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Bem-vindo ao "A Nossa Cultura", eu sou o Martim Madeira e encontramo-nos na Quinta da Cruz, na exposição "Vestígios Somáticos" de Andreia Santana, que está localizada no espaço expositivo Venha a Nós a Boa Morte Arte Contemporânea. Passar agora para esta segunda peça, não sei se queres seguir por aqui. Passaremos para aqui. Aqui temos esta questão do vidro, que falavas há pouco, que decidiste utilizar novamente o vidro. Temos aqui um vulto de um corpo, a mim parece-me ser feminino, um corpo feminino. E o que é que temos aqui nesta peça de estanho? Eu vou tentar adivinhar, mas podes-me dizer se estou incorreto. Aqui parecem-me ser, por exemplo, ovários, não sei se tem a ver ou não, mas parece-me. Pode ser uma interpretação, obviamente abstrata, e muito longe da verdade, mas eu gostava que me explicasses o que é que de facto está aqui.
Eu acho que as tuas observações são brilhantes e até bastante abstratas. Não, na verdade, são suspensórios.
Sim.
Mas o que é curioso aqui, e eu acho que é isso que tu estás a ver, são todas estas ligações que excedem, neste caso, o objeto primordial, que neste caso são os suspensórios, ali era o corpete, são as ligações que eu deixei do próprio sistema de moldagem. Ou seja, nós temos que desenhar na areia todas estas ranhurazinhas para que o metal entre e que chegue ao objeto, à ausência do objeto. E portanto, numa situação normal, numa fundição, a pessoa que estaria a fazer iria cortar todos estes excedentes e iria ficar só com o objeto em si.
Exato. E porque é que deixaste?
Eu decidi deixar porque eu gostei desta questão, que se calhar foi o que te trouxe aos ovários, que era uma coisa quase como das artérias. E tu tens razão, relembra imenso o sistema reprodutor, o corpo humano, as nossas vísceras, e eu achei que era curioso a maneira como ele se integra e expande a peça também.
Perguntar-te também, porque agora também eu consigo ver esta parte do suspensório. Muito realista. Isto é um suspensório real que fundiste com o estanho ou fizeste esta forma?
Isto é uma coisa muito pragmática e técnica, mas para fazer estes moldes tu tens que ter sempre o objeto que é a madre, que nós chamamos a madre em escultura. E a madre pode ser exatamente o que tu estavas a dizer, pode ser o objeto propriamente dito. Portanto, eu fui às compras . O corpete, na verdade, eu fiz à mão, utilizando, também é importante dizer, o bordado de Tibaldinho, que é um bordado típico aqui de Viseu, mas neste caso eu apenas comprei o objeto dos suspensórios, engrossei-o com uma cola, uma resina, e depois quando ele estava seco e bastante duro, calquei na areia dos dois lados, juntei as duas partes do molde e verti o metal lá para dentro. O objeto sai do molde, é isso que eu estava a tentar dizer.
Ok. E esta parte aqui, pelo menos esta parte que faz esta espécie de M de um coração, porque de facto até pode parecer um coração, se quisermos levar para esse lado. Mas esta parte aqui também é positada ou é mesmo como estas partes de fora?
Também faz parte destas artérias de ligação para a própria fundição ser feita. E em relação a sim, estavas a dizer, são vultos femininos, são fantasmas femininos, e são feitos à minha escala, portanto eles replicam mais ou menos aqueles templates, aqueles "cutouts" que se costumam usar muito em publicidade e em moda, de pessoas a andar, pessoas paradas, mas eles têm todos a minha altura, portanto 1,66 m, salvo erro, e são feitos para serem quase como duplos meus no espaço, como se eu estivesse sempre aqui mesmo quando não estou. E tem a ver com uma vez que eu vim visitar este espaço pela primeira vez, porque como tu disseste, é a primeira exposição no novo espaço da Quinta da Cruz. E eu quando visito o espaço pela primeira vez, sonhei nesse dia à noite que quando vínhamos montar, eu estava sempre a ir contra objetos que quase nunca via. Estava sempre a ir contra pessoas, estes vultos estranhos delineados no espaço, mas que eu não conseguia tocar, porque eles eram tão finos e tão transparentes.
Está aqui feita esta análise desta peça dos vestígios somáticos de Andreia Santana, que está localizada na Quinta da Cruz, em Viseu. Continuaremos esta exposição nos próximos episódios.