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Esta é a história do dia da Rádio Observador. Quão real é a ameaça nuclear feita por Vladimir Putin?
"В ход пошёл и ядерный шантаж. Речь идёт не только об поощряемых Западом обстрелах Запорожской атомной электростанции".
Nesta declaração, o presidente russo acusa a NATO de usar o poder nuclear para fazer chantagem. Diz que não está a falar da central de Zaporízhia. Vladimir Putin diz que se refere a altos dirigentes da NATO que terão admitido usar armas de destruição maciça contra a Rússia, armas nucleares.
"О возможности и допустимости применения против России оружия массового поражения, ядерного оружия".
Numa comunicação ao país, a primeira desde o início da guerra, Putin lembra que tem armas, algumas mais modernas do que as da NATO, segundo explica, e não hesitará em usar todo o seu arsenal contra qualquer ameaça, e remata dizendo: "Isto não é bluff".
"Для защиты России и нашего народа мы безусловно используем все имеющиеся в нашем распоряжении средства. Это не блеф".
Há 60 anos, o mundo parou de respirar. Em outubro de 62, o presidente norte-americano, Kennedy, impôs um bloqueio naval a Cuba perante a possibilidade de instalação de armas nucleares soviéticas a menos de 200 km dos Estados Unidos. Em plena Guerra Fria, Khrushchev e Kennedy foram os protagonistas da crise dos mísseis de Cuba. Nunca o planeta tinha estado tão próximo de uma guerra nuclear. Ao longo dos últimos meses, foram várias as ameaças, mais ou menos assumidas por Putin, de possibilidade de recurso a armas nucleares. Sessenta anos depois, estamos a viver uma nova ameaça de aniquilação? Vou conversar com o major-general Isidro Morais Pereira sobre este perigo e sobre de que armas estamos, afinal, a falar. Eu sou o Ricardo Conceição e esta é a história do dia. Bem-vindo, senhor general Isidro Morais Pereira.
Muito obrigado pelo convite que me endereçaram.
Vamos começar por perceber de que tipo de armamento estamos aqui a falar. Quando ouvimos falar em nuclear, vêm-nos à memória os cogumelos atômicos, a devastação em Hiroshima e Nagasaki, no Japão. O poderio bélico hoje à disposição das grandes potências é muito superior àquele que vimos no final da Segunda Guerra Mundial?
É muito superior, porque no pós-Segunda Guerra Mundial foram desenvolvidos outro tipo de armas. No tempo da Segunda Guerra Mundial foram duas armas que foram utilizadas, uma em Nagasaki e outra em Hiroshima, que eram bombas de fissão, eram bombas de urânio enriquecido e que funcionam pelo processo de fissão nuclear. Ou seja, os átomos de urânio 235 cindem-se. Eles são instáveis, têm mais neutrões no núcleo do que os isótopos normais de urânio, aqueles que são estáveis, e têm tendência a libertar neutrões do núcleo, neutrões esses que saem acelerados do átomo e provocam a cisão dos átomos ao lado e entram naquilo que se designa por reação em cadeia, libertando uma quantidade de energia muito significativa. Isto são as armas de fissão. As armas que foram utilizadas, uma delas tinha o equivalente, quando eu digo quilotoneladas, é o equivalente em trinitotolueno, que é a substância que nós conhecemos por TNT. Eram armas, uma de 25 quilotoneladas, ou seja, o equivalente a 25 mil toneladas de TNT, e outra de 20 quilotoneladas. Ora, hoje são muito mais poderosas.
Consegue dar-nos um termo de comparação?
Consigo. A maioria das ogivas nucleares que os Estados Unidos têm são ogivas termonucleares, são bombas de fusão nuclear, que têm uma potência entre o equivalente a uma a duas megatoneladas de TNT. Estamos a sair do patamar quilotoneladas, mil para um milhão. É uma diferença brutal.
Nós não conseguimos imaginar sequer o que é que isso é.
Conseguimos imaginar que, por exemplo, a deflagração de uma ogiva termonuclear, por exemplo, no centro de Lisboa, poderia praticamente varrer do mapa Lisboa inteira.
A cidade toda.
A cidade toda, uma ogiva de duas megatoneladas. Hoje em dia são armas de fusão. E para termos a noção, o detonador de uma arma nuclear é uma arma atômica. Para que dois átomos de hidrogênio se fundam e produzam um átomo de hélio, é preciso criar uma temperatura próxima de 10 milhões de graus. E essa temperatura é criada com a detonação prévia de uma arma de fissão, de uma arma atômica de pequenas dimensões. Isto para termos a noção. O conhecimento que eu tenho é que a Rússia conta no seu arsenal com cerca de 6 mil ogivas desta natureza Se bem que relatórios dignos de alguma credibilidade dizem que apenas 2 mil estão em condições de ser utilizadas, porque estas armas também necessitam de ser mantidas. Elas estão em depósito, mas precisam de uma manutenção permanente.
E do outro lado do muro, se me permite a expressão.
