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Seja muito bem-vindo ao podcast "Palavra de Inovador". Novo episódio deste podcast em parceria com a KPMG Portugal e o Observador Lab, em que damos voz aos empreendedores e aos líderes da tecnologia que estão a desenhar o futuro a partir de Portugal e além-fronteiras. Já lá vamos. Hoje falamos sobre saúde humana com a Blood Flow, uma startup que está a revolucionar a forma como analisamos e interpretamos dados de exames de sangue, algo muito simples, mas que usa a inteligência artificial para também triunfar. E é disso que vamos falar para discutir o impacto destas soluções e o caminho da inovação com o Tiago Costa, founder e CEO da Blood Flow. Tiago, muito bem-vindo ao "Palavra de Inovador". Não é uma estreia, porque tu já estiveste conosco numa iniciativa muito parecida também em parceria com a KPMG no ano passado. Seja muito bem-vindo aqui à Rádio Observador.

Olá, muito bom dia, muito obrigado. Sim, é verdade, realmente sou repetente. É o segundo ano consecutivo que estou aqui presente e muito obrigado por me terem. Vamos a isto.

Vamos a isto. E para o ano que seja com a vitória.

Com a vitória.

Que estamos a manifestar.

Vamos trabalhar para isso.

Exato. Olha, para iniciar esta conversa, vamos a um primeiro desafio. Eu vou cronometrar isto, atenção. Num minuto, como é que tu explicas a missão desta vossa empresa a quem nos está a ouvir pela primeira vez e quer conhecer a Blood Flow?

Sim, a Blood Flow nasceu de uma dificuldade que eu encontrei muito no início. Eu era um atleta de alto rendimento e nós passamos por muitas análises sanguíneas para motivos de performance, nutrição, suplementação. E havia uma dificuldade muito grande dos médicos que nos acompanhavam, de conseguir acompanhar-nos longitudinalmente e tomar uma decisão a tempo e com toda a informação necessária. Então a Blood Flow nasceu exatamente para resolver este problema, inserir-nos diretamente nos workflows clínicos onde os médicos trabalham, para conseguir compactar toda a informação, todo o contexto clínico do paciente, analisá-la toda em conjunto e dar uma informação certa e aprontada para que o médico tenha toda a informação necessária para tomar a melhor decisão possível no workflow clínico do paciente.

Muito bem, cumpriste de forma exímia este um minuto, já passaste no primeiro teste. Nós falamos aqui das análises ao sangue, que são dos exames médicos mais comuns do mundo. Eu confesso que tenho algum pudor em fazê-los, porque agulhas comigo é um bocadinho complicado. No fundo, vocês tiveram um trabalho muito próximo dos médicos, acredito eu, para perceber quais eram as reais necessidades para chegarem a esta inovação. É isso?

Sim, exatamente. Portanto, o último ano do nosso trabalho foi muito aquele trabalho que ninguém vê. Portanto, um trabalho muito com os médicos, tentar perceber realmente quais são as necessidades. Porque quando nós falamos de um exame sanguíneo e a maneira como nós o analisamos, é muito diferente se eu estiver a trabalhar com um médico ortopedista, por exemplo, ou com um oncologista. Portanto, as necessidades do paciente-

São diferentes, não é?

O tipo das decisões que têm que ser tomadas, apesar do exame ser o mesmo, as decisões são completamente diferentes. Portanto, um ortopedista, quando quer ver se um paciente pode entrar para um bloco operatório, o que ele está a olhar para o exame e a maneira como ele analisa todo o contexto clínico do paciente, é completamente diferente de um oncologista, quando um paciente já foi diagnosticado, está dentro de uma linha terapêutica, segunda, terceira linha terapêutica, e já estão só a tentar monitorizar, a ver se realmente a progressão está a acontecer da maneira certa ou não. Portanto, todo este trabalho acontece muito nas escuras e é o que nós temos estado a fazer no último ano, é trabalhar muito com os médicos, iterar muito a solução e buscar aquele product market fit, que conseguimos dar ao médico exatamente aquilo que ele procura.

Que palavrão foi esse que usaste agora? Product?

O product market fit. Já é umaquelas línguas de-

É que aqui, pronto, às vezes há uma linguagem mais técnica, que vocês estão habituados.

Exato. É quando tu tens uma startup, nós temos um produto, e às vezes esse produto não se enquadra realmente ao que o mercado quer, ou seja, ao que o médico quer. Então muito do trabalho que nós fazemos em iterar a solução com os médicos é perceber exatamente o que é que o médico quer para o meu produto fazer exatamente isso.

