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A nossa cultura no Museu de História da Cidade, em Viseu, porque a cultura não são apenas obras visíveis, mas também obra feita. E neste Museu de História da Cidade, em Viseu, logo na entrada, há quatro figuras em destaque. Estamos numa sala onde podemos ler "O Fascínio dos Mitos" e temos quatro figuras. Vamos falar de cada uma delas: Viriato, Rodrigo, Ramiro II e João Torto. Também vamos falar um bocadinho dele. Mas vamos começar por Viriato, uma figura muito associada a Viseu. Glória Miranda trabalha aqui no museu. Estas figuras estão em destaque neste Museu de História da Cidade. Vamos começar por Viriato. Quem foi este homem que tem uma ligação a Viseu, mas, na verdade, não é bem assim?

É verdade. Antes de iniciarmos o percurso pela história, se calhar convém conhecer as suas personagens. E Viriato, que está tão associado a Viseu, foi um pastor lusitano que viveu no século II a.C. Depois, com a ocupação do território da Península Ibérica, com a ocupação romana e com a pretensão de ocupar toda a Península Ibérica, Viriato, de pastor, passou a guerreiro e a líder do povo lusitano. Viriato não terá vivido aqui na zona de Viseu. Claro que terá passado por cá, porque o povo lusitano de Viriato não estava tão aqui em Viseu, mas nas suas investidas, claro que terá por aqui passado. Ele estava mais na zona da Serra da Estrela, Covilhã, os Montes Irminos. Viriato depois ficou um ícone de Viseu, porque no Estado Novo precisávamos de heróis nacionais e como se falava sempre de Viseu, terra de Viriato, e temos mais monumentos alusivos a Viriato em Viseu, foi Viriato que realmente veio com a sua estátua para Viseu, antes de um monumento que durante muitos anos tem o nome de Viriato, que é a Cava de Viriato.

Portanto, essa ligação, que ainda se faz, de Viriato a Viseu e também a explicação de quem foi este homem que lutou contra os romanos ainda antes de Cristo. Rodrigo, último rei visigodo da Península Ibérica. Quem foi este homem e qual a ligação a Viseu?

É verdade. Rodrigo também está aqui identificado como um mito da cidade de Viseu, porque durante muitos anos nós temos uma igreja, que é a Igreja de São Miguel de Fetel, e há lá sepulturas da época dos visigodos. Há uma sepultura que é mais ornamentada e durante muitos anos os arqueólogos e historiadores pensavam que seria Rodrigo que estaria aí sepultado. Mas não fará muito sentido, e mais tarde chegaram a essa conclusão, depois de terem explorado e analisado os vestígios, porque estaria enterrado, sepultado, muito longe da sua terra natal, que é Toledo. E aqui já estamos a falar no século VIII.

Passamos para Ramiro II, o primeiro rei a intitular-se Rei da Terra Portucalense. Estamos entre 926 e 931.

É verdade. Já estamos aqui no século X, continuamos a evoluir na história. E Ramiro realmente é muito importante para a cidade de Viseu, porque ele até está sempre, e continua a ser sempre representado no seu brasão. O brasão de Viseu tem o castelo, em que temos duas ameias. Uma das ameias tem uma árvore e na outra ameia tem uma pessoa a tocar uma corneta. E o símbolo do brasão de Viseu é sobre a lenda de Gaia, porque essas duas cidades estão ligadas pela mesma lenda. Na lenda de Gaia, Ramiro, após ter havido ali umas peripécias, ter raptado uma princesa muçulmana, o rei muçulmano, o Alboazar, foi raptar a sua esposa, a esposa de Ramiro, e a história poderia ter ficado por aqui, mas não. Eles sentiram-se bastante ofendidos e então Ramiro foi atrás da sua esposa Gaia. Levou os seus melhores soldados. Os seus soldados ficaram no tal pomar representado numa das ameias, escondidos, e ele, quando estava prestes a ser morto, pediu dois últimos desejos. Um deles era ter um bom repasto e o outro era poder tocar a sua corneta. Claro que ao terem conseguido esses dois desejos, ele tocou a sua corneta e a sua corneta foi o símbolo, o mote, para os seus soldados poderem invadir o castelo. E por isso é que está perdurado na história essa representação da lenda de Gaia e o brasão de Viseu.

Ora então, temos praticamente três homens. Falamos de Viriato com um mito a nível de geografia e também a nível político. Temos Rodrigo, com alguns mitos ligados à Igreja. Temos Ramiro com um mito, podemos dizer, militar, mas também social. Mas sim, agora temos João Torto, que é praticamente um mito urbano.

É verdade. João Torto, já estamos aqui a falar Algo referente ao século XVI, em que se fala da personagem do João Torto, o primeiro homem que queria voar em Portugal, a primeira experiência aeronáutica portuguesa, e ele está representado também no Museu do Ar, em Lisboa. Mas só se começou realmente a falar do João Torto a partir do século XIX. O João Torto tem data de nascimento, tem data de falecimento, tem biografia, tem esposa, tem cartas de amor e depois chegamos à conclusão que, afinal, o João Torto foi mesmo um delírio coletivo do povo vizinhense e é mesmo só um mito, uma lenda, não existiu.

E até tem uma data específica, o dia em que executou uma tentativa de voo e em que acabou por se magoar e os ferimentos levaram à morte. Tudo isto com datas.

É verdade. Dizem que ele se atirou no dia 20 de Julho de 1540.

20 de Junho de 1540.

1540. Se atirou do ponto mais alto da Sé Catedral de Viseu, às 05h30 da manhã, e voou para onde hoje em dia é o Campo de Viriato. Nessa altura, claro que era um descampado, havia aí natureza, mas havia uma capela, a Capela de São Luís. Ele tinha construído umas asas enormes em pano e madeira leve e também um colete em ferro. Ele chegou a voar, porque o ponto da Sé é mais alto do que a zona, hoje em dia, do Campo de Viriato. Ele, ao pousar no telhado da Capela de São Luís, diz a crônica que ele pousou mal e teve ferimentos interiores, causando hemorragias internas no seu corpo e depois, passado uns dias, morreu. Ou seja, tem também um feito histórico e uma data de morte.

Mitos no museu, a história da cidade se enraíza em Viseu. Mitos para explorar ao longo de próximos episódios nestas figuras. Falamos hoje de Viriato, Rodrigo, Ramires II e João Torto. Nossa cultura na Rádio Observador.