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A Rádio Observador Viseu está com a nossa cultura em Carregal do Sal, desta vez no Museu Municipal Manuel Soares de Albergaria, um museu que conta a história desta região, uma história de um passado recente, mas nesta sala onde agora nos encontramos, a sala de arqueologia, uma história de um passado ainda mais longínquo e para me ajudar a contá-la, chamo Marco Lopes, que está aqui comigo. Esta é a sala da base da história desta terra, que aposta muito também na investigação deste tipo de artefatos arqueológicos.

Exatamente. Carregal é um concelho com muita história e muito rico em vestígios arqueológicos. Os mais antigos que estão aqui nesta sala datam de há cerca de 6 mil anos. Se calhar em termos de quantidade, o período Neolítico e a pré-história são os que estão mais representados aqui nesta sala. Temos diversos dólmens visitáveis e foi de lá que foram exumados a maior parte dos objetos que encontramos aqui nesta sala. Temos, inclusive, o chamado circuito pré-histórico Fiais Azenha, que é o que condensa a maior parte dos dólmens existentes aqui no nosso concelho. Um deles, que se chama Orca dos Fiais da Telha, é o maior, é o mais monumental. Já foi em tempos o décimo maior da península ibérica e que vale mesmo a pena visitar. Ele está classificado como monumento nacional desde 1974. Curiosamente, fez no ano passado, tal como a nossa democracia, 50 anos da sua classificação e está preservado e devemos ter consciência de que ao visitá-los, o que nem sempre acontece, devemos ter muito cuidado com o patrimônio, porque de facto, por vezes há atos menos louváveis que acontecem. As pessoas deixam algum lixo, fazem algumas fogueiras. Isso não é bom de todo. Temos aqui muitos objetos que foram exumados, como tinha dito, das diversas escavações que vêm já com alguns intervalos de finais da década de 80, do século XX. Nós temos uma parceria com a Uniarc, que é o departamento de arqueologia da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, e todos os anos temos aqui intervenções arqueológicas para consolidar os conhecimentos atuais e para continuar a perceber a história e ocupação deste período da história em concreto no nosso concelho.

Um circuito que também fica levemente representado nesta sala, onde temos também a foto do dólmen que acabou de nos falar. Antes disso, ao entrar nesta sala, há um outro artefato que chama bastante a atenção e para isso não é preciso andar muito, basta entrarmos nesta sala para vermos aquilo que era uma lápide funerária.

Sim, mas nesse caso mudamos para o período romano. O Conselho de Carregal também tem vestígios do período romano, estão identificados cerca de cinco sítios. Foram descobertos através da prospecção arqueológica, o arqueólogo vai pro terreno e é assim que se normalmente descobrem sítios arqueológicos com vestígios de cerâmica à superfície. Esta lápide funerária veio de um local, do único sítio de cronologia romana que foi escavado aqui no concelho. É o sítio arqueológico romano de Beijós, de Xãs, em Beijós, e está incluído num percurso patrimonial, um dos quatro circuitos patrimoniais e arqueológicos que o Conselho do Carregal tem. Terá sido mandado erguer por uma família com alguma capacidade económica, porque nem toda a gente teria capacidade para mandar erguer um monumento com esta beleza. E é curioso, nós conseguimos perceber, através da leitura epigráfica, a epigrafia é a ciência que estuda estes detalhes da escrita, e sabemos que neste caso foi a dona Albura. O marido da dona Albura, o senhor Aureliano Paniano, faleceu e a dona Albura mandou fazer esta lápide para si e para o seu ótimo marido. Curiosamente, ela está partida, está fragmentada, mas através de diversas fórmulas já conhecidas do período romano, conseguimos perceber o que aqui falta. E à partida, no final, teria: "Aqui jaz" e "Que a terra te seja leve".

E é partindo desta lápide com história e que os estudos permitem completar e ajudar a contar melhor essa história, é nesta sala onde nos encontramos, a sala de arqueologia, que reflete bem o investimento desta região na investigação. Temos muitas vitrines que mostram bem os vários artefatos já encontrados. Daqui destacamos dois, a um deles já lá vamos, mas se calhar vamos a este aqui que, como nos diz a placa, é do período Neolítico final.

