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Esta é a história do dia da Rádio Observador. Poderá Carlos III mudar a monarquia britânica?

"I, Charles III, by the grace of God of the United Kingdom of Great Britain and Northern Ireland, and of my other realms and territories, King, Defender of the Faith"

A 10 de setembro do ano passado, no Palácio de St. James, em Londres, Carlos III lia o juramento na hora de assumir o papel de Rei da Inglaterra, rei também de outros reinos e territórios, além de se tornar ainda o grande defensor da fé, enquanto líder da Igreja Anglicana. Oito meses depois, é agora coroado em Londres. Como será a celebração? Quanto vai custar? E será Carlos, aos 74 anos, o rei que vai mudar a monarquia? Vou conversar com a jornalista Diana Rosa, enviada especial do Observador a Londres. Eu sou o Ricardo Conceição e esta é a história do dia. Bem-vinda, Diana.

Obrigada.

Diana, onde é que estás neste preciso momento?

Olha, neste momento estou sentada na relva em St. James Park, que é um jardim enorme aqui mesmo junto ao Palácio de Buckingham. E Ricardo, estou rodeada de flores, de árvores e de muitos esquilos que passeiam por aqui, inclusivamente, bem perto de mim, já aqui um esquilo quis entrar dentro da minha mochila.

Só falta estar a ameaçar chuva para estares num cenário verdadeiramente londrino.

E está, porque, na verdade, prevê-se que chova nos próximos dias. Portanto, a coroação vai ser abençoada com chuva, ou pelo menos é isso que se prevê, chuva que pode cair a qualquer momento.

Ainda decorrem, obviamente, os preparativos, à hora que estamos a gravar esta conversa, para a grande festa de sábado. Vai ser muito complicado circular aí em Londres? Já está a ser, Diana.

Sim, já é muito complicado neste momento, porque para além de Londres já ser uma das cidades do mundo com mais turistas e mais movimentadas, eu já vi milhares de pessoas a tentarem chegar aqui junto ao Palácio de Buckingham. Pessoas que vêm de todo o lado, para já a maior parte do Reino Unido, ou seja, de Gales, da Escócia, da Irlanda, mas também já vi japoneses, chineses e, portanto, esperam-se milhões de pessoas aqui na cidade, em particular aqui em Westminster. Inclusivamente, a Scotland Yard dizia-nos aqui que todas as ruas nesta zona vão ser cortadas ao trânsito, assim como algumas estações de metro que vão fechar na manhã da coroação. E para teres uma ideia, nestes dias de coroação, vão marcar presença aqui nas ruas quase 30 mil agentes da polícia e do exército britânico, 15 mil, ou seja, metade deles estão destacados só para sábado, que vai ser obviamente o grande dia e, portanto, prevê-se que comecem a chegar aqui a Westminster milhares de pessoas logo pela madrugada, no dia da coroação, o que faz com que mesmo andar a pé e fazer uma deslocação muito curta, possa demorar horas.

Diana, e quando ainda estamos a muitas horas da coroação, já há gente a marcar lugar para ter um vislumbre do coche real ou não?

Sim, olha, eu já encontrei pessoas que vieram, como te dizia há pouco, da Escócia, por exemplo, do norte de Inglaterra, que trouxeram tendas, pequenas tendas.

Estão acampados aí ao pé de Buckingham?

Estão acampados. O Palácio de Buckingham tem uma avenida muito grande, que é o The Mall, o conhecido The Mall, uma avenida que tem o pavimento vermelho. Ela está cortada dos dois lados com umas baias de metal. Em apenas um dos lados é que se pode acampar. Portanto, supostamente não iria ser permitido acampar aqui por motivos de segurança e porque são pessoas que já estão a marcar presença aqui de dia e de noite quando não era suposto, mas a polícia permitiu que se acampasse de um dos lados do The Mall, precisamente aqui, neste lado, que fica junto a St. James Park. Essas pessoas que trouxeram tendas, trouxeram também cadeiras, mesas para poderem fazer as suas refeições. Muitas delas vieram vestidas a rigor, fizeram fatos propositadamente para estar aqui com coroas, com materiais que tinham em casa. Já vi vestidos com a cara do Rei Carlos III, seja na frente, seja nas costas do vestido. E, portanto, elas ficam aqui dia e noite para irem à casa de banho. Como deves imaginar, vão a locais públicos.

Essa era uma dúvida que eu tinha. Como é que fazem?

Vão a locais públicos durante o dia e durante a noite não têm como fazê-lo, têm de esperar.

E quanto à celebração, Diana, a mais recente foi há 70 anos, a da Rainha Isabel II. Esta celebração, este cerimonial, tudo isto, será agora mais comedido do que foi há 70 anos?

Sim, esta coroação supostamente vai ser mais comedida. No entanto, há aqui um detalhe curioso, porque se formos converter para os dias de hoje quanto o Reino Unido gastou com a coroação de Isabel II, estamos a falar de 23 milhões de euros. E esta coroação, a coroação de Carlos III, que obviamente não se encerra só no que acontece na Abadia do Westminster, estamos a falar de vários dias de festa, vai custar entre 50 a 100 milhões de euros. Portanto, é mais comedido. Bom, não sabemos muito bem em quê, não é? Mas em termos de orçamento, é mais do que o dobro.

