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Esta é a história do dia da Rádio Observador. Por que Passos Coelho faz oposição ao governo?
Se eu estivesse no governo e um ministro da Saúde me viesse dizer que precisava de um diretor executivo para gerir o Serviço Nacional de Saúde, a primeira coisa que fazia era aceitar a sugestão dele e escolher outro ministro.
O ex-primeiro-ministro é daquelas raras personalidades da política portuguesa que vários anos depois de ter deixado o palco principal continua a atrair microfones e atenções. Ele sabe disso e só usa da palavra de longe a longe.
Mas o precedente é grave. Não se pode passar, penso eu, de diretor da Polícia Judiciária para Ministro da Administração Interna. Eu acho que não se pode.
Mas até os silêncios de Passos Coelho contam histórias e têm peso, como se viu nas últimas presidenciais. Só que esta terça-feira, numa conferência da SEDES, nem silêncios, nem parcas palavras. Passos veio com tudo.
Ser julgado por não ter conseguido o que se pretendia é uma conta, ser julgado por nem sequer tentar fazer é outra.
Poucas áreas da governação escaparam ilesas. Passos Coelho criticou escolhas, gestos, declarações, falou da falta de resultados e de reformas que se vejam.
A reforma estrutural é urgente. Já houve muito tempo para pensar, para trabalhar os cenários, mas agora esse tempo acabou. Dir-se-á: "Vejam o que se passou ou o que se está a passar com a reforma laboral." Tudo parece que aquilo não vai dar em nada.
Isto leva-nos à pergunta: estava o ex-primeiro-ministro a fazer um aviso, a ajustar contas ou a marcar território?
Vamos embora, vamos trabalhar.
Vamos lá, então. Hoje vou falar com Miguel Santos Carrapatoso, editor adjunto de política do Observador, para perceber o que significam estas palavras e o que podem significar nos próximos tempos para o governo e para o PSD. Eu sou o Pedro Benevides e esta é a história do dia de quinta-feira, 26 de fevereiro. Olá, Miguel.
Olá, Pedro.
Vamos olhar para este discurso de Pedro Passos Coelho. Já tem umas horas valentes, mas para quem gosta de política, quem vive nesta bolha, isto é mesmo daqueles de estar com um balde de pipocas a tirar notas a tudo aquilo que Passos Coelho disse naquela hora.
Sim, nós tivemos a oportunidade de estar presencialmente na conferência organizada pela SEDES, em Leça da Palmeira. Foi uma hora a intervenção de Pedro Passos Coelho, que aliás, tem por hábito fazer longas intervenções.
Há maus hábitos que não se mudam.
Não se mudam, mas foi uma intervenção pensada à vírgula. Pedro Passos Coelho sabia exatamente aquilo que queria dizer e em que teclas tocar. Deu imediatamente notícia, a crítica que fez à nomeação de Luís Neves como ministro da Administração Interna, mas essa foi só a ponta do iceberg. Pedro Passos Coelho tinha muita coisa para dizer, em linha com o que tem feito ultimamente, muito crítico em relação à ausência de reformas estruturais, mas nesta conferência organizada pela SEDES, Pedro Passos Coelho permitiu-se ir mais longe e aqui fazendo um exercício que é muito pouco elegante, mas que é o que me ocorre, autocitando-me, Pedro Passos Coelho pôs o relógio de Luís Montenegro a contar.
Autocitando, porque tu tens um texto escrito sobre isso no Observador, e esse é exatamente o título que lhe deste, pôs um relógio na cabeça de Montenegro, digamos assim, no tempo que Montenegro tem para provar o que vale.
E há uma frase, se me permites, que é até para nosso início de conversa, que é paradigmática disso mesmo. Cito Pedro Passos Coelho: "O governo está há dois anos e parece que está lá há quatro. Na política só está quem quer, só vai para a política quem quer, para fazer alguma coisa. Já houve muito tempo para pensar, imaginar e trabalhar os cenários. Esse tempo acabou. É preciso começar a trabalhar e a fazer qualquer coisa." Portanto, quando digo que Pedro Passos Coelho sabia exatamente aquilo que queria dizer, esta frase e outras, são de facto muitas passagens do discurso de Pedro Passos Coelho, mas esta frase em particular mostra bem aquilo que Pedro Passos Coelho acha sobre o governo em funções e sobre aquilo que espera que Luís Montenegro faça.
E é uma frase que, achando tudo isso, não diz grande coisa do que o governo está a fazer, ou pelo menos dá a entender que ele não está propriamente impressionado.
