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Olá, seja bem-vindo à História das Histórias. Eu, João Paulo Sacadura, estou aqui a acolher Jorge Adolfo Marques, historiador, professor e mestre em arqueologia. Depois de termos passeado ontem pelos dois castelos da Beira Alta, vamos hoje centrar-nos em personalidades. É sempre bom fazer essas homenagens que o Jorge nos traz. Hoje vamos começar por António Nunes de Carvalho da Costa Monteiro de Mesquita e José de Oliveira Berardo. Vamos a isso, Jorge. Então, bem-vindo.

Olá, João Paulo. Ontem estivemos a visitar virtualmente dois castelos aqui da Beira, bem icônicos. O de Linhares e o de Celorico da Beira. Hoje vamos mudar de rumo e vamos fazer algo que eu acho que é importante, que é também falar de pessoas que tiveram papel relevante na sociedade e no passado e que são figuras às vezes até um pouco esquecidas.

Sim, isso é importante. Repor justiça, não é?

Sim, é verdade.

São pessoas que merecem ser lembradas.

Evidentemente que nós podíamos falar de dezenas e dezenas de pessoas, mas eu hoje vou me centrar aqui numa figura, e eu vou justificar a minha escolha pelo doutor Nunes de Carvalho, António Nunes de Carvalho da Costa Monteiro de Mesquita. Tem um nome muito comprido, como era próprio da época.

Exato.

Ele nasceu em 1786 e vem a falecer em 1867. Portanto, é um homem que nasce no século XVIII e vai falecer já na segunda metade do século XIX. Viveu todas aquelas transformações políticas, sociais, econômicas, desde a implantação do liberalismo até a Revolução Francesa, a implantação do liberalismo em Portugal, a própria Revolução Industrial, a guerra civil em Portugal, a luta entre liberais e miguelistas, e depois a consolidação do liberalismo. Portanto, é um homem que tem uma vida longa, e que teve a sorte de viver estes momentos tão importantes. Ora, quem foi este Nunes de Carvalho, cujo retrato eu observei muitas vezes na Biblioteca Municipal Dom Miguel da Silva, em Viseu. Porque há um retrato que se encontra na Biblioteca Municipal de Viseu, retrato esse feito por um pintor viseense, António José Pereira, e que se encontra na Biblioteca Municipal de Viseu, e eu muitas vezes olhei para aquele senhor que estava ali, com um ar tão sério.

Sério.

E que me despertou algum interesse e curiosidade em saber quem era. Portanto, ele nasceu em Viseu. E por que motivo é que se encontrava ali o retrato dele na Biblioteca Municipal de Viseu? Certamente, porque tinha alguma relação com a biblioteca.

Claro.

Ora, em 1863, poucos anos antes de ele ter falecido, ele escreve isto: "Por conhecer por experiência própria, a grande falta que tem a cidade de Viseu, aonde nasci e me criei, de uma biblioteca pública para uso e instrução de seus habitantes, doo, com a melhor vontade à minha pátria, a minha copiosa e escolhida livraria de mais de 10 mil volumes".

Incrível.

Portanto, a razão por que Nunes de Carvalho-

Está representado

...está ali na biblioteca, é porque ele é, podemos dizer, o fundador da Biblioteca Pública, agora designada de Municipal, a Biblioteca Pública de Viseu. Ele foi conselheiro, foi fidalgo de cavaleiro, bibliotecário-mor da Casa Real, comendador da Ordem de Cristo de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa, lente jubilado da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra. E é este senhor, é esta figura importantíssima que vai doar aquilo que ele tinha de mais valioso, que eram os seus livros. Ele nasceu em Viseu, que já tinha dito, na Rua Direita. A Rua Direita sempre. Já falamos aqui várias vezes de outras personalidades na Rua Direita.

Notáveis. Exato.

De muitos notáveis que nasceram ali. Ingressou no Colégio de São Filipe Neri, que era o seminário diocesano, com o intuito de seguir a carreira eclesiástica. E aos 18 anos, ele era um indivíduo inteligente e com muita capacidade de aprendizagem, já era professor de latim.

Incrível. Tão novo.

Já era professor de latim. Frei Manuel do Cenáculo, arcebispo de Évora.

Sim.

Uma figura importantíssima da nossa historiografia, da nossa arqueologia.

Exatamente, o nome do museu. Exato.

E do museu Municipal, não sei se é assim exatamente que se diz.

É, Museu Manuel do Cenáculo.

