“Vinha aqui comprar tecidos. Isto eram só retrosarias. Está tão diferente…”, diz-nos, ao caminhar pela Rua Áurea, na Baixa de Lisboa. É meio-dia e o sol faz-se sentir forte lá no alto, mas a brisa que resta dos dias chuvosos do fim de agosto alivia a temperatura. Lena Aires recorda o tempo em que para fazer uma peça de roupa não precisava sequer de sair do circuito entre a Rua Augusta e o Bairro Alto. É num café ao pé do Chiado que a criadora de moda que começou nas Manobras de Maio em 1986 e integrou o primeiro cartaz da ModaLisboa, em 1991, fala ao Observador sobre o ambiente artístico em que Lisboa esteve submersa na década de 1990. Dez anos depois de fechar a loja que em tempos ficava onde “tudo acontecia” — e que poderia receber a alcunha “instagramável” nos dias que correm — navega por outros ventos, impulsionada por uma paixão familiar e um borbulhar criativo que nunca a abandonou.
▲ A mala que traz as letras que identificam Portugal nas competições é das mais populares. Lena Aires já usou a vela de competição do filho para produzir peças
TOMÁS SILVA/OBSERVADOR
“Quando fechei a loja fiquei farta da roupa — com tanta oferta que há, já não faz assim muito sentido. Era roupa de autor, e as pessoas estavam a procurar mais a moda descartável“, desabafa, já suficientemente resolvida com a decisão que tomou em 2016, quando fechou as portas da loja de esquina que ocupou por mais de duas décadas no Bairro Alto. Com janelas altas, as montras eram um espetáculo à parte. “Convidava estilistas, o Manuel Alves chegou a fazer montras para mim”, destaca Aires. Entre as misturas de cores improváveis e as pernas de manequim a fazer de pé de mesa, a criadora de moda licenciada em Design de Interiores foi mostrando a sua irreverência, num estilo assumidamente “kitsch”, pautado por cor, ritmo e humor, e passando longe das tendências. “Era outro mundo, era mais livre. Então achei piada àquele mundo todo, porque éramos todos por um e todos por todos, e todos nos alinhávamos uns com os outros”, diz, sobre os designers da sua geração, destacando a boa relação que teve — e em alguns casos ainda tem — com nomes como Dino Alves, Maria Gambina, Filipe Faísca ou Nuno Gama.
Foi ao lado de nomes como estes, consagrados no panorama da moda nacional, que Lena Aires viveu momentos que hoje descreve como “divertidos”. Desfilou para Ana Salazar, a principal criadora portuguesa da altura; usou o calçado que pisou à passerelle com a coleção de Luís Barbeiro na primeira edição da ModaLisboa porque teve o atelier assaltado um dia antes da estreia; vendeu 10 camisas de seda indiana à cantora americana Anette Peacock. “Achava que não perdia nada por arriscar”, garante, entre as gargalhadas que vêm com as recordações.
Três décadas antes de decidir pela pausa, Lena Aires desfilava pela primeira vez nas Manobras de Maio — como manequim e com peças criadas por si. A forma de ser e estar, garante, foi a chave para o convite que viria cinco anos depois, pela organização da primeira Semana da Moda de Lisboa. Depois de levar à passerelle as “prostitutas do Cais do Sodré”, foi destaque na imprensa internacional, incluindo títulos como a Vogue Paris e a Dépêche Mode. “Sei que quando entrei no carro com a tralha toda para fugir, estava toda a gente a fotografar. E eu dentro do carro, o pai do meu filho perguntou-me: ‘E agora?’ E eu: ‘Não sei, é tudo novo para mim, não sei o que aconteceu.’”
O adeus à ModaLisboa foi em 2002 — motivado pelo mesmo cansaço que acusam tantos outros designers do cartaz, que se questionam sobre a verdadeira utilidade de se criar duas coleções por ano. Agora, já não acompanha o cenário da moda nacional como no passado, e aponta para o excesso de show off. “O design e a funcionalidade têm de estar juntos, têm de estar ligados, senão não faz sentido. É como fazer uma cadeira fantástica com duas pernas: pode ser fantástica, mas não funciona“.
