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Esta é a história do dia da Rádio Observador: quão perigosa é a extrema-direita alemã? Um grupo de homens armados ataca o Parlamento e mata vários políticos. O objetivo final é tomar o poder e fazer um golpe de Estado, deitando abaixo o regime, o Dia X, como lhe chamam. Esta é uma cena que parece saída de um filme de ação. E, no entanto, de acordo com as autoridades alemãs, era isso mesmo que estava a ser planeado por um grupo de terroristas de extrema-direita. Um grupo que alegadamente teria as armas e os meios necessários para o tentar, mas cujas intenções foram agora travadas numa megaoperação lançada em vários pontos da Alemanha. É já considerada uma das maiores operações de sempre na Alemanha contra movimentos de extrema-direita. Cerca de 3 mil agentes participaram em buscas em 11 dos 16 estados alemães. O saldo final é de 25 detidos, 24 de nacionalidade alemã e uma cidadã russa. Uma pessoa foi detida na Áustria e outra em Itália. São, na sua maioria, membros do Reichsburger, ou cidadãos do Reich. Não aceitam a República Federal da Alemanha e a Constituição adotada após a Segunda Guerra Mundial. Querem uma mudança de regime e o regresso às fronteiras que existiam antes de a guerra começar. Que grupo é este? Qual a sua verdadeira capacidade? E quão perigosa é realmente a extrema-direita na Alemanha? São questões que vamos colocar a Daniel Pineau, especialista em terrorismo e segurança internacional e que viveu também durante cinco anos na Alemanha. Eu sou o João Santos Duarte e esta é a história do dia. Bem-vindo, professor Daniel Pineau.
Olá, muito obrigado. Prazer estar aqui.
Vamos começar por perceber ao certo que planos eram estes. De acordo com as autoridades alemãs, o que este grupo estaria a preparar-se para fazer?
De acordo com as autoridades, esta é uma operação que já tem bastantes meses de investigação e de vigilância. A ideia é que este grupo tinha planos razoavelmente concretos para tentar declarar um governo alternativo que se substituísse às autoridades da Alemanha. Para a polícia ter efetuado estas prisões, tinha que haver algum tipo de ameaça violenta. Nós não temos a certeza de qual é que ela era. Portanto, na Alemanha, é importante se há ou não há armas e se há ou não um plano violento. Do ponto de vista constitucional, isto é importante para casos de antiterrorismo e de extremismo, que normalmente caem sobre a alçada de uma polícia especial, o gabinete de proteção constitucional. Este grupo, que é um grupo heterogêneo, tem muitas pessoas que acreditam que, na verdade, o Estado alemão como ele existe hoje, a República Federal Alemã, não é real, não tem valor legal nenhum, não é um Estado soberano, e que o que continua a existir, mas sem instituições, portanto, sem corpo institucional, mas existe do ponto de vista legal como entidade soberana, é ainda o Império Alemão, que foi abolido no final da Segunda Guerra Mundial com o armistício em 1945.
Exatamente, um dos planos, ou o plano que se sabe passava por um ataque, neste caso, ao Reichstag. Quão séria era então considerada esta ameaça? Teriam mesmo capacidade e dimensão para fazer algo do gênero?
Os números que nós temos de pessoas radicalizadas e violentas dentro deste movimento, que mais uma vez é um movimento que pertence à família alargada dos extremismos de direita alemães, que é uma família grande e que conta com cerca de 35 a 40 mil pessoas, estimado, provavelmente os números são ligeiramente maiores, em termos de grupo de apoio, pessoas que estão na órbita desses partidos, mas que não contam com serem membros efetivos do partido. Portanto, ainda é um número grande. Este é muito mais pequeno que isso, e o número de pessoas dentro desses que estão radicalizadas para a violência não chega às 4, 5 mil pessoas, o que é um número muito grande, oscila, depende dos anos, das estimativas da Polícia Federal Alemã, ainda são nos milhares de pessoas, mas que é um número mais pequeno. E este grupo tinha um grupo de pessoas claramente mais radicalizadas. Eu devo dizer que eu não tenho a certeza. Claramente, alguns membros deste grupo devem ter tido planos violentos para um ataque violento ao Parlamento e a outras instituições, possivelmente, porque senão não teria havido esta ação policial com esta urgência. Mas a ideia poderia ser meramente esta, que era tomar Tomar o Parlamento e substituir estes políticos que não têm, na visão destas pessoas, nenhuma força de lei por um parlamento que representasse os seus interesses.
She would have been installed as the new Justice Minister, Birgit Malsack-Winkemann, who was a member of the German Parliament for the far-right Alternative for Germany party until last year.
Mas este grupo já teria mesmo um governo sombra e pessoas alinhadas para ocupar cargos num futuro governo de transição pós-golpe, certo?
