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Em relação aos sargentos, o PCP utilizou na Força Aérea, suponhamos nos outros ramos terá sido a mesma coisa, uma arma terrível que é o terror. O terror do saneamento, que funcionou em termos dos sargentos, que era a classe mais vulnerável do que os oficiais. Tinham suas famílias, com vencimentos que davam para manter minimamente as suas famílias, mas que não podiam viver sem esse vencimento. Eles foram todos ameaçados com saneamento se não seguissem a linha do PCP. E essa ofensiva foi muito eficaz. Houve resistentes, felizmente, mas foi muito eficaz.
Olá, bem-vindos ao "A Vida em Revolução". Eu sou Rui Ramos, historiador, e comigo está o Pedro Jorge Castro, jornalista. "A Vida em Revolução" é um programa em que vamos falar com pessoas que viveram a revolução em Portugal em 1974 e em 1975, para tentar perceber como foi o seu cotidiano nesses tempos de mudança e de confronto político, e o que pensam hoje, 50 anos passados, sobre essa experiência.
Hoje o nosso convidado é o general Vaz Afonso, que no 25 de abril de 74 estava em Moçambique como piloto aviador, Rui.
E numa das áreas mais problemáticas de Moçambique, o planalto dos Macondes, ele estava em Moeda, e dá-nos uma ideia, nesta primeira conversa, muito clara do que foi o processo complicado da descolonização, sobretudo a desestabilização das unidades militares pela perspectiva de que a guerra ia acabar.
E tem um pormenor em que o próprio convidado se emociona, que é recordar uma conversa com o comandante da FRELIMO.
É, Joaquim Abote, em quem ele encontra uma compreensão da complexidade da situação que o impressionou. Provavelmente não estava à espera de um inimigo de véspera, ter alguém com quem pudesse partilhar preocupações e até alguma comunhão de valores.
Vamos então ouvir a primeira parte dessa conversa com o general Vaz Afonso. General Vaz Afonso, bem-vindo ao programa "A Vida em Revolução". Queria começar por lhe perguntar como é que foi viver o 25 de abril em Moeda, em Moçambique. Como é que lhe chegou a notícia e que mudanças é que notou nos primeiros tempos?
As notícias eu ouvi por um rádio das curtas que tinha levado comigo, porque já sabia que havia grande dificuldade em saber notícias diretas. E tinha um transoceânico que eu via todas as manhãs às 8h, quando tomava o pequeno-almoço, e soube pelo noticiário da BBC que tinha acontecido o 25 de abril.
E depois, notou a população à sua volta? Mudou alguma coisa?
Não, não houve alterações. Houve uma alteração significativa que os meus funcionários nativos gostaram muito, que foi quando recebemos ordem para lhes pagar o mesmo ordenado que os europeus. Foi, de facto, uma coisa que notava-se ao olhar para os escudos que recebiam a mais.
Isso foi logo nos dias a seguir?
Foi logo nos dias.
E com os outros militares portugueses que estavam em Moçambique, houve alguma celebração?
Começou uma grande agitação, porque uma das coisas mais interessantes da nossa guerra do Ultramar foi a invenção dos aerogramas. Os aerogramas, especialmente depois da Força Aérea ter adquirido os dois Boeing 707, as rendições passaram a ser por avião. Todos os escalões saíam daqui no início da noite, aterrava em Luanda na manhã seguinte e à tarde estava também em Moçambique. Era muito rápido, as famílias escreviam daqui os aerogramas para os seus filhos e para os seus parentes, e passados dois dias estavam lá as notícias.
Em vez de esperarem, se calhar, semanas.
Em vez de esperarem semanas, quando iam de barco ou quando iam nos velhos DC-6. Foi importante. Só que as notícias tiveram o tiro que tinham, que era: "Vocês o que é que estão aí a fazer? Aqui está a dizer que já vai haver a paz. Vocês entreguem as armas e venham embora." Isso criou uma grande instabilidade, realmente, especialmente nas unidades do exército mais afastadas dos centros populacionais.
E o que é que estavam a fazer? Ou o que é que sentia que estavam a fazer nessa altura?
O problema que havia é que isso depois influencia a disciplina militar, que em operações é muito grave.
O que é que aconteceu? Houve unidades que se recusaram a prestar?
Enquanto eu lá estive até 31 de julho, não houve grandes problemas desses, mas houve logo a seguir, em 1 de agosto, a guarnição de Omar que foi apanhada à mão pela FRELIMO. Uma operação muito bem montada por eles, que deve ter tido auxílio nessa altura de algum informador nosso, que sabia da situação. Mas aí houve uma grande falha do comando, porque já se falava há uns tempos em fazer retração do dispositivo. Neste caso, as unidades que estavam no planalto dos Macondes, realmente as mais vulneráveis, e uma delas era Omar, para retornarem à Moeda e depois daí seriam transportadas em aviões de transporte para Maputo, para Portamélia e para Nacala. A ordem depois de fazer a retratação demorou muito tempo e deram asa à FRELIMO para planear esta operação, que foi um sucesso para eles.
A FRELIMO continuou a desenvolver operações.