Assumidamente uma “criativa”, a partir de 2016 optou por dedicar-se a projetos que lhe “ocupem a cabeça e a façam feliz”. Fez workshops de cerâmica e pintura, e assumiu uma propriedade da família no Douro, ao lado do filho e do sobrinho, e que em breve deve ter também o apoio do pai do filho. O objetivo agora é restaurar a casa que tem mais de 300 anos e criar um ambiente que “combine o antigo e o novo”, destaca, sobre os planos para o futuro.
▲ Licenciada em Design de Interiores, a criadora quer explorar também a produção de peças para casa e decoração
TOMÁS SILVA/OBSERVADOR
O regresso à moda quase uma década depois dá-se com o “empurrão” do filho, o velejador Eduardo Marques, 11.º na classe ILCA 7 nos Jogos Olímpicos de Paris 2024. A ideia: criar peças a partir das velas usadas e descartadas. Em dezembro passado lançou uma marca própria, a Favorita Reciclados, com sacos e malas feitos dos materiais náuticos que vai conseguindo. A experimentação aproxima a designer também da sua formação original: “Dá para decoração, dá para fazer candeeiros, atoalhados individuais, até cortinados de casa de banho, porque é impermeável, dá para forrar as espreguiçadeiras…”, vai citando, sobre as possibilidades sem fim, enquanto nos mostra as malas e sacos dos mais variados tamanhos, com preços que vão dos 30 aos 140 euros.
Uma delas, grande e branca, com as letras POR em destaque. Peças únicas, feitas em ateliers locais e acabadas manualmente pela própria Lena, a partir dos tecidos das velas, que carregam consigo uma história. “Há certas manchas que custam a sair, e há muitas manchas que eu deixo ir, porque faz parte. E isso é que faz confusão às pessoas: ‘Ah, mas isto está manchado, não faz muito sentido’”, queixa-se a criadora, que vê resistência na venda online. “As pessoas querem ver, querem tocar”, destaca. Voltaria a ter loja própria? Lena Aires é direta, e diz que não. Mas não descarta entrar em mercados, num espaço numa marina ou perto do mar. “Já tenho 67 anos e acho que já não estou para ter essa responsabilidade. Agora, para mim, já não é aquela coisa de ter de fazer com obrigação”, protesta. Quer manter os projetos a correr de forma tranquila, sustentável, e investir naquilo que gosta: regressar à decoração, talvez arriscar na pintura, e não rejeita completamente voltar a fazer roupa. “Acho que com a idade a pessoa fica mais exigente e seletiva. Neste momento não penso em nada, estou aberta, pode ser.”
Como começou a criar os sacos e malas?
Começou com um filho velejador. Acompanhei sempre, e fui ver algumas regatas dele em Portugal, como em Vilamoura e Cascais. E uma das coisas que me fez imensa impressão foi, quando saem da água — têm imenso material, como botas, os fatos de neoprene, têm os coletes — lavavam tudo e metiam aquilo em sacos do Ikea. E aí lavavam as velas com água… E eu pensei: “Mas isto era giro. Em vez de estarem a ter um saco do Ikea, terem um saco da própria vela deles, uma vela que se tenha rasgado, ou que já não tem utilidade nenhuma. E eles próprios até se identificam, por ter as três letras do país deles, ou ter o número de identificação deles”. Portanto, durante a pandemia de Covid-19, comecei a pesquisar. Achei interessante e depois descobri que realmente havia velarias, que são os produtores das velas, e comecei a ver que havia acessórios, sacos feitos dos restos das velas. E até de velas que eles também recebem e arranjam — umas têm conserto, outras não têm conserto; as que não têm conserto, ficam de lado. O meu filho também achou piada e começou a empurrar, empurrar, empurrar. O pai dele também tem toda a vida ligada ao mar e aos barcos, e começou a arranjar-me velas — que foram dele, muito antigas, todas sujas… E depois então atirei-me…
O incentivo do seu filho foi importante?
Sim, foi ele que me empurrou, disse-me: “Tu és criativa, depois de teres fechado a loja tens de fazer qualquer coisa, tens de ir em frente”. E pronto. Também fiz um workshop de cerâmica e outro de pintura, que também foi ele que me ofereceu. Fui um bocado empurrada por ele e pelo pai dele, porque estão ligados completamente ao mar.
Como foram as primeiras experiências com este material?