Outra coisa muito importante é que a maioria delas são de 500 quilotoneladas, portanto, meia megatonelada. Enquanto do lado americano, que é a principal potência nuclear da NATO, são cerca de 5800 ogivas, todas elas mantidas e em perfeitas condições de serem utilizadas. E a grande maioria delas são ogivas de uma a duas megatoneladas.
Senhor General, e depois também temos aqui uma divisão, e perdoe-me se vou ser demasiado simplista, entre armas desse calibre mais pesadas e armas nucleares ligeiras ou táticas?
Temos, exatamente. As armas nucleares táticas são armas que têm uma potência inferior à de Hiroshima e Nagasaki, entre as duas e as 10 quilotoneladas, que nunca foram usadas em conflitos, mas doutrinariamente podem ser utilizadas para destruir posições fortificadas, posições muito difíceis de vencer e, fundamentalmente, concentrações de tropas. São fundamentalmente previstas para serem utilizadas contra objetivos militares, visando a destruição do potencial de combate das forças opositoras. Esse é o primeiro patamar. E são normalmente armas nucleares, são armas atômicas, não são armas de fusão. E dependendo do estado do conflito e das regras de empenhamento que são estabelecidas para um determinado conflito, as famosas rules of engagement, se for autorizada a utilização desse tipo de armamento, pode ser delegada a autoridade para decidir sobre a utilização desse tipo de engenhos, com uma potência mais limitada, pode ir até aos comandantes de divisão ou de corpo de exército.
Estamos a falar de que patente?
Estamos a falar sempre de oficiais-generais.
Oficiais-generais.
De, normalmente, duas ou três estrelas, pelo menos.
Já voltamos à conversa com o Major-General Isidro Morais Pereira.
История России и Украины.
Em russo, isto significa história da Rússia e da Ucrânia. E José Milhais vai explicá-la em bom português a partir do dia 22 de setembro, no primeiro curso da Academia Observador. E nem precisa de sair de casa. Inscreva-se em academia.observador.pt.
Пока.
Até lá.
Academia Observador. Grandes cursos a pequenos preços. Voltamos à conversa com o general Isidro Morais Pereira. Todos temos no nosso imaginário, senhor General, aquela ideia do líder da superpotência que carrega no botão e do militar que carrega a pasta com os códigos e que nunca está muito distante do presidente. Nas potências ocidentais, há vários níveis de controle até que a arma seja eventualmente disparada, e estamos aqui a falar de armas nucleares. E na Rússia, daquilo que sabemos, também há esses degraus, também existem esses degraus e esses níveis?
Na Rússia, do conhecimento que tenho, mesmo do tempo da União Soviética, julgo que não terá havido grandes alterações. Também a decisão naturalmente está ao mais alto nível, normalmente ao nível da decisão política, ou seja, do respectivo presidente, mas desde que o presidente decida pela utilização de um engenho nuclear, seja ele de que tipo for, tático ou estratégico, até que a utilização desse tipo de armamento seja feita, há um circuito relativamente complexo. Isto para dizer que a decisão não está apenas num homem. Por exemplo, nos Estados Unidos, quando o presidente agarra no telefone vermelho e dá ordens, ele fala com o general, que é o comandante das forças nucleares estratégicas ou das forças nucleares. Depois há uma consulta entre os chefes militares e só mais tarde é que é dada, de facto, a ordem e é verificada, naturalmente, se a ordem é legítima.
Não está num homem só esse poder.
Não está num homem só e na Rússia também não está num homem só.
E no limite, e eu estou a falar aqui com o major-general, com o oficial superior, um militar pode desobedecer a esta ordem do presidente?
Para que seja utilizada uma determinada arma, é preciso conhecer um conjunto de códigos, e os códigos não estão todos na mão da mesma pessoa. Portanto, não basta que um tenha os códigos, é preciso que o conjunto de pessoas que estão envolvidas na tomada de decisão e na ativação de uma ordem para utilizar uma arma nuclear, por exemplo, uma arma nuclear estratégica, é preciso um conjunto de códigos, e é preciso que esse conjunto de códigos seja introduzido no computador respectivo. E um determinado militar pode conhecer uma parte dos códigos, mas não os conhece todos. Portanto, não é muito fácil haver por parte de um militar, num ato deslocado, de decidir utilizar um engenho nuclear.
Ou seja, a ideia de tudo isto é tão terrível que até a forma como foi construído o sistema permite válvulas de escape e permite que várias pessoas contribuam para uma decisão.
Por serem várias pessoas é que o sistema é mais seguro e está mais protegido contra Contra má vontade ou contra um ato deslocado de alguém que sozinho decide por si utilizar ou lançar uma ogiva nuclear através de um qualquer vetor. Portanto, é uma questão de segurança também.
E atualmente, com a capacidade dos mísseis que transportam as ogivas, ninguém está fora de alcance ou ainda há países como Portugal que estariam fora de alcance de um ataque russo?