A FRELIMO, como eu li a situação na altura, eu que estava lá e vivi, tinha um interesse enorme em manter a pressão sobre as nossas tropas, porque começou a aparecer a ideia, sobretudo depois do discurso do General Spínola, a ideia do referendo. Eles não aceitaram esse princípio e continuou numa pressão enorme sobre as nossas forças. Eles sabiam que se houvesse tempo de fazer um referendo como deve ser, eles não teriam a maioria e agarraram-se ao que tinham, que era algum domínio sobre as populações indígenas no território que eu estou a falar, porque o resto eu não conheço, eu só conheço Cabo Delgado.
Em Moeda também tinha sido nomeado representante do MFA. O que isso significava em Moeda? O que é que tinha que fazer?
Quando eu recebi a mensagem.
Logo em abril, não é?
Logo a seguir a 26.
26 de abril.
Fiquei surpreendido com aquilo. Qual é a minha job description? O que eu tenho que fazer? Falei com o capitão Terra Quente, que era o outro jovem capitão que foi também nomeado. Os dois fomos nomeados os delegados do MFA, um do exército e outro da Força Aérea, que eram as unidades que havia. Quando eu o chamei, perguntei: "Ó Terra Quente, o que isto significa? O que é que nós vamos fazer?" "Eu também não sei." Mas foi engraçado porque no mês seguinte tivemos duas ou três coisas que fomos chamados. Não sei porquê, não estava escrito em lado nenhum que seríamos nós que teríamos que fazer aquilo. Uma das primeiras coisas, é uma coisa que vou contar, é inédita, penso que nunca contei a ninguém fora do meu círculo de amigos, mas fica também para estas memórias. Recebi um telefonema dele, talvez no dia 27. Acho que foi dia 27. Logo no dia seguinte, portanto, a termos o conhecimento da mensagem. Diz: "Major Afonso, vem cá abaixo, tenho aqui uma coisa que precisas de ver." Eu meti-me no jipe, fui lá ao quartelamento, era 1 km de distância do aeródromo, fui ter ao sítio onde ele estava e ele disse-me assim: "Eu passei hoje de manhã, quando ia dar um passeio, passei pela vivenda da PIDE e deparei que estava a porta aberta, tudo escancarado." Eu disse: "Vamos lá ver." Entrámos numa vivenda muito gira, que havia em Moeda, onde trabalhava o senhor, já me lembro o nome dele. E fomos dar com aquilo tudo aberto, escancarado. Entrámos na sala de um escritório do senhor, começámos a puxar os armários e começámos a ver os dossiês. Ele estava a ver, eu estava a ver, olhámo-nos um pro outro e disse assim: "Isto não pode ficar aqui, a gente tem que destruir isto." Porque eram os recibos mensais que ele pagava aos informadores nas várias aldeias à volta de Moeda, dos nativos. Esses não foram parar ao KGB, porque fez um buraquinho onde estava um bidon. Mexemos aquilo com aquela papelada toda e deitámos fogos. Tivemos que esperar até ficar sem cinzas.
O agente da PIDE tinha saído?
Já me lembro do nome dele. Era um homem simpático, porque em termos de informações militares, ele era importante para nós. Muito importante. Era o senhor Monteiro, agente da PIDE. Muito simpático, ia lá tomar café conosco ao bar e ajudava as operações, sobretudo as operações do exército, que depois éramos nós também que participávamos nelas quando havia informações credíveis. Mas ele tinha saído entretanto. Isso foi talvez um bocadinho mais tarde, porque entretanto saiu um decreto em Moçambique para eles serem presos. E ele recebeu a informação na noite anterior e foi-se embora, desapareceu. Mas deixou tudo aberto.
Para onde é que foi?
Deixou tudo aberto. Nunca mais ouvi falar dele.
E portanto aí tiveram de tomar a decisão de destruir aquilo.
Tomar, de imediato, no momento. Estávamos a ver aquilo.
Para proteger aquelas pessoas.
Na aldeia tal, fulano tal, 200 escudos.
Quantos papéis queimaram?
Eram muitos. E outros que a gente nem sabia se era aquilo, se eram informações ou outras coisas.
Mas e conservaram alguns documentos?
Nada.
Tudo? Relatórios?
Olhámo-nos um pro outro, no fim, disse assim: "A gente sabe que estamos a destruir a história, mas se calhar isso é por um bom motivo." E eu continuo a pensar que foi por um bom motivo.
Para impedir que-- E a nível do comando, enquanto delegados do MFA, eram chamados a participar?
