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Esta é a história do dia da Rádio Observador. Com Rússia e Estados Unidos a falar de testes nucleares, estamos perante uma escalada de tensão? "Se os outros estão a fazer testes, então é apropriado que também os façamos". A declaração em que Donald Trump promete começar a testar armas nucleares norte-americanas foi feita a bordo do avião presidencial, depois de ter escrito o mesmo na rede social que detém e antes de um encontro com o presidente chinês. Diz Donald Trump que todos estão a realizar testes nucleares e, por isso, como ouvimos, como os Estados Unidos têm o maior arsenal, têm também que o testar. O chefe de Estado quer estar em pé de igualdade com a Rússia e a China e desta forma anuncia aquilo que pode ser uma mudança de política do país, que tem décadas. Antes tinha sido a vez de Vladimir Putin anunciar o sucesso nos treinos de dois equipamentos que o presidente russo diz serem duas armas únicas no mundo. Vou conversar com o major-general João Vieira Borges. É professor de Estratégia e Relações Internacionais, presidente da Comissão Portuguesa e vice-presidente da Comissão Internacional de História Militar. Eu sou o Luís Soares e esta é a história do dia de segunda-feira, 3 de novembro. Bem-vindo, major-general.

Olá, Luís Soares.

Major-general, temos visto notícias que dão conta de drones e balões meteorológicos a sobrevoar o espaço aéreo de vários países europeus, ao mesmo tempo que o Kremlin anuncia o sucesso dos treinos decisivos com dois equipamentos de guerra poderosos, um míssil de cruzeiro com propulsão nuclear, que pode atingir alvos a 20 mil quilômetros de distância, e também um drone submarino movido a energia atômica e que gera tsunamis radioativos. O presidente russo diz que estas são duas armas únicas no mundo. Como é que podemos, senhor major-general, interpretar este anúncio de Moscovo?

Este anúncio de Moscovo interpreto na sequência de pressões na dimensão política e dimensão estratégica. Normalmente, quando Putin é alvo de situações que o colocam perante a espada e a parede, designadamente no que respeita à paz pressionada por Trump, designadamente após a reunião do Alasca, ele encontra sempre uma solução através dos instrumentos de guerra. E por isso tem sido criticado, e bem, nesse aspeto, por Trump, que diz que em vez de andar a fazer ameaças com novas armas, devia era procurar encontrar a paz na Ucrânia. Este tem sido o método utilizado desde o início da guerra da Ucrânia, quando a situação no terreno ou a situação política é adversa, digamos que a Rússia utiliza como instrumento as novas armas que estão em teste e muitas das vezes ligadas, direta ou indiretamente, à questão nuclear, seja de novas armas com essa capacidade, seja de novas armas com propulsão nuclear. Isto tem sido uma estratégia seguida. Não há coincidências, porque acontece sempre perante estas situações. E Trump desta vez respondeu, mas respondeu de uma maneira que colocou em causa essa estratégia de Putin, mas simultaneamente preparou-se também para competir, como ele diz, designadamente na retoma dos testes de armas nucleares, quer com a Rússia, quer com a própria China.

Já vamos falar dessas declarações de Donald Trump, mas ainda sobre a Rússia, estamos a falar do míssil Burevestnik e do drone submarino Poseidon. Tanto quanto sabe, senhor major-general, são efetivamente duas armas únicas no mundo, como diz Vladimir Putin, são mesmo armas invencíveis?

Não há armas invencíveis. Aliás, as declarações e depois os testes das armas que também eram invencíveis por parte da antiaérea, designadamente aquelas que foram utilizadas já na Ucrânia, caso de mísseis balísticos, que depois obviamente foram testados pelos radares e pela antiaérea ucraniana, e aquilo que fazia parte das declarações de Putin, de que teria uma velocidade de 12 mil km/h, veio-se a confirmar que tinham 6 mil km/h. Portanto, cerca de metade do valor que tinha sido usado como instrumento de dissuasão. E depois, a pouco e pouco, as antiaéreas que tiveram grande dificuldade em abater os primeiros, passado algum tempo começaram a utilizar outros instrumentos para detecção mais atempada. E obviamente que é este o jogo que vai havendo ao longo da história. A tecnologia vai evoluindo, o aparecimento dessas armas pressionou no sentido de acelerar todo o processo de investigação e desenvolvimento das armas a laser, que se vinha falando há mais de 40 anos, e vinha se falando porque não havia capacidade, sobretudo em termos energéticos, de apoiar os raios de laser numa determinada frequência pra ter capacidade de destruição de determinados alvos. Quer em Israel, fruto daquilo que foi o ataque do Irão, quer também na Ucrânia, o desenvolvimento destas armas está previsto para entrar em total laboração nos teatros de operações a partir do final deste ano, independentemente de já os termos visto, inclusivamente em testes operacionais, designadamente em Israel. Portanto, eu diria que não há nenhuma arma invencível, logo a seguir vem uma contra-arma. E para além disso, nós estamos numa guerra de informação em que, obviamente, o Kremlin exagera também nas suas declarações para tentar funcionar como instrumento de dissuasão e de pressão política.

