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Já ouviu ou até provavelmente já disse esta frase: "Eu como tão pouco que parece que até o ar me engorda." Por que algumas pessoas emagrecem com relativa facilidade e outras sentem que estão sempre a lutar com a balança? Esta semana, no Tratado da Saúde, destaca-se a médica Mariana Sobral. Doutora, bem-vinda.
Obrigada, João.
É tudo uma questão de força de vontade?
Não. O ar não engorda, mas é uma frase que traduz uma frustração real e que afeta muitos homens e muitas mulheres. O peso resulta da interação de muitas coisas e, portanto, reduzir tudo à falta de vontade é muito injusto.
Mas doutora, para emagrecer não basta comer menos e gastar mais?
Não se reduz só a isso. De facto, ao longo do tempo, temos que gastar mais energia do que aquela que ingerimos. Mas a fome, a saciedade, a forma como gastamos energia varia de acordo com as pessoas. Por isso, o plano que inicialmente funcionava pode deixar de produzir o resultado. Não significa que a pessoa tenha falhado ou que o metabolismo esteja estragado.
E quem diz que come pouco e mesmo assim não emagrece?
Temos que ter atenção ao que significa comer pouco, porque comer pouco em volume não significa necessariamente ingerir poucas calorias. Vamos pensar nos belos frutos secos, que são muito nutritivos, mas altamente calóricos. Eu acho que aqui o médico profissional que esteja a acompanhar a pessoa não deve desconfiar. Mas uma ferramenta que eu, por exemplo, utilizo muito em consulta é o diário alimentar, que não é necessariamente para a pessoa mostrar a ninguém.
Mas vai acompanhando, não é?
Exatamente. Para perceber o que ingere, os snacks, e se de facto ingere pouco ou se está a ingerir o melhor que pode para esta situação.
E dormir mal, viver sob estresse também dificulta?
Sem dúvida. Dormir pouco aumenta o apetite e também dificulta a escolha alimentar. A pessoa que dorme mal não quer cozinhar e quer se calhar encomendar.
As coisas mais fáceis, mais rápidas.
Por exemplo, e também quem trabalha por turnos, quem tem um orçamento apertado, porque infelizmente a comida processada é mais barata do que a comida não processada. E tudo isso são obstáculos reais. Ou seja, na vida atual, o simples ato de preparar marmitas equilibradas pode ser muito difícil, quer pelo tempo, quer pelos custos. E tudo isso também conta para esta questão da perda de peso.
Então, e agora uma pergunta que me diz muito: a culpa também pode ser das hormonas?
Sim, algumas situações pode ser efetivamente síndrome do ovário poliquístico, a perimenopausa, o hipotireoidismo. Mesmo na perimenopausa e menopausa, a própria distribuição da gordura e a forma como o metabolismo está a gerir a mesma é diferente. Muda, mas há sempre solução.
Então, por onde começar, doutora? Vamos lá.
Em primeiro lugar, temos que pensar sempre que todas as mudanças que façamos têm que ser mudanças que para nós possam ser sustentadas ao longo do tempo, que não seja só para um, dois, três meses.
Aquelas coisas radicais.
Exatamente. Ter atenção às porções, ter atenção às bebidas, por exemplo, ao álcool, tentarmos movimentar-nos. É muito interessante. Às vezes não precisa irmos pro ginásio e estarmos a suar. O simples ato de fazer umas breves caminhadas ou até mesmo no escritório fazer alguns movimentos de alongamento já são exercício e já ajuda à perda de peso.
E se a balança, mesmo assim continuar parada?
Em primeiro lugar, é tentar que a frustração não vença. E eu imagino que isso seja muito difícil. Também temos que ter em conta que às vezes a balança está parada, mas o volume reduz. Portanto, é importante medir o perímetro abdominal e da anca, ou então, se não tivermos fita métrica ou não nos apetecer, é escolhermos umas calças que gostemos imenso e que não nos entrem e experimentarmos uma vez por semana.
É tão bom quando começam a passar ali.
Exatamente, e é uma ótima medida, apesar da balança possa não mexer em quilos. E também ter atenção que, obviamente, há a questão estética, mas se estamos a perder peso ou volume e estamos a melhorar a tensão arterial, se estamos a ter mais resistência a esforços, isso também é um grande progresso.
Portanto, o ar não engorda, mas perder peso é sim muito mais complexo do que parece. Doutora Mariana Sobral, muito obrigada. Até amanhã.
Até amanhã.