Esta foi o meu primeiro trabalho como representante do MFA em Moeda. Muitos dos meus camaradas de outros sítios se calhar não concordam muito com o que eu fiz, mas assumo essa responsabilidade, porque fui eu que assumi a responsabilidade. E depois houve mais dois casos interessantes. Um deles também foi poucos dias depois. O sistema de bombagem de águas que fornecia o aeródromo e os quartéis avariou. Avariaram as bombas. Vinham de um ponto mais baixo. Para terem uma ideia, o planalto dos Macondes era um planalto enorme, que tinha em relação ao outro planalto que estava abaixo, 300 metros, a bruto. O aeródromo estava aqui neste sítio e aqui havia 300 metros a bruto. Por aí a gente nunca esperava que houvesse algum ataque, porque era extremamente difícil. E então avariou, não havia água. Felizmente, a nossa engenharia, a engenharia da Força Aérea, tinha pensado nisso A pedido, provavelmente, do anterior comandante. Nessa altura já tínhamos um furo de 300 metros com água bacteriologicamente pura. Não era ódomo, só dava para a aldeia, onde estava muita gente. Civis, portanto naturais de Moçambique, a maioria da etnia Makonde, tiveram três ou quatro dias sem água. Num desses dias, talvez no terceiro dia, telefonam-me. O capitão Tarraquênta: "Ó vozo, vem cá baixo, temos aqui um problema. Estão-me a dizer que somos nós que temos que..." "Nós? Então o que é?" Lá fui. Levou-me. Foi a minha primeira experiência desse género. Fui assistir a uma assembleia, mas eles têm um nome próprio que não me lembro agora. Uma assembleia onde estava o homem notável da terra, de Moeda, uma dignidade enorme, makonde puro, ainda com algumas tatuagens. E lá fomos. Estávamos então numa assembleia e pediram a presença de alguém militar para lhes dizer quando é que haveria água. E fomos os dois. O senhor lá estava. Ele falava um português um bocado mau, mas percebia-se o que ele dizia. E o tenente-coronel capitão Tarraquênta já sabia o que era e tinha perguntado à engenharia do exército: "Quando é que vocês resolvem isto?" "São umas bombas que tiveram que ser pedidas. Agora só vêm de avião, talvez daqui a dois ou três dias." Já levávamos esta notícia. Dei a notícia lá na assembleia dos notáveis. E o senhor, naquele seu português meio makonde, meio português, disse: "Muito obrigado, sim, porque água é coisa grande." Ficou-me na cabeça, "água é coisa grande". E era, porque no planalto os makondes eram as mulheres que tinham essa tarefa de recolher a água. Como era tudo plano, só nas ribeiras é que havia água. E eles, às vezes, nalguns sítios, tinham que andar 20 quilómetros com coisa de água na cabeça para ir buscar água.
Mas junto dos comandantes, por exemplo, os comandantes consultavam-nos sobre decisões?
Não, a preocupação era a parte operacional e não precisavam de uma interferência. A única interferência que eu tive foi já muito mais tarde, foi a minha última incumbência como representante do MFA, porque depois fui rendido pelo major Nazário em 31 de julho. Talvez 15 dias, não estou bem recordado, antes houve um problemão enorme. À medida que as notícias chegavam da metrópole, nos aerogramas que estavam lá dois dias depois, mais agitação havia. E depois havia outro problema que era: as companhias que estavam lá, muitas delas, tinham-lhes prometido que só iam para Moeda e para os outros quartelamentos durante 12 meses. E o pessoal que estava em Moeda já estava lá há 24 meses. Isto tinha um efeito enorme, porque o facto de eu saber que vou para um sítio e sou rendido ao fim de 12 meses, é completamente diferente depois de passar mais quase 12 meses sem ser rendido. Havia já essa agitação, mas as notícias que chegavam da metrópole produziram o seu efeito. E houve uma coisa qualquer, que eu já não me lembro agora o que é, que veio da metrópole, que provocou aquilo que eu vou contar, que é: recebi o telefonema do meu compincha do exército a dizer: "Ó vozo, vem cá baixo, temos aqui um problema grave." Lá vou eu, representante do MFA. Com o que nos deparamos? Uma cena gravíssima, uma manifestação de militares com cartazes e tudo. "Não vamos mais para as operações, nem vamos fazer sentinelas, nem nada." E eu a pensar assim: "Mas eu sou major, está aqui um brigadeiro e um coronel ou dois coronéis, o que é que eu faço nisto?" Mas lá fomos os dois, plantámo-nos à frente deles no meio da rua. "Quem é o chefe disto? Vamos para ali atrás, trago meia dúzia de vocês e vamos ali conversar para o refeitório." E depois perguntei: "O que vocês querem fazer?" "Deitam as armas para o chão e vão para onde, a pé? Vão daqui até Nampula ou até Nacala a pé para depois irem para a metrópole? Entretanto, são agarrados pela FRELIMO. Eu compreendo que vocês, nesta altura de grande agitação, não queiram fazer operações ofensivas."
Quantos eram eles?
Aquilo era um batalhão, havia muita gente. Mas esta manifestação não eram todos. Eu vi que eram jovens. Havia um ou dois oficiais milicianos, alferes, poucos sargentes, muito poucos, e a maioria eram soldados. "Vocês têm, pelo menos, que fazer operações defensivas, senão vocês são agarrados à mão. Têm que ir para os postos de sentinelas, têm que se revezar e fazer até operações na periferia, porque a defesa da unidade não é só estar cá dentro do arame farpado." Lá conseguimos, não sei se convencê-los, mas pelo menos capturá-los com alguns argumentos e eles acabaram com a manifestação, mas a agitação continuou. A agitação continuou e não havia hipótese de haver operações ofensivas nessas condições. A minha leitura, depois de ver aquele tempo do 25 de abril até ao final da minha estadia em Moeda, que foi em 31 de julho, a sensação que eu tive, ainda hoje tenho, é que em termos militares, isto não tem solução, a não ser a retração do dispositivo todo. Já sei o que é que foi. Isto foi em junho. Começaram a haver os primeiros contactos em Dar es Salaam, os primeiros ainda um pouco secretos entre o MFA e a FRELIMO. E aquilo soube-se que havia essas conversas para a paz, o que tornou ainda o momento mais difícil. A minha sensação é que quando eu saí de Moeda, eu disse assim: "Tem que haver aqui uma solução de Cessar-fogo, pelo menos, não haver operações até os políticos resolverem o problema da transferência de poderes. Não havia solução militar.
