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O Observador, em parceria com a Timberland, quer conhecer quem são os portugueses que estão a influenciar a mudança, a motivar a preocupação ambiental nas mais diversas plataformas, porque a natureza precisa de heróis. Vamos conversar com eles semanalmente. E hoje recebemos a Eunice Maia, criou em Lisboa, aquela que podemos dizer é uma referência na venda a granel. A Mercearia Biológica Maria Granel é um sucesso e um exemplo de sustentabilidade. Tem lojas em Alvalade e também em Campo de Ourique. Eunice, bem-vinda. Obrigada pela disponibilidade para se juntar a nós.

Eu é que agradeço muitíssimo o vosso convite. Muito obrigada.

Eunice, esta sua preocupação com o ambiente, eu acho que podemos dizer, vem já do berço, não é? Porque nasceu no Minho, numa família ligada ao campo, portanto, tudo isto já foi percorrer meio caminho para ter vontade de abrir um negócio nestes moldes.

Sim, foi uma grande parte da inspiração para este conceito da Maria Granel, uma vez que é uma homenagem e ao mesmo tempo um regresso precisamente a essas origens e às pequenas comunidades, aos laços de afeto e de proximidade. No entanto, posso dizer que se bem que as minhas origens sejam essas, e se bem que a inspiração da Maria Granel seja essa, a minha vida durante muito tempo foi pautada pelo consumismo e estive bem longe, nos antípodas, inclusivamente, daquilo que hoje é a minha missão. E acho que sou, de facto, o exemplo vivo de uma transição ecológica e também de que há esperança para os indiferentes, porque eu estive precisamente nesse grupo, e aconteceu o meu despertar.

Ou seja, no fundo, há esperança para todos nós, mas como é que esse despertar se deu exatamente, Eunice, no seu caso?

Aconteceu graças ao nosso projeto, que nasce como esta homenagem às nossas raízes, mas que, graças a outras pessoas e pela inspiração de pessoas com que me ia cruzando e pelo seu exemplo silencioso, a verdade é que fui tendo cada vez mais noção do nosso impacto e também do impacto da forma como consumimos, e apercebendo-me também da realidade não só da geração de resíduos, da crise de resíduos que hoje enfrentamos, mas também do desperdício alimentar. E se o nosso projeto nasce precisamente para combater estes dois problemas, ele também acabou por contagiar a minha própria vida e o meu percurso pessoal. É uma jornada longa, lenta, imperfeita, exatamente nestas duas áreas.

A Maria Granel, que surgiu em 2015.

Exatamente. Surgiu primeiro como sonho, em 2013, na cabeça do meu marido. Eu juntei-me imediatamente a esse sonho e apropriei-me, na verdade, dele. E abriu as portas, materializou-se em 2015, em Alvalade, em Lisboa, com a primeira loja.

Exatamente. E como a Eunice já nos explicou, isto, no fundo, era um hábito que nós tínhamos antigamente. Que muita gente tinha antigamente, comprar a granel. Por que fomos perdendo tudo isto, Eunice? É porque é mais prático de outra forma ou não? Eu sei que vai contradiar isto.

Sim, a sociedade evoluiu em termos de acesso e de conveniência. Eu diria que foi, sobretudo, o fator conveniência, de concentrar tudo num espaço. E aquilo que o nosso conceito vem contrariar e, de alguma forma, recuperar, precisamente porque não é um conceito novo, é o resgate de algo que faz parte do nosso imaginário coletivo e da nossa tradição, é a ideia de voltar a abrandar e também, quase que como uma ode ao saborear, à experiência, a um estilo de vida, que é precisamente parar para contemplar, para saborear, e pensar também naquilo de que precisamos, do que verdadeiramente precisamos. Incentivamos uma compra que é planeada.

Consciente.

Pensada, muito ponderada. Sim, sem dúvida, é uma compra consciente que começa ainda antes da chegada à loja, em casa, pensando de que alimentos é que vamos precisar, em que quantidades, e depois também implica organização para que as pessoas possam reutilizar os recipientes que já tenham, possam trazer os seus sacos, reutilizados também. E tudo isso muda a forma como consumimos. É um passo na direção desse consumo mais consciente.

Certo. E para si, a palavra-chave é mesmo essa: organização.

Mais do que organização, eu acho que é essencialmente também planificação, no sentido em que é preciso pensar e repensar antes de comprar, ter a certeza do que verdadeiramente precisamos, pensar se podemos reduzir aquilo que vamos comprar. Se precisamos de comprar, então ver se é possível reduzir, ver se é possível reutilizar. Estamos sempre de volta deste zero, do modelo da sustentabilidade, sem dúvida.

Exatamente. E, portanto, corria o ano 2015, quando vocês abriram a vossa primeira loja, como nos contava aqui a Eunice Maia, em Alvalade. Qual foi logo o primeiro impacto? Quais foram os desafios iniciais, Eunice?