Sim, mas isso faz parte da própria organização do grupo. Não era necessário isto por causa do golpe. Este grupo organiza-se em capítulos, em parlamentos regionais sombra. O que isto significa? Significa que estas pessoas, há décadas, acham realmente que o Parlamento que eles organizaram na sua região federal e onde eles se reúnem, é o Parlamento legítimo e não o Parlamento que está a tomar decisões. E, por exemplo, há pessoas que fazem passaportes do Império Alemão e tentam sair do país, entrar no país e fazer viagens com estes passaportes. Não querem pagar impostos, porque acham que estão a pagar impostos a um governo ilegítimo que não tem a capacidade de cobrar impostos e por aí adiante. Este grupo tenta construir uma realidade burocrática, política, administrativa paralela. A ideia era que aqui a diferença que fez com que a polícia atuasse, coisa que não fez o ano passado, nem há dois anos, nem há três anos, quando estas pessoas continuavam a ter ministro sombra, parlamento sombra, documento sombra, passaporte sombra, etc, foi a ideia de terem encontrado prova de um plano para violência e de armas ou meios para cometer essa violência. Essa radicalização é o que determina a ação da polícia, mais do que a suposta preparação política, vá se quisermos, de uma estrutura de poder.
É um movimento também com muitos adeptos das teorias da conspiração, inclusivamente da ideologia QAnon, com origem nos Estados Unidos. De resto, este plano para um ataque ao Reichstag terá também inspirações no ataque ao Capitólio em Washington. E estamos também aqui a falar de pessoas que acreditam na existência daquilo que se chama uma espécie de deep state na Alemanha.
Precisamente. Aliás, o que nós estamos a ver é uma espécie de uma crescente federação de várias teorias de conspiração umas das outras, e isto tem a ver com as redes sociais, com a capacidade das pessoas se organizarem e criarem coligações. Isto é o caso, por exemplo, neste grupo de pessoas que tem alguma inspiração, claramente, na conspiração QAnon, que de resto é algo que passou a ter representação em grupúsculos antigoverno ou de protestos, desde os Gilets Jaunes até ao movimento antivacinas português, até ao movimento antivacinas holandês. Aliás, por exemplo, dentro deste grupo dos cidadãos do império, portanto, dos cidadãos do Reich, que é o nome que eles dão a eles próprios, ou o Conselho, também se chamam a eles próprios o Conselho, nós temos pelo menos três grandes correntes. Nós temos uma corrente monarquista, portanto, claramente a razão para fazer isto é o restabelecimento da monarquia imperial alemã. Nós temos elementos que são populistas de extrema-direita, nós temos elementos que são nacionalistas radicais, quase neonazis, alguns muito próximos do neonazismo e com algum antissemitismo. Mas como vemos, a ideia de um Estado nacional socialista é profundamente republicana, a ideia de uma restauração monárquica não é de todo republicana, ambos coexistem neste movimento desde que denunciem a legalidade do governo atual e queiram um novo governo. Portanto, este é um dos problemas, é que não há muita consistência ideológica, exceto naquilo em que protestam, mas não naquilo em que propõem.
If they had succeeded, this man was to become the new head of state, Heinrich Reuss, a descendant of an aristocratic family from Eastern Germany, who still uses the symbolic title of Prince Heinrich XIII.
Um dos responsáveis por este plano seria um aristocrata, o príncipe Heinrich, ou Henrique, 13º. Ora, quem é esta pessoa? O que se sabe sobre ele?
É um aristocrata que vem de um pequeno principado, no que hoje é o estado federado da Turíngia, no leste do país, e que tem uma família razoavelmente conhecida localmente ou regionalmente, porque durante cerca de 700 anos foram a família reinante nesse pequeno principado na região da Turíngia. É basicamente isto que nós sabemos. Ou seja, ele era uma pessoa de muito pouca notoriedade na sociedade alemã, diga-se de passagem. Mesmo até nos círculos mais ligados a um certo culto da nobreza, como nós temos, de resto, também em Portugal ou como existe na Espanha, com as suas festas, com as suas revistas, com a sua imprensa própria. Mesmo nesses círculos, ele era pouco conhecido e em relação à sua própria família, tinha havido uma espécie de corte de relações, e não é de agora, não é meramente em relação a esta prisão e a este novo embaraço, mas declarações e atitudes que ele já tinha tido na última década, tinha havido um corte. Agora acontece que como ele estava na região do Hesse, portanto, não na sua região natal, da Turíngia, mas na região do Hesse, onde está Frankfurt, o gabinete local da Proteção da Constituição, a tal Polícia Especial para Assuntos Constitucionais e que lida com todo o extremismo, em particular o extremismo antigovernamental e o extremismo de extrema-direita, tinha sido informada por outras autoridades Que ele estava envolvido nisto e que fazia parte da vigilância da polícia e portanto passou a informar esta task force governamental das suas atividades.
