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Esta é a história do dia da Rádio Observador. Por que Elon Musk quer comprar a OpenAI e abrir uma guerra na inteligência artificial?
"So an Elon Musk led group of investors is reportedly making a $97.4 billion dollar bid for control of the nonprofit arm of OpenAI. This is according to The Wall Street Journal."
São quase 95 mil milhões de euros para adquirir a empresa responsável por aquele que é provavelmente o modelo de inteligência artificial mais conhecido do mundo, o ChatGPT. A oferta é suportada por um consórcio que reúne vários investidores, mas tem um rosto bem conhecido à cabeça: Elon Musk, o homem mais rico do mundo, que recentemente tem sido notícia pelo papel preponderante na nova administração do presidente Donald Trump. A notícia surge numa altura em que a OpenAI está num processo de transformação com vista a deixar de ser uma organização sem fins lucrativos. Que interesse tem Musk nesta jogada? Quanto valerá ao certo a OpenAI? E Trump pode ter algum papel neste negócio? São questões pra conversa com Cátia Rocha, jornalista do Observador, que acompanha habitualmente a área da tecnologia. Eu sou o João Santos Duarte e esta é a história do dia de quarta-feira, 12 de fevereiro. Olá, Cátia.
Olá, João.
Cátia, vamos começar por falar das origens da OpenAI, a empresa que desenvolveu o ChatGPT e que agora é alvo de uma oferta por parte de Elon Musk. E o que é curioso nesta história também é que, na verdade, Musk e Sam Altman, o CEO da OpenAI, até estiveram juntos no início deste projeto, não é?
Sim, em 2015. Na altura, tinham a missão de desenvolver inteligência artificial que beneficiasse a humanidade, que é, aliás, a missão que se mantém até hoje da OpenAI. E curiosamente, os dois aproximam-se porque Musk teve uma discussão acesa numa festa de aniversário com Larry Page, o cofundador da Google, justamente sobre os riscos da IA.
"The reason, I am the reason OpenAI exists. How much money did you give them? So, I'm not sure the exact number, but it's some number on the order of $50 million."
Então, e quando é que as coisas azedaram, por assim dizer, quando é que as divergências entre Musk e Sam Altman começaram?
Algures em 2018. Musk tinha até então o título de cofundador da OpenAI e estava no quadro de diretores e era uma presença muito forte na empresa, também a nível de investimento. E na altura, em fevereiro de 2018, a saída de Musk foi anunciada como algo para evitar um possível conflito de interesses, porque dizia-se que na altura a Tesla também estava a desenvolver inteligência artificial. Agora sabemos que não foi bem isso que aconteceu.
Exato. Antes de falarmos agora desta oferta, vamos falar de uma outra questão que é: neste momento, Musk já tem em curso um processo nos tribunais norte-americanos contra a OpenAI. Por quê?
Contra a OpenAI e também contra Sam Altman, o CEO. Com o passar dos anos, tornou-se claro que havia aqui muito mais além do que o tal conflito de interesses que foi justificado publicamente. Este processo que Musk apresentou em 2024 acusa Altman e a OpenAI de se estarem a desviar da missão que foi definida em 2015, da tal IA pra beneficiar a humanidade, e também porque Musk acha que a OpenAI está a ter falta de transparência na investigação dos modelos que está a fazer. E foi o culminar duma rivalidade, este processo, que também aumentou muito com toda a atenção que foi dada ao ChatGPT desde 2022.
Exato, quando surgiu, o ano em que foi apresentado. Agora surgiu então esta oferta surpreendente para comprar a OpenAI, com Elon Musk à cabeça, como o rosto mais visível. Mas que oferta é esta e quem é que está por trás? Quem é que são os investidores?
É uma oferta de cerca de 97 mil milhões de dólares para comprar a organização sem fins lucrativos que controla a OpenAI. A OpenAI tem uma estrutura complexa, com vários patamares e várias etapas, mas no total é tudo controlado por esta organização sem fins lucrativos, que depois orienta e gere outra, já virada para o lucro, que é aí que há um investimento da Microsoft na OpenAI. Mas voltando à oferta, é um consórcio liderado por Musk, mas que tem várias empresas envolvidas, mas vou destacar a ATV, que é liderada pelo fundador da empresa de dados Palantir, ou Ari Emanuel, que é um empresário que é muito próximo de Elon Musk também.
