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Esta é a história do dia da Rádio Observador: a ameaça de uma nova guerra mundial é alarmista ou real?

"NATO has kicked off its biggest military exercise in decades. The alliance will carry out four months of drills. Steadfast Defender 24, that's the name, and it aims to showcase NATO's ability to deploy forces from North America and elsewhere to reinforce Europe."

Não se via nada assim há mais de 30 anos. Está neste momento em curso o maior exercício militar da NATO desde o fim da Guerra Fria. E estes jogos de guerra têm por base um cenário simulado em que a Rússia decide ir para além da Ucrânia e atacar países da União Europeia. Também há semanas foram revelados documentos secretos nos quais o Ministério da Defesa alemão tinha o cenário de uma Terceira Guerra Mundial preparado para 2025, mesmo que fosse uma hipótese muito remota. Uma guerra entre a Rússia e a NATO é realista ou alarmista? E a Europa estaria preparada caso isso viesse mesmo a acontecer? São questões para a conversa com Cátia Bruno, editora de Internacional do Observador. Eu sou o João Santos Duarte e esta é a história do dia de quarta-feira, 07 de fevereiro. Olá, Cátia, bem-vinda.

Olá, João.

Cátia, que exercício da NATO é este que está a decorrer neste momento, chamado Steadfast Defender 24, ou 24, e por que é tão significativo?

É muito significativo porque é o maior exercício militar da NATO desde o fim da Guerra Fria. O último exercício a envolver este nível de soldados e de países aconteceu em 88. E aqui temos um exercício que envolve todos os Estados membros da Aliança Atlântica e que junta também a Suécia, que ainda não é formalmente membro da NATO, mas está só à espera da luz verde do Parlamento húngaro. E todo o cenário que está a ser treinado é precisamente um cenário em que a Rússia e uma coligação de outros países não nomeados decidem invadir um Estado membro da NATO. Portanto, o exercício prepara a resposta militar a uma possível invasão.

"Classified documents from Germany reveal that world leaders are now preparing for Russia to launch World War III. They would expand the war on Ukraine by attacking NATO countries next year. Next year, there's a timetable here."

De resto, recentemente têm-se intensificado os alertas sobre a possibilidade do conflito vir a alastrar em solo europeu. Que alertas são esses e de onde vêm?

Vêm de líderes militares, mas também políticos. Por um lado, temos, por exemplo, o almirante Rob Bauer, da NATO, que disse que a paz não é um dado adquirido para os Estados membros da NATO e que têm que se preparar para esse cenário. Mas temos também líderes políticos a serem mais taxativos. A primeira-ministra da Estónia, Kaja Kallas, disse que há três a cinco anos até haver um novo ataque vindo do leste da Europa. O ministro da Proteção Civil sueco disse que pode haver uma guerra na Suécia e o ministro da Defesa alemão, Boris Pistorius, diz que temos que estar preparados para que possa haver uma guerra no final da década. Portanto, são alertas muito óbvios de que há vários líderes que consideram que essa é uma possibilidade real.

Mas que objetivos também é que estarão por trás desses alertas? Enfim, objetivos políticos.

Por um lado, é claro que pode haver uma preocupação genuína com essa possibilidade, mas há também aqui uma dimensão política no sentido de querer, por um lado, criar a percepção no público de que essa é uma realidade e tentar conseguir algum apoio popular para mais medidas na defesa, e por outro, para traduzir essas medidas na defesa em aumentos de orçamentos de forma mais rápida. Ou seja, parecendo que a ameaça é iminente, há mais disponibilidade por parte das populações e de outros políticos para aumentar orçamentos de defesa. Portanto, essa parece ser claramente uma das razões. Agora, o risco está sempre lá, é evidente.

E há muitos cenários sempre em cima da mesa. Numa eventualidade de a Rússia vencer a guerra na Ucrânia, fala-se sempre muito da questão da Moldávia e da hipótese de um eventual ataque a seguir à Moldávia. Por que este país?

A Moldávia não faz parte da União Europeia, mas faz fronteira com a Ucrânia e tem uma região, que é a Transnístria, onde há neste momento muitas tropas russas, porque é uma espécie de antiga república soviética que não considera fazer parte da Moldávia e que tem um estatuto indefinido. Portanto, tendo em conta ainda por cima que é um país pequeno, poderia ser fácil para a Rússia, porque já tem tropas em terreno moldavo, conseguir invadir esse território. Mas não é a única possibilidade. A NATO fala muitas vezes, por exemplo, do chamado Estreito Suwalki, que fica ali a dividir a Polónia e a Lituânia, e que se passasse a ser controlado pela Rússia, a Rússia passaria a ter uma ligação direta a Kaliningrado, que é o enclave russo que faz fronteira com a Polónia.