Já voltamos à conversa com Daniel Pineu, especialista em terrorismo e segurança internacional. Vamos falar da forma como os elementos destes grupos estão também infiltrados nas forças de segurança alemãs. Num mundo em que uns rezam a Jesus, outros a Maomé, e há até os que veem em Buda o verdadeiro guia. E depois há quem não acredite em nada. Será que a religião ainda serve para alguma coisa? O jesuíta Francisco Motta vai responder a esta pergunta no novo curso da Academia Observador. Inscreva-se. Academia Observador. Grandes cursos a pequenos preços. Estamos de regresso à conversa com Daniel Pineu, especialista em terrorismo e segurança internacional. No âmbito desta operação, foram feitas também buscas num quartel da KSK, no sudoeste do país, é a unidade de forças especiais da Alemanha. Já não são de agora as suspeitas de ligações de elementos das forças especiais a movimentos neonazis. Há membros deste grupo infiltrados também nas forças policiais e militares alemãs?
Pelo que se sabe das pessoas que foram agora presas, apenas uma está no ativo nas forças de segurança, mas vários que foram objeto de detenção e alguns que foram objeto de buscas, ou cujas propriedades foram objetos de buscas, são ex-membros das forças de segurança, em particular da polícia, mas também das Forças Armadas. Isto por duas razões: número um, porque a extrema-direita alemã e alguns movimentos dentro da extrema-direita alemã, em particular, têm uma estratégia clara, que não é de agora, que é há décadas, pelo menos desde o final dos anos 80, anos 90, de tentativa de infiltração nas forças de segurança, seja na polícia, seja nas Forças Armadas alemãs, em particular nas forças especiais. No caso deste grupo, também há a questão de que o grupo cresceu muitíssimo, ou seja, hoje em dia estima-se que este grupo tenha qualquer coisa como 18 mil aderentes, dos quais cerca de mil foram categorizados como extremistas de extrema-direita, com ideias ou com potencial de violência. Isso significa que esse grupo é particularmente perigoso, não apenas pelas possíveis ligações às forças de segurança, mas sobretudo ao aparelho administrativo do Estado e a entenderem, a terem contactos de pessoas muito próximas do que poderia ser, por exemplo, a investigação.
E podemos dizer que nos últimos anos se têm intensificado as atividades destes grupos de extrema-direita, nomeadamente até com alguns ataques violentos?
Sim, efetivamente, o número de ataques tem vindo a aumentar na Alemanha, e os números do próprio gabinete de proteção da Constituição mostram isso bastante bem. Desde 2016, 2017, que nós vemos um aumento do número de pessoas que entraram no extremismo, e dentro desses, um aumento do número de pessoas que professam a violência, um aumento em 2019 e 2020 e uma ligeira diminuição em 2021 do número de casos criminais contra estas pessoas, e também um número crescente de eventos culturais e musicais ligados à extrema-direita, em particular a grupos neonazis na Alemanha, que são formas de fazer network e de criar alianças entre os grupos e de recrutar novos membros. 2014, 2015, 2016, tivemos um aumento muito grande destes ataques e agora estamos a ver um aumento do número de pessoas, mas não necessariamente do número de ataques, em larga medida porque o Estado alemão passou também a levar isto muito mais a sério. Ou seja, o Estado alemão, ou as forças de segurança alemãs, historicamente, sobretudo as suas unidades de contraterrorismo e os seus serviços de informações, quando olham para este assunto, estão sobretudo preocupados, historicamente, com a extrema-esquerda ou com o terrorismo de extrema-esquerda, por uma razão simples: porque historicamente, nos anos 70 e 80 e início dos anos 90, eles eram mais prosvalescentes, nomeadamente as Brigadas Vermelhas, como aliás também houve em Itália, o grupo Baader-Meinhof, etc. E, portanto, o Estado virou-se para esse lado. Isso significa que houve até, se quisermos, alguma facilidade nos anos 90 e 2000, de algum recrutamento de pessoas de extrema-direita dentro das forças de segurança, e o Estado alemão passou a olhar para isso com muita cautela. Portanto, há grupos de extrema-direita que evadiram a Justiça durante muito tempo e não foram investigados durante muito tempo, porque nós hoje sabemos, havia pessoas, seja nos tribunais, seja na polícia, seja no serviço de informações, que tinham alguma simpatia por esses grupos, que eram vistos como grupos anti extrema-esquerda, por serem de extrema-direita, e que portanto cultivaram relações com esses grupos e muitas vezes os avisavam ou fechavam o olho. Aliás, havia o