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A luzinha, essas várias luzinhas ao fim do túnel.

Uma luz concreta, exata, ao fundo do túnel.

A luz ao fundo do túnel.

The Piano Posts, dia 100. John Lake, um pianista de Brighton, no Reino Unido, comprometeu-se a publicar nas redes sociais um vídeo por dia a tocar piano. Foi assim durante uma centena de dias, terminou a 3 de julho. John assumiu este desafio quando começou o confinamento e decidiu levá-lo até ao fim. Aqui escutamos a última canção. John Lake interpreta Remembrance, de Michel Camilo. O desconfinamento pôs fim a este projeto. No dia quatro, no Reino Unido, reabriram pubs, bares e restaurantes e com isso, desconfina também a música ao vivo. Nesse primeiro dia, apelidado de Super Saturday, o super sábado, milhares de pessoas voltaram à vida noturna. Mas apesar das recomendações deixadas pelo governo, as medidas sanitárias não foram cumpridas nas principais cidades. Tornou-se popular a frase de um polícia de Southampton: "Está provado que as pessoas bêbadas não conseguem manter o distanciamento social." Mais a sul, em França, esta semana ficou marcada pela reabertura do Louvre, o museu que serve de casa para a Mona Lisa e milhares de outras obras. Voltou a abrir portas, mas apenas para cerca de 7 mil pessoas, bem menos do que as habituais 30 mil que costumavam visitar o museu diariamente. Do outro lado do Atlântico, Nova Iorque entrou na terceira fase de desconfinamento. Reabriram salões de estética, casas de massagens, salões de tatuagens e voltou a ser permitida a prática de desportos coletivos. Os restaurantes com espaço fechado ainda não podem reabrir e por isso, numa semana foram entregues 7 mil pedidos de licença para abrir esplanadas. Perante o cenário de crise, Nova Iorque vive agora um problema de criminalidade, com um aumento de 64% nos tiroteios no primeiro semestre deste ano. Em Portugal, a economia reabriu praticamente toda. Reabriu, mas com muitas regras. Ainda assim, o cenário está longe de ser positivo. Esta semana, a Comissão Europeia agravou as previsões da recessão portuguesa. Passou de uma contração de 6,7% para 9,8%. A recuperação económica vai ser mais lenta do que era previsto, tal como está a ser mais lento o controle da pandemia e ainda com muitas dúvidas sobre as sequelas. Hoje falamos da recuperação dos doentes que conseguiram curar-se da Covid-19.

Há alguns estudos dispersos pelo mundo. Nós próprios estamos a fazer investigações em alguns hospitais, mas também parece-me que, com a cautela sempre que temos tido, ainda é cedo para tirar conclusões definitivas, uma vez que, como sabem, os nossos primeiros casos apareceram no dia 2 de março. Portanto, passou pouco tempo para saber se isto são sequelas definitivas que vão deixar, de facto, algum grau de incapacidade ou não. Mas como digo, são situações que são estudadas quer em Portugal, pelos clínicos que acompanharam estes doentes, quer em muitos outros países, nomeadamente europeus, e portanto estamos todos atentos a essa hipótese.

São as próprias autoridades de saúde a admitir que ainda existem muitas dúvidas sobre as sequelas da Covid-19. Tal como diz Graça Freitas, em Portugal está a ser feito o acompanhamento de doentes que recuperaram para perceber como é que o corpo reage depois de curar a doença. Sandra Brás é médica no Hospital Santa Maria e criou uma consulta de acompanhamento dos doentes que recuperaram da Covid-19. As consultas começaram no mês de maio e em dois meses já é possível traçar o que aconteceu no curto prazo aos doentes que conseguem superar a doença. Boa tarde, doutora Sandra Brás.

Sim.

Tudo bem?

Sim, está tudo bem.

Está no seu dia de descanso, certo?

Sim, trabalhei esta noite. Estive de urgência e passei pela enfermaria de manhã e agora sim, estou a descansar.

E neste momento, qual é o cenário no Hospital Santa Maria?