Isolava também os países bálticos, não é?

E conseguia isolar os bálticos, exatamente. Portanto, há muitos cenários em cima da mesa. Se serão alguma vez-

Que fazem parte da NATO, não é?

Fazem parte da NATO, os Estados bálticos, exatamente, ao contrário da Moldávia. Se alguma vez poderão ser postos em prática ou não, não sabemos, mas os Estados membros da NATO parece quererem estar preparados para essas eventualidades.

Há uma questão que é certa com esta guerra na Ucrânia: é que levou a Europa e os países europeus a terem de reagir, não é? E de resto, por exemplo, a Alemanha já reformou completamente aquilo que era a sua política de defesa e também política externa. Que posicionamento novo é este da Alemanha?

É um posicionamento histórico, no sentido de que é uma viragem completa relativamente à postura que a Alemanha tem adotado desde a Segunda Guerra Mundial, que é uma postura absolutamente pacifista e de não se envolver, de forma nenhuma, em questões militares. Por um lado, a Alemanha não só aplicou sanções à Rússia e fez uma mudança na sua política de energia, tentando evitar ir buscar essa energia à Rússia e procurando fontes alternativas, como também está a fazer mudanças na sua política de defesa. O chanceler Olaf Scholz já se comprometeu, por exemplo, com o objetivo de gastar 2% do PIB na área da defesa, que é um objetivo que os estados membros da NATO têm há muitos anos e que até agora a maior parte não tinha atingido. E não só, anunciou também um fundo especial de €100 mil milhões para a defesa, para comprar armamento, para reforçar as condições do exército alemão. Há poucos anos seria impensável imaginar uma Alemanha a procurar o rearmamento e a procurar ter uma palavra muito definitiva a dizer na política externa europeia.

E depois também há a questão da França. Como é que a França se posiciona neste momento face a esta realidade?

A França tem uma atitude diferente da Alemanha, no sentido em que há muito tempo que os líderes franceses tentam assumir esse papel de destaque nas questões externas e de defesa. Emmanuel Macron, como presidente, já há alguns anos que defende muito aquilo que ele chama autonomia estratégica da Europa, que diz que a Europa tem que procurar ter a sua própria defesa e não estar tão dependente dos Estados Unidos. Em 2020, ele disse a famosa frase: "A NATO está em coma". E que essa era uma das razões pelas quais ele achava que a Europa se devia rearmar e que devia preparar-se. Agora, a NATO está aparentemente mais viva do que nunca nos últimos anos e França tem aqui um papel delicado, porque continua a promover essa autonomia estratégica, mas em termos concretos ainda não é muito claro no que isso se traduz. Aquilo que é certo é que a França é, neste momento, o único país da União Europeia que tem armamento nuclear.

Com a saída do Reino Unido.

Com a saída do Reino Unido, a França é o que sobra, o grande poder nuclear da União Europeia. E Macron, já no passado, levantou a hipótese de que os países europeus pudessem beneficiar de alguma forma desse armamento nuclear francês, haver algum mecanismo, algum acordo, para que essa arma de dissuasão pudesse abranger também o resto da Europa. E agora, Manfred Weber, que é o presidente do Partido Popular Europeu, um dos maiores partidos europeus, veio dizer numa entrevista ao Político que a Europa devia pensar em aceitar essa proposta de Macron, embora isso levante muitas dúvidas sobre como é que seria operacionalizado, já para não falar no fato de que o desarmamento nuclear tem sido sempre um dos grandes objetivos da União Europeia e isto seria ir um pouco contra essa mensagem.

Já voltamos à conversa com Cátia Bruno, editora de Internacional do Observador, que assina um artigo no site sobre os cenários de uma guerra entre a Rússia e os países membros da NATO. Na segunda parte vamos tentar perceber se a Europa estará ou não preparada para essa possibilidade. Estamos de regresso à conversa com a editora da Internacional do Observador, Cátia Bruno. Cátia, que sinais existem neste momento de que a Rússia se está a preparar para o que poderá ser uma guerra prolongada?

Há alguns sinais. A grande dúvida é se está a preparar simplesmente para uma guerra prolongada na Ucrânia ou-

Ou para algo mais

...para algo mais. Mas não há dúvidas de que se está a preparar para isso. Está a fazer uma transformação da sua economia para uma economia de guerra. Por um lado, tem aumentado o número de soldados. Lembremos que o ano passado decretou uma mobilização. Essa possibilidade de voltar a ser decretada uma mobilização não está excluída e tem aumentado consistentemente o orçamento da defesa. Em 2024, pode chegar a 6% do PIB, que é muito diferente dos 2% que a maior parte dos países da NATO dispõem.

