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Olá e sejam muito bem-vindos à História das Histórias. Eu chamo-me João Paulo Sacadura e o meu papel aqui é só introduzir Alberto Correia. Ele é um historiador e investigador da história e das tradições de toda a região Centro. Continuamos neste começo de ano, ainda podemos dizer isso, a falar de tradições, de memórias do nosso autor. Hoje, em particular, falamos dos sabores de infância. Vamos ouvir algumas memórias do Alberto de um Natal antigo.
Ali, na beira que se desprega do grande planalto a sul e ocidente e se alarga pelas terras frias de Serrancelhe e de Trancoso, quase descendo para o Duro, o tempo de Natal cobria sempre, antigamente, uma paisagem mansa de terras dormindo em mantos de neve, às vezes, em mantos de nevoeiro demorados ou debaixo das chuvas que vinham encher de abundância os rios secos de verão. Os meninos esperavam na estrada, mal agasalhados com socos de pau, uma camisola de lã feita pela mãe e uma boina espanhola comprada na feira, esperavam uma burrinha estranha com seu tropiar ligeiro, que haveria de trazer a mãe de um menino que nascera nessa noite numa cabana de pastor montada em pequenino num canto da igreja. Os meninos esperavam só até ao toque de rezar, já noite cerrada. Depois, as mães chamavam-nos para a ceia na lareira, onde ardia, desde a meia alta, um cepo de carvalho. A noite era diferente, eles sentiam. Era mais branca a toalha de linho que cobria a mesa. Era mais intenso o cheiro bom que se soltava das panelas. Fumegavam nas almofias enramadas a couve troncha, as batatas farinhentas, as postas de bacalhau que a mãe dividia sobre os pratos de festa trazidos da cantoneira. Havia sempre vinho novo, que alvornecia em pocarinhos de barro vermelho e vidrado ao calor, e pão de trigo, e as rabanadas sabendo a doce e a canela. E havia a paz inteira da aldeia, onde o silêncio se rompia em breve com o tocar dos sinos, que os rapazes mais velhos disputavam no balcão alto de torre. Às vezes, os meninos jogavam o par e o pernão com pinhões que guardavam nos bolsos ou em saquinhos que as mães lhes faziam. Até que o sono vinha. De manhã, na igreja, lá estava a burrinha que eles não viram chegar à aldeia, e a mãe e o pai do menino, e a gente como a da aldeia, e os pastores. No fim da missa, iam beijar o menino. Deixavam-lhe por lembrança dois tostões e eles seguiam com outros dois, compravam rebuçados na mercearia do adro e a aldeia inteira enchia-se depois com os seus risos.
Boas recordações de Natal, do tempo da aldeia. E oxalá estas recordações nunca se percam, porque isto é muito importante pra, pra man-- nos manter a nossa identidade como povo. É tão bonito isto e-e-e cheira tão a quentinho, e a lareira, e a, e o lume, e o adro com, com o cepo de carvalho a arder. Isto traz boas recordações, sim, senhor.
É verdade.
Muito bem, Alberto. Então, por hoje estamos conversados. Marcamos encontro amanhã. Bem-haja, bom ano.
Até amanhã, então.