Estávamos em 2015, e estávamos a comentar há pouco que é um resgate do passado, mas, ao mesmo tempo, aquilo que nós introduzimos no mercado, esta possibilidade de reutilização de recipientes, foi uma pequenina revolução de que nos orgulhamos muito. E o nosso primeiro desafio foi precisamente com Um lado que eu diria extremamente pedagógico, sensibilizar as pessoas e incentivá-las a reutilizar precisamente os seus recipientes. Esse foi o primeiro ponto. Depois, como disponibilizamos alimentos biológicos, também sensibilizar as pessoas para as vantagens da alimentação biológica e também da agricultura em modo biológico. E depois, lentamente, fomos mostrando que para além da área da alimentação, para além da recusa das embalagens de uso único na cozinha e na confecção de refeições, também era possível, nas outras divisões da casa e também nas outras áreas do dia a dia, reduzir o desperdício e prevenir a geração de resíduos. Para além de loja, somos muito mais do que uma loja, somos missão e somos também uma plataforma de partilha, de conhecimento, de projetos e procuramos dar luz às inspirações que podem contagiar as outras pessoas e mudar a sua vida.

É muito engraçado a Eunice falar dessa questão, por exemplo, de levar os nossos sacos, levar os nossos recipientes. Hoje em dia já é uma coisa totalmente normal, mas quando vocês começaram, isso na altura acredito que tenha causado alguma estranheza e ainda bem que tudo isso mudou e que hoje já estamos mais conscientes também nesse aspecto. Mas falando aqui também dessa questão, e a Eunice também nos dizia que para si também foi uma adaptação. O que é que para si a surpreendeu e é possível comprar na Maria Granel e que até a si, que fundou a loja, que fundou este conceito, a surpreendeu. E ainda a surpreendeu, Eunice?

Eu posso dizer que houve pequenas vitórias nestes cinco anos. Para já tivemos de enfrentar e de certa forma tentar superar e contornar com criatividade algumas imposições legais que são limites para o granel e que estão em contraciclo com o que se passa no resto do mundo e mais concretamente no que se passa na Europa, em termos de legislação desta área. E para nós foi importante ver e trabalhar junto dos fornecedores a disponibilização de determinados artigos e produtos a granel, que ainda não existiam dessa forma. E estou a lembrar-me de vários, desde a introdução dos detergentes a granel, a introdução do sabonete líquido, do xampu. Posso contar, por exemplo, no caso do xampu, foi um namoro de dois anos com uma marca que produz estes xampus e é também um caso de inovação no mercado em agricultura biodinâmica, quilômetro zero. Portanto, foram dois anos até conseguirmos adaptar o produto à comercialização a granel, permitindo que as pessoas trouxessem os seus próprios recipientes para se reabastecerem. Portanto, eu diria que sim, são estes os melhores exemplos.

E falando aqui deste grande desafio que todos nós enfrentamos neste momento, a pandemia, vocês também se adaptaram neste caso e transferiram o vosso negócio para o online.

Sem dúvida. Nós já tínhamos presença online, tínhamos a parte dos acessórios já no nosso site. A verdade é que a pandemia veio acelerar uma ideia que já tínhamos há muito tempo e para a qual já estávamos a trabalhar também, que era incluir a parte alimentar também, sem sacrificar a missão, portanto, a presença do granel, permitir às pessoas que possam escolher as doses que precisam desses alimentos no nosso site, e com uma preocupação adicional, que é em termos de transparência e de responsabilidade, comunicar ao consumidor final, no nosso caso, os nossos queridos fregueses, comunicar todo o ciclo de vida do produto. Sempre que conseguimos fazê-lo em termos de rastreabilidade, as pessoas têm acesso, inclusivamente, a vídeos com o produtor, com o agricultor. Ficam a perceber também em termos de impacto social, o que é que estão a apoiar, que projetos estão a apoiar e quem estão a apoiar, o rosto de quem estão a apoiar. E fizemos também um levantamento do nosso impacto e da nossa pegada de carbono, portanto, está tudo no nosso site disponível para que as pessoas, mais uma vez, possam fazer uma escolha mais consciente e mais informada, porque acredito verdadeiramente que a disponibilização de informação é um dos caminhos para transformarmos a sustentabilidade em regra e não em exceção.

Eunice Maia, agora quais são as próximas etapas para a Maria Granel se expandir? A rede de lojas está nos planos, não?

Nós temos muitos pedidos de todo o país, inclusivamente também fora do país. Ainda esta semana fomos contactados por parte de uma empresa brasileira. É impressionante, de facto, é um orgulho enorme ver este interesse pelo nosso projeto. Não posso revelar para já, mas definitivamente a palavra que procuramos que defina o nosso futuro é colaboração. E por isso, seja através da nossa marca, seja através da colaboração com marcas que partilham os mesmos valores e a mesma missão, procuraremos chegar a cada vez mais pessoas.

Muito bem, vamos ficar à espera dessas novidades, então. E como dizia a Eunice no início, se mudou os seus hábitos, é possível para todos, não é? Portanto, o importante é começar.

Sim, é mesmo isso. O mais importante é começar.

Ter essa consciência e agir, fazer compras mais conscientes, tornar-se freguês da Maria Granel. Este exemplo de sucesso que hoje ficámos a conhecer com a Eunice Maia nesta parceria entre o Observador e a Timberland. Eunice, obrigada. Até à próxima.

Eu é que agradeço, mais uma vez.