"Your response, you're turning him down for $97 billion. I mean, look, OpenAI is not for sale. The OpenAI mission is not for sale. Elon tries all sorts of things for a long time. This is the late, you know, this week's episode. You take it seriously at all? What do you think he's trying to drive at with this? I think he's probably just trying to slow us down. He obviously is a competitor."
E de que forma respondeu a OpenAI, o Sam Altman, a esta oferta hostil?
Tudo isso passa sempre muito no X, no antigo Twitter. Esta rivalidade entre os dois, há sempre muita troca de galhardetes, mas Altman respondeu com muita ironia, e passo a citar a forma como respondeu em tweet: "Não, obrigado, mas podemos comprar o Twitter por 9,74 mil milhões se quiseres". Isto é um jogo em que não só usa o nome antigo.
Há uma dupla provocação.
Exatamente. Não só usa o nome antigo do X, que Musk fez questão de rebatizar com toda a pompa e circunstância, como também ataca Musk pela desvalorização da empresa. Temos de relembrar que Musk pagou 44 mil milhões pelo então Twitter e que agora, de acordo com as estimativas que há de alguns bancos de investimento, valerá pouco mais de nove mil milhões. É uma diferença muito considerável.
E curiosamente, é só mexer a vírgula para o lado no valor. Porque o Musk oferece 97,4 mil milhões.
Daí, é uma provocação que dá pano pra mangas.
Já regressamos à conversa com Cátia Rocha, jornalista do Observador, que acompanha a área da tecnologia e que assina um artigo sobre esta oferta surpreendente de Elon Musk para comprar a OpenAI. Na segunda parte, vamos falar do que poderão ser as intenções de Musk e ainda de Donald Trump e da influência que pode ou não vir a ter neste negócio. Estamos de regresso à conversa com Cátia Rocha. Cátia, quanto é que poderá valer ao certo a OpenAI? Ou isso é algo que não é assim muito fácil de determinar?
Não é algo que seja fácil de apurar. Há algumas notícias que tentam estimar quanto é que vale a dona do ChatGPT, nomeadamente quando é fechado algum investimento ou quando a empresa dá algum detalhe sobre alguma parceria. Mas o que se sabe é muito a partir de fontes próximas. Por exemplo, em outubro, o New York Times referia que a empresa estava avaliada em 157 mil milhões de dólares, mas entre a OpenAI oficializar estes números e haver estes relatos na imprensa, nunca há bem a certeza sobre quanto é que vale ou não.
Sam Altman acusa Musk de querer também com esta jogada, atrasar o desenvolvimento da OpenAI. E o certo é que tudo isto surge numa altura em que a própria organização está num processo de transformação, certo?
Sim, Altman disse em entrevista à Bloomberg que este é o episódio desta semana de Elon Musk. Mas o fato é que a empresa está a mudar. Em dezembro, a OpenAI anunciou que estava a estruturar algumas mudanças, a estudar algumas alterações, para refletir a evolução de que queria ser mais do que uma startup e do que um laboratório de investigação de inteligência artificial. Só que essa transformação tem de ser avaliada, é algo que os meios norte-americanos têm escrito com muita frequência, e é também um processo complexo, justamente por causa daquela estrutura complexa que a OpenAI tem para refletir a missão e ser tudo sempre orientado por uma organização sem fins lucrativos. Só que agora tudo isto fica num ponto diferente com esta oferta de Musk.
Musk, como já referimos, até esteve no lançamento da própria OpenAI, depois afastou-se, acabou até por criar a própria empresa de inteligência artificial, a xAI. Em que ponto está nesse momento esse projeto?
