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Esta é a história do dia da Rádio Observador. Sampaio da Nóvoa é o candidato que vai unir quase toda a esquerda?
A minha candidatura não seria suficientemente abrangente para ser suficientemente forte. A melhor candidatura possível é a candidatura de uma personalidade independente, oriunda da sociedade civil.
Em vez de candidaturas, temos anúncios de não candidaturas. Augusto Santos Silva e António Vitorino não vão ser candidatos à Presidência da República em janeiro de 2026. O antigo presidente da Assembleia da República anunciou a decisão esta quarta-feira, mas deixou pistas que apontam para um outro candidato, uma tal personalidade independente, oriunda da sociedade civil. E quem será esta pessoa? O Observador sabe que PS, Bloco e Livre têm conversado sobre a possibilidade de ser António Sampaio da Nóvoa. Será este o candidato que finalmente vai unir a esquerda na corrida a Belém? Vou conversar com Rita Tavares, grande repórter da seção de Política do Observador e que habitualmente acompanha o Partido Socialista. Eu sou a Teresa Cacis e esta é a história do dia de quinta-feira, 03 de julho. Bem-vinda, Rita.
Olá, Teresa.
Augusto Santos Silva anunciou esta quarta-feira que não é candidato à Presidência da República. Mais um anúncio de um não candidato, depois de António Vitorino. Neste momento, temos Marques Mendes, Gouveia e Melo, António José Seguro, Mariana Leitão, António Filipe. O não anúncio de Santos Silva surpreendeu-te?
Santos Silva criou uma expectativa ao marcar um dia para fazer um anúncio, sobretudo depois das declarações que tinha vindo a fazer sobre António José Seguro, o antigo líder do Partido Socialista, que já oficializou a sua candidatura para as presidenciais. Santos Silva disse de Seguro que só diz banalidades e que não cumpre requisitos mínimos para uma candidatura que seja agregadora. Apesar desta sua ponderação, em que chegou à conclusão que ele próprio não poderia protagonizar uma candidatura agregadora, parece estar exatamente isto: ele não conseguir ir muito mais além de algum Partido Socialista, que no fundo é o que ele acusa António José Seguro de conseguir fazer, de não conseguir entrar também à esquerda do PS. O Livre e o Bloco de Esquerda também estão à procura de um candidato presidencial no espaço político onde se situam e um candidato com que se sintam confortáveis, e têm dito até agora que ainda não existe nenhum.
Augusto Santos Silva anunciou que não era candidato, mas também não disse só isso. Argumentou que o melhor candidato seria, nas palavras dele, uma personalidade independente, oriunda da sociedade civil. Dito assim, parece que já está a pensar em alguém em concreto.
Parece uma definição muito genérica, mas tendo em conta o contexto que nós já conhecemos, percebemos que só faltou ali mesmo dizer três palavrinhas: António Sampaio Nóvoa. Nos últimos dias, terá existido até uma conversa entre os dois sobre este assunto das presidenciais. Santos Silva não quis confirmar essa conversa ao Observador e diz que a sua decisão de hoje só o responsabiliza a si mesmo. Mas a verdade é que aquilo que disse sobre a necessidade de existir uma candidatura de uma figura independente nesta altura do campeonato acaba por colocar uma pressão imensa sobre Sampaio da Nóvoa, o nome que já concorreu nas presidenciais em 2016 e até com o apoio de parte do Partido Socialista, que tinha tido também como uma candidata adversária de Sampaio da Nóvoa, uma antiga presidente do partido, Maria de Belém, que tinha sido presidente do PS até 2014.
Sampaio da Nóvoa poderá então ser, desta vez, a tal candidatura suficientemente abrangente para ser suficientemente forte? Aqui estou outra vez a citar Augusto Santos Silva.