Portugal está dentro do alcance dos vetores, porque a Rússia tem mísseis com alcances que vão até os 20 mil quilômetros. Há um míssil que é o Satan 2, que ainda há bem pouco tempo o Putin fez questão de mostrar ao mundo que tinha um novo míssil designado por Satan 2, que é capaz de atingir os Estados Unidos pela órbita do polo sul. Portanto, Portugal não está livre de ser atingido por um desses mísseis. Portugal poderá estar mais exposto que muitos outros países, porque nós não temos sistemas modernos de defesa antiaérea baseados em terra. A única coisa que nós temos, que é capaz de nos defender de ameaças aéreas, são os F-16M, que são bons aviões, mas armas antiaéreas como o Iron Dome de Israel, como o NASAMS, que protegem os centros de decisão políticos de Washington, o Capitólio e a Casa Branca, o sistema IRIS-T alemão. Todos estes sistemas, que são de defesa antiaérea, baseados em terra, que cobrem grandes áreas com um raio de cerca de 20 a 40 km, nós não temos esse tipo de armamento. Portanto, nós estamos ainda mais expostos. De qualquer maneira, existe um escudo de defesa antimíssil da NATO. São fundamentalmente mísseis Patriots americanos, alguns deles localizados na Alemanha, hoje também alguns na Polônia, julgo que na Romênia também há.
Funciona como muralha, não é?
Funcionam, é o chamado escudo de defesa antimíssil. Nós estamos um bocado protegidos, de alguma forma, pelo escudo de defesa antimíssil dos outros parceiros da NATO e da NATO em si mesma, mas defesa antiaérea próxima, tirando alguns mísseis Stinger que ainda temos de curto alcance, temos os aviões F-16. Temos uma grande lacuna que é a inexistência de sistemas de defesa antiaérea de médio e de longo alcance baseados em terra, capazes de defenderem o território nacional contra mísseis, drones, aviões, helicópteros e outro tipo de ameaças vindas do ar.
Em outubro assinalam-se os 60 anos da crise dos mísseis de Cuba. O senhor general diria que este é o momento mais perigoso dos últimos 60 anos ou é um pouco exagerado pensar nisto?
De facto, a crise dos mísseis de Cuba foi um dos momentos mais perigosos em termos de possibilidade de haver um confronto nuclear. E eu julgo que essa ameaça, tipo a espada de Damocles, sempre esteve sobre a nossa cabeça durante o tempo da Guerra Fria. Só que existia aquilo que nós designamos na gíria militar e estratégica pela lógica do MAD, da destruição mútua assegurada. MAD é no acrônimo inglês, Mutual Assured Destruction. Portanto, todos nós sabíamos que qualquer uma das potências podia iniciar um ataque nuclear, só que a retaliação era de tal maneira que os ganhos não compensariam as perdas.
"A nuclear war cannot be won and must never be fought."
E encontra paralelo com a situação atual?
Eu diria que depois da crise dos mísseis de Cuba, nunca se entendeu sobre o mundo, e quando digo mundo, digo mais aqui a Europa e o mundo ocidental, nunca nós estivemos tão perto da possibilidade de existir a utilização desse tipo de armas, começando, se calhar, pelo patamar mais baixo. Mas a verdade é que a mesma lógica que permitiu que durante cinco décadas vivêssemos em paz, pelo menos ao abrigo da inexistência da utilização desse tipo de armas, das armas nucleares, que normalmente provocam destruição sem precedentes, não é apenas a mortandade do momento, mas aquilo que fica também pro futuro. Agora, dito isto, de facto, esta ameaça velada do Putin já tinha sido verbalizada por Medvedev e até por outros responsáveis e ideólogos próximos de Putin, como Alexander Dugin e outros, mas desta forma tão explícita.
"Мы безусловно используем все имеющиеся в нашем распоряжении средства. Это не блеф."
Em que ele teve o cuidado de dizer: "E isto não é blefe".
Deve ser levada a sério esta ameaça?
Eu diria que se por um lado isto é um sinal de fraqueza, porque o é, é um sinal claro de fraqueza do Putin, uma ameaça desta natureza deve sempre preocupar-nos e deve sempre colocar todos os sistemas de defesa de que a NATO dispõe e de que o Ocidente dispõe em alerta. Isso não tenho a mínima dúvida. Agora, da ameaça e de ter dito que não é blefe até à utilização de engenhos nucleares, vai uma distância muito grande, até porque a utilização de engenhos desta natureza, se forem utilizados no teatro de operações da Ucrânia, não terão só efeitos nefastos para a Ucrânia, mas também terão pra Rússia, porque se a Rússia tem pretensões a conquistar partes do território ucraniano, não vai querer apoderar-se de um território contaminado radioativamente, onde houve destruição em massa e por aí fora. Quer dizer, penso que isto não faz grande sentido e embora pensemos que Putin neste momento se encontra numa posição de fraqueza, eu penso que a racionalidade ainda continua a reinar no Kremlin.
Muito obrigado, senhor general Isidro Morais Pereira.
Muito obrigado eu, e quando precisarem estarei sempre disponível.
O major general Isidro Morais Pereira tem sido presença assídua na Rádio Observador e também nas televisões para comentar os avanços da guerra. Esta foi a história do dia. A sonoplastia é do Diogo Casinha. A música do genérico, do João Ribeiro. Eu sou o Ricardo Conceição. Até amanhã.