Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
Esta é a história do dia da Rádio Observador: Paulo Raimundo é a solução para o PCP?
Camaradas, não ficamos à espera nem surfamos na onda da luta. Nós somos dinamizadores do processo, somos seus protagonistas, somos parte integrante deste movimento de luta, dessa onda, dessa força imensa, dessa luta imensa.
Esta é a voz de Paulo Raimundo no 19º congresso do PCP em dezembro de 2012. Tal como há 10 anos, Paulo Raimundo põe a luta de classes no centro das intervenções públicas. Em março deste ano, o agora novo líder do PCP mantinha a tônica do discurso: a importância da luta de classes.
A força organizada é capaz de muito, mas a força organizada dos trabalhadores é capaz de tudo. E nessa luta.
Paulo Raimundo assume o cargo de secretário-geral do PCP. Ao contrário do habitual, não num congresso, mas numa rara conferência nacional que tem como mote tomar a iniciativa, reforçar o partido e responder às novas exigências. Quem é este funcionário, militante, comunista, conhecido no PCP, mas não fora do partido? Vou conversar com a jornalista da seção de política do Observador, Mariana Lima Cunha, autora de um perfil de Paulo Raimundo. Eu sou o Ricardo Conceição e esta é a história do dia. Bem-vinda, Mariana.
Olá, Ricardo.
No episódio que publicamos na segunda-feira, perguntei-te quem era Paulo Raimundo e entretanto já temos mais informação, já fomos além da nota biográfica do PCP. Vamos, se calhar, antes de ir à obra, começar pela vida, Mariana.
A vida de Paulo Raimundo começa em Setúbal, onde cresceu com os pais, que nessa nota o PCP fazia questão de frisar que eram trabalhadores naturais de Beja e que trabalhavam e viviam nas instalações do Estoril Futebol Clube. E por aqui, obviamente, percebe-se que eram origens modestas, um crescimento que foi passado em parte num bairro que é descrito como problemático em Setúbal. Paulo Raimundo teve, aliás, de trabalhar durante alguns anos enquanto ainda estudava, além de ter ajudado a mãe nalguns trabalhos. O PCP dava o exemplo da apanha do marisco e, portanto, obviamente, era uma família de origens algo humildes e modestas. E é assim que começa a sua vida, como dizias, antes de falarmos da obra.
E há a indicação de que teve pelo menos três profissões.
Sim, embora as experiências sejam curtinhas. Pelas respostas que o PCP nos deu, entre 91 e, pelos dados que temos, no máximo 95, Paulo Raimundo foi, tudo somado, padeiro numa padaria do Farilhão, em Setúbal, carpinteiro na Várzea, que é na mesma zona, e animador cultural num ginásio na Bela Vista, também em Setúbal.
No bairro da Bela Vista.
Exatamente. Portanto, isso tudo aconteceu num período de três a quatro anos.
E quando é que começa a militância política?
A militância política começa muito cedo, ali por volta dos 15 anos, quando se junta à JCP. E volto às informações que o PCP nos enviou para detalhar melhor essa história, essa biografia, que na nota biográfica ainda estava um bocadinho confusa. Já teria alguma vocação pra isso, tendo em conta que esteve envolvido em movimentos associativos durante a escola secundária, por exemplo. É por aí que começa a história de militância, que, aliás, continua sem interrupções até hoje, porque acaba por levar a que Paulo Raimundo se torne funcionário da JCP e depois funcionário do PCP, sem nunca voltar à vida profissional fora do partido.
Mas fazendo contas, Mariana, já percebemos que começa muito cedo a ser funcionário do Partido Comunista, JCP, PCP. No entanto, o partido diz que é um operário. Não há aqui um exagero?
Pra fora é claramente um exagero e uma forma de puxar por uma pequenina experiência laboral de Paulo Raimundo. Para dentro é diferente. Havia uma fonte no PCP que até nos dizia que aquela nota biográfica era, de facto, pra consumo interno, porque para o PCP e pra quem percebe a cabeça do PCP, o que conta é a origem social, ou seja, o meio de onde uma pessoa vem e a última profissão que teve. Ou seja, o PCP considera que é mais importante ter em conta que as origens de Paulo Raimundo são modestas, que os pais não viviam com muito dinheiro, que cresceu num bairro complicado, que foi trabalhador estudante, e que é isso que define o que ele é essencialmente. Portanto, quando fala de operário, está a referir-se muito mais à origem social, ao meio em que nasceu e cresceu, do que o que nós entenderíamos por trabalhar numa fábrica, talvez, e por aí fora.
