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Já está conosco Pedro Lino para mais um Boa Moeda, Má Moeda. Pedro, esta semana tivemos as eleições, as midterm nos Estados Unidos. Os democratas conquistaram o controle das duas câmaras. O que aconteceu nessas eleições e que impacto, como é que reagiram os mercados?

Bom dia, Paulo. Bom dia a todos. É verdade, tivemos umas eleições intercalares realizadas a meio do mandato presidencial e o resultado foi uma mudança muito importante no equilíbrio político americano. Os democratas conquistaram o controle do Congresso, o que significa que Donald Trump terá agora maiores dificuldades em aprovar qualquer decisão política. Curiosamente, os mercados acionistas reagiram de uma forma bastante positiva. O S&P 500 subiu mais de 1,6% e até o Dow Jones, das empresas industriais, subiu 3%, 1500 pontos. Isto demonstra algo importante: os mercados não reagem simplesmente à vitória de um partido, reagem às consequências econômicas que antecipam essa vitória.

Certo, mas não seria de esperar, olhando um pouquinho pra o passado, para alguma gestão de lógica, que uma mudança política desta dimensão provocasse quedas das bolsas, até por questões de receio, de incerteza?

Sim, é verdade. Quando há estas alterações muito substanciais, normalmente há impactos na bolsa, mas o que os investidores estão a ver? Estão a procurar antecipar o impacto das decisões políticas sobre a economia e sobre os lucros das empresas. E, neste caso, um Congresso controlado pelos democratas pode limitar algumas das iniciativas da administração Trump, nomeadamente a regulação, as tarifas com o comércio internacional e até a política orçamental, e que vai influenciar também as guerras com o Irã ou com a Ucrânia. Por isso, os mercados estão a interpretar esta divisão de poderes como um fator de maior previsibilidade, porque, como nós sabemos, às vezes Donald Trump diz uma coisa hoje, amanhã é outra. E, por isso, o que nós precisamos é estabilidade. Por exemplo, as energias renováveis beneficiaram muito da expectativa de políticas mais favoráveis. Tivemos em Portugal até a EDP Renováveis, mas foi por todo o mundo, e as empresas ligadas à construção de centros de dados e de inteligência artificial sofreram quedas significativas com o receio de maior regulação, que é o que o Partido Democrata mais defende. Um abrandamento da inteligência artificial.

Claro, os mercados foram ver aquilo que é mais penalizado ou mais beneficiado dependendo de cada partido. Olhando para trás, para a história, nós conseguimos estabelecer alguma relação entre resultados eleitorais e o comportamento dos mercados.

Sim, existe alguma relação no curto prazo, sobretudo devido à incerteza, mas é muito difícil identificar um padrão que permita prever a evolução futura das bolsas. Há um dado interessante. Segundo um estudo da Fidelity, uma gestora americana, desde 1938, o índice S&P 500 valorizou em cerca de 95% dos períodos de 12 meses seguintes às eleições intercalares. Ou seja, independentemente, democrata ou republicano, cerca de 95% destes períodos foram positivos. Isto não significa que as eleições provoquem estas subidas ou que o padrão se vá repetir. Isso são dados estatísticos.

E são do passado, claro.

São. E a razão é simples: é que, a longo prazo, o valor das empresas depende, sobretudo, da capacidade de gerar lucros, inovar e crescer, e não apenas de quem ocupa a Casa Branca.

Claro. Então, para quem estiver preocupado com o resultado destas eleições, isso significa que deve vender investimentos, deve esperar por maior estabilidade? O que se deve fazer?

