O Campeonato parou, o FC Porto nem por isso. Aliás, ao longo dos últimos dias em que o único tema possível e imaginário parecia ser o caso Ronaldo na Seleção, os portistas foram tendo sempre a sua atualidade: foram à Corunha fazer (e ganhar) um particular com o Deportivo, recuperaram fisicamente uma das grandes mais-valias do plantel como é Samu, tiveram a habitual gala dos Dragões de Ouro com esse momento marcante da entrega do prémio de Equipa do Ano pelo futebol à viúva de Jorge Costa, Estela Costa, apresentaram contas consolidadas do exercício de 2025/26 com um prejuízo “assumido” de 21,1 milhões de euros, anunciaram a renovação de William Gomes, contaram também com André Villas-Boas no painel “Construção de equipas de alta performance” no Cardiology Gaia Meeting onde abordou vários temas ligados aos azuis e brancos e não só. Assuntos não faltaram, agora voltava o futebol. E voltava logo com uma deslocação à Madeira. 

Marítimo-FC Porto. Francisco Moura, Varela e Hwang jogam de início (0-0, 1′)

“O Marítimo é uma equipa que historicamente sempre deu problemas ao FC Porto. As estatísticas mostram que é o quarto estádio fora onde é mais difícil ter resultados. É um número que tem de estar na nossa cabeça. É uma equipa que está bem desde que voltou, graças ao trabalho do técnico [Mitchell van der Gaag] e ao que são capazes de meter no relvado. Nunca desistem. Recuperaram resultados três vezes nos últimos minutos, vai ser um jogo desafiante por razões diferentes. O relvado também é um tema já falado várias vezes, espero que nesta pausa tenham feito tudo para que esteja da melhor forma possível. Penso que eles esperam ter um campo bom para jogar toda a época e esperamos que esteja bom. Se não estiver, não há desculpas e temos de usar outras ferramentas para passar por cima disso”, recordara Francesco Farioli.

Motivação não faltava. Antes da paragem, o FC Porto conseguiu reforçar a vantagem na liderança da Liga com o triunfo frente ao Benfica no Dragão, somando a sétima vitória noutros tantos encontros e vencendo o único adversário a quem não tinha ganho numa primeira volta quase perfeita de 2025/26. Agora, mesmo não sendo uma meta assumida em termos públicos, só havia um caminho para melhorar aquilo que foi feito nos primeiros meses da última temporada (que acabaram por ser determinantes para o título) – vencer todas as partidas, chegar aos 51 pontos e superar o recorde alcançado no ano passado. No entanto, e nesta fase, todo o foco estava num bom arranque de segundo ciclo da temporada aproveitando o balanço da primeira.

“Acabámos o primeiro ciclo com boas vibes, bons sentimentos. Esta pausa internacional parou, de alguma forma, esta dinâmica em termos de resultados, não em termos do desejo de trabalhar e melhorar. O particular com o Deportivo ajudou-nos a manter ritmo e a tentar coisas diferentes para evoluir coletivamente e estar em cima de questões individuais. Os jogadores trabalharam muito bem. É um desafio porque foram mais de 20 dias com jogadores pelo mundo. Agora é voltar a ligar às nossas dinâmicas, aos nossos princípios. Espero que amanhã [sábado] repitam o treino de ontem [quinta-feira] porque foi um dos melhores de sempre. Falo sempre de como os jogadores trabalham mas tive de parar e queria continuar porque foi um treino fantástico. Têm a mentalidade certa para abordar este bloco de jogos com a atitude certa. É um bloco em que vamos ter oito jogos oficiais e um particular pelo meio, três provas”, apontara.

“O que me dá confiança é que temos um grupo maduro. Tivemos os jogadores juntos na gala e vemos o prazer de estarem de volta, estavam felizes por se verem de novo. A sessão de ontem [quinta-feira] foi um grupo de amigos que se reencontraram com a vontade de continuar em frente. O desafio está lá, vai ser um jogo importante. No ano passado, após a paragem das seleções, tivemos jogos difíceis em que sofremos mais do que o habitual. Há tópicos claros que temos de ter presentes, mas a maturidade da equipa está lá e acredito que não vai haver questões deste lado. Tem de ser um encontro jogado bola após bola, cada minuto. Na última parte do jogo, qualquer que seja o resultado, temos de estar muito alertas porque só vai acabar mesmo no fim, o Marítimo nunca desiste”, alertara também o técnico italiano antes da partida no Funchal.

