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Olá e sejam muito bem-vindos. Já sabe, esta é a história das histórias. Eu sou o João Paulo Secadura e claro que aqui estou apenas para acolher a voz de Alberto Correia, que em Viseu nos continua a desfiar as suas memórias, as suas crónicas, a ver com toda esta região centro. Hoje falamos da malha do centeio. Memórias românticas do nosso autor. Vamos a isso. Bem-vindo, Alberto.
Já não há, em nosso tempo, em Chãos de Beira, campos semeados de trigo ou de centeio, esses campos de pão que foram de avós. Já não há semeadores assobiando, nem mondadeiras cantando, nem ceifeiros afogueados de sol e de calor, nem festivas malhas em agosto. Jamais alguém descreverá como Aquilino Ribeiro o fez, nessa epopeica narrativa que são as Terras do Demo, a malha do centeio, essa gesta poderosa que corria no pino do verão, pela vastidão das eiras, dispostas em círculo nas abas dos povos da sua serra. Os centeais eram fartos nas vastas courelas, chiavam carros de bois nos caminhos e as pousadas de pão aguardavam nas eiras, com datas marcadas para a entrada de agosto, o passo rompante dos malhadores. Nas terras mais quentes do Dão e Lafões, regadas por águas de rios com madre na serra, é de milho e vinho que se faz a riqueza da terra. Centeio, às vezes, também dava em crescer nos alqueives secos de encosta, onde não medravam os frutos da horta. Coberto à ancinho nos chãos pequeninos, manteado à enxada em leiva mais vasta, entre os fins de outubro e o alvoro de fevereiro, era vê-lo já grado nos meados de maio, de ouro tingido ao romper do verão, ceifeiras à porta, depois na mão. Chamavam-se depois os homens à eira, rogavam-se aos pares, postavam-se frente a frente, em fileira, e logo se ouvia o bater dos manguais. À meia-manhã, havia a piqueta que a dona trazia na cesta de curra, coberta à maneira com toalha de linho. Presunto, enchido, sardinha, a broa caseira e a botelha de vinho. E outra vez se ouvia o soar do perdigo de pau de figueira e as mulheres em roda compondo a carreira. Passado o calor, já finda a malhada, escolhia-se a palha menos quebrada, fachos de colmo, que as mulheres usavam para encher os colchões e encavar as cebolas em réstias iguais, e também se guardava pra cobrir na fazenda a fraca cabana que servirá de abrigo se houver trovoada. E a palha miúda, guardada na loja, faria de inverno a cama do gado e esteira para a gente, se houver o serão. Ficava na eira o grão estendido, que as mulheres varriam, juntando-o no monte. Era delas, depois, o ato de joirar ao erguer, cestas de verga bem cheias postas ao alto, o jeito das mãos como se fora a tremer e o vento da tarde a limpar o grão. Mulheres de joelhos, vassouras de sesta, a coanhar as praganas. E uma arca bem cheia. Taleges de grão, a mó de moinho e a moleira que vinha, guardada à maquia, trazendo a farinha. E o pão amassado na funda maceira, a massa tendida na baqueadeira e dentro do forno, o pão a corar. E o pão sobre a mesa. E o pão sobre a mesa.
Uma crônica ao jeito de poesia nas suas palavras, Alberto. Gostei muito, aprendi muito e é engraçado como vamos aprendendo estas palavras que caíram um tanto em desuso, das baqueadeiras.
São velhos tempos que se recordam.
A coanhar as praganas. Nós podemos aprender tanto ao ouvi-lo. O Alberto é tão bom. Muito bem, por hoje estamos conversados. E marcamos encontro aqui amanhã. Bem-haja, Alberto. Até amanhã.
Até amanhã.