Não, seguramente não está impressionado, e isso não é de hoje. Aliás, fazendo um pequeno parêntese, este distanciamento entre Pedro Passos Coelho e Luís Montenegro vem de há muito tempo. Vem quase desde o início da liderança de Luís Montenegro. Se nos recordarmos, fizemos uma viagem no tempo, Pedro Passos Coelho apareceu ao lado de Luís Montenegro na primeira festa do Pontal de Luís Montenegro como líder do PSD. Era Pedro Passos Coelho a abençoar o seu delfim. Luís Montenegro tinha sido líder parlamentar de Pedro Passos Coelho. Mas a partir dessa altura, por uma série de decisões, de ressentimentos, de tudo que é mais humano que pode existir e a política é muito humana, criou-se um grande fosso entre ambos de natureza pessoal, claro. Pedro Passos Coelho, porventura, não se sentiu tão ouvido e tão considerado como julgaria ser merecedor disso mesmo. Luís Montenegro sentiu-se algures quase condicionado por Pedro Passos Coelho e, portanto, houve ali uma clivagem pessoal, mas houve também Uma clivagem ideológica que está muito presente em todas as discussões sobre o PSD, que é o que fazer com o Chega. Pedro Passos Coelho sempre entendeu que a política de linhas vermelhas era um erro para o PSD e que mais tarde o PSD seria vítima desse mesmo erro. Luís Montenegro, como sabemos, definiu o seu não é não e continua a acreditar nele ou acredita que esse não é não foi o que lhe permitiu ganhar eleições por duas vezes. Por que isso é importante? Porque entronca naquilo que vamos discutir sobre o discurso particular de Pedro Passos Coelho. Pedro Passos Coelho acha que Luís Montenegro e a AD estão a perder uma oportunidade única de reformar o país, porque há, no entender de Pedro Passos Coelho, uma maioria à direita que está a ser desperdiçada. Luís Montenegro, sabemos, tem tentado governar ora com o Partido Socialista, ora com o Chega. Essa grande crítica de Pedro Passos Coelho está e esteve sempre presente. E neste discurso, quando fala da saúde, quando fala da educação, quando fala da reforma do Estado, no sentido mais literal do termo, quando fala daquilo que está por fazer depois de dois anos de Luís Montenegro, é isto que Pedro Passos Coelho está a pensar: esta AD, este governo, está a perder uma oportunidade, e está a perder uma oportunidade porque nem sequer está a tentar. E há uma frase também no discurso de Pedro Passos Coelho que vai nesse sentido: os portugueses não perdoarão aqueles que não tentarem, pelo menos, mudar o estado das coisas.
E tu achas, Miguel, que Pedro Passos Coelho ainda a tentar influenciar, embora sem se comprometer, ou achas que ele está a construir uma narrativa? Já percebemos que tu não achas que foi um desabafo espontâneo de Passos Coelho, ele pensou cada pormenor e cada vírgula. Mas achas que é uma tentativa de influência ou achas que é um posicionamento?
Posicionamento é seguramente, porque ninguém fala, muito menos um antigo primeiro-ministro, fala com esta profundidade de um determinado tema e com esta regularidade, porque dizias há pouco: "Miguel, tu achas que isto não foi improviso." Se olharmos para o silêncio de Pedro Passos Coelho depois da eleição de Luís Montenegro, depois há ali uma interrupção em que há algumas aparições de Pedro Passos Coelho, depois novamente o silêncio. Na campanha presidencial, Passos não apareceu sequer. Voltou agora. Voltou agora porque é um ciclo novo. Há um novo presidente da República eleito, não há eleições legislativas no horizonte próximo. Portanto, Pedro Passos Coelho está a aparecer agora e está a aparecer muito, porque julga ter alguma coisa a dizer. Isso é um posicionamento. Se tem um plano maior, isso se eu soubesse ou se nós o soubéssemos aqui no Observador, já teríamos escrito. As pessoas que rodeiam Pedro Passos Coelho, que o conhecem há muito tempo, garantem que não, que é um senador a falar para o país e a dizer aquilo que, no seu entender, deveria estar a ser feito. Agora nós sabemos como a política muda a qualquer momento. Pedro Passos Coelho chegou a ser apontado como possível sucessor Luís Montenegro, caso as eleições europeias corressem mal ao PSD na altura. Estamos a falar de junho de 2024. Nessa altura estavam de facto a acontecer movimentações internas no PSD nesse sentido. Toda a gente apostava numa queda prematura de Luís Montenegro. E o que acontece? António Costa desperdiça uma maioria absoluta da forma como desperdiçou e cai da forma como todos sabemos que caiu. E Luís Montenegro vence umas eleições legislativas.
