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A nossa cultura. Eu sou o João Costa Campos. A Rádio Observador está em Penava do Castelo. Estamos a visitar a Casa da Ínsua nesta viagem pelo tempo. Continuamos com a companhia de José Luís Nogueira, historiador da Casa da Ínsua, que nos tem acompanhado ao longo desta viagem pelo tempo. Saímos da sala dos retratos, onde ficamos a conhecer um pouco mais da história desta família. Estamos agora num dos salões principais da Casa da Ínsua, o Salão Nobre, que deixa logo aqui um destaque à partida. Falo do chão, José.

O chão, e sabemos quando é que foi, porque está assinado como todos os trabalhos desta casa, está embutido no chão, que foi o Marques que o fez e que foi o Nicola Bigagli que o desenhou. De facto, a base é um desenho do Nicola Bigagli, em que ele aproveita um corte de um tronco enorme e faz disso o furão central do chão, criando o centro de um pavimento todo feito com pedaços de madeira embutidos, artisticamente trabalhados e que no conjunto faz um desenho maravilhoso. O mais interessante disto é que ainda se dão ao cuidado de num quadro que está na parede, mostrar que isto são 14 tipos de madeira diferente e está lá uma amostra com o nome de cada uma das 14 madeiras, conseguiu fazer esta maravilha.

E com uma pequena amostra de cada uma delas. Passamos agora a uma das outras peças mais marcantes deste salão nobre aqui na Casa da Ínsua. Temos aqui-

Um clavicórdio.

Um clavicórdio. Eu ia dizer um piano, mas clavicórdio talvez será a terminologia mais adequada.

É o pai do piano, porque nessa lógica, o avô é o cravo. Portanto, o clavicórdio é um instrumento que esteve muito em voga no princípio dos anos 800, portanto século XIX, e que faz a transição entre o cravo, que era o instrumento de cordas repercutidas com penas, que depois a seguir vem o piano, que é repercutido com martelos de feltro. Esta é uma tecnologia que está no meio das duas e que não foi muito divulgada por toda a Europa. Eu diria que é mais na Península Ibérica e em Portugal que ele foi usado. Portanto, aqui, ao estar nesta sala, mostra a componente cultural que sempre aqui esteve associada, nesta fase, no século XIX, com o clavicórdio, sempre com serões musicais, e conseguimos recuperar que no princípio do século XX, com grafonolas, com os discos de 68 rotações, a gente consegue perceber que tipo de músicas é que se aqui ouviam. Este clavicórdio, por sua vez, até tem uma história relativamente interessante, porque é fabricado numa fábrica que foi criada por conhecido compositor italiano, o Muzio Clementi. Mas o senhor Muzio Clementi era mais compositor e músico do que fabricante, e acabou por fazer sociedade com dois irmãos, o Collard e Collard, que no fundo é a marca que ele tem, porque estes dois irmãos não foram cá de tintas, despacharam o senhor Muzio e ficaram eles com a fábrica e com o negócio, e mantiveram-se Collard e Collard. Um deles morreu, mas foi substituído pelo filho, e portanto continuou a ser Collard e Collard. A marca que aqui temos, e há alguns em Portugal nestas casas nobres, eu conheço vários, exatamente deste modelo, e um deles está aqui na Casa da Ínsua.

Que é dos grandes destaques desta sala.