Nos últimos quatro dias podemos dizer que os números de internamento na enfermaria que coordeno estão estáveis, com uma média de um, dois doentes internados por dia na enfermaria. Portanto, temos cerca entre os 40, 44 doentes internados por dia, nos últimos dias, que são valores bastante bons comparativamente às últimas semanas.

E nos cuidados intensivos, também?

Nos cuidados intensivos temos cerca de 15 doentes. Tem andado à volta disso, 14, 16 doentes por dia. Penso que podemos falar nos últimos quatro, cinco dias, de alguma estabilidade.

Doutora Sandra Brás, vamos falar sobre o que acontece depois da Covid-19 nos doentes. Trabalha no Hospital Santa Maria e criou uma consulta para acompanhar os doentes que conseguem recuperar da doença. Por que razão quis criar esta consulta ou por que razão foi criada esta especialidade, se é que podemos dizer assim?

A consulta é um ato médico muito frequente na minha especialidade, na medicina interna. E nestes doentes que estiveram internados com este diagnóstico de infecção por SARS-CoV-2, fazia todo sentido Por um lado, porque à semelhança dos outros doentes internados com outras patologias e que nós avaliamos em consulta de medicina interna, temos de avaliar dois aspetos muito importantes, que são complicações agudas que ocorreram durante o internamento. A maioria destes doentes foi internada por pneumonia, mas alguns deles tiveram a expressão clínica noutros órgãos e sistemas. Tiveram complicações neurológicas, cardíacas, lesão renal. E depois há um grupo de doentes que tiveram pneumonia, passaram pelos cuidados intensivos por necessidade de ventilação mecânica invasiva e tiveram internamentos muito prolongados e também com algumas complicações. Eles tiveram alta clinicamente estáveis, alguns deles para o domicílio, outros para unidades da Rede Nacional de Cuidados Continuados para Recuperação Funcional, mas torna-se necessário avaliar como é que eles estão do ponto de vista funcional e, em particular, os que passaram pelos cuidados intensivos, mas também como é que estão relativamente à pneumonia e às outras manifestações que motivaram o internamento ou que surgiram durante o internamento. Esse é o primeiro objetivo, é um objetivo a curto, médio prazo. Depois temos um objetivo a longo prazo, que advém do nosso desconhecimento da doença. Nós não sabemos se esta doença vai deixar sequelas ou não. E, portanto, a melhor forma de sabermos, de identificarmos as sequelas, se elas surgirem, e agirmos de forma adequada e atempada, é seguir os doentes. E foi por isso que foi criada a consulta. O plano é seguir estes doentes por um período mínimo de dois anos.

Estas consultas começaram no início de maio. Falava nessas diferenças, que tinham objetivos a curto, médio prazo e outros a longo prazo. Das que estão a curto, médio prazo, já têm alguma resposta naqueles objetivos que estabeleceram? Já conseguem traçar algum cenário?

Sim, do ponto de vista da recuperação funcional, estamos surpreendidos, mas até certo ponto, esta evolução foi favorável, veio confirmar o papel da fisiatria, da reabilitação motora, respiratória destes doentes. Os doentes que foram para o domicílio conseguiram, junto dos cuidados de saúde primários, alguns deles a título privado, apoios e iniciaram a sua reabilitação motora e estão muito bem. Outros que estão em unidades de cuidados continuados, estão em processo de reabilitação, esses ainda não os posso avaliar, porque só quando tiverem alta dessa unidade. Do ponto de vista motor, funcional, os doentes estão a evoluir muito bem. Do ponto de vista da pneumonia, também bem. Aliás, quando eles saem do hospital, estão estáveis, sem necessidade de aporte suplementar de oxigênio. Das restantes complicações cardíacas, renais, neurológicas, é uma evolução mais lenta, mas também positiva. O que me tem surpreendido, e é isso que me preocupa nesta fase inicial, são as repercussões a nível emocional. São doentes cujo internamento foi muito traumático. Alguns deles, a maioria, diria, repensaram a sua vida, os objetivos de vida, com decisões muito interessantes, sobretudo os mais velhos. Sentiram que a vida podia ter terminado e com a sua sabedoria, têm agora uma atitude diferente e muito mais positiva, mas eu diria que esse grupo é a exceção. A maior parte deles são doentes que não estão nada bem, com quadros de angústia, medos, muita irritabilidade e alguns configuram mesmo quadros depressivos.

