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Começa depois das 10 com o José Manuel Fernandes. Pode participar com a sua opinião 910 024 185. Pode também acompanhar a transmissão vídeo do Contracorrente e deixar o seu comentário nessa mesma transmissão. Vamos a Espanha hoje, Carla.

Vamos a Ceuta, onde pernoitou Felipe VI ontem. Visitou Ceuta, foi recebido por milhares de pessoas que acenavam com bandeiras espanholas e as da cidade, foi vitoriado e ao fim do dia fez um discurso onde reafirmou a soberania espanhola e a necessidade de que regressem aos países de origem aqueles que entraram ilegalmente no final de julho naquele território. O rei não foi acompanhado pelo primeiro-ministro, que na véspera fora assobiado durante as celebrações do Dia Nacional de Espanha. O clima político continua tenso a mês e meio das eleições de 29 de novembro e esta visita trouxe Ceuta de volta à campanha. Bom dia, José Manuel. Entre Ceuta e Mari Carmen, que tema é que te parece que vai determinar o resultado eleitoral?

Isso é uma pergunta de $1 milhão, ou se quisermos, €1 milhão, já não há pesetas. Os dois temas vão estar muito presentes e inclusivamente neste momento não é totalmente claro qual é o que pode beneficiar cada um dos atores políticos. Isso é um dos temas que é interessante, até porque esta semana, não só por causa de Ceuta, mas também por causa do Conselho Europeu e de uma carta que ontem von der Leyen enviou a todos os governos europeus, o tema das migrações vai estar outra vez em cima da mesa e prevê-se que na Cimeira Europeia de quinta e sexta-feira possa existir um confronto verbal, pelo menos é isso que hoje está sendo antecipado na imprensa internacional, entre Pedro Sánchez, por um lado, que neste momento na Europa é praticamente o único com políticas mais liberais, mais de portas abertas relativamente à imigração, e do outro lado, Giorgia Meloni, que quando foi a crise de Ceuta foi um dos líderes europeus que se manifestou mais abertamente e por isso veremos o que é que sucede. Mas quando olhamos para a realidade espanhola notamos algumas coisas. Primeiro, e começando por Ceuta, o discurso do rei. Estes discursos nunca são obra única das casas reais, porque há sempre alguma conciliação política, mas há aqui algumas coisas que são significativas. Como eu já referi, penso que num Contracorrente anterior, o rei vai a Ceuta sem ser acompanhado pelo presidente do governo, por Pedro Sánchez. É normal ou não é normal? Não há um padrão, não há uma regra. Habitualmente o rei quando viaja não vai acompanhado pelo presidente do governo, vai muitas vezes com o ministro do setor, mas no entanto em momentos de crise já tem acontecido de ir acompanhado pelo primeiro-ministro. Aconteceu em Barcelona em 2018, depois de umas mortes por causa daquelas manifestações e daquelas complicações da crise independentista, e voltou a acontecer quando foi aquela visita muito conhecida por causa da lama e dessas coisas todas que foi atirada e da fuga de Sánchez a Valência por causa da DANA, daquele desastre de uma cheia. Desta vez dir-se-á: bem, mas em 2007, a outra vez que lá tinha estado o rei, neste caso ainda Juan Carlos, quando lá tinha estado, não tinha ido o primeiro-ministro da altura, que era Zapatero. Bem, mas Zapatero tinha visitado Ceuta no ano anterior. Não há a mesma situação. Parece haver aqui um sinal de algum distanciamento e o discurso do rei tem algumas palavras fortes. Recordemos que o rei esteve mais presente durante a crise de Ceuta do que o governo e particularmente do que Pedro Sánchez. Pedro Sánchez foi de férias, uma coisa que ainda hoje incomoda muita gente. Muito recentemente, naquela entrevista do Felipe González à Maria João Avilez, ele voltou a dizer que não teria ido e acho que praticamente ninguém teria ido. Ainda ontem soube que algumas figuras importantes do seu gabinete, que depois tiveram que entrar por videoconferência, estavam no Japão e não voltaram, deixaram-se lá estar. Um dos ministros relevantes foi pouco depois para a costa mediterrânica, para a praia, durante a crise de Ceuta. E na crise de Ceuta houve ali uma espécie de tentar lavar a cara nos dias anteriores. Havia muita gente acampada nas praias, muita gente escondida e a polícia finalmente, já passaram mais de dois meses, interveio para tentar limpar aquelas zonas para não ser desagradável durante a visita real. Mas percebeu-se que a população de Ceuta saudou entusiasticamente, sem dúvida nenhuma, Felipe VI, que esteve nas ruas. Aquilo é uma cidade relativamente pequena, mas as ruas estavam cheias. Foi interessante notar a presença de muitos muçulmanos, as mulheres muçulmanas são facilmente identificáveis. Foi significativa a visita a um cemitério muçulmano onde estão enterradas as vítimas daquela invasão, as pessoas que morreram a tentar chegar a Ceuta. Ali estão enterradas 90, mas morreram mais E a visita teve também palavras bastante significativas, quer a reafirmação de que Ceuta é parte de Espanha e da Europa, a reafirmação de que a relação com Marrocos tem que ser uma relação civilizada e a reafirmação de que quem chegou ilegalmente deve ir embora, que aliás foi também esse o tema da carta de von der Leyen. Do ponto de vista político, há aqui quem analisa e às vezes tem aspetos complicados, porque Pedro Sánchez é um político com muita intuição, mas que usa todos os métodos possíveis e imaginários. E há quem inclusivamente pense que a forma como ele geriu o tema de Ceuta poderia ter como objetivo fazer subir nas intenções de voto o partido à direita do PP, o Vox. Tem uma estratégia muito seguida pelos socialistas em muitos sítios, também foi seguida cá em Portugal, e de alguma forma assim limitar as possibilidades de o PP ser o primeiro partido espanhol. Isso não era suficiente para ir para eleições. O caso Mari Carmen deu-lhe outro pretexto, mas curiosamente uma sondagem feita dias antes do caso Mari Carmen e divulgada ontem, uma sondagem feita pelo El Político, diz que a maioria dos espanhóis acha que a crise da habitação é uma responsabilidade do governo. A tentativa de Sánchez tem sido dizer que é uma responsabilidade das oposições e das câmaras e dos governos regionais, que neste momento são maioritariamente governados pelo PP, mas não é essa a opinião dos espanhóis que veem isso, de facto, como um dos seus principais problemas. E os últimos dias têm tido algumas notícias menos agradáveis para a estratégia socialista, porque, por exemplo, ainda ontem foi conhecido que o marido da porta-voz do PSOE tem uma quantidade enorme de offshores, tem aqueles fundos abutres da habitação que agora aparecem por todo lado, são uma espécie de mal da fita. Neste quadro, vamos ver o que acontece. As sondagens continuam a dar a indicação de que haverá uma clara maioria PP mais Vox, mas o PP sozinho não consegue a sua votação, mas também vai depender um pouquinho da participação eleitoral. Uma participação eleitoral muito elevada pode diminuir a vantagem do bloco de direita relativamente ao bloco de esquerda.

Vamos ver e vamos discutir melhor tudo isto depois das 10:00. Até já, José Manuel.

Até já.