Durante muitos anos.
Não é exatamente essa a experiência.
E há funcionários administrativos noutros partidos, nos partidos políticos. Os partidos têm pessoas que trabalham nos próprios partidos, mas aqui ser funcionário do PCP é algo um pouco diferente. O que é um funcionário do PCP?
Sim, um dos grandes argumentos do PCP é precisamente dizer que os seus funcionários não são, citando Bernardine Soares, que falava conosco para o trabalho que escrevemos no Observador, não são burocratas que passam a vida num gabinete a fazer coisas. Ou seja, pra não imaginarmos um funcionário que estava lá na sede a carimbar coisas ou imprimir coisas Ou seja, que a vida de Raimundo, talvez também diria eu, porque obviamente não era um mero funcionário, foi quase o tempo todo dirigente, mas é passado em contato com trabalhadores, com diferentes organizações, com sindicatos, etc. E portanto, há ali um trabalho de base, de terreno, que o PCP acredita que muda aqui um bocadinho o cenário, como se não estivéssemos aqui a falar de um político profissional, embora realmente seja praticamente tudo o que fez na vida. Deixa-me só dizer outro ponto que o PCP faz é: os funcionários do PCP têm um ordenado tabulado e não ganharia muito mais do que o salário mínimo e, portanto, o ponto aqui também é: é injusto quando dizem que ele é um boy, ou seja, comparável a outros partidos, porque não tem um proveito financeiro pessoal de estar na política. Agora o que é certo é que a experiência, sim, é política.
Porque não esquecemos o papel de cada um no coletivo partidário. Em nome do Comitê Central, em nome da Conferência Nacional e certamente em nome de todo o partido, gostaria de dirigir uma palavra ao camarada Jerónimo de Sousa. Obrigado, camarada Jerónimo de Sousa.
Já voltamos à conversa com a Mariana Lima Cunha. Para a segunda parte fica prometido um poema.
Obrigado pelo teu empenho. Obrigado pelo teu contributo. Obrigado pelo teu papel. A alteração das tuas responsabilidades não significa um adeus, é um até já, camarada Jerónimo.
Isto vai ser uma espécie de feed semanal em doses homeopáticas de música clássica de que as pessoas não sabiam que precisavam.
Martim Sousa Tavares na Rádio Observador.
Ou uma viagem por baixo d'água num submarino super rápido também funcionava.
Mas há ali um momento em que parece que o carro vai cair por uma ribanceira.
Sim, essa é a parte que-
Sim, mas depois é salvo por um zeppelin.
As melhores notas da música clássica, explicadas pelo jovem maestro.
Pode chamar de canção.
E cantiga.
Cantiga, não. Se for de amigo, talvez. Se for de Scarn e Maldizer, diria que não.
Encontro com a beleza. Todas as segundas, na tarde em direto, depois das notícias das 17h30. Rádio Observador.
Basicamente, precisamos só de curiosidade e um par de ouvidos.
Aconteça o que acontecer. Estamos de regresso à conversa com a jornalista Mariana Lima Cunha, jornalista da seção de política do Observador. Mariana, e que cargos já desempenhou Paulo Raimundo no PCP?
Já foi um bocadinho de tudo. Paulo Raimundo entrou para o Comitê Central há mais de 20 anos. Entretanto, já subiu à Comissão Política e ao Secretariado. Já foi responsável pelos mais diversos setores de trabalho e de sindicatos. Aqui há muitas distinções muito específicas da organização do PCP. Uma coisa, por exemplo, pode ser estar atento a empresas ou adere a sindicatos especificamente. E ele juntando essa experiência, já esteve com setores, o têxtil, o comércio e a defesa do consumidor, que era a que tinha atualmente, e também várias organizações regionais. Também é diferente estar diretamente responsável como se fosses líder de uma distrital, no caso dele, de Braga, esteve na direção também de Setúbal, ou acompanhar, por exemplo, como membro do secretariado, que era o que acontecia com ele, uma região em concreto. Ele agora, por exemplo, tinha o Norte todo e ia acompanhando toda a região Norte. E, portanto, tanto em termos de cobertura territorial como setorial, já tinha aqui alguma experiência em vários órgãos e em várias áreas.
E há aqui outro ponto interessante e importante: ele é um dos raros militantes que têm lugar nos três principais órgãos do PCP.