Mas é interessante, essa manifestação, o comandante, o brigadeiro e os coronéis.
Eu não vi lá nenhum.
Não apareceram.
Eu não vi lá nenhum.
Chamaram os-
Pois, chamaram-me a mim
Chamaram os delegados do MFA
Se calhar não era nada comigo, mas era do MFA, porque eu tinha sido nomeado.
Pois.
Não sei se era ou não era, não me inscrevi em nenhum sítio, mas o que é facto é que fui nomeado.
Reparou se isso estava a acontecer em mais unidades? De repente, os delegados do MFA a assumirem cada vez mais responsabilidades.
Não havia esse tipo de comunicação para se poder saber. É provável que tenha havido. Eu imagino como estariam as guarnições daqueles quartéis mais expostos. Qual seria o estado da sua moral. Imagino. Mas eu ia muitas vezes a esses aquartelamentos, porque quem fazia depois o abastecimento logístico era a Força Aérea. E eram muitos. No planalto de Maconde havia 10 ou 15 ou mais aquartelamentos espalhados por todo o planalto.
Isso era por helicóptero?
Helicóptero e DO-27. E depois, no final, como havia um grande peso, às vezes pesos que o helicóptero e o DO-27 não podiam levar, que era volta de 500 kg, não podia levar mais 500, pedimos um reforço com um Puma que tinha chegado então a Moçambique, a Tete, e deram-nos um Puma para estar lá. De 15 em 15 dias ia mudar. Ajudou-nos muito nessa logística.
O que levavam nessa logística era o correio também?
Correio, era abastecimentos. A única coisa que não levávamos era água. E também acho que as únicas operações que eles fariam em alguns sítios era apenas ir à água. Mesmo assim, já levavam qualquer coisa na cabeça. Deixe-me dizer uma coisa, porque depois posso não ter oportunidade. Quando veio do Estado-Maior para o comando BAV, que se chama o comando B avançado, o que não era avançado, o avançado estava em Moeda e dominava todo o Bernal. Depois havia o comando do setor norte de todo o Cabo Delgado, que estava em Porto Amélia, que era também um brigadeiro ou um general a comandar.
Pemba, não é?
E o Estado-Maior era em Nampula. O comando BAV, que era o meu contraparte em Moeda, recebeu ordens para planear a retração do dispositivo. E como é normal, chamou o seu contraparte da Força Aérea, que era eu. Eu assisti à primeira reunião deles em que informaram que tinham recebido instruções do Estado-Maior de Nampula.
Isso quando? Em julho ainda?
Não foi, antes. Ora estamos em maio. Começou talvez em maio. A primeira reunião que eu assisti, e não assisti a mais nenhuma. Portanto, foi só essa. E depois deve ter havido conversações entre eles. A minha colaboração nesse sentido foi confirmar que não havia hipótese, nós não tínhamos meios em Moeda, nem a Força Aérea tinha meios em Moçambique para ir a Omar, que tinha uma pista de 200 metros, onde só ia o DO, para trazer 140 homens. Não era possível. E com os helicópteros também não era possível, porque a gente só lá ia, a primeira vaga de cinco ou seis helicópteros trazia 30 homens, ainda podia passar sem ser importunado, mas a segunda vez, aquilo era uma zona letal. Não havia hipótese de ir lá fazer 10 vagas de cinco helicópteros para trazer 140 homens. Nem sei agora as contas a fazer. Portanto, eu disse: "Não pensem nisso. A minha sugestão, como representante da Força Aérea aqui é: os 140 homens destroem tudo que vocês acham que convém destruir e saem de lá com armamento ligeiro, pelos caminhos do mato e vão até o aeródromo mais próximo, que era Nangade, que ficava a 12, 15 km, talvez. Onde havia uma pista, onde a gente podia ir com avião de transporte e trazê-los para Nampula." Esta foi a minha sugestão. E até disse: "Se vocês querem agora fazer uma operação logística terrestre, tem que ir de Omar para Mucimba do Ruvuma", ficava talvez outros 15 ou 20 km, e depois de Mucimba do Ruvuma pra Moeda. Como já não fazem colunas logísticas nestas picadas há oito ou nove meses, não sei se estão comigo, mas eu prevejo que vocês vão ter aí pelo menos 50 mortos. Porque o grande problema deles foi a ordem que receberam de Nampula: as companhias têm que se apresentar em Nampula com a carga da companhia. E aquilo em termos de exército tem uma solenidade enorme, que eu compreendo. Para mim não tinha. Eu era major da Força Aérea, tive um acidente com helicóptero ali próximo, um acidente onde o piloto teve um problema no meio do mato, estava ali a 5 km de Moeda, mandei uma equipa para segurança da Polícia Aérea, mais um homem mecânico, mais outro de rádio, mais um de armamento. Vocês tiram todos os equipamentos que não ficaram destruídos, o resto metem trotil por cima e rebentam aquilo tudo. E dei esse exemplo ao nosso brigadeiro. Eu disse: "Eu sou só major." E eu não tive mais explicações a dar, a não ser comunicar por rádio ao meu comando, meu Estado-Maior: o helicóptero teve este acidente, foi avaliado como havia hipótese de recuperar, fiz isto e acabou, o helicóptero foi abatido. Depois é já complicado em termos de Exército, que eu não quero aqui estar a desfazer o Exército, mas realmente havia uma coisa infiltrada