Exatamente. Se calhar 90% dos artefatos que temos aqui são do período Neolítico E são de contexto funerário. Portanto, elas foram encontradas nos dólmens, que sabemos que foram principalmente locais de sepultamento. Mas neste caso, temos uma vitrine inteiramente dedicada a uma pequena aldeia, a um sítio de habitat, o habitat do Ameal. Foi o primeiro habitat da Beira Alta a ser descoberto e a ser escavado. E sabemos que nele foram encontradas cinco cabanas, feitas com materiais parecidos. No método arqueológico, conseguimos perceber que havia ali um buraco de poste, porque a terra está um pouco mais escura e sabíamos que ali estava enterrado um pau, que suportaria o resto da cabana. E lá foram encontradas coisas fabulosas, com cerca de 5 mil anos. Estamos a falar em objetos com cerca de 5 mil anos. Destaco aquelas bolotas, que neste caso estão carbonizadas. Nessa altura, o coberto vegetal e o coberto arbóreo seria bastante diferente do atual e dominariam os carvalhos e os sobreiros. Daí que a bolota estivesse em abundância para ser utilizada e, de facto, sabemos que era consumida. Nós aqui dificilmente temos aquelas árvores que têm as bolotas doces, estas aqui teriam os taninos. Se a gente experimentar trincar uma, há de aparecer um amargor que eles debelavam como? Através da torrefação, que é o caso, colocando as bolotas em cima de brasas, elas eram torradas, depois eram moídas, eram desfeitas. E temos aqui o moente, que de facto estava in situ. Depois com essa farinha fariam o resto da comida. E é curioso que estas bolotas estavam dentro de um pote que estava enterrado no solo base e servia de armazenamento. Sempre que queriam, iam lá. Talvez seria o frigorífico da altura. Havia ainda outra maneira de tirar os taninos para que se pudesse consumir as bolotas, que era fervendo-as. As bolotas eram fervidas e depois essa água iria tirar esses taninos, esse amargo, e depois o que sobraria podia ser consumido. Uma nota final para as nossas bolotas com 5 mil anos, que curiosamente, embora fosse comida e estivesse bastante disponível, ela tinha um elevado valor nutricional. Sabemos agora, depois de feitas análises, que também era muito rica em fibra, proteínas e antioxidantes. O perfil de lípidos curiosamente também é muito semelhante ao do azeite e não tem glúten. Quem sabe, deveríamos nos orientar e olhar de outra maneira para as bolotas que temos atualmente e incluí-las na nossa dieta.

E deste foco, destas bolotas sem glúten, com 5 mil anos, uma alimentação cuidada, passamos também ainda a uma outra vitrine. A destacar esta que, mais uma vez, um espólio funerário, mas que parece ter o início da bijuteria, diria eu.

Sim, está a falar de um colar que tem 410 contas em xisto. São contas redondas, discoidais, e que estava colocado, foi uma oferenda. Todo este espólio, toda esta vitrine faz parte do espólio funerário daquele monumento nacional de que falava há bocado, da Horca dos Fiéis da Telha, que deu uma grande quantidade de material. Aquele colar são elementos de adorno. Provavelmente, a crença na eternidade e na vida além da morte já existiria. E eram colocados junto do defunto todos os materiais e objetos que seriam necessários aquando da chegada do outro lado. Daí que temos ali algumas taças, estas não foram analisadas, mas sabemos hoje que continham comida, conseguimos perceber se era carne ou se era peixe, não que tipo de animal, mas conseguimos perceber isso. Temos também os objetos de adorno. Provavelmente, aquela pessoa até usaria aquele colar em vida e quando faleceu foi sepultada com ele. Análises à terra, em termos polínicos, também nos indicam que haveria muitos pólens nas terras que circundavam os defuntos, provavelmente também seriam depositados com flores. É um aspecto que ainda hoje é utilizado. Em grande quantidade, na Horca dos Fiéis da Telha, e falo de cerca de 200 pontas de seta ou pontas de projétil, mais uma vez, que foram também depositadas junto dos defuntos. Lá foram também encontradas em grande quantidade. E mais uma vez, a pessoa chegando ao outro lado precisaria de armamento e levaria aqui estas pontas de seta para que não lhe faltasse maneira de caçar e poder sobreviver. Tem uma curiosidade: todas estas pontas de seta foram talhadas de propósito para acompanhar o defunto, mas nunca foram utilizadas. Só as mais afiadas e as mais bonitas é que eram depositadas junto dos falecidos, sem nunca terem sido utilizadas.

E é mesmo aqui rodeados de todos estes artefatos, deste espólio funerário. Já passamos aqui, falámos um pouco das crenças que acompanhavam e que ainda hoje acompanham as pessoas, as gentes, nomeadamente as gentes daqui de Carregal do Sal. Tudo isto exposto no Museu Municipal Manuel Soares de Albergaria, por onde passeia a Nossa Cultura a visitar as várias salas deste museu.