Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
Esta é a história do dia da Rádio Observador: temos de nos habituar a viver com os incêndios?
Estamos há 25 dias seguidos a enfrentar condições de severidade meteorológica extrema e de sucessivos incêndios de grandes dimensões. O país está transtornado, as pessoas estão transtornadas e todos sabemos que há razões pra isso.
Quando falou na quinta-feira passada, Montenegro ainda não sabia que o maior incêndio que fustigava o país naquela altura ainda ia precisar de mais três dias até ser dado como controlado. Entretanto, o balanço é devastador. O fogo de Arganil é o maior de sempre no país, tendo consumido mais de 64 mil hectares. O terceiro maior fogo do país também é deste ano, deste mesmo mês de agosto. Trata-se do incêndio de Trancoso, no distrito da Guarda, com uma área ardida de cerca de 49 mil hectares. Ao todo, este ano, arderam 250 mil hectares e quatro pessoas morreram a combater as chamas. E o ano ainda não terminou. Em 2024, por exemplo, setembro foi o mês em que os incêndios queimaram maior área, e em 2017, ano da tragédia de Pedrógão, foi em outubro. É perante este cenário que o Parlamento discute hoje, num debate de urgência, o combate aos incêndios. Estamos a fazer tudo para prevenir e combater os grandes fogos? Temos meios suficientes? Por que estão os fogos cada vez maiores? Vou falar com Jorge Carvalho da Silva, vice-presidente da Associação Portuguesa de Técnicos de Segurança e Proteção Civil. Eu sou a Teresa Bacis e esta é a história do dia de quarta-feira, 27 de agosto. Bem-vindo, Jorge Carvalho da Silva.
Olá, obrigado pelo convite.
Começo por perguntar: nós estamos em agosto e estamos a falar de incêndios. Esta é uma conversa que se repete sempre nesta altura do ano. Estamos a descurar a floresta portuguesa durante o resto do ano?
Não é uma questão de estarmos a descurar a floresta no resto do ano. Nós estamos a descurar a nossa floresta pelo seu todo. Nós, ano atrás de ano, falamos sempre sobre os incêndios florestais entre julho e setembro, às vezes vai até outubro, e depois chega outubro e deixamos de falar de bombeiros e de incêndios até julho do ano seguinte. E depois acontecem grandes incêndios, como foi o histórico de 2017, em que foi emitida muita legislação penalizadora para os proprietários e ilusória da não limpeza, mas depois faltam os incentivos e falta a gestão da floresta. Falta darmos um passo para ajudar estas pessoas que são proprietárias da floresta, que grande parte são envelhecidos, que grande parte são resultado de pessoas que eram envelhecidas e que faleceram e que agora estão nos seus herdeiros, que não trabalham a floresta e que não têm nada a ver com a floresta, e falta um incentivo para que este setor seja visto e tido de outra forma. Isso é que estamos a descurar. Há anos a esta parte, sucessivamente, não estamos a caminhar no sentido certo de poder ter este evoluir de uma floresta ordenada, cuidada, ter uma estratégia comercial rentável, um ciclo de cadeia de valor à volta da floresta que permita que o interior não seja desertificado. É um bocado por aí. Acho que não é todos os anos que descuramos, é uma coisa que é de décadas e nós, na Associação Portuguesa de Técnicos de Segurança e Proteção Civil, há quase duas décadas que andamos a falar o mesmo.
Se por um lado os fogos são recorrentes no país no verão, por outro, há também uma realidade que está a mudar. Não quer dizer que seja novidade, mas a dimensão dos incêndios no país tem vindo a aumentar consideravelmente. Este verão, conseguimos conter, há poucos dias, aquilo que é considerado o maior fogo desde que há registro. Foi na região de Arganil, onde os trabalhos de combate às chamas duraram 11 dias até se dar o fogo por controlado. Onze dias é muito tempo para controlar um fogo, por que isso acontece?
Aqui não é o espaço temporal que está em causa. Aqui, voltando sempre ao início, o que é: acontece que um fogo decorre durante 11 dias, que leva cerca de 1600 a 1700 operacionais no combate em permanência nesse incêndio. Chegaram a estar 33 meios afetos a um incêndio, mas que não conseguimos dominá-lo. E não conseguimos dominá-lo porque a carga de combustível florestal disponível para queimar é de tal ordem que os meios disponíveis não conseguem travá-lo. A floresta este ano teve um excesso de crescimento de matéria florestal orgânica, mais mato rasteiro e também o desenvolvimento de parte da floresta, do arboreto florestal, porque tivemos um inverno mais chuvoso, mais intenso, e que chega a junho seca Sabemos que entre junho até 15 de julho, o solo, aqueles 20 a 30 centímetros abaixo do solo, desidratam totalmente e só temos umidade daí pra baixo, e as raízes rasteiras deste mato rasteiro morrem e leva a que esta carga combustível esteja lá presente. Porque entrar numa zona de um vale encaixado, na zona de Arganil, em que tem mato com dois metros de altura que cresceu durante o inverno, aquilo não é quase um barril de pólvora, mas é muito parecido a um barril de pólvora. Está lá muita carga orgânica que está disponível pra arder, seca e com uma combustibilidade elevada, com a temperatura alta, com o vento como esteve a soprar intensamente, chegou a ter índices de propagação de 30 km/h, que é um incêndio estar aqui agora e daqui a uma hora poder estar 30 quilômetros mais à frente num cone de propagação do vento que o leva. São cada vez mais recorrentes estas situações. Cada vez que tivermos o inverno mais acentuado, vamos ter um verão mais difícil. É sempre uma consequência de uma coisa ou da outra. Enquanto não transformarmos esta floresta em qualquer coisa que seja rentável.