Mas isso nos casos de pessoas mais jovens, de doentes mais jovens?

Mais jovens, exatamente. Nós estamos a falar de pessoas com 40, 50 anos, que ainda trabalhavam e que alguns deles passaram pelos cuidados intensivos e ficam nas primeiras quatro, seis semanas pós-alta, bastante dependentes, ao ponto de necessitarem de ajuda, por exemplo, nos primeiros banhos em casa. Depois não puderam trabalhar. Alguns deles ainda não conseguiram retomar a sua atividade profissional. Outros, além de tudo isto, tiveram familiares internados e alguns faleceram. Portanto, há uma alteração enorme, quer na vida familiar, profissional, e apesar de eles estarem a evoluir muito bem do ponto de vista físico, ainda falta muito para voltar à vida normal, se é que o normal deles vai ser o normal do antigamente.

Mas mesmo ainda olhando para a parte física, há diferenças por parte de idade, ou seja, os mais novos conseguem recuperar mais rápido e os mais idosos mais lentamente, ou neste caso, a doença e a recuperação não olha a idade?

Não é uma resposta fácil, porque teoricamente um doente idoso tem um compromisso da sua reserva funcional e, portanto, quando há uma agressão, teoricamente a recuperação seria mais difícil e mais prolongada. Mas esta doença tem algo de muito particular, que é: há inicialmente um quadro clínico que decorre da infecção viral, da ação do vírus no nosso organismo, mas depois há uma segunda fase em que as manifestações clínicas são uma consequência da resposta do sistema imunitário E essa resposta é tanto mais intensa quanto mais jovem é o doente. Portanto, se o doente ultrapassa esta fase inicial, que resulta da ação do vírus contra o organismo e não tem essa resposta do sistema imunitário, essa resposta inflamatória, que é o que acontece predominantemente no idoso, que não tem capacidade de ter essa resposta imunológica, acabam por não passar por essa segunda fase, que muitas vezes motiva o internamento nos cuidados intensivos. Os mais jovens, como têm uma resposta inflamatória muito marcada, não tenho números ainda presentes, mas são esses doentes que vão para os cuidados intensivos e têm internamentos mais prolongados. Portanto, de uma forma muito simplista, o idoso entra e pode sair em cadeira de rodas ou a andar com o seu pé e muito provavelmente, o doente mais novo sai muito mais debilitado e, portanto, a recuperação também é mais prolongada, porque eles saem em condições completamente diferentes. O idoso, até certo ponto, com mais autonomia do que o doente mais jovem.

Isto contraria um pouco a teoria de que a doença até acaba por afetar mais os mais velhos.

Sim, porque a idade é, de facto, um fator de risco para a doença, para a infeção.

Para a mortalidade.

Exatamente. Completamente diferente termos um homem de 30 anos saudável e que é internado com uma pneumonia por SARS-CoV-2, ou termos um doente de 70 anos com comorbilidades, hipertenso, diabético, obeso, com essa idade, internado por uma pneumonia pelo mesmo agente infeccioso. A questão é que as manifestações clínicas não decorrem apenas do vírus, decorrem da resposta inflamatória do sistema imunitário. E essa pode ser muito mais marcada nos doentes mais jovens.

Doutora Sandra Brás, estas consultas têm tido procura?

As consultas são marcadas por nós mediante um contacto telefónico, porque o doente só pode vir à consulta depois de ter critérios de cura. Mas a notícia da consulta é sempre muito bem recebida, porque os doentes têm muitas dúvidas. E a consulta também serve para isso.

Quais é que são as principais dúvidas que apresentam?