E isso aconteceu, esse fit?

E esse fit exatamente aconteceu. Portanto, nós estamos agora a entrar no mercado e temos uma solução muito para a farmácia hospitalar, ou seja, para ajudar mais o farmacêutico, que realmente é aquilo que exatamente eles querem. Cada vez que nós apresentamos essa solução a uma direção de farmácia, é quase na hora, eles ficam: "Quando é que nós podemos utilizar?"

Exato.

Um product market fit.

Muito bem, já aprendi alguma coisa hoje. Nós falamos aqui de um setor hiper regulamentado, que é a saúde. Quais são os maiores desafios de implementar algoritmos de inteligência artificial, por exemplo, e no fundo, garantir também a total confiança neste processo e nesta inovação. Porque sabemos que, e nós sabemos isso através das notícias, há dúvidas, desconfianças em relação à inteligência artificial. Como é que vocês articulam todo este processo?

Sim, realmente a área da saúde é provavelmente das mais regulamentadas a nível europeu, principalmente. Nos Estados Unidos é um pouco diferente. Mas a nível europeu, nós temos que passar por uma coisa que se chama certificação de dispositivo médico. Portanto, pensem no exemplo de um bisturi. Um bisturi é utilizado no bloco operatório e ele é um dispositivo médico. Agora, como existem muitos softwares que são utilizados em contexto clínico, portanto, o médico utiliza vários softwares, muitos desses softwares também são o que chamam software como um dispositivo médico. A nossa solução é um software como um dispositivo médico. Então nós temos que passar por um processo de certificação muito longo, que exige muito trabalho, muita documentação, trabalhar com organismos notificados que vêm nos auditar, fazer duas, três auditorias, até nos darem aquele selo de segurança e de qualidade, para que nós, só após já termos esse selo, é que nós realmente podemos entrar no mercado. E aí também é onde nós temos uma confiança muito maior depois também dos médicos e dos hospitais com quem nós trabalhamos, porque é quase ilegal do lado deles trabalharem com uma solução que não tenha esta certificação. Mas a maneira como nós navegamos é isto: é falar com os médicos, iterar muito, fazer esses projetos pilotos, gerar evidência clínica de que a nossa solução consegue responder a um risco e como é que nós também conseguimos, de forma mais adequada, mitigar certos tipos de riscos. Portanto, uma solução sempre vai ter um risco.

Sim. É um duplo trabalho, no fundo.

É um duplo trabalho. Nós conseguimos dar um apoio ao médico, mas este apoio também pode gerar certos riscos. Como é que nós os conseguimos mitigar e como é que conseguimos gerar evidência clínica.

Conseguem antecipá-los também de alguma forma?

O objetivo é que tu consigas sempre antecipá-los. Portanto, quando nós fazemos este processo de certificação, nós já temos que antecipar todo o tipo de riscos que a nossa solução possa ter. Portanto, é todo um trabalho muito documental e depois nós temos que gerar evidência que nós realmente conseguimos mitigar esses riscos. Portanto, é um trabalho de duas partes e é bastante longo. Estamos a falar de um processo às vezes de dois anos até conseguir ter esta certificação, e altamente dispendioso. Estamos a falar à volta de cerca de €300 mil para conseguir ter um processo de certificação feito.

Pois, são esses números que muitas vezes não temos noção. E o tempo também, não é? Esses dois anos que falaste.

Estamos a falar dois anos para entrar no mercado. Ou seja, são dois anos que tens que estar a fazer um trabalho de desenvolvimento do produto, desenvolvimento de evidência clínica, documentação, trabalhar com organismos notificados, para depois realmente poderes entrar no mercado, teres este selo de confiança e estares seguro do que o que estás a fazer, estar dentro da lei. Tudo o que é a regulamentação europeia.

E ainda para mais quando falamos de saúde. Olhando agora para este impacto prático que estão a construir também para os próximos anos, porque aquilo que estão a fazer hoje vai ter impacto nos próximos anos. Tiago, como é que perspetivas o futuro da medicina preventiva, quando ferramentas de análise inteligente como a da Blood Flow que estamos aqui a falar, estiverem massificadas nos sistemas de saúde?

