Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
Olá, sejam muito bem-vindos à História das Histórias. Eu sou o João Paulo Sacadura e comigo está, em Viseu, Alberto Correia. Ele hoje continua com as suas memórias, com as suas crônicas que nós tanto gostamos e que já nos habituamos. Hoje vamos falar de um presépio, ainda. Vamos falar dos bonecos de Barcelos, do presépio do autor. Olá, Alberto, bem-vindo. Vamos a isso.
Era ainda criança, seis anos, talvez, quase ao findar a década de 40 do século XX, a vendedeira de bonecos que de Barcelos descer à Beira Alta, batia uma vez mais à porta de minha mãe, na Sarzeda, junto a Sernancelhe. Trazia louça vidrada, alguidares enramados que eu ainda conheci, pocarinhos onde se amornava o vinho nas noites de frio e as maneirinhas panelas onde minha mãe guardava o mel. Não me lembro do nome da vendedeira que meus pais hospedavam à maneira das casas de lavradores. Duas mantas, a quentura de um caldo, larga fatia de pão e a talhada de boa carne de porco de então, o pocarinho de vinho. Mas quando a vendedeira, no dia seguinte, partiu, estava eu na quintã da casa de meus pais, fez-me promessa de me trazer um assobio quando ali voltasse, daí a um ano, que isso já eu sabia, e voltou. Voltou outra vez a vendedeira e trouxe consigo o assobio que me prometeu, que disso me lembro, um galo pequenino com pintura a cores, que daí a pouco assobiava pelas ruas da aldeia. Já não recordo o fim que dei ao assobio, o fim desse míudo galo que porventura se partiu, mas veio daí a minha paixão pelos bonecos de Barcelos, desses mais ingênuos, as figurinhas de presépio que eu comecei por conhecer nos presépios que as mordomas construíam na igreja da minha aldeia. Que, nesse tempo, eu mal me importaria com a sua história, a das figurinhas, essa recriação que os oleiros de Barcelos, das suas aldeias ao redor, construíam quase a brincar, enquanto no forno ardia a fornada das talhas avantajadas, das púcaras, dos pocarinhos, dos escoadores, das assadeiras vidradas. Que assim nasceram, já mal alguém sabe contar, vão mais de 100 anos, as figurinhas pintadas que as mulheres vendiam em tendas de festa ou de feira, ou em solitários passos, porta a porta, nas aldeias. Não armei este ano o meu presépio de Barcelos de figurinhas já bem antigas, não o armei como antigamente. Maria e José abrigados sob a cabana de um pastor, o menino Jesus na manjedoura tecida de palhas cortadas à tesoura, pastores descendo a encosta com cordeirinhos aos ombros, as suas mulheres saindo da aldeia com cestinhas carregadas de queijinhos curados, de figos secos, de nozes, bilha de leite na mão, enquanto outras se atarafavam na ida à fonte do lugar ou nos preparos da ceia. Camponeses regressados da lavoura de inverno atravessavam conversando a pontezinha levantada sobre uma ribeira de prata, seguindo o velho caminho da areia branca. Ainda longe, adistavam-se os Reis Magos, que já vinham a pé, os criados trazendo camelos pela rédea, onde, em cofrezinhos pintados, vinham os presentes do menino. E havia uma estrela dourada presa no cimo de um pinheiro, com seus raios a fingir. E havia um anjo que parecia suspenso no ar. Todos os anos me lembro, ao vir o mês de setembro e a Feira de São Mateus, em Viseu, do meu presépio guardado numa caixa de cartão, como este ano aconteceu. Corro as tendas armadas dos louceiros de Barcelos, na saiala que se estende por largos espaços. Lembro-me da mulher que me ofereceu o assobio ao ver os pequeninos galos que ainda são iguais ao meu. Ali estavam, à espera de poeta ou comprador, os galos de assobiar, a Virgem Maria com seu manto de azul já desbotado, São José com a sua velha bengala, reis magos a pé ou montados a cavalo, pastores, as mulheres dos pastores, muitos cordeiros, camponeses do machado ou enxada ao ombro, as pontezinhas, casas da aldeia, as fontes, as estrelas, os anjos que por toda a noite haveriam de cantar. Lembrei-me dos louceiros antigos, do seu jeito de lavrar o barro, a que tanta vez assisti, desse milagre das suas mãos que eles copiaram dos muitos antigos gestos de Javé. Lembrei-me dos novos louceiros, da mestria dos seus gestos, agora em Barcelos, e eu os louvo por não terem abandonado o velho figurado, e eu os louvo por essas sublimes criações de um tempo novo.
De facto, Alberto, é um dom ainda se poder ir à Feira de Barcelos, por exemplo, e encontrar, mesmo em várias lojas em Barcelos, muitas destas figurinhas pintadas que ainda persistem, quer nas nossas memórias, quer ainda à venda, não só pra turistas, mas pros locais e pra todos os nacionais, todas as pessoas que passam lá. É uma belíssima recordação daquele figurado feito em Barcelos.
E na Feira de São Mateus estão sempre presentes milhares de figurinhas ainda.
Que giro. E também gosto muito, Alberto, não tem muito a ver, mas falou nisso. Gosto muito desta tradição que o Alberto conta, que já temos apanhado várias crônicas com vários vendedores que passavam por sua casa e na aldeia, e os pais acolhiam-nos sempre com uma manta, com uma sopa, com uma talhada de carne de porco. É muito bonito esse gesto de acolher os vendedores e dar-lhes guarida e dar-lhes uma refeição.
Eu tenho muito presente gente de Barcelos, gente de Molelos ou de outras áreas. E as casas dos lavradores tinham sempre uma certa abastança de pão e de vinho, de carne de porco, e eram generosos por natureza.
Sim, e partilhavam. É tão importante isso. Isso é um gesto que não é só no Natal, é todo o ano, mas é muito importante e é bom manter essa memória. Muito obrigado, então, Alberto. Bem-haja. Marcamos encontro então amanhã ainda. Ainda se pode dizer, neste tempo em que estamos, estamos quase a mudar de ano, a continuação de boas festas, então. Um abraço. Até amanhã.
Até amanhã.