Fiz primeiro uma experiência com os nylons, aqueles às riscas de várias cores, que chamam no Brasil o nylon de sacola. Resolvi primeiro experimentar e vendia por boca a boca para as amigas. E resultou muito bem. Então pensei: “Vou agora atirar-me para a vela”. Mas não sabia bem o impacto que isto iria ter, nem como é que isto iria funcionar, porque não conhecia a vela de todo. Tanto que as primeiras peças fui para a vela errada, uma vela demasiado dura e então aquilo não cedia por nada. Comecei a perceber pelo toque se funciona ou não.
Quem não está ligado ao mundo da Vela pode não perceber as diferenças nas texturas…
Exatamente. Se é muito usada, ela fica mais mole. E quando é nova tem melhor aspeto, mas é mais estável.
▲ Lena Aires aproveita os tecidos de diferentes categorias de velas para criar sacos, malas e pequenas carteiras
TOMÁS SILVA/OBSERVADOR
Quais são os motivos para uma vela ser descartada ou “aposentada”?
Depende. Com o uso ela começa a ficar muito fraca, porque leva mesmo muita porrada no mar: é vento, é onda, é a água do mar que estraga, é o sol também. Tanto que há uma vela que usei, que é uma vela transparente muito gira, que é plástico, mas quando fiz uma peça ela esgaçou. Já estava gasta com o tempo, com o sol, com a água do mar, e por estar ali na federação no chão enrolada anos e anos. E há outras que se rasgam e não se conseguem arranjar. Muitas vezes, os velejadores de alta competição utilizam a vela primeiro nos campeonatos, quando está nova; depois passam para os treinos; e depois, quando compram outra, vendem a usada aos miúdos que estão a começar. Mas chega uma altura que a vela já não dá mais. Ou então, muitas vezes, a própria classe altera a vela.
Lembra-se qual foi a primeira peça que fez com o material de uma vela?
A primeira que eu cortei eu acho que foi a neon. E depois foi a ILCA 7, que era do meu filho, que depois me deu também uma vela. Fiz umas velas que tinham o símbolo do sol vermelho, que agora já não existem. Esta vela deixou de existir e passou a dizer apenas ILCA.
E como é o processo a partir do momento em que recebe uma vela?
A primeira coisa que faço é lavar. Lavo com uma esponja, em casa, na banheira ou na varanda. Ou então, muitas vezes, faço uma lavagem, depois vejo os sítios melhores, corto e, depois de cortar, como já está mais pequeno, lavo novamente. Há certas manchas que custam a sair, e há muitas manchas que eu deixo ir, porque faz parte. E isso é que faz confusão às pessoas: “Ah, mas isto está manchado, não faz muito sentido”. Mas a vela foi usada. A mancha também conta uma história. O meu filho já velejou no mundo inteiro, Tóquio, Bahamas, campeonatos em todo o mundo. As velas e os veleiros têm uma história. Portanto, se a vela tem uma história, a história tem continuidade e continua através de acessórios ou de um saco, em que tem utilidade. Podia estar descartada no chão, ou num caixote do lixo. Gostava muito de chegar a uma encomenda e ter alguém a pedir: “Sou velejador, tenho a vela comigo e gostava de ter uma peça de recordação”.
E depois dos moldes cortados, como o processo continua?
Depois trabalho com ateliers pequenos em Lisboa para a confeção. Procurei muito, porque agora está tudo fora de Lisboa e sacos também nem todos fazem. Têm pormenores e acabamentos diferentes da roupa. Então procurei mesmo fazer com pessoas que fazem mesmo só sacos. Encontrei um atelier na Ericeira, um casal onde dizem que já tiveram uma fábrica de sacos, trabalhavam com napa e peles. Quando viram isto, assustaram-se, porque escorrega. Então estavam ali um bocado à toa, também esbarraram um bocado com as primeiras peças. Mas por isso é que tem de ser tudo muito simples. As velarias são diferentes, porque têm as máquinas próprias para isto. Mas não consigo produzir com velarias, porque dizem-me que não lhes compensa. Ganham muito mais a fazer velas ou a arranjar velas. Entretanto, também vou a algumas velarias buscar restos. Sobram bocados e eles até me agradecem. E então faço os acabamentos em casa. Procuro os adereços, como por exemplo este fio de lã, que lhes dá a direção do vento. Isto está na vela e eles olham quando estão a velejar, seja a treinar ou seja em competição. Todos os terminais, as ilhas (ilhós), os cabos, as precintas, tudo isto faz parte do barco. E há também material que não existe na vela, mas que é o material do qual são feitos os sacos onde a vela entra depois de enrolada, para guardar.
