtos. E na semana passada ouvimos o anúncio das tarifas sobre os automóveis importados, que entram em vigor precisamente agora à 00h01 de quarta-feira.
E recomendo também que leiam o teu artigo no Observador e vejam a infografia, o mapa interativo do Miguel Fraze Cabral, onde podem ter uma noção mais pormenorizada de todas estas tarifas e medidas. A questão é que isto gera retaliações, e falar-se em guerra das tarifas. Qual tem sido a resposta dos países ou dos blocos de países que já têm sido alvo destas medidas?
Vai de caso a caso, mas no geral, para não alongar muito, basicamente os países estão a dizer que irão retaliar na mesma moeda, se é que isso é possível. Essa tem sido a perspectiva dos diferentes países ou blocos de países visados.
Agora, Trump prometeu um anúncio com grande pompa e circunstância. Por que foi escolhido este dia, 02 de abril, para o anúncio destas novas medidas? E por que Trump lhe chama o Liberation Day? Sabemos, não é?
Boas perguntas. Ele, quando tomou posse, assinou logo uma ordem executiva a encomendar um estudo, um relatório aprofundado ao seu secretário do Comércio para dizer que tarifas é que os Estados Unidos deviam criar, aumentar, e deu um prazo até dia 1 de abril de 2025. Trump não quis revelar, no entanto, as conclusões que tira a partir desse relatório, que já terá sido entregue. Ele não quis revelar as conclusões ou as medidas que quer tomar com base nessa informação que foi recolhida no tal relatório, porque era dia 1 de abril e é dia das mentiras, o April Fools. Isto é verdade, eu não estou a brincar. Ele disse que como era dia 1 de abril, podia não levá-lo a sério, portanto, ele preferiu marcar para o dia 2. Agora, por que se chama Dia da Libertação? Não sei se estou a especular, mas eu diria que no raciocínio, na lógica de Trump, ao anunciar as próximas tarifas, sejam elas quais forem, não se sabe muito bem o que vão ser, de alguma forma, ele vê os Estados Unidos como sendo um país que está há décadas a ser roubado por todos os seus aliados e seus inimigos, por toda a gente. E, portanto, é um dia da libertação, porque de alguma forma ele vai responder a essas tarifas, vai libertar os Estados Unidos desse jugo que está a ser aplicado, aparentemente, àquele país há tanto tempo.
Mas aqui, e não querendo fazer de advogado do diabo, neste caso, advogado de Trump, mas existia, de facto, uma assimetria nas tarifas cobradas de parte a parte, por exemplo, entre os Estados Unidos e a União Europeia.
Sim, as tarifas são uma coisa muito complicada. Cada país aplica milhares de tarifas diferentes a milhares de países diferentes, mas de facto, em alguns casos particulares. Vou dar o exemplo do automóvel. Vimos agora que ele anunciou que vai passar a haver uma tarifa de 25% aplicada a todas as importações de automóveis vindos de fora dos Estados Unidos, o que inclui a União Europeia, obviamente. Poucas pessoas sabem disto, ou poucas pessoas estavam conscientes disto, exceto as pessoas que trabalham nesses setores, provavelmente, mas a União Europeia cobra uma tarifa de 10% para os automóveis que são importados dos Estados Unidos, ao passo que os Estados Unidos cobram uma tarifa, até agora, de 2,5%. De facto, a Europa cobra mais do que os Estados Unidos cobram. Claro que isso agora vai mudar, porque agora os 2,5% vão ser multiplicados por 10 para 25%.
Já regressamos à conversa com o jornalista Edgar Caetano. Pode também ler no site do Observador o trabalho dele sobre estas novas medidas que vão ser anunciadas por Trump e o possível impacto que podem vir a ter na economia mundial. É também sobre este último ponto que vamos falar na segunda parte. Estamos de regresso à conversa com o Edgar Caetano. Mesmo antes deste anúncio destas novas medidas, que efeitos é que tudo isto já tem estado a ter nos mercados?
A questão é que, de facto, sobretudo nos últimos dias, temos visto as bolsas a cair muito, o que acaba por ser um teste até à própria capacidade de Donald Trump de conviver com o mercado em queda. Muitas vezes vimos que ele, nomeadamente quando estava na oposição, quando estava candidato a presidente, às vezes queixava-se ou apontava dias de quedas na bolsa à incompetência de Joe Biden. Portanto, claramente é um fator ao qual ele está atento, até porque também tem muitos amigos que têm muitos negócios na bolsa e não gostam de ver as ações a cair. No caso de Trump, ele para já tem mostrado que está quase a dizer que se lixem os mercados, para apropriar aqui uma expressão conhecida, ligeiramente diferente, mas que também era parecida com esta.
E o que se especula que Trump poderá então agora anunciar? Enfim, inicialmente penso que se falava num grupo específico de 15 países que poderiam ser alvo de tarifas. Afinal, parece que ninguém estará livre.
