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Olá, sejam bem-vindos. Esta é a "História das Histórias" e eu sou o João Paulo Secadura. Alberto Correia, em Viseu, historiador e investigador das histórias e tradições da região Centro. Hoje fala-nos dos magustos antigos e da reinvenção da tradição. Vamos a isso, Alberto. Bem-vindo.

Designa-se magusto, no seu mais comum sentido, o festivo ato de assar castanhas, no geral ao ar livre, em fogueira feita com caruma seca ou palha. Obedecendo o tal ato, é uma específica sociabilidade que compreende o grupo familiar ou qualquer grupo que ad hoc se predisponha a realizá-lo. Inclui, naturalmente, as castanhas como bebida à jeropiga, a água pé ou o vinho novo, às vezes ainda mosto, o enfarruscamento mútuo dos comensais, eventuais descantos e a esfuziante alegria da ocasião. Pode considerar-se a típica festa do anual ciclo agrário que celebra o findar das colheitas, traduzido pela apanha deste verdadeiro fruto e derradeiro do ano, as castanhas, tendo habitualmente lugar à volta da festa de Todos os Santos, celebrada a 1 de novembro, ou à volta do São Martinho, a 11 do mesmo mês, quando não acontece nos referidos dias da folhinha. Aquilino, no seu livro "O Homem da Nave", na sua avantajada celebração do castanheiro, evoca os magustos dos pastores. Mas, descendo à écloga, sabe-se a que ponto o castanheiro era a árvore sagrada dos pastores e peregrinos. Estes pediam-lhe o necessário viático e a sesta refrigerada. Aqueles, o surrão cheio de castanhas que iam encelheirar para seus magustos e entrodadas. Noutro lugar, descreve o habitual magusto dos escolares da sua aldeia de Lomba, o nome enfabulado da sua aldeia de infanto, Carregal, pequena festa dita magusto de Santa Catarina, porque se associava ao ágape uma carnavalesca procissão com uma velha imagem de roca de Santa Catarina que se guardava em sótão, despida já de qualquer caráter de sagrado e que presidia ao assar das castanhas na margem do povoado. Içamos Santa Catarina no alto de uma rocha, tal uma divindade druídica, padroeira de Rambois, e com caruma seca, arrebanhada em três tempos, fizemos o magusto. Magusto que associou o divertido enfarrutamento enquanto partilhavam os bilhos, as castanhas assadas já descascadas e o clarete trepadiço do Chiquinho, o abonado companheiro que se atrevera a trazer uma garrafa de bom vinho caseiro. Saborosas memórias de um viver de aldeia ao tempo de uma infância descoidosa que Aquilino nos soube contar. Tempo que se rememora hoje, sempre que em novembro, ao cair das castanhas, municípios e associações de teor cultural e desportivo reinventam essa ancestral e festiva prática do magusto.

É sempre bom contar com isso. E eu gosto tanto de castanhas também como o Alberto. Estamos sempre à espera que chegue novembro para poder celebrar isso. Já faltam menos, já passaram uns meses. Muito obrigado, Alberto. Nós marcamos encontro amanhã e continuamos nas liças do Paladar. Até amanhã.

Até amanhã.