Exatamente. Com Paulo Raimundo, só Francisco Lopes, Jerónimo de Sousa, Jorge Cordeiro e José Capus, estamos a falar de históricos do PCP, é que têm assento, primeiro no Comitê Central e depois nestes dois órgãos que emanam do Comitê, que é o Secretariado e a Comissão Política, que são de fato os órgãos mais exclusivos, digamos assim, mais restritos do PCP. Esse seria, de fato, o maior indicador de que poderia estar neste lote de possíveis sucessores, embora o próprio Comitê Central tenha ficado surpreendido e Jerônimo admitiu isso ainda no fim de semana passado. E portanto, todos estes nomes que referi são pesos pesados dentro do PCP e Paulo Raimundo tem esta coincidência rara entre órgãos.
Mas nunca encabeçou listas de candidaturas, pois não? Autárquicas ou legislativas, por exemplo.
Não, o único cargo eleito que Paulo Raimundo teve foi ser deputado municipal de Setúbal, eleito ainda durante os anos 90, quando o PS ainda governava essa câmara, o PCP ainda não tinha conquistado a câmara e portanto foi há largos anos.
E conhece bem o aparelho, trabalha há muitos anos no PCP, mas também é descrito como um homem de diálogo. Paulo Raimundo tem contactos com realidades extra PCP?
Sim, tem algumas, até porque se tivermos em conta as tarefas que desempenhou, que são, por exemplo, acompanhar a JCP ou os sindicatos, têm sempre a ver com falar com pessoas que são de outros partidos ou até que não têm partido e até de as cativar para eles. E, portanto, Paulo Raimundo tem essa característica que o PCP vê como uma qualidade de conseguir estabelecer pontes e até convencer dos seus argumentos. Portanto, ser um homem tanto de diálogo como de construção de pontes foi uma expressão que ouvimos muitas vezes enquanto tentávamos traçar aqui o perfil dele, é um adjetivo, uma expressão muito usada. Eu lembro-me de uma história que Miguel Tiago, ex-deputado do PCP, nos contava, que tinha a ver com, ainda nos tempos da JCP, estarem num debate, na altura sobre a despenalização do consumo de drogas leves. E o Miguel Tiago dizia que não percebia por que um partido de esquerda não havia de apoiar isto, que conhecia imensas pessoas que não eram toxicodependentes e que consumiam drogas leves sem grande problema e que colocou esta questão. E que o Paulo Raimundo, que já na altura tinha responsabilidades na JCP De forma que ele tentou que fosse algo pedagógica, abriu a discussão a todos e disse: "O Miguel Tiago estuda numa universidade, tem colegas com uma vida estruturada, que não têm problemas de consumos, mas a nossa vida não é essa bolha. Os miúdos do interior, as pessoas mais pobres têm outro tipo de vida e, portanto, as nossas experiências não devem ser focadas em nós." E o que lhe apontam muito é esta capacidade de fazer sínteses no fim de debates, de conseguir chegar a um consenso ou conseguir, com alguma ponderação, moderar estas conversas e essa é uma qualidade bastante admirada dentro do PCP.
Mas é na luta de classes que desenvolve toda a atividade, podemos dizer há 30 anos, se contarmos com os tempos da JCP.
Exato, podemos sim. Tanto que os colegas de partido se lembram desses diálogos na JCP e com jovens não comunistas, mas também com outros movimentos. Foi-nos contado que conhece bem várias pessoas do movimento que se dizcha Troika, que o PCP não apoiava formalmente na altura, mas que ele conhecia um pouco essa dimensão. E de resto, a luta de classe, os protestos das bases, os trabalhadores, estão sempre na base do seu discurso.
Camaradas, há quem se alivre e desespere pelo fim do PCP. Pois daqui fica o conselho: esperem sentados. Esperem sentados porque um partido ligado aos trabalhadores, às populações, aos seus problemas e anseios, determinado a lhes dar esperança, um partido assim, e como se reafirmou na nossa conferência, a única coisa a que está condenado é a crescer e a alargar a sua influência.
Mas até aqui, Mariana, nunca participou em debates televisivos ou nas rádios, ou deu entrevistas. Ou deu? Tem alguma experiência mediática?
Não tem praticamente nenhuma, embora o PCP diga que isto é culpa dos jornais que estavam desatentos.
A culpa é dos jornalistas.
Exato. O próprio partido não o costumava indicar e obviamente todos nós sabemos que alguém que está, por exemplo, a candidatar-se a um cargo eletivo, tem muito mais hipóteses de ser entrevistado.
E o próprio PCP vai colocando pessoas, diversas pessoas, nas conferências de imprensa.