Sim, é um nome que já se disponibilizou uma vez, essa de que falámos aqui, e que ainda em dezembro passado, na cerimónia da sua jubilação, não descartou a ideia, o que fez até alguns dos elementos que o conhecem melhor ficarem alerta para uma eventual futura disponibilidade. Mas dezembro foi outra vida. Não tinha havido estas legislativas e o PS andava entretido com vários presidenciáveis possíveis na sua área política, como Mário Centeno, António Vitorino, António José Seguro, Ana Gomes. O líder ainda era Pedro Nuno Santos, que na altura até falou com todos. Todos estavam ainda em campo. Entretanto, as possibilidades afunilaram-se muito e Santos Silva, que também já tinha chegado a estar em campo como presidenciável quando foi presidente da Assembleia da República, também noutra vida, a da maioria absoluta socialista, voltou entretanto a jogo. Depois de António Vitorino ter dito que não estava disponível para Belém, era outra figura do Partido Socialista de quem se aguardava uma reflexão e uma conclusão. Agora sai, mas a deixar a ideia de que no campo do centro-esquerda continua a precisar de alguém que tenha a capacidade de juntar, nesse lado, o maior número de apoios
E qual tem sido a posição do antigo reitor da Universidade de Lisboa em relação a uma possível candidatura a Belém? Ele, como disseste, já foi candidato em 2016, quando Marcelo Rebelo de Sousa foi eleito pela primeira vez.
Foi, e nessa altura teve 1 milhão de votos, ficando em segundo lugar atrás de Marcelo. Desde lá até aqui não tem feito propriamente um uso muito intensivo desse crédito eleitoral. Ainda assim, foi aparecendo em algumas iniciativas políticas dos vários partidos que apoiaram essa candidatura presidencial, o Bloco, o Livre e também alguns elementos do Partido Socialista. Ainda que lá está, em 2016, o PS não lhe tenha dado tal apoio formal, António Costa chamou-o posteriormente para alguns dos comícios nas legislativas, por exemplo, na campanha de 2022, e nessa altura o PS também o indicou como membro do Conselho de Estado. É um nome que sempre teve boa aceitação no círculo de António Costa no PS e muitos desses elementos o apoiaram na sua candidatura presidencial. Um deles foi, por exemplo, o então e agora ainda presidente do partido, um elemento sempre muito próximo de António Costa, Carlos César, que oficializou o seu apoio, prestou-lhe o seu apoio na campanha de 2016.
Já regressamos à conversa com Rita Tavares, grande repórter da seção de política do Observador. Na segunda parte, olhamos para a estratégia da esquerda nestas presidenciais, ou pelo menos para aquilo que podemos espreitar nos bastidores neste momento. Estamos de regresso à conversa com a jornalista Rita Tavares. Rita, o PS ainda não disse quem vai apoiar na corrida a Belém ou se vai apoiar alguns dos candidatos, mas já tem um ex-secretário-geral candidato, António José Seguro. Mesmo assim, continuam a surgir outros nomes dentro do campo socialista. Seguro, tal como Augusto Santos Silva, também não é suficientemente abrangente?
Parece-me que eles têm exatamente os mesmos problemas. António José Seguro tem o mesmo problema à esquerda que Augusto Santos Silva. No caso de Seguro, se calhar até é um bocadinho maior, já que ele foi sempre visto como alguém demasiado ao centro, muito criticado na altura, por exemplo, da ajuda externa a Portugal, em que o PSD estava no governo e o PS estava mais próximo de acordos com o PSD de Passos Coelho. Portanto, tem esse problema à esquerda e também tem um problema dentro do próprio PS. E tal como Santos Silva, que também tem essas mesmas resistências, alguns anticorpos também dentro do partido. E até já falámos aqui numa história do dia destes anticorpos grandes que existem relativamente a António José Seguro e, nomeadamente, até um anticorpo, que é o próprio Augusto Santos Silva, que tem mantido acesa a crítica à candidatura de António José Seguro nos últimos tempos, como bem o temos ouvido.
No ano em que Sampaio da Nova foi candidato e Marcelo Rebelo de Sousa ganhou as eleições, também Maria de Belém foi candidata. Nesse ano, o PS não apoiou oficialmente nenhum candidato. A multiplicação de candidaturas dentro da área socialista tem vindo a ser regra nas eleições presidenciais.
É, parece fatal como o destino para o partido e talvez tenha alguma explicação na falta de uma preparação e de uma estratégia e nomes de forma atempada. E claro, faltam nomes óbvios no Partido Socialista. Note-se que há uns tempos o PS teria naturalmente apontado a presidenciais de 2026 nomes ou de uma geração como a de António Guterres, que não está disponível porque é secretário-geral da ONU, ou de outra geração mais nova, como a de José Sócrates ou de António Costa, que é a mesma geração. Sócrates poderia ter essa ambição, mas entretanto aconteceu todo o processo judicial que todos conhecemos. António Costa nunca esteve disponível para uma candidatura presidencial, sempre rejeitou esse avanço. E a partir daí, o PS andou sempre perdido, à procura de nomes possíveis que pudessem marcar terreno à esquerda e potenciar as hipóteses de regressar a Belém, onde já não está desde 2006. Era presidente Jorge Sampaio, é natural que isso também comece a pesar.