naquela mente que mesmo em situações de combate, eles tinham que apresentar a carga da companhia completa nos sítios onde estavam os seus batalhões. E eu já tinha tido, antes dessa reunião, uma experiência interessante com essas missões, porque havia ali um aquartelamento muito próximo, que era Nangololo, que ficava 25 km, talvez, em linha reta, em voo. Também já não faziam colunas para aí há seis, sete meses. Muito próximo, mas já não faziam. E um dia recebemos um pedido que tinha que ser feito com o Puma, porque a carga era mais do que os 500 kg ou 600 kg. O único helicóptero Puma que a gente tinha ali, tivemos que empenhar, foi o pedido. Nós não sabíamos qual era a carga. Em princípio, quando o exército pedia, a gente fazia. Desde que tivesse os requisitos técnicos do avião e da missão, neste caso, do helicóptero. O helicóptero saiu e passada meia hora ou isso, recebi um telefonema da torre de controle, eu estava nas operações: "Major, venha cá que o helicóptero foi atingido". Eu fui pra torre e depois falei com o piloto pela rádio: "Não há ninguém ferido, mas realmente temos aqui três ou quatro buracos". Eu: "Muito bem." Depois fui pra placa à espera deles. Quando cheguei lá, vi que realmente tinha havido uns buraquinhos, aquilo não era nada. Não foi ninguém ferido, por acaso, podia ter sido. E quando vi os rapazes do exército a tirar a carga, fiquei completamente furioso, porque a carga eram mesas e cadeiras de madeira, velhas, que tinham que ser entregues na carga da companhia. E arriscámos uma máquina preciosíssima naquele local, porque era o único que podia levar 1500 kg às guarnições do outro lado, sujeitámo-nos a perdê-lo, pela carga da companhia, que é uma estupidez. Eu não estou a culpar a malta, é a mentalidade. Eles, por exemplo, tinham em Omar um canhão, um canhão que devia ser da última guerra mundial ou próximo disso. "Então e como é que vem o canhão?" O canhão de avião é que nunca poderia ir. Vocês metem uma granada lá dentro, estouram com aquilo e pronto. Como não tinha colateral, até disse isso, na minha ignorância, metem ao rovô, mas já ninguém pode utilizar aquilo. E vêm a pé, e depois nós vamos buscá-los a Nangade. O curioso disto é que depois, já sabem a situação, foram demorando a ordem de retirada, três, quatro meses, e em um de agosto foram apanhados à mão. Aquele estendal todo da FRELIMO, vocês conhecem isso melhor que eu. Portanto, a responsabilidade e o trunfo que deram à FRELIMO para as negociações, é responsabilidade do comando de Maputa, não é daqueles desgraçados que lá estavam. A gente pode dizer: "O homem, se calhar..." Pois, mas havia aquele ambiente já. FRELIMO chega lá: "Moçambiques, agora já não há guerra entre nós, venham cá que a gente vai festejar." Começaram a sair e depois os outros entraram por trás e tomaram conta deles.
E esse adiamento da retração deve-se a quê?
À carga da companhia.
Às cargas da companhia.
Pois, porque, como eu lhe disse, na primeira reunião, dois ou três meses antes, podiam ter feito aquilo que depois a FRELIMO acabou de fazer com eles. E mais interessante, e volto para esta história, que é uma história memorável. Naquela trajetória, a FRELIMO depois agarrou neles, eles eram mais do que os da FRELIMO. Iam 10 portugueses, um FRELIMO à frente, 10 portugueses e um FRELIMO atrás. E os caminhos do mato, as picadas são assim. E há seis soldados portugueses, três nativos de Moçambique e três da metrópole, sem falarem uns com os outros. Durante a noite, enquanto a FRELIMO estava a levá-los para a Tanzânia, eles sabiam que estavam a passar nas proximidades de Nangade, a base onde eu disse que tínhamos o aeródromo, e sem falarem uns com os outros, quando viram que o FRELIMO da frente não os via, e o FRELIMO de trás também não os via, saltaram e agacharam-se no mato. Três foram ter a Nangade no dia seguinte, apresentaram-se a Nangade no dia seguinte. Três ou quatro. Outro apresentou-se no dia seguinte e dois foram ter ao outro quartel abaixo, que era em cima do Rovuma. Vejam bem, era exatamente isto que eu tinha dito para eles fazerem.
E não se fez.
Não se fez, ficou-se à espera de uma solução. À espera, à espera, até que a FRELIMO aproveitou a oportunidade.
E simplesmente por inércia, por incapacidade de toma de decisões.
Na minha opinião, sim.
E não por qualquer intenção ou qualquer plano, não havia nada.
Não, foi por inércia. Aquilo foi-se atrasando, não sei por quê, não estou no segredo das operações. Mas há, depois, reportes em que quando aquilo aconteceu, depois: "Nós estávamos, daqui a oito dias íamos lá buscá-los."
Estava na metrópole quando soube dessa travessura.
Estava a caminho da metrópole, vindo de Boeing no dia 1 de agosto.
Mas quando soube da notícia.
Quando cheguei, já estavam aqui as notícias.
Então testemunhou pela primeira vez o país depois da revolução, em agosto de 84, quando veio de férias a Portugal. Que diferenças é que encontrou?
Em agosto de 74, muitas diferenças.
O que é que o surpreendeu mais?
