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Mais uma vez, a Nossa Cultura da Rádio Observador, aqui no Museu Municipal de Oliveira de Frades. Em episódios anteriores, começamos a percorrer as salas deste museu. Já passamos pelo início da história da terra e das gentes deste concelho e agora transitamos de sala e também de período histórico. Comigo tenho o coordenador do museu, Filipe Soares, que nos vai explicar um pouco mais sobre as duas peças que aqui temos à nossa frente, que me parece ser uma cruz e outro símbolo talvez ligado à religião. A minha aposta está correta, Filipe?

Sim, a questão é que embaixo temos realmente o braço de um cruzeiro, não é o cruzeiro, é só a parte do braço, é um fragmento de um cruzeiro. Em cima temos uma estela funerária que nos faz aqui uma ligação. Nós estamos, no fundo, num corredor de passagem entre salas. Deixamos a sala da arqueologia, em que fazemos aqui uma pequena referência em relação também a um período histórico que é menos conhecido, que é o dos mouros, dos muçulmanos, que realmente no nosso território, pensamos nós que fisicamente, pelo menos, não estiveram cá, mas não deixam de estar muitas vezes associados a lendas, como a do Almandarca, ou a dar o nome a sítios arqueológicos que as nossas populações, não sabendo de antemão explicar a sua origem ou a sua cronologia, atribuíam àquele povo mais enigmático que seriam os mouros. Por isso temos o Rasto dos Mouros, temos a Capela dos Mouros, temos a Casinha dos Mouros. Portanto, não terão nada a ver esses sítios com esse período cronológico, mas ficaram gravados na memória das pessoas como origem árabe. Pontualmente, acreditamos nós que terão algumas influências mais na toponímia, como Bandonagens ou o rio Alfusqueiro que atravessa o nosso concelho ou a própria região de Lafões onde nos inserimos. Terão origem árabe essas palavras, mas não temos aqui vestígios físicos. Regressando às peças. Na parte de cima, temos uma estela funerária, que eram objetos que na Idade Média eram colocados junto à cabeça do defunto no seu local de sepultamento. Isto num período em que inicialmente no cristianismo se enterra dentro das ermidas, dentro das igrejas, dentro das capelas, e mais tarde, acreditamos nós, por falta de espaço ou por questões higiênicas, começam a enterrar no adro das igrejas. E essas pessoas que eram enterradas no adro da igreja, muitas vezes, possivelmente também por serem mais importantes, tinham direito a que se pusesse uma estela funerária junto à sua cabeça para assinalar o local do seu sepultamento, em que muitas vezes, não é aqui o caso, em que aparecem objetos associados ao defunto, gravados nessa estela funerária. Neste caso, aparece-nos um pentalpha, um pentagrama ou um signo de Saimão, que é uma estrela de cinco pontas e que está muito associado a rituais de fecundidade. É um símbolo feminino, é um símbolo que aparece depois no contexto interno da parte da agricultura, gravado em arados, em charruas, a pedir que o ano agrícola fosse bom. Portanto, há aqui uma ligação entre a religião e a agricultura e por isso este corredor faz essa transição entre a religião e a sala da agricultura, em que aqui ao lado temos uma fotografia antiga de um compasso dos anos 30, em que vemos as pessoas, neste caso só homens, rapazes e homens, que vinham acompanhar o senhor padre, na altura sabemos por referências orais que seria seu Cônego Batista, que o acompanhavam. É uma foto do ponto de vista sociológico, muito interessante fazer a sua análise. Desde aqui os rapazes que vinham com os cestos em que me contam que traziam os ovos com que eram pagas as congruas ao senhor padre. As famílias entregavam ovos, não tendo muito dinheiro, entregavam o que podiam e o que tinham e então faziam estas oferendas ao senhor padre na altura da Páscoa.

E é assim que, tal como diz aqui na parede ao nosso lado, que o profano e o sagrado coabitam no quotidiano do agricultor, isto porque havia esta ponte entre a agricultura e o pedir para que a agricultura corresse bem.

Não saíam de casa sem fazer as suas orações e muitas vezes, ao final do dia, agradeciam, ou ao final das colheitas, por terem tido a sorte de ter um ano agrícola bom. Portanto, havia sempre uma forte ligação entre a religião e o mundo rural. O mundo rural esse que fez parte da realidade deste concelho, como muitos outros, até há poucas décadas. Este museu, como muitos outros, funciona, ao contrário da sala da arqueologia, que é para dar a conhecer aqui Já estamos num espaço de memória. As gerações mais velhas que viveram e que contactaram diretamente com estes objetos, muitos deles trabalharam com estes objetos, conheceram-nos desde criança até adultos, vêm cá recordar e para conhecer os mais novos que nunca viram estes objetos. Hoje em dia já estão habituados a novas tecnologias e já não conhecem o mundo rural. Entramos na sala da agricultura com os objetos que foram uma realidade da cave, da garagem. Todas as pessoas tinham as suas terras de cultivo e precisavam de utensílios para trabalhar. E é isso que temos aqui, para trabalhar a terra e para produzir os alimentos. Neste caso específico, nesta primeira sala da agricultura, temos objetos associados à produção do azeite e onde guardavam o azeite, e também para a produção do pão. Aqui estamos neste momento ao lado da galga e da pia do azeite, um lagar de granito onde rodavam duas mós, duas galgas, aqui chamam-se galgas, que eram movidas pela ação dos animais e para isso também temos imagens para contextualizar o funcionamento destes objetos, em que vemos aqui uma imagem retirada da Enciclopédia de Diderot, para explicar que estas técnicas não só eram antigas, ancestrais, mas que também eram muito comuns a Portugal, à Espanha, à França. Temos aqui uma componente visual gráfica também para ajudar a perceber algumas peças. Nesta galga eram colocadas as azeitonas recolhidas nas oliveiras e depois os animais ajudavam a rodar, a movimentar estas duas grandes pedras que trituravam a azeitona e depois o líquido saía por aquele orifício e seguia nas outras funções, que aqui em termos de espaço não temos representadas, mas que ainda são da memória dos mais antigos. E depois o produto final já era guardado nestas grandes pias de azeite que marcam gerações e que hoje em dia já são objetos de museu, já não se encontram com muita facilidade. São grandes objetos onde eles depositavam o seu azeite, o seu ouro líquido, sempre foi um produto importante, e vinham cá através desta tampa retirar conforme as necessidades que tinham.

E é nesta sala, a sala que representa a história do ouro líquido, como acabou de dizer o Filipe, que ficamos já rodeados de objetos bastante conhecidos, embora se note que sejam bastante antigos, mas acredito que avós e netos tenham vindo e continuem a vir ao Museu Municipal de Oliveira de Frades para reavivar a memória de outros tempos.