Paulo, esse muitas vezes é um dos principais erros dos investidores. Quando o investidor vende as suas ações porque receia que o resultado de umas eleições possa ter um impacto, tem de acertar nas duas decisões: quando é que sai e depois quando é que volta a entrar. Isto é muito difícil, é o day trading ou tentar adivinhar qual é o melhor período. E há outro estudo da BlackRock, outra gestora americana, que demonstra que um investidor que tivesse saído do mercado sempre que o partido da sua preferência não estava no poder, ou seja, é democrata e está um partido republicano a governar e o democrata tinha vendido, esse eleitor teria obtido aproximadamente metade da rentabilidade de quem permaneceu investido. Ou seja, as preferências políticas podem ser um desastre para as nossas decisões financeiras. Por isso, não devemos deixar que essas preferências determinem as decisões financeiras. Ou seja, em investir existe sempre racionalidade, disciplina e visão de longo prazo.

Quase independentemente das escolhas políticas.

Exatamente. Porque lá está, 95% das vezes, republicano ou democrata, depois as empresas ajustam-se.

Claro. E sobretudo nos Estados Unidos, em que digamos que é tudo muito por força das empresas, o mercado funciona, claramente. Se não são as eleições, então, que determinam dessa forma a evolução das bolsas, o que explica esta valorização ao longo de décadas?

No fundo, é sobretudo o crescimento econômico, a inovação, os ganhos de produtividade, o aumento do lucro das empresas, porque o valor das ações sobe porque as empresas estão constantemente a aumentar lucros, ou então aparecem outras empresas novas que dinamizam a economia, como foi o fato no último ano da inteligência artificial. Por isso, pensemos na evolução da economia americana nas últimas décadas. Assistimos à evolução da internet, foram os smartphones, foi o comércio eletrônico, foi computação na nuvem e agora a inteligência artificial. Ou seja, são todas transformações que criam novas empresas. Os índices vão se mudando ao longo das décadas, não são sempre as mesmas empresas, e isso permite que, independentemente de governos com orientações políticas diferentes, os investimentos continuam a crescer. Ou seja, é indiferente, a longo prazo, o ciclo político, que apenas dura quatro anos, enquanto as empresas trabalham numa visão de décadas.

Longevidade, claro, muitas delas centenárias e algumas restarão também daqui a décadas. Agora, na lógica do investidor português, que tem poupanças em fundos, PPRs, ações, o que se aconselha neste momento?

Eu acho que a primeira recomendação é não alterar as estratégias de investimento apenas por causa de um resultado eleitoral, tal como vimos. E a segunda é diversificar. Os Estados Unidos continuam a ser um mercado muito importante pela dimensão, inovação, pelo seu mercado de capitais, que é o maior do mundo, e por isso deve-se continuar a investir, mas não devemos ter todo o patrimônio concentrado num único país. Depois, é investir de acordo com os nossos objetivos e horizonte temporal. Ou seja, quem está a investir pra reforma, está a investir há 10, 20, 30 anos e vai atravessar vários ciclos destes, períodos de crescimento, também de recessão e estas turbulências. Por isso, o importante é constituir um portfólio e ter os investimentos suficientemente diversificados pra resistir a estes cenários e a estes momentos de maior volatilidade que vão sempre existir.

Pedro, para fechar, qual é a mensagem que gostavas que ficasse?

Eu acho que devemos separar duas coisas: as nossas convicções políticas e as nossas decisões de investimento. Podemos ter opiniões muito fortes sobre quem é que deve governar o país, que políticas é que deve seguir, mas isso deve ser segregado da compra e venda de ações ou dos nossos investimentos. Os governos mudam, as políticas económicas evoluem e os mercados, com mais ou menor volatilidade, a longo prazo continuam a criar valor. Por isso, a mensagem seria simples: não devemos investir para os próximos quatro anos dos mandatos políticos, devemos investir para os próximos 20 ou 30 anos das nossas vidas.

Muito bem, fica muito clara essa mensagem. Basicamente, respirar fundo.

Com calma.

Com calma. Pedro Lima, mais uma vez, bom dia e obrigado. Bom fim de semana para todos.

Obrigado, bom fim de semana a todos. Obrigado, Paulo.