Então praticamente toda a peça é upcycling.
Exatamente. E as cordas e cabos são novos, mas de lojas náuticas. Há uns que são muito duros, não dá para cortar, têm de ser cortados com ferro quente. E para dar o nó também é difícil.
Qual foi o primeiro saco que vendeu?
O primeiro saco que vendi foi exatamente um destes que era da vela do meu filho. Tinha os números, as letras POR, o símbolo ILCA 7. Foi para a China, para Macau. O comprador é português, mas trabalha em Macau, Hong Kong e China, então ficou super contente, apaixonado pelo saco por dizer POR.
Como foi esse regressar às vendas?
Estive uns oito meses a produzir, porque pensei: “Eu não posso fazer só meia dúzia de peças”. Lançámos o Instagram no Natal. Nunca trabalhei no Instagram, nunca estive online, nem quando tinha loja, porque na altura não era comum haver sites. Mas foi uma desilusão porque eu achava que online se vendia tudo a correr, mas não. Tive um feedback giro, contactos de pessoas e gente jovem, que é um público que eu até gostava de atingir, de alguns velejadores e de estrangeiros também. Apoiaram, gostaram e elogiaram imenso as peças. Só que a maior parte das pessoas dizia: “Eu quero ver, tem loja? Tem espaço físico onde ver, onde comprar?”. Quando eu respondia que não, não havia resposta.
Tem esse desejo, de ter um ponto físico?
Sinto que as pessoas precisam de ver. Consigo vender a pessoas que me conhecem, às amigas das amigas, as amigas de antigos clientes. Já tentei lojas, mas é difícil vender para as lojas por causa do preço. Trabalho com ateliers, depois faço os acabamentos peça a peça. Nenhuma peça é repetida. São peças únicas, com história, e não são repetíveis. Em alternativa, à consignação, as peças ficam um bocado esquecidas na loja… Depois temos que dar uma comissão muito alta, feitas as contas não faz muito sentido. Normalmente é uma média de 30%, portanto não vale a pena. E com isso tudo acrescido, a peça fica mais cara na loja.
Isso dos sacos e malas era um mundo dentro da moda que até então ainda não havia explorado…
Nunca estive ligada muito aos acessórios, estive mais ligada à roupa. Os acessórios eram só para a loja, ou então para os desfiles, para haver um complemento qualquer. Aliás, eu até trabalhava o show-off: tinha malas enormes, de médico, por exemplo. Mas nunca me aventurei a fazer só acessórios. Quando fechei a loja fiquei farta da roupa — com tanta oferta que há, já não faz assim muito sentido. Era a roupa de autor, e as pessoas estavam a procurar mais a moda descartável. E então resolvi: “vou fazer qualquer coisa diferente. Já fiz tanto lá na roupa. Vou-me atirar para os acessórios.” E quando descobri marcas que já faziam peças com o tecido das velas, vi que este material tem pano para mangas. Dá para decoração, dá para fazer candeeiros, atoalhados individuais, até cortinados de casa de banho, porque é impermeável, dá para forrar as espreguiçadeiras… Por enquanto estão nos sacos e malas, mas quero explorar mais o lado da decoração.
O reutilizar de materiais era uma prática que já havia experimentado?
Nunca tinha feito, mas eu também não fui atrás da moda do sustentável. Agora também está demasiado na moda, em voga, o que acaba com o conceito do sustentável. Há muita aldrabice por aí… O sustentável é um bom tema. É o não deitar fora e transformar, dar uma nova vida.
Gostava de explorar outros materiais?
Sim. Há por exemplo o material das balsas de salva-vidas dos submarinos, que são aquelas balsas que estão fechadas e quando acontece alguma coisa, ela enche, cai na água e faz o salva-vidas. Só há em duas cores, laranja e preto, e é meio borrachada. É descartável, já não tem utilidade nenhuma na balsa, mas também pode ser engraçado… E depois tem peças, como a válvula de encher. Também tenho tecidos que me deram que são os coletes. Tenho andado a olhar para aquilo e a pensar… dá peças pequenas, bolsas menores, ou até detalhes nas peças. Mas tenho que fazer experiências, porque são tecidos que talvez tenham uma maleabilidade maior.