E o resto da esquerda, como é que se posiciona em relação a Seguro ou a Sampaio da Nova?
O PCP arrumou esta semana a sua questão com a candidatura de António Filipe à Presidência da República. Já o Bloco de Esquerda e o Livre estão órfãos, digamos assim, e a candidatura de Sampaio da Nova podia resolver o problema. Ambos sentem que os nomes que até agora avançaram à esquerda, António Filipe e António José Seguro, até podem estar no mesmo espaço político, de alguma maneira, mas que a linha é diferente e António Sampaio da Nova poderia resolver essa questão. Falámos com alguns elementos dos dois partidos e essa convicção foi manifestada. Aliás, no passado fim de semana, o Bloco teve uma reunião da Mesa Nacional, que é o órgão máximo entre convenções do partido, e escreveu na resolução que ficou dessa reunião, que esperava que o campo da esquerda pudesse contribuir, e vou citar, com uma candidatura de convergência ampla, capaz de reunir o apoio de todas as forças à esquerda do PS, em defesa do Estado Social e das liberdades constitucionais. Uma descrição que é feita a pensar em Sampaio da Nova, que é o plano que o Bloco tinha e tem para estas presidenciais e onde coloca especial pressão. O Livre, por seu lado, tem o referendo interno marcado para depois das eleições autárquicas, para decidir a quem dará o seu apoio nas presidenciais. Mas o deputado Jorge Pinto disse ao Observador que Sampaio da Nova seria um nome com os requisitos para conseguir ter esse apoio do partido.
Antes das presidenciais, ainda temos as autárquicas. José Luís Carneiro, que tomou posse recentemente como secretário-geral do PS, já disse que só depois das autárquicas é que o partido se pronuncia sobre presidenciais. Ainda há tempo para muitos candidatos anunciarem a sua possível candidatura ou até A não candidatura, como tem acontecido este ano?
Ainda há tempo, mas há um problema com António José Seguro já oficialmente apresentado e tantas negas a aparecerem na área do Partido Socialista, os apoios começam a encarreirar-se e Seguro pode ir ganhando vantagem nessa contagem. A questão dos apoios partidários, nomeadamente no partido com a implantação do Partido Socialista, tem importância pelo efeito do arrastamento que podem ter junto dos militantes e simpatizantes. Os partidos têm máquinas e estruturas montadas e bem oleadas para o terreno eleitoral, por isso o seu apoio é apetecível, até para um candidato que se quer valorizar pelo perfil independente, como seria o caso do antigo reitor da Universidade de Lisboa, António Sampaio da Nova. Neste contexto, enquanto mais tempo existir esta ideia de um candidato único, mais os apoios se vão direcionando para o que há e o espaço político começa a estreitar-se e muito para quem quiser vir a apresentar-se como candidato na mesma área política.
Obrigada, Rita.
Obrigada.
Rita Tavares é grande repórter da secção de política do Observador. Deixo ainda três notas a ter em conta esta quinta-feira. Começa hoje o julgamento da Operação Marquês, que envolve o ex-primeiro-ministro José Sócrates. Quase 12 anos depois da abertura do processo de inquérito e oito depois da acusação deduzida pelo Ministério Público, Sócrates vai a julgamento por 22 crimes, três de corrupção, 13 de branqueamento de capitais e seis de fraude fiscal. Também esta quinta-feira, o ex-deputado do Chega, Miguel Arruda, é ouvido no tribunal no âmbito do processo que o levou à saída do partido, em janeiro deste ano. Arruda é arguido por suspeita de furto de malas nos aeroportos de Lisboa e Ponta Delgada. Os controladores de tráfego aéreo franceses começam hoje dois dias de greve em protesto contra o que consideram ser uma gestão tóxica e a falta de pessoal estrutural. As autoridades já pediram antecipadamente o cancelamento de um quarto dos voos com destino ou partida nos aeroportos de Paris. Os voos para e a partir de Portugal também poderão ser afetados. Esta foi a história do dia. A sonoplastia é do João Tição, a música do genérico é do João Ribeiro. Eu sou a Teresa Abecasis. Até amanhã.