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Olá, seja bem-vindo. Esta é a História das Histórias. Eu sou o João Paulo Sacadura e estou ansioso pra ouvir mais este percurso por estas memórias, por estas escavações, por esta história de toda esta região, pela voz do Jorge Adolfo Marques, este historiador e professor que vamos agora ouvir neste primeiro apontamento chamado "O Espaço, Identidade e Memória", que fica ali em Penedono. Algo que fica ali localizado na capela do Solar dos Coutinhos, que eram os antigos condes de Marialva. Não é, Jorge? Bem-vindo.
Exatamente. Olá. De facto, o Espaço, Identidade e Memória é o nome do espaço em si. É uma antiga capela, que era do Solar dos Coutinhos e também Condes de Marialva, e que foi reabilitado esse espaço e reconvertido num pequeno museu. Um pequeno museu que reflete um pouco a história de Penedono, do Conselho de Penedono, do território de Penedono. Está ali mesmo no centro da vila. Aliás, é uma pequenina vila muito histórica, com o seu castelo muito icónico. E este pequenino museu, que tem este nome bastante interessante, é um espaço de identidade e de memória. E é disso que nós temos estado a falar nestas nossas conversas aqui na rádio. E o que nós podemos ver? Primeiro, a entrada é gratuita. Foi um pequeno museu inaugurado em 2016, portanto, é um jovem museu. E que começa precisamente com o passado mais antigo do território, da ocupação do território, com os monumentos megalíticos, com as necrópoles. Nomeadamente, há duas necrópoles megalíticas que estão retratadas não só em fotografia, mas também em objetos que foram encontrados em espólio arqueológico, que foi encontrado em escavações que decorreram, em particular nestes dois locais. A necrópole da Senhora do Monte, onde existia uma antiga ermida que remonta à Idade Média, eventualmente até aos inícios da Idade Média, mas que ainda na época moderna, no século XV, XVI, existia. Mas está num sítio muito isolado. Pertence à freguesia de Penela da Beira e Castanhoço. E é uma necrópole, por quê? Porque tem vários monumentos megalíticos datados do Neolítico Médio, finais do quinto milênio, quarto milênio antes de Cristo. Mas é uma necrópole muito numerosa. Para ser necrópole, tem que ter um conjunto de túmulos. E tem uma série de túmulos que estão ali espalhados por aquela serra, e que estão todos sinalizados. Portanto, o acesso é muito fácil a qualquer um destes monumentos. E é curioso, porque o dólmen que se encontra naquele local, o da Senhora do Monte, está incorporado, ou melhor, foi incorporado na própria capela. Isto é, a capela foi construída e o dólmen, sobretudo a parte da câmara, foi aproveitada na cabeceira desta capela.
Que giro. Alguns exemplos, eu lembro disso acontecer em Sombrios, em Pavia.
Exatamente.
Alguns que eu me lembro. É fantástico.
Exatamente. Temos uma série de monumentos deste gênero, em que quando fazem a construção de um templo cristão na Idade Média ou até numa época posterior à Idade Média, acabam por incorporar aquelas pedras de grande dimensão que era de um túmulo pré-histórico. Isto é curioso porque é a sacralização, a cristianização de um lugar de culto, um lugar de enterramento e de culto pré-histórico. E isso, como tu referiste, e muito bem, por exemplo, a capela de São Dinis, em Pavia Cá está no concelho de Mora.
Exatamente, em pleno Alentejo.
Ou a de São Brízido, que também fizeste referência, mas temos várias por todo o país.
São duas que eu conheço.
Exatamente. Depois, uma outra necrópole que está representada também neste espaço de identidade e memória é a necrópole de Lameira de Cima, na freguesia de Antas. Veja-se aqui a curiosidade, o nome da própria freguesia é o nome Antas.
Já faz referência a estes monumentos megalíticos?
Exatamente. A toponímia muitas vezes revela monumentos ou outras características do território e que são incorporados na própria toponímia.
É engraçado, Jorge, eu posso dizer isso, porque há muitas terras, por exemplo, na região Oeste, que nem sequer são já perto da costa, mas diz, por exemplo, Porto de El Rei, que a água chegava ali há 400 anos, há 300 anos, e já não é nada a água ali perto.
Exatamente. A designação de Porto, fazes agora referência, é curioso. A designação de Porto pode também estar relacionada, e está muitas vezes relacionada, até aqui nas terras do interior, com um lugar de passagem. Podia até ser num lugar onde se atravessava um pequeno ribeiro, um pequeno rio, uma linha d'água, mas é um sítio que geralmente tinha, remontando à Idade Média, algum tipo de povoamento e que era um sítio de passagem obrigatória. Ou porque passava lá uma estrada romana antiga, ou porque passava lá um caminho de peregrinação e era porto, no sentido de passagem, aqui nas terras do interior. Ora nós encontramos então neste museu o espólio pré-histórico destes monumentos, mas também encontramos referência ao menir de Vale de Maria Pais. O menir, portanto, é um monumento megalítico, mas é apenas uma pedra.
Isolado.
É apenas uma pedra isolada. Não é um lugar de enterramento, mas sim um lugar de culto, como por exemplo este de Vale de Maria Pais, que foi descoberto ocasionalmente em 1991 e tem umas covinhas gravadas. É um monumento de grandes dimensões. Tem seis metros de altura e que tem também um motivo gravado que é, pensa-se, um sol gravado e que aparece muitas vezes nos monumentos megalíticos.
É vulgar.
Para além desta referência, claro que também há referência a povoados já mais próximos de nós, isto é, da Idade dos Metais, da Idade do Cobre, mas também da Idade do Bronze, numa série de sítios altos fortificados que há no território deste concelho. E depois a Romanização, particularmente a que gostava de fazer referência a um lugar que é Santo António, na Granja, que eram umas possíveis minas de exploração que remontam à época romana. Para além das inscrições que apareceram pelo território e que também estão lá expostas. Já do período da Reconquista, então temos também imagens das tais sepulturas rupestres. E depois uma referência muito importante aos forais que foram atribuídos por Fernando Magno, que vai reconquistar toda esta região beirã até Coimbra.
Estamos no ano mil e tal, não é? Ainda antes do Afonso Henriques.
Ainda antes do Afonso Henriques. Estamos aqui no período pré-nacional e que reconquistou todo este território ali entre 1055 e 1057. E depois atribuiu forais. E depois a referência aos forais já do nosso D. Afonso Henriques e do Dom Sancho. Portanto, é um museu muito interessante, pequenino, muito bem conseguido, com um discurso muito bonito, muito apelativo e que qualquer pessoa pode ir visitar quando for a Penedono, visitar o castelo e dá um saltinho ali ao museu, a este espaço de memória que é bastante interessante de ver, porque é um cartão de visita de todo o território, da história de todo o território.
É importante ter acesso. E o próprio nome, como tu dizes, este espaço de memória também é uma questão muito importante haver isso, haver essa referência, espaço, identidade e memória. Muito importante perceber isso, esta ocupação antiga de Penedono, até ao Foral Henriquino de 1195. Muito bem, Jorge. Marcamos então o encontro amanhã. Bem-hajas, até amanhã.
Um grande abraço.