dito em alemão de que a polícia alemã era cega do olho direito Só via com o olho esquerdo ou só via para a esquerda. E de facto, as reações eram sempre muito brutais quando havia grupos anarquistas ou anarco-sindicalistas ou protestos violentos, por exemplo, nos anos 90, antiglobalização, era sempre muito forte a reação, ao passo que estes grupúsculos de extrema-direita foram-se organizando e foram fazendo cada vez mais ataques. Quando isto começou a chegar, em 2016, 2017, às forças militares e às forças de polícia, e houve provas disso, e também aos serviços de informações, houve uma tentativa do Estado alemão de fazer alguma coisa em relação a isso, de forma menos aparatosa, e o que estamos a ver hoje é fruto disso. Ou seja, hoje o Estado alemão tem muito mais cuidado com isso, porque vê, não só na Alemanha como na Europa toda, o tipo de terrorismo que mais mata na Europa não é nenhum destes, nem a extrema-direita, nem a extrema-esquerda, é o terrorismo etnosseparatista, historicamente tem sido sempre o caso, não é o terrorismo nem religioso, nem de extrema-direita, nem de extrema-esquerda, é o terrorismo etnosseparatista, continua a ser o caso, mas o que teve maior expressão de crescimento é claramente o terrorismo de extrema-direita. E o terrorismo de extrema-direita pauta-se por ter normalmente menor número de ataques do que a extrema-esquerda e do que, por exemplo, o terrorismo jihadista, mas de ter ataques bastante letais.
Há também uma história curiosa, de resto, no âmbito desta operação. É que foi detida também uma cidadã russa suspeita de apoiar o movimento e que, alegadamente, segundo as histórias, estaria encarregue de tentar procurar o apoio de Moscovo para este grupo. Ora isso, o certo é que levou mesmo a embaixada da Rússia em Berlim a emitir um comunicado em que rejeita que Moscovo tenha ligações a movimentos de extrema-direita alemães. Sabe-se quem é esta pessoa ao certo?
Pelo nome e por onde foi presa, portanto, junto da residência permanente do tal príncipe de Reuss, julga-se ser a sua companheira de longa data, muito próxima a ele e envolvida neste mesmo grupo. A polícia alemã teve muito cuidado em divulgar que sim, essa era a informação que tinham de uma tentativa do grupo de ter tido algum apoio por parte da Rússia, mas que não havia até agora nenhuma prova de que a Rússia tivesse dado esse apoio efetivamente, muito menos do ponto de vista da violência. A Rússia distancia-se particularmente, do ponto de vista público, de tudo o que é violência neonazi. Agora o que acontece é que havendo um distanciamento muito claro em relação a estes grupos e não havendo apoio direto, muito menos provas de apoio direto às suas ações violentas, aquilo que há são campanhas de desinformação que criam uma espécie de um meio, ou apoiam a criação, o crescimento e o recrutamento de uma espécie de um meio que está entre a extrema-direita e as teorias da conspiração. Para a Rússia, portanto, para os serviços de informações militares russos, nomeadamente o GRU, que tem unidades específicas para formularem operações de desinformação de larga escala na União Europeia e nos Estados Unidos, o que interessa é a desestabilização, número um, do sistema político. Número dois, o enfraquecimento da unidade europeia. Portanto, todos os grupos e quase todos os grupos nacionalistas e de extrema-direita alemães são contra a União Europeia e são contra o que eles veem como o globalismo. E portanto, à Rússia interessa-lhe promover isso, interessa-lhe que as pessoas tenham esse tipo, ou que haja movimentos fortes que tenham esse tipo de ideias, porque isso leva à tentativa de haver euroceticismo, saída da União Europeia, pouca força das Nações Unidas, pouca força dos standards internacionais e um retorno ao nacionalismo e às esferas de influência nacionais. E isso é uma agenda que interessa a Moscovo, mas Moscovo, desse ponto de vista, apesar de ter uma preferência claramente por questões, por exemplo, de supremacia branca, grupos supremacistas brancos, nacionalistas, conservadores, reacionários, antissemitas, antieuropeus, sim, mas também apoia outros tipos de ações. O Brexit, por exemplo, o nacionalismo catalão, seja o que for, desde que isso lhe traga alguns dividendos.
Obrigado, professor Daniel Pineau.
Obrigado eu. Foi um prazer. Muito obrigado.
Daniel Pineau é especialista em terrorismo e segurança internacional. Esta foi a história do dia. Neste episódio usámos sons de notícias da Al Jazeera, da Deutsche Welle e do Channel 4. A sonoplastia e a música do genérico são do João Ribeiro. Eu sou o João Santos Duarte. Até segunda-feira.