Para esses efeitos e para espaços de comentário até. A única entrevista que conseguimos encontrar online, embora obviamente haja intervenções em congressos no centenário do partido, mas em termos de entrevista, foi dada ao Jornal Económico no ano passado, e nela Paulo Raimundo justificava a resistência do PCP em comparação com outros partidos comunistas da Europa, exatamente com o facto de ser firme nos seus princípios e, lá está mais uma vez, com a ligação aos trabalhadores e ao povo.
Mas Mariana, para os militantes do PCP, o facto de ser um desconhecido, que sucede a Jerónimo de Sousa, que é muito conhecido e com quem muita gente até simpatiza, pessoas até de outros quadrantes políticos, isto é ou não um problema ele ser um desconhecido?
Para muitos não é. Ou seja, esse fator é quase descrito como uma potencial vantagem. João Ferreira, por exemplo, dizia esta semana que pode haver um sentimento de identificação com as pessoas e os trabalhadores comuns, de uma pessoa que não tem aquele mediatismo todo e aquele protagonismo todo. Agora, por exemplo, os renovadores do PCP que saíram numa cisão no início do século do partido, criticavam precisamente a linha marxista-leninista e fechada do PCP, criticam a escolha precisamente por acharem que é mais um fechamento do partido sobre si próprio. E aqui temos de nos lembrar que Jerónimo, por exemplo, já tinha sido candidato presidencial e já era deputado há muitos anos.
Sim, era muito conhecido.
Quando passou a secretário-geral. Carlos Carvalhas era secretário-geral adjunto de Álvaro Cunhal e, portanto, foi uma transição mais ou menos evidente, ou seja, o sinal estava lá. Sim, neste caso é mais abrupta nesse sentido.
E Jerónimo de Sousa descreve-o como uma pessoa sensível?
Sim, é muito comum, aliás, ouvir os colegas descreverem, até compararem às vezes um pouco com Jerónimo de Sousa nalguns pontos. Em relação a ser uma pessoa afável, ser simpático, ser empático. Neste ponto, politicamente empático, a importância que o PCP dá por ouvir os outros, por ter atenção aos problemas dos outros. E portanto, aí está mais ou menos o perfil desta pessoa que nós ainda não conhecemos pessoalmente. E além disso, há mais uma nota, parece que tem dotes de fadista. Dizia-nos João Oliveira que aparentemente já testemunhou esses dotes ao vivo numa festa do Avante, mas aí não tenho gravações.
E há vídeos? Não há vídeos?
Aparentemente ainda não há sons.
Então, deixa-me passar aqui de um fato para um poema, para irmos à última pergunta, porque Carlos Drummond de Andrade afirmava num poema: "Mundo, vasto mundo. Se eu me chamasse Raimundo, seria uma rima, não uma solução". Mariana, Paulo Raimundo é rima ou solução?
É difícil saber, porque eu diria que o mais importante é mesmo ter presente que no PCP não há exatamente um homem sozinho que seja a solução, no sentido em que não há uma linha política que seja definida por um só homem. Podemos ver aqui, sobretudo, uma continuidade, até porque ele já fazia parte dos principais órgãos que tomavam decisões no PCP e agora vai ter de lidar com os muitos problemas que o PCP enfrenta. Agora, o que o partido espera é que seja, pelo menos, um novo impulso de uma geração mais nova, principalmente na ligação às massas, porque nesta altura é muito crucial que essas não escapem ao PCP. E esse é o fator em que o partido espera que Paulo Raimundo, mesmo não acreditando em líderes, mesmo não acreditando em individualidades, possa fazer alguma diferença.
Obrigado, Mariana.
Obrigada, Ricardo.
Mariana Lima Cunha é jornalista do Observador da seção de política e acompanha a vida do PCP. No episódio de segunda-feira, dia 7, explicamos como a decisão de Jerónimo de Sousa de deixar a liderança do PCP surpreendeu muitas pessoas, algumas delas com assento no Comitê Central do Partido. Esta foi a história do dia. Os sons que ouvimos neste episódio estão disponíveis no canal de YouTube do PCP. Pode seguir-nos tanto no site do Observador como nas aplicações que usa habitualmente para ouvir podcasts e assim não perde um episódio. Pode também sugerir a um amigo ou familiar a história do dia. Temos um tema diferente todos os dias de segunda a sexta. Obrigado por nos ouvir. A sonoplastia e a música do genérico são do João Ribeiro. Eu sou o Ricardo Conceição. Até amanhã.