Sim, falou-se dos 15 países, foi o secretário do Tesouro do Trump que disse isso, que falou dos 15 países com os maiores desequilíbrios de balança comercial em relação aos Estados Unidos. Mas entretanto, o Trump já veio dizer que são todos os países e que não há nenhuma fasquia a partir da qual já não se cobra tarifas e, portanto, ninguém sabe muito bem. Mas acredita-se que, de facto, serão novas tarifas mais ou menos transversais, aplicáveis a todos os países. Há quem especule que seja uma tarifa uniforme de 25% sobre tudo. Não sabemos se vai ser assim. Já têm sido feitos alguns estudos sobre isso, partindo do pressuposto que é isso que vai ser anunciado, mas ninguém sabe com toda a certeza.
Já falámos aqui no início das vantagens que, pelo menos na cabeça de Trump e aqueles que o seguem, isto poderá ter para a economia dos Estados Unidos, mas há também riscos evidentes associados.
Há vários riscos, nomeadamente riscos de curto prazo. O primeiro é uma subida dos preços que pode causar um aumento da inflação, que pode levar com que o Banco Central dos Estados Unidos não consiga baixar as taxas de juro ou tenha mesmo que as subir. É importante perceber, e às vezes há pessoas, seguidores de Donald Trump, que acho que ainda não perceberam isso e não sabemos se o próprio percebeu, mas quando se fala em cobrar uma tarifa, nós não estamos a cobrar uma tarifa a outro país. Não há nenhum mecanismo legal que faça com que um país possa ir buscar dinheiro fiscal, dinheiro de impostos a outro país. São tarifas que são depois pagas pelas empresas que importam os produtos, que depois vão transmiti-las ou vão repassá-las aos consumidores em graus variáveis, podem passar tudo, podem passar metade, podem não passar nada, não é muito provável, mas no fundo estamos a falar de um aumento dos custos na economia, dos preços e, portanto, tudo isto pode ser indutor de abrandamento económico. Agora vamos ver se há um benefício posterior a médio e longo prazo. Ele acredita que sim, naturalmente.
Depois há uma questão também muito interessante, que é que a lógica é fomentar a indústria e as empresas americanas, quando ao mesmo tempo a administração está numa lógica de expulsar muitos imigrantes e de ficar muita mão de obra até que seria falho.
O que também faz subir preços.
O que também faz, exatamente, subir preços. Há outra questão também importante, e tu falas disso no teu artigo, que é: que impacto é que estas novas tarifas poderão ter na economia mundial?
Não sabemos. Não sabemos, desde logo, porque não sabemos quais são as tarifas ainda. Ninguém pode fazer nenhum tipo de estimativa. Ainda assim, há sempre quem faça estimativas e assumindo a tal tarifa uniforme de 25%, transversal a tudo o que é importado nos Estados Unidos, que não se percebe muito bem se acresce algo às tarifas que já estão aplicadas no passado ou não. É tudo muito confuso, mas houve um economista de uma universidade britânica que estimou em 1,4 biliões de dólares, não é mil milhões, é biliões, trillion em inglês, o impacto sobre o produto económico do mundo, se for de facto essa tarifa universal uniforme de 25%, podemos estar a falar de um golpe de cerca de 1,4 biliões de dólares, cerca de 1,3 biliões de euros.
Que é um número gigantesco, para quem quiser ter uma ideia. Obrigado, Edgar.
Obrigado, João.
Edgar Caetano é jornalista da seção de Economia do Observador. A terminar, deixo-lhe ainda três notas a ter em conta esta quarta-feira. Para quem quer viajar para o Reino Unido, entra a partir de hoje em vigor o novo sistema de autorização eletrónica de viagem, que abrange os cidadãos europeus, incluindo os portugueses. O pedido pode ser feito pela internet e tem um custo de €12. Apesar de ter um mandado de captura internacional por alegados crimes cometidos por Israel em Gaza, o primeiro-ministro israelita Benjamin Netanyahu viaja hoje para a Hungria. Budapeste pode anunciar a transferência da embaixada húngara de Tel Aviv para Jerusalém, em mais uma rutura com o que tem sido a posição dos parceiros europeus. E a terminar, uma sugestão. Neste dia 2 de abril passam exatamente 20 anos da morte de João Paulo II, um dos papas mais marcantes da história da Igreja Católica. Sobreviveu a várias tentativas de atentado, entre elas uma cometida em Fátima em 1982. É esse o tema de um dos Podcast Plus do Observador, chama-se "Matar o Papa" e se nunca ouviu, vai sempre a tempo de começar a ouvir. Esta foi a História do Dia. A sonoplastia é de Mariana Sousa Aguiar. A música do genérico é do João Ribeiro. Eu sou o João Santos Duarte. Até amanhã.