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Olá, sejam muito bem-vindos. Esta é a História das Histórias. Eu sou o João Paulo Sacadura e em Viseu Alberto Correia continua a desfiar as suas memórias e o seu património tão bom da região Centro, tão bom na voz dele. Hoje vamos falar do mestre Sérgio Amaral, vamos falar de um grande modelador de barro e vamos falar dos matarrachos. O que é isto dos matarrachos? Quem era este grande mestre? Os rostos e os olhos de espanto, a propósito das criações artísticas de Sérgio Amaral. Olá, Alberto. Vamos a isso então, vamos conhecer este mestre.
Sérgio Amaral é o nome artístico, o nome de guerra de Sérgio Manuel do Couto Amaral, nascido em Mangualde nos idos de 1959 e que por ali se demora no poético e pacato povinho de Santa Luzia, não longe da cidade, sempre apegado à terra e à arte de que fez vida, a modelação do barro de que fez matéria-prima. Sérgio Amaral gosta de contar da sua vida, dessa iniciática ligação ao pó da terra de que Javé fizera o primeiro homem e sobre ele soprara infundindo-lhe a vida que ele, o artista ou artesão, se quisermos, depois, à semelhança do seu criador, começou por estender por toda a Terra. Com Sérgio Amaral não foi assim, homem que apenas era como os outros homens, seus iguais. Aconteceu um dia, no passar de tantas vezes em Molelos, no concelho de Tondela, olhar de perto os oleiros que ali elaboravam há mil anos, olhar o barro que amassavam com água e suor, olhar a roda de que faziam o instrumento, olhar de perto essa câmara cavada na terra aberta ao sol, a zoenga, esse forno original onde o barro se animava como em quente ventre de mulher. Sérgio Amaral talhou na sua terra, como Javé, uma espécie de jardim. Montou roda, cavou na terra uma zoenga, buscou barro e nasceu de suas mãos a primeira criatura. Javé chamou Adão ao primeiro ser que criara no jardim. Sérgio Amaral chamou Matarrachos a essa inicial obra que criou. Um nome estranho, mas foi também um nome dado com amor. Rosto e olhos de espanto foram talvez os de Javé quando, na manhã de cada um dos seis dias de criação, olhava a obra que sua palavra ditará e achara boa. O mar e a terra, o arvoredo, os bichos. Olhos de espanto, os nossos, quando olham a obra de Sérgio Amaral, essa retirada do barro como a última obra de Javé, e a olham quando ainda quente se revela entre as cinzas da zoenga ou se retira de um forno que tem a força de um lume de vulcão. Olhos de espanto, talvez exemplos de Sérgio Amaral, o criador, ele que não o faz partindo do nada, como Javé começou por fazer, mas do barro que de início se cansava em amassar, da teimosia em resistir e em criar, do suor que lhe brotava dos poros, cumpridor da universal lei do trabalho, porque Sérgio Amaral é ele próprio obra e criação de Javé na longínqua cadeia que os homens herdaram por graça, por dom divino e participante. Sérgio Amaral já foi criador de muita obra. Pocarinhos de barro preto, servis e humílimos. Foi criador da fantasia dos matarrachos, esses embrionários seres que nos cativaram com sua graça, seus gestos de atrevimento, seus rostos inquiridores, sabe-se lá se de juízes de nossos atos quando os olhavam recriminando-os ou talvez compadecidos. Sérgio Amaral é também o criador de virgens do Ó, esperançosas mulheres que em seu seio carregam promessas que lhes prometeram e nem sempre cumpriram a entrega, sofredoras até ao fim, essas mulheres, como essas virgens medievais que hoje pousam ainda em altares ou museus, virgens a quem mataram um filho que elas tiveram, pelo menos que lho depusessem morto em seus braços. Sérgio Amaral é finalmente o criador dessas criaturas de espanto. Homens e mulheres como nós, almas perdidas de dor, corpos torturados e lançados sobre valas comum, prisioneiros tanta vez no estranho ventre de um monstro que pode ser o cavername de um barco de migrantes que ninguém salvou. Poucos, porventura, tendo a sorte ou a graça de alguém que os liberte como a Jonas do ventre da baleia. Belíssima, mas inquietante, essa poderosa metáfora do barro que algumas vezes senti ainda quente, feito rosto inquieto ou disforme, que carrega todavia último gesto, último aceno, um olhar que irá fechar-se na espera de um compassivo gesto de quem passe e olhe e se comova e estenda um braço. Sérgio Amaral é esse amigo cuja vida, cuja obra eu olho sempre com espanto, com respeito.
Muito bonita esta homenagem que dedica o Alberto a este mestre. Eu, por mim, fiquei cheio de curiosidade de ver essas criaturas de espanto, essas virgens do Ó, esses matarrachos, de conhecer essas obras. Não sei se estão em algum museu ou se estão guardadas numa coleção.
Estão muito espalhadas.
Ok, muito curioso. Esta obra do Sérgio Amaral, muito bem homenageada por você. Diga.
Há pouquíssimo tempo.
Houve uma exposição?
Uma colecionora de Viseu, que reside em Lisboa, fez uma exposição com uma centena de bonecos de um outro oleiro um bocadinho parecido.
As coisas estão espalhadas, então.
Não é o Sérgio Amaral.
Exatamente. Muito bem, ficamos então curiosos e eu fiquei curioso de saber mais e assim marcamos encontro então amanhã. Bem-hajas, Alberto. Até amanhã.
Até amanhã.