E ao nível dos convidados, como é que estamos de lista de convidados?

Se há 100 anos a coroação da Rainha Isabel II, que de resto foi a primeira que teve registro televisivo, é bom lembrar aqui.

Exatamente.

Teve 8 mil convidados dentro da Abadia do Westminster, que é onde se fazem as coroações.

Estavam muito apertadinhos.

Muito apertadinhos. Já há algumas centenas de anos que as coroações se fazem na Abadia do Westminster. O Príncipe Carlos decidiu ter apenas, como quem diz, 2000 convidados. Claro que este apenas parece que é pouco, mas não é. Entre estes convidados estão membros do governo inglês, também os representantes da Commonwealth, membros das famílias reais de outros países e chefes de Estado. Portugal vai ser representado por Marcelo Rebelo de Sousa, que está em Londres a partir desta sexta-feira. Mas há também vencedores de prêmios Nobel, representantes das instituições públicas britânicas, como dos hospitais, e por aí fora, convidados que são amigos da família. É muita gente.

E como é que vai ser a celebração? Como é uma coroação?

Isto pode levar algum tempo a explicar. A celebração oficial vai ser no sábado. O rei sai do Palácio de Buckingham pelas 10h30 da manhã, sensivelmente. Ele e a Rainha consorte, Camilla Parker Bowles, vão fazer duas vezes o mesmo percurso pelas ruas de Londres, um a caminho da coroação e outro no regresso. Eles saem de Buckingham para a Abadia do Westminster, naquele que é o cortejo do rei. Foi escolhida uma carruagem que foi usada no Jubileu de Diamante da Rainha Isabel II. Este percurso vai começar aqui e percorre a avenida The Mall e depois desce até ao Parlamento, passa também ali à entrada de Downing Street, até chegar à porta da abadia, onde a cerimônia vai ter início às 11h da manhã e vai ser composta por cinco momentos. O primeiro é o reconhecimento, depois é o juramento, em terceiro lugar, a unção, depois o momento da coroação propriamente dita e depois aquele em que o rei e a rainha consorte se sentam no trono. Prevê-se que saiam da Abadia do Westminster por volta de 13h, 13h30, e no regresso até o Palácio de Buckingham já vão em outra carruagem. A carruagem escolhida para transportar os reis depois de terem a coroa vai ser a Gold State Coach, que é o famoso coche de ouro que só é usado em coroações e jubileus.

Já voltamos à conversa com a enviada especial do Observador a Londres, Diana Rosa. Será Carlos III um agente de mudança na monarquia britânica?

E o resto é História, com João Miguel Tavares e Rui Ramos, às quartas-feiras, depois do Jornal do Meio Dia e sempre em podcast.

Estamos de regresso à conversa com Diana Rosa, enviada especial do Observador a Londres. Diana, neste ritual são usados vários artefatos que também funcionam como símbolos. Desde logo temos, por exemplo, duas coroas, uma colher e uma pedra que é muito especial.

Sim. A Casa Real divulgou oito insígnias que vão fazer parte da coroação de Carlos III. Uma delas é a coroa de St. Edward, que só é usada nestas cerimônias, tem mais de 350 anos, foi feita para a coroação de Carlos II. Também a coroa de Estado Imperial, esta mais recente, feita em 1937, que foi usada várias vezes por Isabel II, nomeadamente nas cerimônias de abertura do Parlamento. Outra coroa que vai fazer parte desta celebração é a coroa da Rainha Mary, que foi criada em 1911 e será essa que será usada por Camilla Parker Bowles, a rainha consorte. Além das coroas, vai haver outros acessórios que vão estar presentes na Abadia do Westminster, como a colher da coroação, que é um dos objetos mais antigos na história desta tradição. É usada para ungir, para abençoar o rei com o óleo sagrado, óleo esse que vai estar guardado na mambula, um pequeno frasco esférico com duas alças, que é outro objeto, aliás, de grande valor e de grande significado. Também a orbe, o globo em ouro que simboliza o mundo cristão e que o novo monarca vai segurar, o cetro do soberano com a cruz, que simboliza o poder temporal do rei, e o cetro do soberano com a pomba. Esse objeto especial, essa pedra de que falavas, a pedra do destino, foi usada na coroação dos reis da Escócia no século XIII e depois foi trazida para a Inglaterra e passou a ser usada na cerimônia de coroação dos monarcas do Reino Unido. É uma pedra que é colocada no interior do trono de coroação em que o monarca se senta durante a cerimônia.

E estamos a falar de uma cadeira de madeira que tem quase mil anos, salvo erro. E essa pedra do destino sendo escocesa, e isso é muito curioso, tudo isso que estavas a descrever. Sendo escocesa é o símbolo de um reino e é também símbolo de uma relação nem sempre pacífica entre dois países, neste caso, Inglaterra e Escócia. Ora, o rei da Inglaterra é também o chefe de Estado do Reino Unido e de outros países, como por exemplo o Canadá, a Austrália ou mesmo a Jamaica. Sabemos a importância que Isabel II dava à Commonwealth. Esta mudança de monarca poderá levar Vários países a dizer adeus ao velho Reino Unido e a entrar pela via republicana?

