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Estou no Museu Municipal de Castro Daire, em Viseu, onde estão expostas peças do único tamanqueiro que Castro Daire conheceu. Comigo tenho a responsável por este museu, Cristina Gomes. Muito bom dia.

Olá, muito bom dia.

Quem é que foi este senhor, o único tamanqueiro de Castro Daire?

Ele era o senhor João do Altar. Trabalhou toda a vida na tamancaria. Era um senhor que tinha uma grande expressão aqui em Castro Daire pela arte que desenvolvia. Ele calçou toda a população castrense e não só, porque vendia para todos os lados e ultimamente até já exportava para o Japão. Portanto, a arte dele chegou muito longe.

Chegou muito longe, mas certo é que cá em Portugal é que teve o reconhecimento, é que pode ser quotidianamente aproveitado aquilo que era produzido por ele. Tanto é que hoje, aqui no Museu Municipal, estão expostas algumas das produções. Consegue-me explicar como foram feitos estes tamancos que aqui estão expostos?

Aqui temos alguns moldes que ele utilizava pra sua fabricação. Portanto, temos moldes e temos já os tamancos feitos de couro e pau-de-amieiro, porque o pau-de-amieiro era fácil de trabalhar, era o pau que ele utilizava e, para além disso, também era resistente. E as pessoas, mais antigamente, andavam em caminhos sinuosos, portanto, eles tinham uma durabilidade muito grande.

Estas produções ainda hoje são utilizadas em Castro Daire?

Ainda são usadas por Carolice, por algumas pessoas das aldeias e também pelos ranchos folclóricos que temos, que têm bastante expressão também no nosso território.

Sendo que foi o único cá em Castro Daire. Esta prática, este saber fazer por parte do senhor João, foi transmitido às gerações que vieram a seguir ou desde o seu falecimento, foi uma técnica que se perdeu aqui em Castro Daire?

Ele tinha um filho, que há muitos anos aprendeu com ele, mas infelizmente o filho também faleceu e não deixou a arte pra mais ninguém. Mais ninguém seguiu a arte, portanto, perdeu-se esta arte em Castro Daire. Ele foi o último tamanqueiro do Vale do Paiva.

Sobrevivem as peças que fabricou. Ao lado destes tamancos estão outros objetos também já muito antigos. Lataria, peças de lataria. O que é a lataria, Cristina?

A lataria era muito bem utilizada no dia a dia das pessoas, do cotidiano das pessoas aqui castrenses. Aqui vemos, era a folha de Flandres, que faziam várias peças utilitárias, nomeadamente temos o cântaro, temos aqui o regador, o funil e também aqui a talha de azeite. Estas são as peças que fazem parte da coleção aqui no Museu Municipal.

Quem é que produzia estas peças?

Eram artesãos também, que tinham esta arte, que produziam estas peças.

Ao lado da lataria, temos as campainhas e os chocalhos. O que são estes objetos, Cristina?

Estes objetos são para colocar nos animais. As campainhas nas vacas e os chocalhos mais nas cabras, nas ovelhas, mas aqui mais em cabras também. E estes objetos ainda são utilizados hoje em dia. Este que temos aqui já é muito antigo, mas as pessoas ainda hoje utilizam estas peças nos seus animais e são mais adornadas consoante se vão pra feira, se vão pra alguma festividade, as campainhas são mais adornadas, com mais calas.

Houve inclusive aqui uma peça que foi encomendada.

Sim, elas normalmente eram todas encomendadas. E os agricultores tinham muito orgulho em colocar o nome deles na peça. O nome e a localidade de onde eram.

Conseguimos ver isso aqui numa das peças.

Temos aqui Acácio Ferreira, que era natural, porque o senhor já faleceu, da Tulha Nova.

Ao lado destas peças mais antigas, menos utilizadas hoje em dia, temos algo que já salta mais à vista, já é mais comum nós ainda hoje vermos não só ser produzido, mas também utilizado, que é a cestaria.

Sim, a cestaria também teve muita expressão e ainda continua a ter no nosso território. Temos a cestaria de verga. Esta cestaria, a matéria-prima utilizada é o castanho, o carvalho e o vime, e até também o sanguinho. Depois, a cestaria de bresa, esta já com mais tradição ali na serra do Montemuro, feita de palha de centeio, e a silva, que fazia aqui, era palha e a silva enrolava a palha.

Ainda há muitos artesãos cá em Castro Daire que continuam a ter esta prática?

Alguns artesãos, não muitos, mas ainda existem alguns artesãos e quem também dá muita expressão a todas estas peças são as nossas cooperativas de artesanato, que nós, em Castro Daire, ainda temos três cooperativas de artesanato. É claro que nesta área da cestaria, temos apenas a Cooperativa de Artesãos do Montemuro, no Mesão. Depois as outras duas já são mais a utilizar a matéria-prima da lã, do linho e do breu pra confeccionar vestuário.

Uma outra forma de guardar a memória destes objetos, não só em museus, mas também haver associações e cooperativas que continuam a dar esta exposição e continuar a dar uso a estes objetos. Cristina Gomes, muito obrigada.

Obrigada eu.