Já vamos continuar a conversa com o major-general João Vieira Borges. Agora fazemos uma curta pausa. Estamos de regresso à conversa com o major-general João Vieira Borges. O certo é que é neste contexto que o presidente dos Estados Unidos promete começar a testar armas nucleares norte-americanas para estar, diz, em pé de igualdade com a Rússia e com a China. A confirmar-se tudo isto, senhor major-general, trata-se de uma alteração de política ao fim de várias décadas.

Sim, de muitas décadas, designadamente de 92, com o Bush. Foi não só uma opção da parte dos Estados Unidos, mas também de pressão sobre a comunidade internacional, na altura em que os Estados Unidos tinham uma hegemonia bem maior do que a que têm hoje, e para ir ao encontro daquilo que, na altura, se cultivavam determinados valores e determinadas normas, ir ao encontro daquilo que tinha sido aprovado já, se não me engano, em 1970, que eram os tratados de não proliferação nuclear. E portanto, esse exemplo era importante, independentemente de depois sabermos que o Paquistão, passado seis anos ou sete, veio também a ser dotado de armas nucleares, independentemente da Coreia do Norte ter optado por esse caminho e inclusivamente ter feito testes até bem recentemente. Mas a grande questão, se me permite, eu acho que é importante destacar o fato de ter sido feita essa declaração pouco antes do encontro com Xi Jinping e a China.

Exatamente.

E isto por quê? Porque a China tem produzido, que neste momento, em termos de ogivas nucleares, estará volta das 600, mas prevê-se que tenha volta das 1000 em 2030. E portanto, o exponencial de produção, e não só, também a parte tecnológica, porque são armas produzidas no século XXI, em 2000, enquanto que a maior parte das ogivas e das armas de suporte são mais antigas, no caso da Rússia e dos Estados Unidos, ele entendeu pressionar em termos de dissuasão nuclear, mas, por outro lado, agir no sentido de mostrar ao mundo que as ogivas que lá estão há muitos anos nos Estados Unidos, também estão operacionais. Isto é importante destacar, os números de ogivas nucleares não é certamente o mais importante. A partir de 100, 150 ogivas, obviamente, a capacidade de destruição é enorme, é preciso é que haja capacidade de reação imediata e que haja sistemas que as tornem dissuasoras no sentido da eficácia e simultaneamente da eficiência. Mas aquilo que eu queria referir, e que é muito importante a este nível, é aquilo que são dos arsenais nucleares, os chamados arsenais operacionais.

Ou seja, tentar perceber se Donald Trump, com esta declaração, pretende mesmo testar armas nucleares ou se quer apenas testar os sistemas que permitem o uso dessas armas. É assim?

Ele pode testar os dois. Ele certamente que vai testar os dois. Os sistemas que vão transportar as armas, na minha perspetiva, os Estados Unidos têm um grande avanço sobre a Rússia e sobre a China. Relativamente às ogivas, a situação é diferente, porque tinha um estoque, uma reserva de há muitos anos e elas têm que ser revistas, é mais ou menos como nós fazemos com os extintores nas nossas casas. Portanto, ao fim de determinado tempo, têm que ser testadas e algumas passam o prazo e têm que ser, obviamente, desmanteladas, o que também não é um processo muito fácil. Mas nos últimos anos, sobretudo nos anos das operações de paz, até 2014, não havia qualquer preocupação a esse nível da parte dos Estados Unidos. Havia, sim, da Rússia, começou a haver, sim, da China, e daí ele também sentir esse atraso. E por isso, na sua declaração, referiu exatamente que havia outras potências nucleares que estavam a retomar os testes e que tinham capacidade, e os Estados Unidos não podiam ficar atrás.

E inclusivamente, diz que os Estados Unidos têm o maior arsenal nuclear. Será assim, senhor major-general?