Sim, alguns já disseram adeus ao longo do tempo. O império de Carlos III já não tem nada a ver com o império que tinha Isabel II quando chegou ao trono. Atualmente, o Belize é um desses exemplos, como já fez saber o primeiro-ministro daquele país, assim como a Jamaica, como dizias, também já manifestou a vontade de sair da Commonwealth, ou como, por exemplo, a Austrália, que acredita que os australianos indígenas têm sido muito pacientes e que a Constituição não vai estar completa até que se reconheça a história deste povo de mais de 60 mil anos. No fundo, os países que manifestam vontade em sair da Commonwealth têm esta necessidade de reconhecimento da origem dos povos e da maneira como foram tratados no passado pelo Reino Unido.

Esses exemplos são de fora do Reino Unido. E dentro de portas, Diana, qual é, nesta altura, se é possível aferir isto nas ruas de Londres, a saúde da monarquia constitucional britânica?

Antes das ruas, eu digo-te que no Reino Unido há um estudo muito recente que foi publicado pela BBC há cerca de dois ou três dias, que faz uma comparação entre 2013 e 2023. E se há 10 anos mais de 70% dos britânicos eram a favor da monarquia, este ano, neste estudo, apenas 58% continuam a manter-se fiéis à família real. Sabemos que a família real realiza vários trabalhos que dão receita, mas é o Estado que paga maioritariamente a vida da realeza. E só para se ter uma noção, o relatório do ano passado da Clarence House dava conta de que só o príncipe Carlos, na altura, tinha mais de 100 empregados para o servir. Ou seja, são os britânicos que pagam tudo isto e muitos deles já não concordam com o facto de sustentarem a família real.

Ainda assim, há uma maioria, que está a diminuir, de apoiantes da monarquia. E numa entrevista a um canal de televisão canadiano, uma entrevista rara da Princesa Ana, que é irmã do Rei Carlos, dizia a Princesa Ana, com uma dose de humor inglês, que Carlos teve muito tempo para se preparar para o papel.

"What kind of king do you think he'll be?" "Well, you know what you're getting, because he's been practicing for a bit . And I don't think he'll change. He is committed to his own level of service. That will remain true."

E quem viu a última temporada do "The Crown", uma série de ficção inspirada em factos muito reais, vamos dizer assim, vimos um Carlos, e vimos porque eu vi a série, vimos um Carlos com vontade de dessacralizar a monarquia. Será ele um agente de mudança, Diana Rosa?

Ele, sim, sempre quis ter um papel de mudança no que diz respeito, por exemplo, às alterações climáticas. Ele está sempre a alertar para esse problema e volta e meia também era muito crítico em relação a decisões tomadas pelos vários governos, sendo que faz parte do protocolo que a família real seja neutra no que diz respeito à política. Ora, Carlos nem sempre cumpriu o que era suposto, foi criticado muitas vezes, entrou em conflitos muitas vezes até com a própria mãe. O facto é que muita gente aqui diz que ainda se está a fazer o luto da rainha, que nada vai ser como dantes e, principalmente, muitos ingleses sentem que sim, este é, de facto, um momento do qual querem fazer parte, é um momento histórico, mas acham que este é apenas um período de transição para que William, o filho de Carlos, suba ao trono e aí, sim, vai haver mudanças na família real.

E estando tu, Diana Rosa, numa Londres engalanada, ainda mais apinhada de turistas, com pubs com licença para ficarem abertos até mais tarde, como é que está a dose de fish and chips? Está mais cara?

Olha, pelo menos está sempre a sair, embora ainda não tenha tido a oportunidade de comer esse prato, talvez mais logo. Mas fish and chips é uma das iguarias mais famosas aqui em terras de Sua Majestade. Portanto, todos os bares têm fish and chips e certamente que eu não vou conseguir fugir à tentação.

Estamos a falar de peixe frito com batatas fritas, não é?

Exatamente. É uma tradição.

Por isso é que às vezes vemos inglês comer sardinha assada com batatas fritas, não é?

É verdade. Eles acompanham tudo com batatas fritas.

E muita cerveja. Obrigado, Diana.

De nada, obrigada eu, Ricardo.

Diana Rosa é a nossa enviada especial a Londres e para quem nos ouve na aplicação do Spotify, e atenção, só funciona mesmo na app do Spotify, deixamos uma pergunta para sim ou não: Carlos III vai ser o protagonista de uma mudança na monarquia britânica? E fica ainda um pedido, clicar no botão que diz "seguir a história do dia". Para nós, é mesmo importante que siga a história do dia no site do Observador ou nas aplicações de podcast. E se seguir, não vai perder um episódio. Esta foi a história do dia. O som que ouvimos no arranque é da BBC e o da entrevista da Princesa Ana é da CBC, uma estação de televisão canadiana. A sonoplastia é do Bernardo Almeida, a música do genérico do João Ribeiro. Eu sou o Ricardo Conceição. Bom fim de semana.