Agora podemos continuar nas paredes, e temos aqui uns quadros de dimensão considerável. Estes quadros estão atribuídos, não estão assinados, a um conhecidíssimo pintor francês, o Jean-Baptiste Pillement, e que a história da casa nos diz que este salão foi em tempos, desde a sua gênese, coberta com inúmeros quadros deste Jean-Baptiste Pillement. Este Pillement esteve, de facto, em Portugal nesta década e passou por aqui. Portanto, tal como o Bigagli mais tarde faz, ao estar aqui uma década, também esteve aqui vários anos e pintou aqui muitos quadros. Só que o que a história da casa nos diz é que esses quadros foram roubados algures numa noite pela década de 70 do século XX. O que nos permite dizer que, por milagre, estão aqui outra vez quadros de Pillement. E estão aqui por quê? Porque nessa fase, ele pintou quadros que, em vez de irem para as paredes, foram aproveitados para as janelas, para as bandeiras das portas da sala ao lado, que é a sala do telefone. Uma casa que tem uma sala do telefone, veja-se a importância que o telefone tinha nesse princípio do século XX. Inclusivamente, os quadros são muito maiores que as bandeiras das portas e eles estavam, felizmente, não os cortaram, como alguém fez com as tapeçarias de Pastrana, que lhe tirou um bocado porque a sala era pequena demais para elas. Estavam virados para trás e foram recuperados e estão hoje aqui na sua dimensão original, com toda a sua beleza, graças a terem estado na altura colados na parede e por isso não desapareceram. Outro ponto de pintura importante é o teto. O teto em caixistões de madeira é uma obra, já que o chão é do Bigagli, o teto tem que ser do Battistini. É uma evocação do Battistini, uma alegoria em que nas duas fiadas exteriores põe os seis meses de um lado e seis meses do outro, os 12 meses do ano, e no centro põe as quatro estações Finalmente, a lareira. Uma sala destas tinha que ter a lareira.

Que é a figura central desta sala.

Desta sala. Ela está também, mais uma vez assinada, datada, 1899, e mais uma vez uma frase em latim: "Uma vida honesta dá finanças certas, e vivendo em paz, o céu está garantido". Em tradução livre, é mais ou menos o que o senhor nos quer dizer. E é o epitáfio de um familiar que foi importante na Lausanne, um parco da Lausanne, que ainda hoje lá tem uma capela em seu nome. A lareira tem um efeito cênico fabuloso. É realmente uma peça de arte impressionante. De tal forma que José Fonseca e Costa, em 2008, quando fez o seu filme "Viúva Rica Solteira Não Fica", que é rodado integralmente na Ínsua, e que eu recomendo vivamente que se veja por todas as razões, até por uma, que é o primeiro filme português completamente digital, totalmente gravado em digital. E é uma história interessantíssima e com uma banda sonora à medida, toda aqui passada na casa. E esta imagem é a imagem da abertura do filme, com a ficha técnica a passar, com os nomes dos atores, e esta é a imagem que podemos ver na abertura do filme.

Esta lareira de grandes dimensões e aqui com duas estátuas. Por cima desta lareira, temos outra figura completamente imponente nesta sala, que é um relógio. Que relógio é este, José Luís?

A Casa da Ínsua, a colecção de relógios de sol é fabulosa, mas também tem relógios mecânicos como este. E este é um relógio que tem uma história dramática. É um relógio que foi mandado fazer especificamente em Paris. É uma complicação extraordinária, que dava músicas diferentes para cada hora do ano, para cada hora do dia, para cada dia do ano. Era algo, em termos de tecnologia, inimaginável. Só que no dia em que chegou à Ínsua, deixaram-no cair e deixou de funcionar. Não conseguiu funcionar na Ínsua. Os anos passaram, as décadas passaram. Ele é do tempo da Camila de Faria, uma das senhoras que casou com aquele miúdo que vimos anteriormente na sala dos retratos. Ia muitas vezes a Paris e muita desta estatuária e tudo isso, foi ela que trouxe. E um bisneto seu, Luís de Albuquerque também, mas um outro Luís de Albuquerque, achou que valia a pena recuperar isto e pega nele e vai com ele pra Paris, e a fábrica consegue repor e pô-lo a funcionar de novo. Só que regressa de comboio, nos meios da época, e à chegada à Casa da Ínsua, volta a deixar cair, isto é uma maldição qualquer, e volta a estar calado. Diz que faz muitas coisas, mas não faz.

Mas o génio é mais do que um relógio, não dá apenas as horas do dia. Fica por aqui este episódio da "Nossa Cultura", que está a conhecer a Casa da Ínsua, aqui em Penalva do Castelo. Continuamos com a companhia de José Luís Nogueira, historiador da Casa da Ínsua, que nos está a dar a conhecer todas as histórias por trás desta propriedade. Fique por aí, porque no próximo episódio vamos conhecer a capela da Casa da Ínsua.