▲ A designer esteve à frente da loja LA, no Bairro Alto, entre 1993 e 2016. "Era o ponto de encontro", destaca
TOMÁS SILVA/OBSERVADOR
Tem interesse em voltar a fazer roupa?
Já não. Mas como estou muito ligada a isso, começam a aparecer coisas. Vi muitos desfiles, acho que foi em Itália, que apresentaram roupa feita de vela. Era uma saia enorme, feita com mais do que uma vela, e achei imensa piada. Há marcas que o fazem. E há alguns tecidos que dão perfeitamente para agasalhos que vão para o barco, por exemplo.
Mas poderia interessar-se por fazer algum tipo de parceria com outro colega designer ou uma marca de roupas, por exemplo?
Depende do tipo de parceria, das condições. Acho que com a idade a pessoa fica mais exigente e seletiva. Neste momento não penso em nada, estou aberta, pode ser.
Menciona esta saia feita em tecido de vela. Voltar de alguma forma à moda é algo que borbulha lá dentro?
Achei piada. Mas se fazer sacos nisto pode ser complicado, fazer roupa é mais difícil ainda. São as cavas, as costuras… A roupa exige mais máquinas… Com este tecido da vela uma máquina normal não consegue. Eu já tive um costureiro ótimo em sacos, e ele disse: “Não, só quando eu comprar uma máquina nova para materiais mais grossos é que posso trabalhar isto, uma máquina de costura normal não funciona”.
Gostava de voltar a ter um atelier?
Não. Não quero contratar ninguém, já passei por isto. É só responsabilidades, pagar ordenados. Já tenho 67 anos e acho que já não estou nem aí para ter essa responsabilidade. Agora, para mim, já não é aquela coisa de ter de fazer com obrigação. Eu sentia isso na loja: todos os anos tinha de fazer duas coleções, os desfiles, era obrigada a fazer, tinha de fazer. Então, neste momento, não aprecio ser obrigada a fazer.
Foi essa obrigatoriedade que a fez fechar a loja em 2016?
Acho que já me cansou isso tudo. Quando eu abri a loja, nos anos 1990, o Bairro Alto era o epicentro da vida em Lisboa, tudo acontecia ali. Eu abri em 1993, quando era um ponto de encontro de artistas, jornalistas, atores. Era um espaço diferente em Lisboa. Eu até costumava dizer que tinha dois filhos: tinha uma filha mais velha que não crescia, que era a loja, e um filho verdadeiro que crescia. Chegava a um ponto em que não saía dali. E depois a exigência de novidade: no verão já estamos a apresentar o verão seguinte e a começar no inverno com as tendências. Eu nunca fui muito atrás das tendências. Eu até entrava na Zara e outras lojas para ver o que tinham, para eu não ter nada parecido.
Começou alguns anos antes…
Comecei com as Manobras de Maio. Ainda estava a fazer o curso de Design de Interiores no IADE. E acho que convidaram por acaso, porque eu conhecia uma das pessoas que organizava. Pensei “porque não?”. Então experimentei e achei imensa piada. Entretanto, tive um amigo meu também ligado às artes que abriu um atelier de costura (Vítor Neto e Hugo Soares) e convidou-me para fazer parte com ele. Ele saiu, eu ainda estive um ano e tal com o atelier, e depois surgiu a oportunidade de ter a loja. No Bairro Alto, porque era o sítio mais cultural e com mais vida em Lisboa, onde tudo acontecia.
▲ Lena Aires na loja no Bairro Alto, que esteve aberta entre 1993 e 2016
Acervo pessoal
Considera que aquela era uma época muito mais voltada para as artes?
Exatamente, e toda essa gente se encontrava lá, era um ponto de encontro. E era quando estavam a abrir espaços novos também, lojas de criadores, com moda de autor. Quem fazia a ModaLisboa tinha espaço lá. Mas antes de ter a loja, fui convidada diretamente pela organização da ModaLisboa para participar, e eu também fiquei naquela de “porque não?”, tinha feito só algumas coisinhas. Fui convidada pela Eduarda Abbondanza, o Mário Matos Ribeiro e o Paulo Gomes.