Em política, fazer prognósticos há seis meses é muito arriscado. Miguel, eu já te vou perguntar quando voltarmos à conversa sobre o que o PSD e o que o governo ouviram ambos, o que cada uma destas instituições ouviu das palavras de Pedro Passos Coelho. E estamos de regresso com o Miguel Santos Carrapatoso, editor adjunto de política do Observador. Miguel, como é que o PSD e o governo ouviram estas palavras, que foram palavras fortes e foram críticas muito diretas e algumas até bastante violentas?
Há uma curiosidade, passou algo despercebida porque de facto a intervenção foi bastante tímida. O governo fez-se representar nesta mesma conferência de que estamos a falar, organizada pela SEDES. Era esperada a presença de Luís Montenegro, que por motivos de agenda não pôde ir, esteve reunido com António José Seguro, mas Fernando Alexandre, ministro da Educação, fez uma intervenção à distância, por via remota, e foi uma intervenção muito tímida, como dizia, até com problemas técnicos e sem grande profundidade, parecia até essa sim de improviso. E isso também não permitiu ver o contraste da visão do governo com a visão de Pedro Passos Coelho. Naturalmente que ninguém no governo estará muito confortável com estes recados sucessivos de Pedro Passos Coelho, que são transversais. Eu há pouco dizia que a crítica não foi só esta crítica muito circunscrita a esta frase, mas foi uma avaliação geral de tudo o que está mal na saúde. Aliás, Pedro Passos Coelho lembrou que uma das promessas eleitorais de Luís Montenegro era relançar as PPP e até agora pouco se viu. Falou da educação, da queda do desempenho dos alunos, falou da reforma do Estado e já não é a primeira vez que o faz. Ainda há uma semana dizia que, parafraseando, quem põe um ministro com o título de ministro da Reforma do Estado, na verdade, quer fazer comunicação política, não quer fazer a reforma do Estado. Portanto, estas críticas são, além de recorrentes muito assertivas para alguém que foi primeiro-ministro, líder do PSD, um pai espiritual de muitos dos ministros que agora compõem este governo. É evidente que isto causa mossa e, sobretudo, porque continua a ter muito impacto mediático. Nós vimos ontem as repercussões que tiveram as palavras de Pedro Passos Coelho e que continuam a ter.
E dentro do PSD, achas que são palavras que agitam, que podem dividir internamente? Achas que Pedro Passos Coelho ainda tem capital político se ele quisesse um dia voltar?
O poder é um grande afrodisíaco e neste momento o PSD está no poder e isso permite que mesmo os espíritos mais céticos, de alguma forma, estejam algo silenciados ou algo silenciosos. Mas há muita gente a duvidar do caminho que está a ser seguido. Agora tudo depende daquilo que Luís Montenegro conseguir. A partir do momento em que conseguiu vencer umas legislativas e tornar-se primeiro-ministro, sempre dependeu dele próprio, dos resultados que tiver para apresentar. Este governo, perante as expectativas que criou, e falo novamente na saúde, no crescimento económico, havia muitas expectativas alimentadas pelos próprios de que o país ia conhecer um crescimento económico fulgurante. Havia expectativas para a habitação, para a educação e para os serviços públicos como um todo. E o que nós temos visto é que dois anos volvidos, os resultados continuam por consolidar, pelo menos por estarem à altura daquilo que os próprios quiseram alimentar como expectativa. E portanto, se o governo tardar em conseguir apresentar resultados, os espíritos mais céticos vão aparecer mais cedo ou mais tarde.
E achas que Passos Coelho ainda estará na corrida?
Basta ver o efeito que ele ainda tem, quer no PSD, quer fora dele.
Miguel, obrigado.
Obrigado, Pedro.
O Miguel Santos Carrapatozo, com quem conversei hoje, é o editor adjunto de política do Observador. Ele vai continuar a estar atento às palavras de Passos Coelho, que tem mais umas quantas intervenções públicas previstas. Outras histórias que vão contar no dia de hoje: os Estados Unidos e o Irão encontram-se novamente para outra ronda de negociações sobre o programa nuclear. Ainda não se desistiu da diplomacia, mas o presidente norte-americano está a planear um ataque direcionado contra o Irão nos próximos dias. Ainda nos Estados Unidos, a ex-secretária de Estado norte-americana e ex-candidata presidencial Hillary Clinton vai depor perante a comissão do Congresso dos Estados Unidos que investiga o caso Epstein. E à noite, em França, são atribuídos os prêmios César, os Oscars da Academia Francesa. Com 10 nomeações, o filme "Nouvelle Vague", do norte-americano Richard Linklater, é o grande favorito. Como o nome indica, "Nouvelle Vague" é uma homenagem a esse movimento do cinema francês. Esta foi a história do dia. A sonoplastia é da Mariana Sousa Aguiar, a música do genérico é do João Ribeiro. Eu sou o Pedro Benevides. Até amanhã.