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Olá, seja bem-vindo. Esta é a história das histórias. Eu sou o João Paulo Sacadura e Jorge Adolfo Marques, historiador e professor, mestre em arqueologia, é ele que nos vai falar hoje de uma terra que eu pessoalmente conheço e gosto muito, que é de Bobadela, Oliveira do Hospital. Eu pessoalmente conheço aquilo e gosto muito daquilo, já lá visitei e fiquei fascinado com aquelas ruínas. Acho que muita gente ainda desconhece, Jorge, e é pena, merece completamente uma ida lá. Eu faria aquilo tudo romano, mas tu nos vais mostrar que não e vais nos contar que aquilo já tem até megalitismo e coisas da Idade do Ferro. Vamos a isso, estou muito curioso. Vamos a Bobadela, então, Jorge. Bem-vindo.
Vamos até Bobadela, vamos até ali às terras de Oliveira do Hospital. Bobadela é uma pequena localidade muito vizinha de Oliveira do Hospital, da sede do Conselho, que já foi cidade. E que foi cidade precisamente na época romana, dos romanos. Os romanos fundaram ali uma cidade.
No século I, por aí, nesse sítio?
Sim, no século I, exatamente, ali na transição do século primeiro antes de Cristo para o século primeiro depois de Cristo. Portanto, é ali nessa viragem.
Mas desconhece o nome dessa cidade, não é? Não há nenhuma inscrição, nada?
Pois desconhece.
Não sabia.
É curioso que até há uns anos atrás, também em Viseu não se conhecia o nome da cidade Viseu. O nome romano. Já se conhecia o nome da época suévica e visigótica, portanto, já era muito parecido com o topônimo Viseu dos nossos dias, mas o de Bobadela continua no nosso desconhecimento. Pode ser que aconteça o que aconteceu em Viseu, que apareceu uma inscrição e que nos permitiu interpretar, a partir dessa inscrição aparecida, o nome da própria cidade. Portanto, pode ser que aconteça a mesma coisa ali em Bobadela. A arqueologia está sempre a surpreender as pessoas, os investigadores, e nós temos muitas e boas equipes de arqueólogos a trabalhar em muitos locais do nosso território e que nos vão dando estas novas notícias desses vestígios e particularmente até no verão, quando há muitos trabalhos arqueológicos. Ora, Bobadela, apesar de ter sido uma cidade fundada pelos romanos, o território já era povoado antes dos romanos cá chegarem, mas era povoado já há muito tempo. Já era povoado desde a pré-história. É também um território onde encontramos monumentos megalíticos, portanto, os tais dólmens de que já falamos várias vezes, nomeadamente a Arquinha da Sobreira, a Anta da Cavada. Mas também, depois do Neolítico, temos alguns locais onde sabemos que estiveram populações de épocas posteriores ao megalitismo, nomeadamente da Idade do Ferro. A Idade do Ferro, no caso concreto, estamos aqui a falar do primeiro milênio antes de Cristo e particularmente de meados desse primeiro milênio. Temos lugares como o povoado de Outeiro de São Sebastião e o povoado de Monte do Vale de Loureiro, ali pertinho de Bobadela, o que quer dizer que quando os romanos se estabelecem numa zona baixa, junta bons terrenos agrícolas, como é o caso, bem irrigados, com muita água, com boa exposição solar e ao mesmo tempo abrigados. Os romanos têm uma economia agrária, mas também de exploração de outras riquezas que o território tinha, nomeadamente os minérios. Ao contrário das populações que estavam lá naqueles cabeços com as muralhas à volta do seu povoado, do período da Idade do Ferro. Essas populações vão ser contemporâneas. Quando os romanos chegam, eles estão lá. Algumas destas populações descem e vêm viver para esses novos espaços urbanos que os romanos criaram. Outras permanecem nesses lugares altos, como se fosse uma aldeia, como se fosse aquilo que corresponde à nossa aldeia. Ora, Bobadela. Nós não sabemos o nome então de Bobadela. Sabemos que foi criado ali no século I. Era uma cidade que teria cerca de seis hectares. É uma cidade relativamente pequena, teria talvez entre mil e dois mil habitantes. Estamos aqui a apontar para meio, 1.500. Enfim, não temos a certeza. E como todas as cidades romanas, vai ter um fórum, o fórum com o seu templo ou culto imperial, com a sua basílica onde eram discutidas as questões administrativas do território e à volta as chamadas tabernae, que eram lojas para o comércio. E era ali que se cruzava no fórum, era ali que chegava o cardo e o decumano, as tais ruas principais a partir das quais era estabelecida a grelha viária urbana. A malha urbana provavelmente era regular, porque é uma zona muito plana, muito aplanada, como é Viseu, que é uma cidade que tem um cabeço em torno da Sé, portanto, as ruas já não é possível fazer essas ruas retilíneas. Aqui, nesse fórum, ainda se preservam lá, as pessoas podem ver, colunas com capiteis toscanos, iônicos Não sabemos onde é que estavam as termas e a cidade tinha-as. Nas traseiras do anfiteatro, encontram-se vestígios de um bairro que foi demolido quando foi construído o anfiteatro. Este anfiteatro foi construído no tempo dos Flávios, entre o ano de 69 e 96. Estamos quase no final do século I. Ou talvez já pelo imperador Trajano, que governou entre 98 e 117. Este anfiteatro, convém dizer que tem um pódium e tem uma arena, foi todo escavado, e a arena tem uma configuração elipsoidal com 50 m de comprimento, a medida maior, e cerca de 40 de largo, o eixo menor. As bancadas seriam em madeira.