Nós estamos realmente a passar de, como disseste, medicina preventiva. Eu acho que é o caminho que nós temos que fazer para chegar lá. Acho que ainda não lá estamos a falar. Muita gente fala que nós estamos já a virar para uma medicina preventiva, mas ainda temos um grande trabalho a fazer, porque mesmo o nosso sistema aqui em Portugal é um sistema reativo. Nós hoje em dia atuamos ou o sistema nacional de saúde atua quando alguém já tem alguma coisa, um paciente já chega com alguma coisa e atua sobre isso. O que estas ferramentas, portanto, também o que a nossa pode trazer é conseguir atemperar e verificar estes problemas mais cedo, ou seja, ter uma monitorização muito mais fácil sobre o que é que o paciente está a tornar. Por que acontece muito? Por que nós somos um sistema reativo e não preventivo? Nós temos muitos pacientes dentro de um hospital. Cada vez temos mais. Ou seja, também por causa das doenças crônicas hoje em dia. E cada paciente, se calhar há 10 ou 20 ou 30 anos, produzia X número de contexto clínico, de dados clínicos. Hoje em dia produz 10 vezes esses números. Muito pelas doenças crônicas, temos muita informação que é gerada. E temos os mesmos números de médicos, os mesmos números de farmacêuticos, os mesmos números de enfermeiros, se calhar, às vezes, até menos.

Sim, o número de profissionais acaba por ser insuficiente.

Insuficiente.

Atender com toda a resposta.

Exatamente, para tudo o que é preciso fazer. Portanto, o que estas ferramentas podem conseguir ajudar muito nisto é o agrupar da informação, o analisar esta informação e dar esta informação de uma forma muito mais fácil, na altura da tomada de decisão do médico, para que realmente essa tomada de decisão seja mais atempada e consiga se identificar problemas mais cedo. Portanto, eu acho que nós estamos a passar por um processo, na Europa é complicado por causa de toda esta certificação, todo este processo regulamentar, mas acho que também é o que é preciso fazer, porque não podemos deixar tudo entrar no mercado, porque senão era um risco enorme para o médico e para o paciente.

E já que estamos a falar de saúde, tem de haver essa regulamentação e se calhar, mais burocracia, não é, nesse sentido, para conseguir chegar ao produto final.

Sim, existe muita burocracia, mas eu acho que realmente é preciso haver. Nós temos que ter um processo que consiga tirar do mercado aquilo que não vai funcionar, que vai ter muitos riscos, mais do que benefícios, e colocar no mercado aquilo que tenha alguns riscos, mas também traga muito mais benefícios.

E isto faz realmente diferença na vida dos doentes, já que falamos de saúde e falávamos aqui da questão de medicina preventiva, o objetivo é sempre ajudar nesse sentido.

Ajudar nesse sentido. Eu posso dar exemplo muito concreto de uma solução nossa, que era a questão da farmácia hospitalar. Para a farmácia hospitalar, o que acontece é que nós trabalhamos uma coisa que é a validação farmacêutica. Ou seja, quando um médico submete uma nova prescrição de medicação para um paciente, por exemplo, pode estar internado. E quando ele submete esta prescrição de medicação, o farmacêutico hospitalar vai validá-la, ou seja, vai dizer: "Ok, esta prescrição, esta medicação pode ser administrada no paciente ou não pode, tem que voltar para o médico e fazer um reajuste". O que acontece hoje muito é que, se calhar, às vezes tu tens 10 farmacêuticos hospitalares para 1000 prescrições por dia. Portanto, muitas prescrições têm que ser olhadas. E muitas vezes o que acontece é que o farmacêutico, por devido a não ter tanto tempo, não ter o acesso à informação inteira, olha apenas para a terapêutica, ou seja, para a medicação que vai ser administrada. E o que acontece muitas vezes é o que nós chamamos um evento adverso de medicação. É quando um médico administra uma medicação em ti, como paciente, que é reativo, ou seja, eu tenho problema cardíaco, vou me dar uma medicação para tentar resolver este problema, mas existe contraindicações e interações que não foram tidas em conta, por causa de todo o contexto clínico não foi tomado em conta sobre este paciente, que faz com que a seguir exista outro problema. Ou seja, pode me criar um problema renal. Agora, em vez de eu estar numa cama do hospital dois, três dias, eu passo a estar sete ou oito. E se eu passo a estar sete ou oito, eu ocupei uma cama mais quatro dias daquilo que era preciso, outra pessoa que precisava dela, não a vai ter e vai ter que ficar em lista de espera. Portanto, isto é tudo um ciclo vicioso que acontece. Então o que a nossa solução faz é exatamente isso, é identificar todos os problemas antes da medicação ser administrada, para que o farmacêutico e o médico tomem a melhor decisão possível, reduzir números de camas, reduzir eventos diversos e muitas vezes reduzir muitas fatalidades que acontecem devido a estes eventos adversos.