Como era a relação entre estes primeiros designers do cartaz da ModaLisboa?
Nós andávamos todos ali no Bairro. Tanto que eu fui manequim deles também. Fui manequim da Ana Salazar. Lembro-me, nas Manobras de Maio, de eu estar a desfilar para um amigo meu, e, entretanto, a minha roupa ainda não tinha chegado e pouco tempo depois iria eu passar as minhas peças. Aliás, fui eu própria que passei a minha própria roupa, mais duas amigas minhas e a minha maquilhadora da altura, que éramos super amigas e uma delas depois até foi jornalista. Estava muito stressada a desfilar com um amigo meu, e depois chega a correr aos bastidores o costureiro com a roupa: “Estão aqui as coisas, estão aqui os vestidos”, e mudar tudo logo a seguir para eu passar. Era mais livre. Então achei piada àquele mundo todo, porque éramos todos por um e todos por todos, e todos nos alinhávamos uns com os outros.
Como foram os seus primeiros desfiles?
Foram irreverentes. Foi assim que eu consegui entrar na ModaLisboa, porque eu não quis saber de tendências. Arriscava e fazia. Acho que o tema do meu primeiro desfile até era “as prostitutas do Cais do Sodré”. Eram pelos, rosa shocking, um cãozinho na passarela… Entrei a partir, naquela de “não quero saber, nem quero seguir isto”. Logo a seguir veio a Vogue francesa e acho que ganhei nome sem querer, não fui à procura. Nem eu dei conta do impacto. Sei que quando entrei no carro com a tralha toda para fugir, estava toda a gente a fotografar. E eu dentro do carro, o pai do meu filho perguntou-me: “E agora?” E eu: “Não sei, é tudo novo para mim, não sei o que aconteceu”. No dia seguinte, abro os jornais e era só notícias. No segundo desfile, o Paulo Gomes escreveu um artigo enorme com o título “Prova de nove de Lena Aires”. Toda a gente estava naquela expectativa do que eu iria fazer a seguir. Comecei a sentir um certo peso e pressão: “Estou tramada, agora não posso falhar, porque se falho as pessoas cobram.” Mas correu muito bem.
Guarda muitas histórias deste tempo?
Muitas. No meu primeiro desfile, tinham-me assaltado o atelier e levaram-me parte do calçado. Cheguei à ModaLisboa e não tinha calçado. O Luís Barbeiro esteve a passar antes de mim, viu-me atrapalhada e cedeu-me o calçado. Então entraram umas com o calçado do desfile do Luís Barbeiro, outras com botas que as manequins trouxeram, todos a tentarem safar-me. Eu estava histérica! Acho até que as manequins eram mais divertidas, vestiam mesmo a roupa. E foi essa diversão que fez o meu nome na ModaLisboa. Houve um desfile em que tinha tecidos africanos e fui ao Pic Nic (snackbar no Rossio) em que resolvi meter os rastas com o Bob Marley e não sei o que, eles disseram logo que sim, todos contentes. Meti-os todos na ModaLisboa. Depois eles não saíam de lá, a dançar Bob Marley… E eu dizia: ‘Saiam, que têm de entrar outros’. Foi o meu segundo desfile. E também super divertido, eles todos contentes. Eles adoraram. Depois, toda a vez que eu passava ali, eles acenavam. São essas coisas que me faziam ser diferente…
Como e quando se deu o afastamento dos desfiles regulares e o fim das apresentações de coleções?
Quando eu estava a fazer a moda, as coisas foram começando a morrer. Para mim também comecei a achar que já não fazia sentido. O barco também começou a mudar, as pessoas interessantes começaram a sair e começou a entrar gente que não dizia nada. Acho que o meu último ano de ModaLisboa foi por volta de 2002. A loja era parte do trabalho, era a sede, mas eu também vestia promotoras, fazia eventos, fazia outras coisas. Vestia muitas promotoras quando havia eventos, contactavam-me para vestir as meninas que recebiam as pessoas, o que hoje já se faz pouco, e isso dava-me muito gosto.
Foi só depois da primeira ModaLisboa, no início dos anos 1990, que abriu a loja.