Em Évora. Portanto, o Frei Manuel do Cenáculo Tendo conhecido as suas capacidades, convidou-o para ensinar em Évora, passando a ser seu protegido. É uma figura muito interessante também neste sentido. E a amizade entre eles foi se sedimentando. E quando ocorrem as invasões francesas, outro acontecimento que eu há pouco não referi, mas que ele também vive, Nunes de Carvalho tem um papel importante, arriscando a sua própria vida para salvar o arcebispo. É uma figura que tem também este papel de coragem física. Em 1813, com apenas 29 anos, foi nomeado professor interino do Colégio das Artes de Coimbra. Vai para Coimbra. Depois, ele concluiu a formação em Cânones e Leis, foi doutorado em 1822, já estamos após a implantação do liberalismo em Portugal, da Revolução Liberal. Então tinha 36 anos, passando a ser professor da Universidade de Coimbra. Era um constitucionalista assumido, liberal, era um democrata. Viria a ter que deixar Coimbra em 28. Por quê? Por causa do absolutismo dos miguelistas. Por causa disso que estava agora a aparecer e muito vivo na sociedade portuguesa e que conduziu depois, mais tarde, à guerra civil. Foi perseguido pelos miguelistas, fugiu pra França e depois pra Inglaterra. Em França ensinou literatura, nomeadamente à filha de Dom Pedro IV, a futura rainha. Em 1836, já depois do triunfo liberal, volta a Portugal. Voltou a lecionar, foi nomeado bibliotecário-mor da Casa Real e guarda-mor da Torre do Tombo. Veja este percurso todo.

Incrível.

Voltou a ser professor na Universidade de Coimbra, de Direito Romano, e em 1861 jubilou-se e doou depois o seu patrimônio, a sua biblioteca, ao município de Viseu, em 64, com uma quantidade muito significativa de obras.

Milhares.

E acabou por falecer em Coimbra em 67, onde foi sepultado. Ele não está sepultado em Viseu, mas onde foi sepultado em Viseu nessa altura. A história é muito curiosa. Em 1910, o que vai acontecer?

A Grande República.

Já depois da Revolução Republicana, atenção, o vereador da Câmara de Viseu, Alberto da Silva Basto, atribuiu o nome da Nunes de Carvalho a uma rua, que ainda hoje existe com esse nome, mas cujo nome era Rua do Príncipe Real. Houve aqui uma damnatio memoriae, apagar a memória dos que morreram. Isso acontece em todos os regimes, não é de agora. E mandou elaborar o tal retrato, que se encontra na Biblioteca Municipal Dom Miguel da Silva. Temos aqui uma figura extraordinária, uma figura tão extraordinária como a figura da próxima personalidade, que é o José de Oliveira Abrardo. José de Oliveira Abrardo nasceu também aqui numa freguesia do Conselho de Viseu, em Santo Zeves, em 1805. É mais novo que o Nunes de Carvalho. Era de gente muito humilde, meio rural, não como o nosso homenageado anterior, que era do centro da cidade. Foi pro seminário já tarde, seminário diocesano, o mesmo seminário diocesano que há bocadinho referi. Foi ordenado sacerdote aos 40 anos, em virtude da diocese ser governada por Francisco Alexandre Lobo, um bispo absolutista. E como o Oliveira Abrardo era liberal, ele manteve-se, por teimosia e pra não prestar obediência ao bispo Alexandre Lobo, foi adiando esta sua-

Esta ordenação, exato.

O Abrardo conviveu com Almeida Garrett, com Feliciano Castilho, com Alexandre Herculano, que designava de mestre. O Abrardo é também não só um homem da fé, mas também um historiador. Foi alferes de milícia durante nove anos, foi preso entre 29 e 31, durante o período miguelista. Em 35, foi eleito vereador da Câmara de Viseu, e entre 36 e 39 foi administrador do conselho. Ele, em 48, foi nomeado reitor do seminário. E há aqui um aspecto muito curioso, que se calhar também há muitos visenses que desconhecem, é que ele foi o primeiro reitor do Liceu de Viseu. Ele publicou em muitos jornais da cidade e à data da sua morte, Alexandre Herculano escreveu estas palavras: "Verdadeira enciclopédia encadernada em Saragoça de Gouveia, ferranho e fortemente agarrado no dogmatismo e infalibilidade das suas opiniões. Um dos primeiros homens de letras de Portugal". Isto é bonito.

É uma grande homenagem. Exato.

Viveu numa casa muito bonita aqui à entrada da Mata de Fonteelu, a chamada Casa de Cruzeiro, onde faleceu em 1862, naquela casa que ainda hoje se encontra lá. Dois homens de cultura, dois grandes homens de igreja, dois grandes homens de convicções e historiadores também.

Exatamente.

E homens ligados às letras.

António Monteiro de Mesquita e José de Oliveira Abrardo. Ficam aqui estas duas homenagens. Vamos ter mais amanhã. Por hoje é tudo. Jorge, um grande abraço. Até amanhã.

Grande abraço.