E depois há aqui uma questão, que este ano há eleições. Na Rússia já sabemos quem é que vai ganhar. Mas nos Estados Unidos há a possibilidade de Trump voltar à Casa Branca. Se isso acontecer, que implicações é que o regresso de Donald Trump pode ter para tudo isto que estamos aqui a falar?

Pode ter implicações muito sérias. Donald Trump, quando foi presidente no seu primeiro mandato, deixou muito claro que achava que o modelo de funcionamento atual da NATO não era benéfico para os Estados Unidos.

"We're spending, we're paying for NATO, and we don't get so much out of it. And you know, I hate to tell you this about NATO. If we ever needed their help, let's say we were attacked, I don't believe they'd be there."

Há até aquela famosa fotografia de um G7 em que está Trump de um lado, com ar chateado, e os outros líderes do outro.

Angela Merkel de braçada.

Exatamente, em que esse seria um dos temas que estava a ser discutido naquele momento, e que era o de Trump achar que a Europa devia aumentar o seu orçamento de defesa e que os Estados Unidos não tinham a responsabilidade de assegurar a defesa da Europa através da NATO. O que se passa é que agora, numa segunda presidência Trump, podemos ter um presidente que quer concretizar mais esse afastamento. E isso pode implicar, mesmo que Trump não consiga decidir sozinho a saída dos Estados Unidos da NATO, até porque o Congresso americano está a passar legislação para impedir que um presidente possa tomar essa decisão sozinho. A verdade é que a NATO assenta num princípio de confiança de que um ataque a um aliado é um ataque a todos e, portanto, os aliados, o artigo quinto.

Que Trump já deu a entender que não seguiria.

Precisamente, e é essa a grande dúvida, a partir do momento em que essa confiança deixa de existir, a aliança não funciona como se espera. E há muitos países na Europa que até agora têm tido mais confiança no apoio dos Estados Unidos do que no de outros países europeus, e com a eleição de Trump, esse apoio pode estar em risco.

E o que é que a União Europeia está a fazer? Já aqui falámos da Alemanha, da França. Os outros países estão também a aumentar essa despesa, esse investimento em defesa, não é?

Sim, a maior parte dos países está a aumentar os seus orçamentos de defesa. A maior parte está a comprometer-se com os tais 2%, que deve ser atingido pelos vários Estados-membros, quer da NATO, quer da União Europeia, ao longo dos próximos anos. Mas muitos especialistas acham que 2% podem não ser suficientes. E depois há todos os problemas de operacionalização. Um estilista com quem eu falava para este artigo dizia-me que isto não se trata só de gastar mais, trata-se de gastar de forma mais inteligente. Ou seja, não serve de nada os Estados começarem todos a investir imenso em defesa, a comprar armamento, a formar mais soldados, mas não haver uniformização dos procedimentos e ser cada exército por si. E que nós, neste momento, temos uma Europa em que há muitos modelos diferentes de tanques, muitos modelos diferentes de aviões de combate, e é muito difícil depois ter uma resposta unida num cenário de uma possível guerra em que funcione, em que haja uma estratégia unificada. A União Europeia está, por exemplo, a discutir a criação de uma força de destacamento rápido comum, ou seja, ter um grupo de soldados disponíveis para reagir a determinado acontecimento que inclua pessoas de vários países da União. Está também a criar uma força que coordene esses gastos militares, que eles sejam feitos em conjunto, e está a definir a sua estratégia em termos de política externa, tornando muito mais claro que a Rússia é considerada uma ameaça. Como é que isso se traduz depois em termos práticos é que é uma grande incógnita. E aquilo que temos assistido é que há países que estão muito mais investidos nesta área do que outros, e a maior parte das vezes, os países que estão muito investidos nessa área são os que estão geograficamente mais próximos da Rússia. São os países bálticos, é a Polónia.

Sentem mais essa ameaça.

É Roménia, a Finlândia, que aderiu agora à NATO. E continua a haver aqui um desfasamento na forma como os países da União Europeia pensam sobre esta questão. E não é muito fácil manter alianças militares quando diferentes cabeças pensam de forma diferente.

Obrigado, Cátia.

Obrigada eu.

Cátia Bruno é editora de internacional do Observador. Esta foi a história do dia. Neste episódio usámos ainda sons da Fox News e da Deutsche Welle. A sonoplastia é do Bernardo Almeida, a música do genérico, do João Ribeiro. Eu sou o João Santos Duarte. Até amanhã.