E falando destas condições que vão sendo cada vez mais recorrentes, a nossa capacidade de resposta, os nossos meios, os nossos técnicos estão a acompanhar esta nova realidade ou a forma de combater os incêndios tem se mantido igual desde sempre?
Não, nós estamos cada vez mais fortes e robustos no que diz respeito ao combate. A estratégia de combate a incêndios está forte. Só que uma coisa é ter uma estratégia de combate a incêndios pra um incêndio tipologia normal, outra coisa é ter uma estratégia de combate a incêndios pra tipologias atípicas como tivemos, em que até as temperaturas não permitiram a calmaria do incêndio, em que a umidade relativa durante a noite não trouxe a calmaria do incêndio, em que a carga vegetal e o substrato está lá em grande quantidade. Estamos cada vez mais preparados, os bombeiros estão preparados, têm formação, têm estudo sobre propagação do incêndio, direção, qual é o cone, qual a probabilidade, onde é que ele vai parar daqui a 10 minutos, onde é que ele vai parar daqui a meia hora, onde é que ele vai parar daqui a uma hora. Sabem isso tudo, porque têm tido formação ao longo dos anos desta parte. Estamos aqui com dois setores que poderiam estar melhorados, que estão a evoluir, mas ainda não com a mesma proporção que o combate direto dos bombeiros. Estamos a falar do trabalho de maquinaria de rasto ligada diretamente ao Estado. O ICNF tem uma parte que trabalha bem e funciona com equipas de sapadores florestais e de vigilantes de natureza, mas ainda temos aqui um déficit, que deveríamos ter, talvez, a engenharia militar, o regimento de engenharia militar a dar um apoio diferente com as máquinas rasto, com estudo, com ter uma preparação prévia, com descontinuidade do terreno, com zonas de separação grande, bem limpas. E depois também máquinas em cenário de teatro de operações florestal, em que pudesse essa máquina fazer uma raspagem descontínua na zona em que se prepara para o incêndio se deslocar pra aquela zona, fazer uma descontinuidade grande. Para quê? Para que o incêndio vá naquela direção, chega ali e deixa de ter a carga florestal, porque foi raspada por maquinarias de rasto. Este trabalho da maquinaria de rasto está ainda em déficit. E depois o outro vértice é o combate a incêndios aéreo. Nós estamos bem preparados no ataque inicial, no ATI, nos helicópteros de primeira intervenção, que nos primeiros 10 minutos conseguem chegar lá, identificar o incêndio e jogar a primeira água pra tentar controlar entre os 10 e os 90 minutos iniciais, mas depois temos o déficit do combate ampliado, que é os meios de grande dimensão, de Fireboss, Canadair ou outra coisa mais forte, em que falou-se dos Embraer poderem fazer o combate a incêndios, mas não estão preparados sequer pra fazer combate a incêndios. Falou-se dos C-130 da Força Aérea poderem ser equipados, mas os nossos C-130 já têm uma idade tão considerável que já não dá pra equipá-los com os kits de combate a incêndios. Temos que ter uma política de ver esta situação do combate a incêndios também aéreo de outra forma. Talvez uma política de a Força Aérea ter um esquadrão dedicado a este tipo de aeronaves, com estudo de pilotos, pra formar pilotos nesta tipologia e aumentar uma frota.
Já regressamos à conversa com Jorge Carvalho da Silva. Na segunda parte falamos de ondas de calor e de medidas que podem ser tomadas para prevenir estes fogos. Estamos de regresso à conversa com Jorge Carvalho da Silva, da Associação Portuguesa de Técnicos de Segurança e Proteção Civil Olhando para o contexto em que os fogos acontecem em Portugal, é inevitável falarmos do clima. Como disse há pouco, nos últimos anos a dimensão dos incêndios tem vindo a aumentar significativamente. Ouvimos muitas vezes dizer que temos de nos habituar aos incêndios, mas temos de nos habituar a quê, exatamente? A que eles existam, a que eles sejam cada vez maiores, a ver as pessoas e as casas ameaçadas?
