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Olá, sejam muito bem-vindos. Esta é a História das Histórias. Eu sou o João Paulo Secador e eu acolho aqui Alberto Correia. Ele está em Viseu, falando sempre das suas memórias, do seu património, das coisas importantes que há para lembrar da região Centro. E é o caso de uma que eu até conheço bem e por isso estou muito contente. Hoje vamos falar da Capela da Senhora da Lapa, em Viseu. Vamos falar então deste importante templo ali na região Centro. Bem-vindo, Alberto. Vamos a isso.

Já ninguém pode lembrar-se da capelinha minúscula que em Viseu um piedoso devoto terá mandado levantar em honra da Senhora da Lapa, no altaneiro chão da cidadela, no íntimo terreiro guardado pela Porta do Soar e que hoje se designa por Largo do Pintor Gata, alcunha dada ao celebrado pintor e miniaturista que viveu de 1778 a 1831 em Viseu, com uma longa estadia em Espanha, onde nasceram alguns de seus filhos. Viria talvez o nome da capelinha dos finais do século XVII, que nessa idade já por ali passavam, por Viseu, romeiros em caminhada até esse chão de milagre e de mistério, onde o céu se abrira para uma virgem falar a seu modo, à pastora muda, que a não poderia escutar, mas de quem guardou a transitiva mensagem que depois, por largo, o povo divulgou. E eu lembro a viagem à Lapa do poeta António de Cabedo para cumprir voto ao dobrar os meados do século XVI, quando em Viseu se hospedou no áulico Paço do Fontelo, que o seu tio bispo, Dom Gonçalo Pinheiro, ocupara em tempo recente. Lembro a peregrinação do chantre de Évora, Severino de Faria, que ali estanciou no frio mês de novembro de 1609. Lembro o padre da Companhia de Jesus, António Cordeiro, que se apaixona pelo agreste território da Lapa no seu tempo de noviço em Coimbra, em 1658. Lembro o indíatico que ali entregou em começos do século XVII, a pele do Caimão, que a gente chamava de Lagarto, que ainda me assustou. E lembro o povo miúdo de cujos passos ainda falam pontes, cruzeiros, alminhas e as lendas riscadas nos caminhos com lagartos à espreita. A capelinha de Viseu teria a dimensão da gruta da Senhora, os poucos palmos medidos que Maximiano de Aragão ainda conheceu e que traduziu pela pequenez de dois metros de comprimento, largura e altura a condizer, um retabulozinho de pedra adornado com uma concha ligeira, onde pousaria miúda a imagem lavrada em pedra da Senhora. A capela já não existe no lugar, vai um pouco mais do que 100 anos. E a memória dela que restou não é lembrada como tal por quem dia a dia por lá passa. Da concha de pedra talhada para altar, fizeram com mais pedra lavrada chafariz, conta o provo historiador, que ali ficou, sem que à fonte alguém se chamasse santa, pequena joia encastoada quase ao lado da capela antiga, que talvez, ao tempo, 1905, seria já funda ruína. Mas eu lembro-me da capela quando ali passo no mimoso larguinho que se chama Pintor Gata. Lembro-me da Senhora da Lapa, da pastora Joana, coitada, ninguém mais soube dela. Depressa deve ter ido para o céu com a Senhora. Era muda e lá foi pela mão dela e talvez um anjo por lá tenha ficado a cuidar dela. E retorno à memória da capela de Viseu e evoco essa imagem pequenina que foi guardada ao jeito de relíquia, de museu, e já ninguém sabe como ela surgiu. Chamam-lhe Senhora da Lapa. Deve ser irmã da imagem com a qual Joana um dia deparou num desvão da sua serra. Talvez um dia, quem sabe, um qualquer romeiro a coloque no altar.

Que bom ouvir falar da Senhora da Lapa, também um santuário, o nome do santuário, que eu também gosto muito, na serra, bem pertinho de Viseu. Muito bem, ficamos então com mais esta lembrança, desta vez uma capela que existiu em Viseu. E fiquei também curioso com o nome deste pintor, Pintor Gata, o nome deste largo que foi assim batizado. E marcamos então encontro para amanhã, para ouvir mais histórias. Alberto Correia, bem-haja por estas suas memórias. Até amanhã.

Até amanhã.