Tive um convite direto do Manuel Reis. Ligou-me e disse: “Lena, tenho uma loja para ti”. O Manuel Reis, do Lux, foi quem mais vida e segurança deu ao Bairro Alto e à noite de Lisboa. Ele tinha uma loja onde esteve o Filipe Faísca durante dez anos, o Filipe saiu e ele disse-me: “Esta loja é para ti”. E pronto.
▲ Momentos dos desfiles de Lena Aires na ModaLisboa. A criadora integrou o calendário oficial entre 1991 e 2002
Acervo pessoal
Como é que era a loja?
Era uma loja de esquina. Era irreverente. Porque as lojas eram todas muito cinzentas, muito clínicas. E eu dei imensa cor e transformei a parte de trás numa sala com sofá. Dei cor, os tetos acho que eram amarelos e as paredes azuis. Depois tinha peças dos anos 50 misturadas. Tinha um balcão em que os pés do balcão eram as pernas dos manequins, e as pessoas ficavam baralhadas quando eu estava sentada, não sabiam se eram as minhas pernas ou as pernas do manequim. E isto porque eu achava que não perdia nada por arriscar. Acho que foi das lojas mais fotografadas pelos estrangeiros. Paravam para ver, as montras eram uma animação.
Como eram as montras?
Eu própria as fazia, mas no início convidava stylists, convidava outros estilistas, o Manuel Alves chegou a fazer montras para mim. A montra esteve sempre muito viva. Não era só eu a fazer, como tinha pessoas que chegavam lá e diziam: “Bora fazer uma montra hoje!”, e faziam. E havia pessoas que me diziam que, quando iam ao Bairro Alto, davam a volta só para passar pela loja e ver a montra, porque a loja era de esquina e tinha janelas grandes. Eu tentava deixar a loja como se toda ela fosse uma montra. Sempre tudo ali muito estudado, a harmonia das cores. Havia a tal parte criativa do design, a sensibilidade à cor.
A cor sempre fez parte do seu estilo próprio?
Sim. Agora sou mais discreta. Mas era super colorida. Gostava de juntar cores não óbvias que depois ligavam muito bem. Cheguei a misturar laranja com vermelho, mas depende do tom do laranja, depende do tom do vermelho, e encaixa. E funcionava também o verde-água com ocre, por exemplo. Adorava estar ali, perdia imenso tempo. Também trabalhava imenso as malhas exatamente porque tinha a oportunidade de poder juntar as cores e não comprar o tecido já estampado. Por isso é que me chamavam “A Rainha das Malhas” ou “Missoni portuguesa”, exatamente porque ia trabalhando as cores que me apeteciam: agora apetece-me uma barra aqui em baixo de uma cor, na manga vai ter outra, na gola vai ter metade de outra cor. Era um estudo de cores que eu trabalhava. É algo que eu ainda quero muito fazer, pintura, a misturar e juntar cores, os tons, a mistura das tintas.
Dizia, quando estávamos a andar pela rua Áurea, que era também por aqui que comprava tecido. Como é que era a produção naquela altura?
Eu só desenhava, não cortava. Desenhava e entregava às costureiras. Depois eu provava. Procurava tecidos aqui no centro, e também tinha uma senhora que trabalhou comigo há imenso tempo, uns 15 anos ou mais, que fazia as malhas, e era no Norte. Eu não ia lá, mas ela encaixou tão bem a trabalhar comigo que aquilo funcionava perfeitamente. Ela não tinha fax, por isso explicava-lhe tudo pelo telefone, ela fazia as peças e mandava-as pelo correio, e eu recebia. E funcionava. Era uma senhora muito mais velha do que eu, mas ela sabia perfeitamente o que eu queria, e quando tinha dúvidas ligava-me. Mas ela conhecia o meu estilo tão bem que chegava lá muito facilmente.
Sem as redes sociais ou a internet, como faziam o trabalho chegar ao conhecimento do público?
Fazíamos os desfiles, que eram muito importantes. Apresentávamos duas vezes por ano. Chegámos a fazer desfiles também no Bairro Alto, organizámos um desfile com o Manuel Reis na rua toda, com os outros designers que também tinham lojas na zona. Nós criávamos de outra forma, fazíamo-nos ver à mesma. E depois também curtíamos.
Quem eram as pessoas que compravam na loja?