Então já não existem, já não há vestígios.
Das madeiras, não. Mas tem exatamente a base onde assentavam essas bancadas. Portanto, mesmo a rocha foi cortada precisamente para criar esse declive, essa posição oblíqua. Tal como num estádio de futebol. É muito semelhante. Só faltam as bancadas.
Há notícias que até teria ardido essa bancada.
A destruição pode ter ocorrido com um incêndio generalizado.
Que há notícia que é no século IV.
Talvez já no final do império, por volta do século IV, onde havia espetáculos, nomeadamente de gladiadores ou com animais. Tinha uma capacidade para cerca de 800 espetadores.
Bem bom, numa cidade de mil a duas mil pessoas. É bem bom. Metade da população podia assistir a aquele espetáculo.
Eram espetáculos, também não havia muita oferta de espetáculos. Naquela época, era um local para espetáculos típicos de todo o império. Nós estamos habituados a ver o Coliseu em Roma. Imaginem o Coliseu à escala de uma pequena cidade na Lusitânia, no extremo ocidental do império. Há um aspeto importante que eu gostava de salientar, é que o ouro era explorado no rio Alva e o rio Alva atravessava o território desta civitas de Bobadela. Portanto, o rio Alva era um rio onde era explorado o ouro, há vestígios dessa exploração. E esta cidade, que não conhecemos o nome, que tem o único anfiteatro escavado completamente em Portugal, na sua totalidade, tem um centro interpretativo muito bom, com um filme que podem ir buscar à internet, basta colocar o nome Centro Interpretativo Bobadela Romana, podem visualizar. Foi um centro inaugurado em 18 de abril de 2018, Dia Internacional dos Monumentos e Sítios, e é um sítio extraordinário, porque depois de cidade romana, entrou em decadência, mas chegou a ser paróquia sueva. E depois no período da reconquista, as elites vão se estabelecer também naquela região e nós temos documentos referentes a esse período da reconquista.
Muito bem, fartámo-nos de passear por estes dias contigo, pela tua mão, Jorge Adolfo Marques. Quero agradecer muito estas sugestões que faz e que hoje culminaram nesta Bobadela, neste anfiteatro e todas estas ruínas romanas que são tão bonitas e que eu acho que apesar de tudo, ainda são bastante desconhecidas de todos os portugueses, de todo lado. Deviam dar ali um pulo e conhecer a loucura com aquele arco, com aquele anfiteatro, aquilo é tudo muito bonito.
Deixa-me só dizer uma coisa para concluir. É que em Bobadela, para além deste centro interpretativo, há um outro local que merece a visita, que é o Museu do Azeite, que tem a história da produção de azeite e o ecossistema do azeite desde a pré-história até os nossos dias. É um lugar a não perder.
Fica aqui esta dica muito importante, em especial meu, que adoro azeite. Vou ter atenção, de certeza. Jorge Adolfo Marques, um grande abraço. Marcamos encontro então amanhã ou até breve, o mais rápido possível. Muito obrigado.
Um grande abraço.
Obrigado.