E é um trabalho que faz toda a diferença quando falamos de saúde. Tiago, qual é hoje o maior obstáculo para uma startup nacional, que estamos a falar aqui, tecnológica acima de tudo, passar da fase de validação para a liderança e comercialização no mercado global?

Há aqui vários fatores de passar daquela fase da validação para uma expansão mais comercial fora fronteiras, certo, como estavas a falar. No nosso caso, nós sentimos muito disso, principalmente muitas delas é a parte das certificações. A nível europeu, pelo menos nós temos uma coisa que é toda a nível europeu, tu fazes uma certificação e está ok para fazer a expansão pela Europa. Mas o que acontece muito é o nível de financiamento. Portanto, isto são certificações que exigem muito financiamento para tu conseguires fazer a certificação, teres pessoas na tua empresa que estão dedicadas apenas a isso, pagar organismos certificados, pagar auditorias. Portanto, essa foi também uma das maiores dificuldades que nós tivemos. Nós tivemos a felicidade de ter uma ronda de investimento muito grande o ano passado, liderada pela 3XP, onde nós tivemos a capacidade de ter todo o dinheiro necessário para progredir e fazer toda a nossa certificação. Mas hoje em dia, o que nós vemos muito aqui em Portugal, principalmente, é startups na área da saúde conseguirem levantar uma ronda de financiamento tão grande como a que nós levantamos numa altura tão precoce como nós levantamos. Portanto, na altura quando eu levantei a ronda, era apenas eu, um rapaz na faculdade, com um produto ainda não muito trabalhado e com uma visão. E o Raul, da 3XP, apostou em mim e eu realmente consegui levar as coisas para frente. Mas o que falta mais hoje em dia em Portugal é apostar nas startups de saúde numa fase mais embrionária, porque realmente para conseguir chegar a esta expansão comercial através da Europa ou para o Brasil ou para os Estados Unidos, tem que haver este investimento inicial. E muitos dos fundos de investimento, o que olham para ti é Ok, mas qual é a tua tração? Quantos clientes é que tu já tens?

São as perguntas que surgem sempre.

São as perguntas que surgem sempre, só que na área da saúde, eu tenho que fazer um percurso de dois anos para eu conseguir realmente fechar um cliente. Eu preciso gerar muita evidência clínica, eu preciso trabalhar muito com os médicos antes de fazer isso. Portanto, encontrar estes parceiros, em termos de investidores, que vão investir em ti numa fase muito inicial e dar-te a possibilidade de tu, um ano ou dois depois, realmente estares a expandir-te e a liderar o mercado, acho que é aquilo que falta muito mais aqui em Portugal.

Muito bem. Qual é o grande objetivo da Blood Flow? Eu vou dizer a curto prazo, se calhar para não te obrigar a pensar assim muito. Qual é que é, Tiago?

O objetivo nós temos já marcado até pelo menos a cinco anos daquilo que nós queremos fazer. Mas a curto prazo, estamos agora a entrar no mercado. Temos o produto certificado, começámos há um mês e meio a fechar os contratos e todo aquele pipeline comercial que nós fomos gerando o último ano, estamos agora a convertê-lo todo. Portanto, até ao fim do ano, nós estamos a apontar para estar à volta de 35 hospitais em Portugal, Espanha e Brasil. São os três mercados onde nós já estamos presentes. E a partir daí, é no próximo ano, que conseguimos acabar 2027 com à volta de 110 hospitais, já como base de clientes, pelo menos nestes três mercados.

Muito bem. Ficam aqui ótimas indicações para o futuro, já agendado para cinco anos. No próximo episódio ou no próximo ano, quando vieres cá, uma vez que és finalista pelo segundo ano consecutivo.

Exatamente, já estamos a assumir que eu vou estar cá. Mesmo que eu não seja finalista, eu acho que eu posso estar cá na mesma.

Sim, já marcaste lugar cativo.

Sim, exatamente, eu acho que sim.

Tiago Costa, founder e CEO da Blood Flow. Muito obrigado por partilhares também aqui a tua visão e no fundo também da Blood Flow neste episódio do "Palavra de Inovador". É um podcast em parceria com a KPMG Portugal e o Observador Lab, que regressa em breve com novos episódios e novas histórias sobre inovação.