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O Observador, em parceria com a Timberland, quer conhecer quem são os portugueses que estão a influenciar a mudança, a motivar a preocupação ambiental nas mais diversas plataformas. E porque a natureza precisa de heróis, vamos conversar com eles semanalmente. Hoje recebemos a Ana Milhazes, é fundadora do movimento Lixo Zero Portugal, é também autora do blog Ana Go Slowly, é também instrutora de yoga, é formadora e apaixonada pela vida e pelo ambiente. Tudo certo, Ana? Bem-vinda.

Sim, obrigada. Tudo certo.

É neste blog, que surgiu em 2012, numa altura mais confusa, numa altura em que precisou também de abrandar, lá está, o nome diz isso mesmo. Mas isto da consciência ambiental sempre existiu nas suas escolhas?

Sim, esteve presente quase desde o início. Eu lembro-me, e falo disso no meu livro, lembro-me de ter seis, sete anos e de pôr, por exemplo, os meus vizinhos todos a apanhar lixo comigo, já na altura. Acho que depois com a correria da vida, isso foi ficando um bocadinho para trás e, portanto, era muito consciente em relação, por exemplo, à separação do lixo, também sou vegetariana já há bastantes anos, e no fundo, fui achando que isso era suficiente. E depois, em 2016, houve um momento de mudança e percebi que era preciso fazer muito mais e que, de facto, reciclar não basta.

Exatamente. A Ana diz muitas vezes isso e pra quem nos está a ouvir, nós já vamos falar também por onde começar, na verdade, porque muitos de nós reciclamos, achamos que isso é suficiente, mas não é. Mas qual era o seu grande objetivo na altura, quando criou este projeto, com aquilo que ia partilhando? Era influenciar?

Sim, o blog surgiu em 2012, cerca de um ano depois de eu ter descoberto o minimalismo, que é um estilo de vida que basicamente passa por nós descobrirmos o que é essencial, o que é importante para nós e eliminarmos o resto. E de facto, na altura, eu ganhei muito tempo e ganhei qualidade de vida, porque tinha uma vida muito corrida, trabalhava muitas horas, vivia em centros comerciais, praticamente, era completamente viciada em compras e, no fundo, precisava ali de uma mudança. E aos poucos fui começando a libertar-me de muita tralha, muita coisa que tinha em casa, obviamente sempre com consciência ambiental, e no fundo, descobri o que é isto do poder do menos. E o blog surgiu cerca de um ano depois, precisamente para falar sobre um tema que não se falava em Portugal na altura. Estamos a falar em 2012. E no fundo, para eu poder partilhar com os outros aquilo que eu estava a sentir, porque estava a sentir coisas mesmo muito boas. Foi realmente uma revolução na minha vida. Percebi depois, em 2016, que foi aí que comecei a adotar um estilo de vida mais desperdício zero, mais zero waste. Percebi que de 2011 a 2016, de facto, eu já reduzi imensa quantidade de lixo, simplesmente pelo fato de não comprar. Foram anos em que praticamente eu deixei de consumir o supérfluo, digamos assim, e passei só a consumir aquilo que realmente era importante para mim.

E portanto, chegar a esse zero de produção de lixo é algo que vai tentando fazer. Ainda não é possível, Ana?

Sim, nunca vai ser possível.

Nunca vai ser possível.

Eu acho que nem quando nós morrermos, nós produzimos zero. Mas no fundo, aqui o zero, no meu caso, motiva-me, todos os dias a fazer melhor e depois, no fundo, a adaptar. Isto não é nada extremista, como se calhar pode parecer para algumas pessoas, ou de algum radicalismo. Não, nada disso. Eu não abdico daquilo que é essencial para mim, daquilo que eu acho que é importante, mas no fundo, vou tentando ver o que é que posso melhorar. Já tive uma fase um bocadinho mais difícil. Eu, na altura, ia mais nesse tipo de desafios. Hoje em dia também tenho uma vida um bocadinho diferente, porque deixei o Porto e mudei-me para o Alentejo. Aqui também é um bocadinho mais difícil ter um estilo de vida sustentável em algumas coisas, noutras é melhor. Porque aqui, por exemplo, praticamente não há trânsito, não tenho que pegar no carro. Portanto, no fundo, é muito nós irmos adaptando ao nosso dia a dia. E mesmo quando eu falo das mudanças, quando às vezes me perguntam por onde começar, aquilo que eu digo é sempre tentar começar pelo mais fácil. Por aquilo que nós achamos que vai fazer alguma diferença, como é óbvio, mas que é simples para nós. Porque se nós começarmos pelas coisas mais difíceis, vamos desistir. E não vale a pena. E a vida já é tão difícil, por que nós vamos fazer também mudanças ainda mais difíceis?

Portanto, ir começando por objetivos mais pequenos, depois ir alargando tudo isto. Mas vamos a exemplos concretos, Ana, como é que podemos reduzir a quantidade de lixo que produzimos, viver de forma mais minimalista também?