O mote estava lançado por um treinador que, olhando para as contas do FC Porto, preferiu ir por um outro caminho. “Tenho a licenciatura em filosofia porque em matemática não era bom”, justificou entre sorrisos. No entanto, e mais uma vez, também ele assumiu o discurso do clube: houve um processo de reestruturação, o mercado do verão de 2025 teve o maior investimento de sempre para construir uma nova base, a opção foi manter essa estrutura para atacar a temporada de regresso à Liga dos Campeões. À parte disso, as contas de Farioli são outras. E, como se viu, tudo conta: depois de uma primeira parte muito aquém e de um segundo tempo com mais oportunidades mas falta de eficácia, teve de ser um lance de génio de Pietuszewski validado pelo VAR por apenas um centímetro a desbloquear o terceiro triunfo em oito com reviravolta. E não é preciso perceber muito de matemática para perceber o porquê de o jovem polaco ser o jogador Sub-20 mais valioso do mundo, de acordo com o relatório mais recente do Observatório do Futebol do CIES…

A partida começou com uma natural tentativa portista em segurar os comandos do jogo mas com o Marítimo sem medo de construir a partir de trás em posse, num dia em que apresentou um corredor central no meio sem a mesma capacidade física mas com maior capacidade com bola (Raphael Guzzo e Alani, com Maxime Domínguez mais na frente). Com tudo ainda “fechado”, apesar da aposta em desequilibrar pelos corredores laterais, era na bola parada que os dragões iam colocando as fichas mas sem sucesso, com os minutos iniciais a passarem sem remates nem oportunidades até Szalai, um dos três centrais dos insulares, subir ao ataque, ganhar uma segunda bola em posição central e atirar forte para defesa atenta de Diogo Costa (12′). Apesar dessa ameaça, ficou tudo na mesma. Esse foi o problema dos dragões, essa foi a solução maritimista.

A forma como o húngaro percebeu os metros que tinha à frente sem que ninguém saísse na marcação deu o mote para que Szalai voltasse a arriscar. À segunda, saiu melhor do que podia imaginar: o remate foi bem mais longe, a colocação também foi melhor, Diogo Costa acabou mal batido antes de explicar a todos os companheiros de equipa que não tinha visto a bola sair (16′). O FC Porto estava pela terceira vez a perder no Campeonato mas percebia-se que essa capacidade que foi mostrando para virar todas as partidas teria mais um duro teste pela capacidade que os madeirenses tinham em fechar espaços sem bola e sair em transições a quatro/cinco toques até colocar no último terço e criar perigo, como voltou a acontecer mais tarde num lance em que Butzke descaiu sobre a direita, cruzou tenso e por pouco não houve um desvio na pequena área (23′).

Só perto da meia hora houve uma amostra ofensiva do FC Porto, com Alberto Costa a ganhar vantagem pela direita, a entrar na área e a rematar de pé esquerdo para defesa para a frente de Francisco Vieites (27′). Podia ter sido o mote para uma maior pressão até ao intervalo para conseguir pelo menos chegar ao empate, nem por isso o andamento do encontro apontou nesse sentido, com o Marítimo a conseguir gerir a vantagem muito assente naquela que era a sua organização defensiva. Quando falhou uma vez, os azuis e brancos não perdoaram: Alberto Costa conseguiu subir pela direita sem a “sombra” Martín Tejón, cruzou ao segundo poste para o desvio de cabeça de Francisco Moura, Vieites ainda conseguiu defender para a frente numa boa intervenção mas Froholdt, na pequena área, empurrou para o empate antes do intervalo (41′).

Farioli não demorou a mexer, neste caso por uma questão de “precaução”: Alan Varela, que tinha amarelo, deu lugar a Pablo Rosario, um dos grandes destaques dos portistas no clássico. No entanto, era nas próprias dinâmicas da equipa que o técnico teria de mexer, tendo em conta as dificuldades para criar oportunidades apesar das chegadas ao último terço. Pior: logo nos minutos iniciais, William Gomes saiu em lágrimas de maca depois de uma entorse sozinho, com o FC Porto a aproveitar não só para lançar Borja Sainz mas também para apostar em Gabri Veiga no lugar de Hwang (algo que estaria pensado mas que foi logo feito para não queimar mais nenhum tempo de paragem). Estava a chegar a melhor fase dos portistas no jogo.

Os azuis e brancos ganharam outro critério no meio-campo e mais largura na frente, com o efeito imediato naquilo que foi a produção ofensiva. Problema? Apareceu Francisco Vieites: André Silva desviou de cabeça por cima após cruzamento de Borja Sainz da direita (60′), Froholdt tentou também de cabeça depois de um cruzamento de Francisco Moura da esquerda para grande intervenção do guarda-redes madeirense (62′), Alberto Costa aproveitou depois o canto para aparecer de rompante ao segundo poste para um remate que foi travado pelo guardião espanhol em cima da linha (63′). Apesar das melhorias, os dragões continuavam a não desfazer o empate e Farioli não perdeu mais tempo, lançando Samu no lugar de André Silva.

Não seria essa a alteração que mudaria tudo. A pouco mais de dez minutos do final, Oskar Pietuszewski entrou para o lugar do desinspirado Pepê (que fazia o jogo 250 pelos dragões). Na primeira vez em que jogou 1×1, ganhou uma falta assinalada. Na segunda vez, pareceu ter sido tocado mas o árbitro acabou por mandar seguir. Na terceira, foi mesmo de vez: o polaco recebeu cercado de adversários na área descaído sobre a esquerda, conseguiu puxar para dentro e rematou sem hipóteses ao ângulo da baliza de Vieites. O lance ainda foi anulado por fora de jogo mas, após revisão VAR, o golo contou mesmo por apenas um centímetro (84′). Paulo Henrique ainda teve um remate para defesa de Diogo Costa para a frente antes do corte de Bednarek para canto a evitar a recarga (89′) mas o resultado não voltaria a mexer para a oitava vitória dos portistas.

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