Já vivia isso com as notícias que a minha mulher ia mandando. E claro que estávamos preocupados. Mas como estávamos muito ocupados com as coisas que tínhamos que fazer, não sentíamos uma grande preocupação. Quer dizer, havia preocupação, íamos lendo as notícias, mas também não havia muito que pudéssemos fazer. Agora, em relação ao 11 de março, depois mais pra frente.
Mas antes disso, aterrou em Lisboa?
Sim, aterrei em Lisboa.
E não se surpreendeu com nada?
Aí não tenho grandes memórias, porque a minha primeira preocupação foi ver a minha família, com a minha mulher e meu filho, ver a minha família em Bragança, e não senti grandes movimentos ou grandes preocupações. Estou a falar da minha zona de Bragança. E portanto, dessas férias eu não tenho grandes memórias.
Nem diferenças nas ruas, nos costumes, enfim.
Sim.
A presença dos partidos, a luta partidária.
Sim, nessa altura ainda havia uma sensação de grande liberdade. Completamente diferente da última vez que eu tinha cá vindo.
Depois teve esse mês aqui na metrópole, de férias, e voltou para Moçambique. Custou-lhe voltar, deixando tudo a acontecer no país?
Nada. Ia pôr junto dos meus homens Algo preocupado com a situação, mas nessa altura ainda não havia a preocupação que houve depois, a seguir, ao 11 de março e às eleições. Depois das férias, que terminaram a 20 e qualquer coisa de setembro, fui me apresentar a Nampula, porque era o comando da Força Aérea. Eu apresentei-me a Nampula para ir para Nacala, e quando cheguei a Nampula, o chefe do Estado-Maior do Comando Aéreo de Nampula disse-me: "Já não vais para Nacala, vais para Lourenço Marques, vais para o segundo comandante Lourenço Marques". Tinha acontecido, entretanto, o 7 de setembro.
Exato. Como é que encontrou o ambiente? O ambiente em Lourenço Marques também ainda é um encontro agitado?
É ainda agitado e vivi um momento difícil no dia 21 de outubro. Também é pouco conhecido. Muito difícil. Desde o 7 de setembro, da assinatura dos Acordos de Lusaka, houve uma grande revolta da parte do movimento independentista branco do sul de Moçambique, em Lourenço Marques. Tomaram conta do Rádio Clube Moçambique, matar muita gente, morreram 300 pessoas, a maioria nativos, em duas ou três noites de uma grande desordem. Que eu não assisti, eu soube depois quando cheguei em 27 de setembro. Estava lá o meu comandante, esse é que assistiu. A propósito, esse meu comandante do AV-1 também foi o meu segundo comandante na Base Aérea 6 na altura do 25 de novembro.
Exato.
Ele teve uma ação preponderante nessa fase, porque essa gente do movimento independentista branco quis tomar o aeroporto. Coisa que ele não podia consentir, porque ele era o responsável pela movimentação das operações, não da parte civil, mas como as infraestruturas eram as mesmas, a pista era a mesma, ele não podia consentir que o aeroporto fosse tomado e fossem impedidas as operações da Força Aérea. A torre de controle e o edifício administrativo tinha controle civil, portanto eram controladores civis e o pessoal era todo civil. Força Aérea tinha o seu aeródromo ao lado, a 500 metros. Teve que ir com um grupo da Polícia Aérea. Chegou lá, depois até aconteceu uma coisa que ele ainda hoje considera infeliz, porque ele teve que puxar da sua pistola, porque eles não queriam sair, ocuparam a torre de controle, não queriam sair dali e iam pôr viaturas no aeródromo. Ele: "Bom, se vocês não vão, eu tenho que usar da força". Eles também estavam armados. Tinham caçadeiras e alguns até tinham metralhadora. E vi ele dirigir só aquilo que ele achou, mas isto eu posso contar melhor que eu, porque foi ele que o viveu, mas eu sei que foi assim. Foi de encontro ao homem: "O senhor é quem manda nisto, faz favor de mandar a sua gente embora daqui." E o homem resistiu e, às tantas, jogou a mão à pistola do Coronel Cardoso. E ele diz que, inadvertidamente ou com o puxão dele, disparou e deu um tiro na barriga. Aquilo acabou imediatamente. Mandaram todos e ficamos com o controle sobre o aeródromo. E depois, vejam bem, a mistura da ilegalidade e da legalidade, porque não há dúvida nenhuma que aquilo era uma operação ilegal. Eles também estavam numa revolução, na revolução deles. Mas o meu comandante tinha que fazer valer a ordem da ordem que estava estabelecida. Mas depois foi vítima de um processo em tribunal. É verdade, engraçado.
O tiro disparado.
O tiro disparado pela parabélum dele. Que atingiu o homem, o homem depois foi para o hospital, não houve problemas. Era um médico.
Era um médico.
Médico de Lourenço Marques.
E quando chega no fim de setembro, ainda há esse ambiente?
Exatamente, ainda há essa coisa, mas estava mais ou menos estabilizado. A gente estava aqui até à meia-noite. Há uma coisa gira que eu depois vivi, que é interessante contar. Eu cheguei lá em 27 de setembro e passados talvez uns oito dias, já estava em funções, já estava a trabalhar lá, e veio uma ordem do comando do Lourenço Marques para recebermos lá no aeródromo uma companhia da FRELIMO. Por quê? As autoridades, nessa altura o alto comissário era o almirante-
Vítor Crespo.