Eu diria que vou começar pelo primeiro R. O desperdício zero fala-nos de cinco Rs e o primeiro R é recusar. E aqui o recusar, ou seja, de uma forma consciente. Muitas vezes quando nos oferecem brindes, coisas gratuitas ou mesmo panfletos, quando estamos na rua ou mesmo algum presente que nós não queremos, é muito sermos sinceros com as pessoas e dizermos que não necessitamos. Quando nós estamos a aceitar uma simples caneta ou um lápis, que nós não precisamos, tenho a certeza que toda a gente tem lápis e canetas a mais lá em casa, nós no fundo estamos a passar a mensagem a essa pessoa que está a fazer esse trabalho e também, em última instância, à empresa que produz esse tipo de materiais, que nós não precisamos que continuem a ser produzidos esse tipo de materiais. E, portanto, a nossa opinião, as nossas escolhas, a nossa voz, faz realmente a diferença. Passando assim a outros exemplos mais concretos, por exemplo, as garrafas de água de plástico pequeninas, é uma coisa que eu acho que nem sequer devia existir. Aceito que nem toda a gente goste de beber água da torneira, apesar de ela ser de muito boa qualidade em Portugal, ou que nem toda a gente queira, por exemplo, instalar um filtro em sua casa, na torneira, mas pode pelo menos comprar um garrafão e começar a levar e encher uma garrafa reutilizável e levar para o trabalho, por exemplo. E não ter que estar constantemente a comprar garrafinhas pequeninas. Mesmo quando vamos fazer uma caminhada, não faz diferença. Arranjamos uma garrafinha leve, reutilizável e levamos. Porque nós não fazemos ideia, muitas das vezes, a quantidade de garrafas que se gastam todos os dias no planeta. É que nós às vezes achamos: "Ah, sou só eu."

Exatamente.

"Sou só eu." Mas esse ato, junto por todos nós, faz um número gigante. E portanto, é termos um bocadinho mais de consciência que não sou só eu. Quando eu peço uma bebida para não vir com palhinha, não sou só eu que estou a consumir uma palhinha. E a palhinha, se nós pensarmos bem, é uma coisa completamente desnecessária. Infelizmente, algumas pessoas têm que beber com palhinha. Têm dificuldades motoras, as crianças quando estão a aprender a beber Mas nenhum adulto precisa de palhinha. É pensar que às vezes uma simples coisa, que eu acho que é completamente inofensiva, tem um impacto gigante no planeta. E no fundo é uma coisa que não me faz diferença. Ou seja, se eu beber uma bebida sem palhinha ou com palhinha, ela vai saber ao mesmo. Não faz aqui diferença nenhuma. São pequenas coisas que não fazem diferença no nosso dia a dia, mas que fazem, de facto, uma grande diferença no planeta.

Certo, são essas pequenas mudanças que fazem a diferença. Acha que neste contexto de pandemia, passamos mais tempo também em casa, muitos de nós, se calhar, tomaram consciência de determinados comportamentos que até então não tínhamos consciência disso. Nunca tínhamos pensado, se calhar, olhámos em redor e pensámos: "Bom, por que eu estou rodeado de coisas que não preciso, na verdade?" Portanto, aqui outro R importante será reutilizar também, digo eu.

Reutilizar. O primeiro R é recusar, o segundo é reduzir. Efetivamente, como seres humanos, nós temos todos que consumir coisas. Mas podemos reduzir a quantidade. Eu falo muitas vezes no consumo de água. Se todos nós, em vez de tomarmos um banho de 10 minutos, começamos a tomar um banho de cinco minutos, isso vai fazer uma grande diferença. E depois o reutilizar. Aqui o reutilizar, no fundo, é prolongar a vida útil dos objetos, de tudo o que temos lá em casa. E eu gosto muito de falar aqui neste ponto, da questão do comprar em segunda mão. Quando temos que comprar, por exemplo, com o carro, é uma coisa que sempre aconteceu em Portugal. Mas por exemplo, às vezes com os telefones, com os computadores, com as roupas.

Até com os móveis, por exemplo. Muitos de nós dedicaram-se mais à decoração agora neste período, também.

Sim, os móveis também já se vai fazendo, mas às vezes eu sinto que há alguma resistência, por exemplo, com as roupas. E não faz sentido nenhum. Se nós pensarmos bem, aliás, as roupas que nós compramos em segunda mão ou que trocamos com amigos ou com familiares, estão muito mais bem lavadas do que as roupas novas que nós compramos, porque depois se formos também perceber um bocadinho como é que é a indústria da moda, se calhar, já não vamos conseguir comprar peças nas mesmas lojas onde costumamos comprar. Passa muito por prolongar a vida útil dos objetos, trocarmos com as pessoas, nossos amigos, familiares, pedirmos emprestado. Esta coisa de estar sempre a comprar, porque as coisas são muito baratas. Ok, até podem ser baratas, mas é uma coisa que depois vai ocupar espaço lá em casa, é algo que quando avariar também vai me dar trabalho ou a consertar ou ir deitar fora. E portanto, esta coisa de trocarmos mais as coisas e partilharmos entre nós, eu acho que faz toda a diferença.