Não, não é assim. Trump é sempre Estados Unidos primeiro, seja a que nível for. Em termos de ogivas, aquilo que são as indicações que nós temos da Associação de Controle de Armas, é que efetivamente há mais ogivas da parte da Rússia do que da parte dos Estados Unidos. Curiosamente, a mesma associação, que é a única institucional que nós temos de referência para trabalho, diz que há mais ogivas operacionais da parte dos Estados Unidos do que da parte da Rússia, e a diferença é muito pequena. Como eu dizia há pouco, ter 1700 ou 1770 operacionais da parte dos Estados Unidos ou ter 500, a diferença não é significativa. O importante é dispor das mesmas com capacidade e testadas, obviamente, e por isso a realização de testes, mas sobretudo ter todo o conjunto que nos ensinou o general Wolf, que era a destruição preventiva, ter a capacidade de interceção das armas nucleares da outra parte Ter a proteção física contra os efeitos das explosões, se não me engano, era assim que ele dizia, e ter também uma capacidade de ameaça de represálias, ou seja, também o meio ofensivo. Não só o meio ofensivo, mas também o meio defensivo, isso também é muito importante. É um conjunto que já vem de longe, dos estudos que se fez na altura, até das opções estratégicas da parte do Reino Unido e da China, estudou-se muito, escreveu-se muito na altura do Reino Unido e da França. E nessa altura, tudo que era teoria da dissuasão nuclear foi trabalhada, foi discutida. Depois passou a ser tabu, depois da queda do Muro de Berlim, falar destas questões, mas a Guerra da Ucrânia, por iniciativa da Rússia, trouxe novamente esta questão e a resposta era inevitável da parte dos Estados Unidos. E só não é da parte da China em termos de discurso, porque a China tem um discurso de estratégia indireta. Obviamente não fala destes assuntos. Em vez de falar, trabalha, produz.

E nesse sentido do que está a dizer, senhor Major-General, esta declaração de Trump será apenas retórica ou acredita que terá mesmo uma aplicação prática e haverá mesmo testes por parte dos Estados Unidos?

Poderá haver, mesmo que seja só um teste simbólico. E será usado na altura certa. Portanto, o timing do teste, obviamente, em termos de estratégia, os seus assessores vão lhe dizer quando é que ele deve dar informação desse teste, se tiver que ser realizado. Obviamente, se caminharmos no sentido da paz na Ucrânia, se caminharmos no sentido das relações com a China terem continuidade na sequência da reunião de ontem, isso não será necessário. No entanto, se a situação se agravar, alguém há de aconselhar que o teste tenha lugar, até porque depois tem consequências de retaliação, e obviamente que não há interesse nenhum, também dos Estados Unidos, em que a proliferação de armas de destruição massiva, e neste caso armas nucleares, depois seja ainda maior do que já é. Nós neste momento temos nove países assumidamente com armas nucleares, oito, porque Israel nunca confirma. E, portanto, a questão da proliferação obviamente está controlada, ou deve estar controlada pelos Estados Unidos, pelo exemplo e pela própria Rússia e pela própria China. Não há interesse nenhum das três grandes potências em que cresça o número de países para além do Reino Unido, da França, da Índia, do Paquistão, Israel e Coreia do Norte.

E perante todas estas declarações, todos estes testes, senhor Major-General, acredita que podemos estar perante uma escalada da tensão nuclear?

Eu penso que não, independentemente de ter a noção clara ou ter a percepção de que haverá, e como nós vamos ver, sobretudo nos países democráticos, uma percepção que leva depois à aquisição de meios de proteção física contra efeitos de explosão. Voltamos àqueles anos da crise de 2006 de Cuba, em que toda a gente vai comprar e vai fazer subterrâneos não sei aonde, que vai fazer debaixo das casas a proteção com autonomia de alimentação. Voltamos àqueles tempos, sobretudo aqueles que têm mais percepção pela adversidade e por ameaças, são capazes de fazer isso. Tem que haver indicações concretas e elas só, na minha perspectiva, como disse há pouco, a mensagem de preocupação haverá ou terá lugar quando efetivamente tiverem lugar esses testes. Quer se queira, quer não, independentemente da justificação, de manutenção do arsenal com eficácia e eficiência, isso acarretará respostas quer da China, quer da Rússia, e nessa altura tem que haver uma preocupação muito grande com o discurso da parte das três grandes potências que pretendem dominar a nova ordem internacional das grandes potências, como dizia o assessor geopolítico do Putin.

Obrigado, Major-General João Vieira Borges.

Muito obrigado, eu.

O Major-General João Vieira Borges é professor de Estratégia e Relações Internacionais. É também presidente da Comissão Portuguesa e vice-presidente da Comissão Internacional de História Militar. Nesta "História do Dia", deixo ainda três coisas a ter em conta esta segunda-feira. Continuam as audições parlamentares a propósito do orçamento do Estado para o próximo ano. Desta vez, cabe ao ministro da Reforma do Estado e ao ministro da Agricultura responder às perguntas dos deputados. Depois de um novo adiamento, está prevista para esta segunda-feira a leitura do acórdão do processo que envolve o atual bastonário da Ordem dos Enfermeiros, Luís Filipe Barreira, e a antecessora, Ana Rita Cavaco, em causa de crimes de peculato e falsificação. Em Mafra começa o festival literário, para além da habitual Feira do Livro e de encontros com autores. O festival integra ainda um serão com contos dos espetáculos da literatura. Dura toda a semana até ao próximo domingo. Esta foi a "História do Dia". A sonoplastia é do Bernardo Almeida. A música do genérico é do João Ribeiro. Eu sou o Luís Soares, até amanhã.