Vítor Crespo, e o Estado-Maior estavam preocupados pelo fato daquelas mortes que houve no dia 27 de setembro, era porque ainda não havia presença da FRELIMO. A FRELIMO tinha muito pouca presença a sul da Beira. E portanto, o governo de transição já estava em funções, porque foi logo a seguir. Isto foi talvez na primeira semana de outubro, não tenho certeza. E recebemos instruções para receber uma companhia da FRELIMO com cerca de 100 homens, uma coisa assim, que vinha do norte de Moçambique num avião da Força Aérea para se instalar ali. O meu comandante pôs as mãos na cabeça, porque aquilo era um aeródromo muito pequeno, as instalações estavam todas tomadas, porque tínhamos duas companhias de paraquedistas, porque tinha havido um reforço quando houve a ocupação do Rádio Clube Moçambique, que foi libertado por um jovem tenente de paraquedistas, chegou lá, deu dois tabefes nas outras pessoas e demandaram todos pro lado. Foi o mesmo homem que depois cumpriu as ordens para arrebentar com a Rádio Renascença. O mesmo homem. Interessante. Na altura, tenente Barroca Monteiro. O meu comandante ligou imediatamente para o comando e disse: "Não pode ser, eu não tenho aqui. Não há hipótese, não tenho sítio onde eles durmam, não tenho sítio onde eles comam, a messe está cheia, tem que fazer turnos, demoram duas horas a despachar-se, isto não pode ser." "Mas olhe, o resto das unidades do exército já estão lotadas também com malta da FRELIMO e, portanto, vocês têm que receber uma companhia da FRELIMO." O meu comandante reuniu-se comigo e disse: "Como é que nós vamos resolver isto? Eles vêm do mato, vêm com doenças." Mas tinha que se cumprir.
Como é que resolveram?
Como é que resolvemos? Fomos ao armazém. Havia um armazém de abastecimento da logística da Força Aérea, que tinha as peças e tudo. Esvaziamos aquilo tudo. Metemos duplas camas daquelas para a tropa. O problema é que só havia uma casa de banho. Como é que havia de ser para eles tomarem banho? Pusemos rapidamente 10 ou 15 torneiras cá fora na parede dos dois lados, com água que podia ser utilizada. E instalámos lá. O meu comandante só pôs uma condição: "Eu só dou de comer a eles aqui", porque o exército depois é que ficava responsável pela logística deles. Aquilo não era a Força Aérea. Eles comerem ali ao lado dos meus paraquedistas, porque naquela altura toda a gente andava armada, estava todo o dia de treinos, mesmo ao ir ao almoço. E eles vinham com a Kalash. "Como é que a gente resolve este problema?" Disseram: "Têm que comer, mas vocês deem rações de combate." Olhámo-nos e pensámos: "Está se mesmo a ver." Eles viam os nossos a comer banhozinho ali e davam-lhes rações de combate. Lá resolvemos. Há mais aqui uns turnos e tal, e eles foram comer conosco. Aquilo correu relativamente bem. Houve só uma altura em que o meu comandante teve um problema. Depois passou a haver sentinelas mistas, o que foi uma boa solução. À porta de armas, a certa altura, vem uma viatura do exército com um condutor negro e o homem da FRELIMO não o quis deixar entrar. O meu comandante telefonou para o Joaquim Mabote, que era o comandante operacional deles. A gente tinha andado atrás dele em Cabo Delgado. O célebre Joaquim Mabote da FRELIMO, que era o homem das operações da FRELIMO e que era agora o comandante operacional deles em Lourenço Marques. Telefonou e disse assim: "Se isto voltar a acontecer, se o seu homem se sobrepõe à nossa autoridade, vocês passam a comer rações de combate, eles passam a comer rações de combate." E naquela altura já estavam deliciados com a comida, já tinham andado oito dias a comer lá junto dos paraquedistas. Acabou aquilo em bem. E aqui há um pormenor engraçado.
O poder da comida, não é?
A comida foi os gajos. E atenção, nós depois tivemos que fazer um briefing aos comandantes das companhias de paraquedistas e todo o nosso pessoal, aos oficiais de justiça. "Cuidado, temos que andar discretamente a ver como é que eles se comportam, mas o vosso pessoal também tem que ter muita disciplina, não vamos andar a patadar uns com os outros aqui dentro do aeródromo".
As pressões, etc.