São, por um lado, em termos relacionais, se já podem estar com a família, que relatam experiências, alguns que voltaram ao trabalho e que o regresso não foi assim tão fácil, porque os outros tinham receio de estar numa mesa enquanto almoçavam. Estas questões e, portanto, esclarecer a cura e às vezes até ajudá-los na resposta que devem dar aos outros quando as perguntas são colocadas. Depois, em termos familiares, se é seguro para os mais velhos. Depois, uma dúvida recorrente é se podem voltar a ter a infeção ou se têm imunidade, e muito focados em números, o que eu acho natural, porque é um dado objetivo. E nós estamos a avaliar os títulos de anticorpos que estes doentes têm. Eles ficam muito fixados no número. E eu não tenho a resposta para isso. Eu não sei se esta imunidade adquirida vai manter-se no tempo ou não. Mas são sobretudo estas dúvidas, se vai deixar sequelas ou não. Também nós explicarmos como é que vamos avaliar os doentes em termos clínicos, de queixas, que exames vamos fazer. E é desmistificar.

Doutora Sandra Brás, está na linha da frente há vários meses. Como é que tem sido?

É uma expressão muito usada, mas que eu não gosto muito. É a primeira vez que digo isto, mas nós, profissionais de saúde, quando tiramos os nossos cursos, nós não fomos enganados. Nós sabíamos perfeitamente que íamos tratar doentes. Eu sou uma privilegiada, porque eu faço exatamente aquilo que gosto. Eu estou na especialidade que eu gosto e trabalho com pessoas. Portanto, sou duplamente privilegiada. Sou médica porque gosto e estou na especialidade que gosto. Esta é a nossa missão, não é uma forma romântica de definir, mas é a nossa missão. Nós sabíamos para aquilo que íamos. Não vou dizer que os últimos meses tenham sido fáceis, mas prefiro ver o lado positivo, que é perceber que o Serviço Nacional de Saúde conseguiu dar resposta e que quando queremos, como já mostrámos noutras ocasiões, os profissionais de saúde podem organizar-se, comunicar e fazer o seu trabalho, mas de uma forma muito bem feita. Claro que estamos cansados. Não trabalhamos sempre nas melhores condições, mas eu prefiro ver o lado positivo e está a correr bem. Poderemos não ter as férias, as semanas que gostaríamos ou no momento que gostaríamos, mas o importante é ver estes doentes na consulta e vê-los com vontade de viver e extremamente gratos aos profissionais de saúde por tudo aquilo que fizemos por eles. Essa é a melhor recompensa. Não é preciso mais, é isto.

Sandra Brás vai continuar o trabalho diário no serviço de urgência do Hospital Santa Maria e também as consultas de acompanhamento aos doentes recuperados. É um trabalho que se vai prolongar durante meses para perceber ao certo quais são as sequelas da Covid-19. Depois de sete meses a lidar com a pandemia de Covid-19, esta semana a Organização Mundial de Saúde admitiu que existem novas provas de que o novo coronavírus se transmite pelo ar. Aconteceu depois de um grupo de 239 cientistas ter alertado a OMS para esta possibilidade. Alertaram através de uma carta aberta. Foi aí que a Organização Mundial de Saúde assumiu que existem estas novas provas e que é preciso estar atento para perceber as implicações e precauções que devem ser tomadas perante este cenário. Para já, as recomendações são evitar espaços fechados e utilizar máscara, mas esta notícia vem comprovar que ainda são muitas as dúvidas sobre o novo coronavírus e que, apesar de algumas luzes, ainda há muito túnel para percorrer.

Se nós falharmos na resposta de Lisboa, estaremos a falhar ao país.

O número de casos reportado a nível nacional é o número do qual nós temos conhecimento.

A informação que nos chegou é que haveria umas festas e que haveria algum prémio, digamos assim, para o primeiro a testar positivo.

Não se vê ainda uma luz ao fundo do túnel.

Eu estou muito bem, estou até com vontade de dar uma caminhada por aqui. Eu não vou fazê-la por recomendação médica, mas eu estou muito bem. Os números falarão por si e vão ser evidentes também nos nossos velhos aliados britânicos.