E Ana, nesta parceria d'O Observador com a Timberland, falamos aqui de influência. Qual tem sido o feedback que tem recebido do seu livro? Porque lançou o seu primeiro livro ainda no início deste ano, chama-se "Vida Lixo Zero", e também naquilo que vai publicando no blog, nas redes sociais. Qual tem sido esse feedback?

Felizmente, eu recebo feedback muito positivo, praticamente desde que comecei o blog, e agora com o livro também se intensificou. As pessoas agradecem-me imenso pela forma como vou partilhando coisas simples. Muito esta questão também de não julgar, porque às vezes eu acho que há muito esta ideia de que quando começamos, descobrimos um estilo de vida novo ou queremos fazer algumas mudanças na nossa vida, às vezes apontamos muito o dedo a quem não quer mudar. E eu acho que esse é exatamente o caminho oposto que devemos seguir. Portanto, abraçar sempre o outro, por mais que ele faça coisas diferentes ou por mais que não queira abraçar esta mudança. E a maior parte das pessoas também não vive sozinho. Nem em casa. Aliás, nenhum de nós vive sozinho. Temos sempre a comunidade, os nossos colegas de trabalho, mas mesmo em casa, por exemplo, vamos imaginar uma família de quatro pessoas e uma das pessoas decide mudar. Se começar a apontar o dedo às outras pessoas, vai ser muito mais difícil. Eu recebo feedback muito nesse sentido, pequenas coisas que as pessoas vão mudando e que sem querer, pelo fato delas não estarem a apontar o dedo, elas estão a conseguir que as outras pessoas à volta mudem simplesmente por mostrarem os seus comportamentos. E no fundo, essa é a grande mensagem que eu quero passar. Para mim, se calhar, pode parecer fácil eu fazer muitas destas coisas, que eu já faço há alguns anos, mas eu gosto mesmo é que qualquer pessoa possa partilhar, porque eu sei que isso vai ter um impacto gigante no seu seio familiar e também entre os colegas de trabalho.

E Ana, incluir também os miúdos nestas tarefas simples, é por aí que tudo deve começar, às vezes numa limpeza de lixo na praia, falávamos disso no início da nossa conversa, na reutilização de uma caixa para fazer uma nave espacial, por exemplo. São atividades simples para chegar também a essa consciência nos mais novos.

Sim, nós aqui em casa fazemos muito isso, porque voltei e meia temos que fazer encomendas, não há mesmo hipótese. E então reutilizamos praticamente as caixas todas. Aliás, eu tenho o meu livro, que no fundo vou enviando a quem me quiser comprar diretamente e faço muito isso. Aproveito papel de encomendas que faço e no fundo, como também somos um bocadinho criativos aqui em casa e estamos sempre a inventar, fazemos isso, naves, capacetes, enfim. E portanto, estamos a dar uma segunda vida também aos caixotes que de outra forma iriam parar ao ecoponto. E claro, é bom reciclar, como é óbvio, mas o melhor é reutilizar ou nem sequer ter que utilizar. Claro que há muito esta ideia, às vezes, de que as crianças é que vão mudar o mundo e nós temos que passar a mensagem às crianças. Eu acho que nós temos que atuar em todas as frentes, até porque nós temos uma população extremamente envelhecida. Portanto, as crianças, sim, vão mudar o mundo, mas nós não podemos depositar tudo nas crianças, até porque as crianças neste momento não têm o poder de compra. É esta fase da vida delas e, portanto, por mais que elas tentem influenciar os pais, são os pais que, de facto, vão fazer a diferença. Então tem que ser aqui um esforço conjunto. Os avós também. Aliás, os avós têm imenso para partilhar. Aliás, eu quando comecei este estilo de vida, lembro-me perfeitamente de ir à casa da minha avó trazer os saquinhos de pano que ela tinha, os guardanapos de pano. Portanto, são imensos saberes que eles têm na altura, que eram mais novos. Claro que tinham uma série de práticas devido às questões económicas e não propriamente às questões ambientais, mas no fundo é agora ligarmos estas duas coisas. Pedirmos a ajuda deles, porque eles têm muitas coisas para partilhar connosco. Por um lado, também os pais e depois as crianças, obviamente, e nas escolas é super importante passar esta mensagem.

Ana Milhazes foi a nossa convidada de hoje, é a autora do blog Ana Go Slowly, que pode segui-la nas redes sociais. Também está a influenciar a mudança. Juntou-se a esta conversa d'O Observador em parceria com a Timberland. Ana, muito obrigada.

Obrigada.