Tinha muitos turistas, já naquela altura. Vendia sobretudo as malhas, porque era um trabalho diferente e era manual. Os estrangeiros davam muito valor na altura a toda a peça manual.
▲ Lena Aires fechou a loja em 2016. "Fiquei farta de roupa", diz, sobre a obrigatoriedade de criar coleções numa altura em que a moda se tornava "descartável"
TOMÁS SILVA/OBSERVADOR
E celebridades? Já vestiu figuras públicas?
Sim. Houve uma cantora, a Anette Peacock, que veio dar um concerto. Entrou na loja… Eu tinha umas camisas de seda, umas sedas lindíssimas de várias cores que um amigo meu tinha trazido da Índia. Então fiz uma gama de camisas, cada uma de uma cor, e ela levou-as todas! Eu fui ao concerto dela. Ela comprou as camisas todas, levou umas 9 ou 10, fiquei com a loja vazia de camisas.
Entretanto também atendia encomendas sob medida.
Sim. Na altura encomendavam e depois passavam na loja para discutirmos se estava bem ou não. Olhavam para uma peça: “Ah, eu gosto desta mas está muito pequena.” E eu dizia: “Ok, posso fazer outra, é só escolher as cores e eu faço a mistura.” Eu tinha um mostruário no fundo. E neste caso eram clientes assíduas, todas as estações iam lá. Ou encomendavam ou compravam diretamente e sabiam que não havia igual. E para elas isso era importante, saber que não encontravam igual em sítio nenhum. Eu habituei-me a esta ideia de serem peças únicas, porque não há necessidade de fazer igual. Mesmo uma simples camisa branca, pode ser o mesmo tecido mas com um corte diferente, mais curta, ou com um bolso ou dois, para ser diferente. Eu acho que nunca repeti nenhuma peça.
Acha que na altura as pessoas davam mais valor à moda de autor?
Acho que sim. Hoje a moda é muito descartável e as coisas não duram nada. Havia turistas que voltavam para Portugal, ou pessoas que trabalhavam em Portugal, que passavam na loja e diziam: “Olha, eu tenho um casaco que já tem mais de cinco ou seis anos, está impecável, ainda continuo a usar.” Preocupava-me em que aquilo durasse para sempre, que fosse um modelo intemporal. Não fazia só algumas peças de show-off, que são quase obrigatórias para a montra ou para chamar a atenção; essas normalmente eram para os stylists, que adoravam, porque sabiam que eu tinha aquele lado louco de vez em quando.
Descreve um ambiente dos anos 1990 de muita cumplicidade com os outros designers. Ainda tem contacto com alguns deles?
Sim, tenho. Quando os vejo na rua, damos sempre abraços e falamos imenso. Nós íamos em grupo para os desfiles fora, ficávamos no mesmo hotel, dávamo-nos muito bem. Fiz parte do grupo dos pioneiros da moda em Portugal. Eles tinham todos formação na área, eu não tinha formação nenhuma, fui lá parar por acaso. Éramos unidos, não havia ciúmes, trocávamos impressões…
Segue a moda nacional atualmente? Vai aos desfiles?
Muito raro ir aos desfiles. Mesmo o ambiente da ModaLisboa… Acho que hoje em dia há muito show-off, há quem vá só para aparecer. As pessoas vestem-se de formas descabidas na rua só para serem vistas. Desfiles com aquela moda que é impossível de vestir. Para isso, então façam figurinos, mas figurinos com piada. Vou mais atrás daqueles criadores que já conheço e que sei que trabalham de outra forma, que fazem roupa que se deseja, com qualidade. Há irreverência, mas a peça está lá. O design e a funcionalidade têm de estar juntos, têm de estar ligados, senão não faz sentido. É como fazer uma cadeira fantástica com duas pernas: pode ser fantástica, mas não funciona.
[Annie está de volta a Havana. Apesar das relações privilegiadas com altas figuras do regime, quer viver como os cubanos, divertir-se como os cubanos e… sofrer como os cubanos. Mas continua a ser filha do diretor da PIDE. E Fernando Silva Pais e Armanda Palhota não estão dispostos a deixá-la passar tão facilmente para o lado do inimigo. Já pode ouvir o terceiro episódio de “Os Escândalos de uma Revolucionária”, o novo Podcast Plus do Observador. Está disponível no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no YouTube.]