Nós temos que nos habituar a que o risco existe e que a probabilidade do incêndio ocorrer, aconteça. Mas nós não temos que nos habituar aos incêndios. Nós temos que nos habituar a ter métodos e procedimentos diferentes que possam mitigar a probabilidade de ocorrência destes incêndios. E sim, nós temos que nos preparar. Temos que nos preparar muito forte. As alterações climáticas vêm nos dar uma diferença que é: aumentando a intensidade do calor, a radiação solar, o calor por si, a quantidade de ultravioletas que chega à superfície terrestre, faz com que a matéria orgânica fina, que é aquele substrato vegetal, seque mais depressa e desidrate num ponto em que o seu índice de combustão é máximo. E nós, a partir desse momento, sabemos que aquela matéria orgânica, que até maio, se estiver sujeita a incêndio, tem uma propagação de incêndio de dois, três, quatro quilómetros hora, quer dizer, o incêndio começa aqui, daqui uma hora, no máximo dos máximos, poderá ter feito um curso de três quilómetros. Sabemos que quando chega de 15 de julho a 15 de agosto, com o vento certo, que é o fator dos 3/30, 30 km/h de vento, acima de 30 de calor e abaixo de 30% de humidade, é o perfeito cenário para a grande propagação de incêndios. E esse grande cenário pode nos dar propagações de incêndios com muita velocidade. É isso que nós temos que preparar. Temos que preparar para mitigar isto de outra forma.
E estamos a trabalhar nesses métodos, ou seja, no resto do ano, estamos a preparar-nos devidamente para evitar que estes grandes incêndios aconteçam?
Nós temos uma política de gestão florestal em Portugal que, na nossa opinião, não está bem conseguida. Existem explorações florestais, sejam elas pinheiro, eucalipto, mas depois existem terrenos de cadastro florestal e rural que estão ao abandono. Porque não são produtivos, porque são incultos, porque são vertentes muito íngremes, porque não têm capacidade de produção florestal. Logo, a matéria orgânica florestal cresce nela desordenadamente e não há capacidade de utilizar essa matéria para nada. Nós, há mais de 10 anos a esta parte, falamos que temos que retirar esta matéria orgânica e convertê-la. Convertê-la a substrato florestal, através de transformação, convertê-la a produtos de apoio para o aquecimento, como pellets para o aquecimento no inverno, ou diretamente através da sua combustão, poder fazer a produção de energia. A União Europeia diz que a produção de energia através de queimar vai produzir dióxido de carbono. Sim, mas combustão controlada produz dióxido de carbono e nós conseguimos filtrar o que vai pra atmosfera. Em incêndio livre, desordenado, nós não conseguimos controlar nada do que vai pra atmosfera. Eu digo sempre que inicialmente passará por um apoio estatal, europeu, numa fase inicial, aglomeração dos proprietários entre si para que entre todos façam uma associação que possa recolher, tenha uma máquina de rasto, que tenha um caminhão de transporte e que ao mesmo tempo se arranje umas centrais de transformações em zonas de interior, também para dar trabalho a estas pessoas, assim como se apostou na reciclagem há uns anos e o programa de reciclagem em Portugal trabalha, funciona, também tem que haver uma reciclagem desta matéria florestal para utilizá-la. Tudo isto tem que ser um setor todo equilibrado, e eu digo sempre, com o apoio da Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil e dos bombeiros, porque os bombeiros têm que ser integrados na verificação do que está a ser limpo, que é pra quando chegar a altura do incêndio, saber onde é que está limpo e onde é que não está.
Mesmo pra terminar, o combate aos incêndios vai estar em discussão esta quarta-feira no Parlamento. Há alguma medida em particular que gostava de ver em cima da mesa, alguma área onde gostava de ver mais investimento?
Na prevenção.
Obrigada, Jorge Carvalho da Silva.
Obrigado eu.
Jorge Carvalho da Silva é vice-presidente da Associação Portuguesa de Técnicos de Segurança e Proteção Civil. A fechar, algumas notas para esta quarta-feira. No Parlamento, discute-se esta tarde o combate aos incêndios. O debate de urgência foi requerido pelo Chega e pelo PCP e começa por volta das 15h com uma intervenção do governo. Às 20h, o Benfica recebe o Fenerbahçe da Turquia para a segunda mão do playoff de acesso à fase regular da Liga dos Campeões. Para continuar na prova, os encarnados têm de ganhar, uma vez que na primeira mão empataram num jogo sem gols. Começa esta quarta-feira a edição número 82 do Festival Internacional de Cinema de Veneza, um clássico da sétima arte que vai contar com um clássico português. Vai estrear no festival uma edição restaurada de "Aniki Bobó", filme de 1942 e primeira longa-metragem de Manoel de Oliveira. E, como é agosto, fica ainda a sugestão e a história de uma das festas e romarias do país. Desta vez vamos até à Praia das Maçãs, em Sintra, onde começam hoje as festas da Nossa Senhora da Praia. Com entrada gratuita, estas festas vão contar com atuações de Luís Represas, Herman José e o seu quarteto ou Blaya, por exemplo. O culto à Nossa Senhora da Praia das Maçãs começou no final do século XIX, onde se acredita que Nossa Senhora terá aparecido a um pescador na foz do Rio das Maçãs. Esta foi a história do dia. A sonoplastia é do Pedro Oliveira, a música do genérico é do João Ribeiro. Eu sou a Teresa Abecasis. Até amanhã.