São empresas em fases de vida totalmente diferentes. A xAI foi lançada em 2023, portanto está num ponto muito diferente da OpenAI, que vem de 2015. Mas neste momento já tem um chatbot, o Grok, que está muito visível no X, na rede social de Musk. Por exemplo, até já faz resumos de perfis e tem uma área dedicada sempre que se abre a aplicação do X. E é possível ter as mesmas interações que se tem com um chatbot, por exemplo, o ChatGPT, mas são respostas totalmente diferentes e propósitos totalmente diferentes. Portanto, são empresas que estão em fases muito diferentes.
Então, assim sendo, vamos a uma das grandes perguntas valendo esta novela, deste episódio da semana, como diria o Sam Altman em relação ao Musk. O que Elon Musk pode pretender com toda esta jogada?
Altman foi o primeiro a dizer que pode ser uma forma de atrasar uma rival que está a ter muito destaque. Esta parte do destaque não é de Altman, mas é um fato. Há muito tempo que se fala da OpenAI, principalmente por causa do ChatGPT. Mas os especialistas que eu ouvi para este trabalho referem que também pode ser uma forma de complicar a vida de outra forma à OpenAI, por causa da tal mudança de estrutura. Os ativos que a empresa tem, têm de ter um valor, e é isso que está a ser estimado. E de acordo com os meios especializados, a OpenAI poderá estar aqui, ou poderia estar aqui a seguir uma tendência de desvalorização destes ativos. Só que a partir do momento em que há uma oferta de 97 mil milhões, como esta que o consórcio liderado por Musk faz, isso poderá ter implicações na forma como estes ativos estão a ser avaliados e mudar um bocadinho as regras do jogo. Se é esta ou não a estratégia, não sabemos bem, até porque Musk ainda não apresentou muitos mais detalhes sobre o que quer com esta oferta.
Há aqui também uma outra questão num plano mais geral. É que os Estados Unidos têm também em curso um megaprojeto para desenvolver a inteligência artificial, que envolve também a OpenAI, mas curiosamente Que deixa Musk de fora. Que projeto é este?
É o projeto Stargate, que é um investimento privado de $500 mil milhões para o desenvolvimento de infraestrutura de inteligência artificial. Envolve a OpenAI, o SoftBank e a Oracle também, entre outras empresas. Só que isto foi um ponto de discórdia para Musk, que estava ausente da conferência de imprensa, que aconteceu logo no dia a seguir à tomada de posse de Donald Trump, e que usou também o X para alegar que as entidades que estavam envolvidas no projeto não tinham o dinheiro para fazer um investimento daquela envergadura. Mas, nas entrelinhas, ficou claro que era porque não gostava do envolvimento e do destaque que foi dado a Sam Altman naquela altura. Mas estas declarações de Musk foram também mal vistas pelos apoiantes de Trump, que disseram que não fazia sentido alguém que é tão próximo do presidente estar a criticar de forma pública uma das primeiras medidas ou grandes anúncios de Trump.
De facto, tudo isto é interessante, tendo em conta essa relação recente de proximidade de Musk com Donald Trump. E assim sendo, que posição terá ou poderá ter o presidente dos Estados Unidos perante esta oferta? Pode ter algum tipo de papel neste negócio?
Os especialistas referem que poderá tentar manter-se fora desta questão até onde conseguir. Até porque quando Musk criticou publicamente, fez aquele tweet a dizer que as empresas não tinham dinheiro. Trump foi questionado pela imprensa sobre este tema e na altura desvalorizou e referiu apenas que Musk não gostava de uma das pessoas que estavam envolvidas no projeto. Não usou o nome de Altman, mas estava clara a mensagem. Agora vamos ver se segue ou não essa lógica.
Obrigado, Cátia.
Obrigada.
Cátia Rocha é jornalista e acompanha sempre de perto a área da tecnologia. Assina um artigo no Observador onde explica os contornos desta oferta de Elon Musk pela OpenAI. Esta foi a história do dia. Neste episódio usámos ainda sons da CNBC e da Bloomberg TV. A sonoplastia é de Pedro Oliveira. A música do genérico, do João Ribeiro. Eu sou o João Santos Duarte. Até amanhã.