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Olá, sejam bem-vindos. Já sabe, esta é a história das histórias. Eu, João Paulo Secadura, estou aqui a acolher Alberto Correia, este historiador, beirão e investigador de antropologia, arqueologia e etnografia. Vai nos falar hoje sobre "A Minha Gaiola Aberta", a propósito da apresentação do guia das aves de Aquilino, presentes nas obras de Aquilino Ribeiro. Vamos a isso. Bem-vindo, Alberto.

Trago hoje à memória a apresentação de um curioso livro, que foi em tempos apresentado no pátio recoberto pela sombra das tílias que Aquilino Ribeiro plantou, fronteiras à morada de seu pai, e que ele herdou na aldeia de Soutosa, esse umbilical pouso das terras do Demo, hoje sede da Fundação Aquilino Ribeiro. Trata-se de um precioso audiolivro, número um da coleção Ciência e Arte da editora Boca, paciente e sábia recolha antológica da bióloga Ana Isabel Queirós, que de há muito mantém apaixonada relação com a obra de Aquilino e nos traz, acompanhado de excelente texto introdutório das três obras consultadas, todas atinentes às terras do Demo, menção das 67 aves que o escritor inventaria de seu jeito, vivas descrições das plumagens, do habitat, registro magistral da onomatopeia das suas vozes e da comparceria que elas mantêm com os humanos. O livro, ilustrado com suaves tons aguarela, acompanha-se de um CD onde dá gosto ouvir a leitura de alguns textos ancorados numa encantatória composição musical fortemente inventiva, onde o som do bem escolhido instrumento se associa ao real gorjeio do passaredo. E eu, lendo os excertos, escutando os sons antigos, redivivos, volto à minha infância na margem oriental das terras do Demo e ali encontro, como se para ali tivesse voado da arca de Noé, um bando fugidio daquele vário passaredo. Boieurinhas catando bichos atrás do arado, corvos e milhafres voando nas alturas do verão, peneireiros das asas abertas suspensos no céu e os gaios no pinheiral espenujandos, e os ovos das rolas em ninhos de frágil arquitetura, e o ninho da carriça na sebe de buxo do quintal da madrinha, e o buraco que ainda sei de um ninho de ferreiro, e o cantar do cavalinho a anunciar breve trovoada, e o melancólico canto do mocho, e o algurento canto da noite e bóie das corujas ao anoitecer sobre os outeiros, e de que ainda hoje me lembro ao passar lá no caminho, e o azeite que as corujas iam beber à lamparina da igreja, se dizia, e o voo rasteiro da perdiz, e as milheiras que eu enxutava dos campos de milho-painço batendo num caldeiro, e os pardais que pousavam no inverno na varanda, e as andorinhas na mina da Quinta do Valbom, onde nasceu minha mãe, e o cuco que a gente se punha a escutar no mês de abril, e os tordos a bater as oliveiras, e os estorninhos a pouca, a codorniz, o melro, a cotovia, e os ninhos que a gente gostava de achar, e os versos de Afonso Lopes Vieira, que a gente lia no livro da segunda ou da terceira, já não sei. E a professora a ralhar conosco, porque andávamos sempre a espreitar os ninhos. Arca de Noé dos nossos sonhos.

Foi um esvoaçar por estas suas memórias, também pela quantidade grande de pássaros que menciona, e memórias, claro. Com os parabéns à bióloga Ana Isabel Queirós, que fez este levantamento destas dezenas de espécies mencionadas por Aquilino na sua obra. Bem-haja, Alberto, por mais estas memórias tão bonitas e que nos soam também aos ouvidos da memória. Bem-haja e até amanhã.

Até amanhã.