Exatamente. Todos na bicha, cada um a seu lugar, não há mudança de coisa. E a malta compreendeu, eles lá transmitiram as instruções e correu tudo muito bem. Um dia, o meu comandante foi passar uns dias de férias, não sei se foi mesmo cá ou se foi para um sítio qualquer, uma praia qualquer, e eu fiquei a comandar o aeródromo. Eu estava preocupado com aquela situação, mas estava na messe, a nossa messe da Força Aérea era no Hotel Mundial, suponho que era o nome dele, mesmo no centro de Lourenço Marques. Era ali que a gente dormia e comia. A messe de oficiais. Depois havia também uma messe de sargentos. Eu jantei nesse dia. Depois de jantar, tomei o café e depois disse assim: "Eu vou lá acima ao aeródromo ver como é que aquilo está." Uns dias depois, talvez na primeira semana em que lá estava. Tirei-me no velho carrocha AM da Força Aérea e fui ao aeródromo. Entrei e fui até ao bar. O bar era engraçado, naquela altura já era um Noratlas que tinha tido um acidente numa praia lá e que se recuperou para fazer o bar de oficiais do AB8. Estava giro aquilo. E só estava lá comigo, estavam os sentinelas e estava o barista, que aquilo era até às 21h ou isso, estava lá porque sempre havia os oficiais de serviços. De repente, estava a tomar um café, 21h30 talvez da noite, e recebemos um telefonema da porta de armas a dizer: "Está aqui um senhor da FRELIMO que quer entrar." E eu disse ao barista: "Pergunta lá quem é o senhor." "Ele diz que é o Joaquim Mabote." Eu fiquei assim: "Manda entrar, o senhor é o comandante da FRELIMO." E entrou o senhor, que eu nunca tinha visto. Tinha andado atrás dele, mas nunca tinha visto. Ofereci-lhe um café, uma bebida, e ele disse: "Não, eu não bebo, sou muçulmano, não bebo álcool." E depois: "Major, desculpe eu vir aqui, mas olhe, eu estava lá, acabei de jantar." Vejam bem a semelhança. Dois militares a conversar, de lados diferentes, mas já havia uma solução política. E diz-me ele assim: "Acabei de jantar, estava a tomar um café e depois lembrei-me que tinha aqui uma companhia minha. Desculpem, mas eu gostava de ir ver onde eles estão e se está tudo bem." Fiquei assim. Lá vamos os dois, demos a volta, ele foi ver, estavam já alguns a dormir, estava tudo muito sossegadinho. "Muito bem, então vamos lá, vamos continuar a nossa conversa" Tivemos uma hora a conversa em que o resumo era: "Está a ver, ainda há uns dias andávamos aos tiros uns aos outros. Agora os nossos patrões políticos decidiram outra coisa e estamos aqui a conversar um com o outro." É assim mesmo. Ser militar é assim. No fim, quando ele se foi embora, isto comoveu-me até às lágrimas. Ainda hoje, quando me lembro disso, fico de tremeliques. "Sr. Major, muito obrigado pela sua simpatia. A gente não pode deixar que os nossos políticos deem cabo dos laços que existem entre os nossos dois povos, velhos de 500 anos, com coisas boas e coisas más, mas que é importante preservar." Impressionante.
Foi isso que ele lhe disse?
Foi isso que ele me disse.
Muito bem.
Eu escrevi, está no arquivo histórico da Força Aérea.
Vamos agora fazer uma pausa. Voltamos depois do intervalo. Voltamos para a segunda parte da conversa com o General Vaz Afonso. E em relação ao 21 de outubro?
Esse foi um momento difícil.
E então, o que aconteceu?
O 21 de outubro deu-se, mais uma vez, por uma péssima decisão do Estado-Maior do Exército. Logo a seguir ao 7 de setembro, a Força Aérea reforçou com uma companhia de Páraccios, e o Exército também reforçou com algumas companhias a zona de Lourenço Marques. E tomaram a decisão de mandar uma companhia de Comandos. Estes tinham dado no mato, são aguerridos. Há gente maravilhosa, os Comandos fizeram coisas magníficas em termos de operações militares. Agora, aquela situação não era um caso para ter Comandos em Lourenço Marques, uma cidade moderna, onde andavam milhares, milhões de civis. E num ambiente daqueles. Nesse 21 de outubro, o meu comandante também não estava lá, estava eu. E houve uma altercação, mesmo na baixa de Lourenço Marques, naquelas ruas mais modernas e movimentadas, entre uma patrulha da FRELIMO e os Comandos que não tinham nenhuma missão. Estavam lá, andavam a beber as suas cervejas ou qualquer coisa. Aquilo é normal, eles tinham andado à pancada, ferveram-lhes qualquer coisa, acharam que estava ali um FRELIMO armado com G3 e andaram à pancada. Andaram à pancada uns aos outros. Aquilo não lhes correu bem, então eles foram ao quartel e tiveram todos. Vieram uma data deles, não sei quantos. Continuaram à pancada. Houve tiros. Aliás, há um aspeto engraçado, porque a mulher de um major da Força Aérea, que era de intendência e contabilidade, estava num café ali perto e ela viu uma bala passar. Aquilo foi grave e foi resolvido por um bravo capitão de Cavalaria, que pôs o blindado em frente do grupo de Comandos e foi ter com eles e disse: "Meus amigos, vocês têm duas hipóteses sair daqui: ou saem ordenadamente e vão ter à vossa unidade, ou tenho que os correr. Está a ver aquele homem que está ali com a metralhadora na mão? Eu dou uma ordem e vocês são varridos aqui da rua." Eles lá se renderam e foram levados para a sua unidade. Desarmaram-nos, porque nessa altura já levávamos armas.
Um capitão de Cavalaria do Exército Português.
Foi um capitão de Cavalaria. Não me lembro o nome dele, eu soube o nome dele. Levaram-nos e retiraram-lhes as armas.
Arriscou-se também.
Arriscou-se. E entregaram as armas na unidade. Erro diabólico. O comandante da companhia ou alguém deu ordens para distribuírem as armas. Um comando não pode ficar sem a G3. Entregou-lhes as armas. E ao mesmo tempo, veio ordem para eles saírem, não podiam estar ali e ir embora. O que é que aconteceu no dia em que eles receberam essa ordem? Meteram-nos nos camiões, armados, e foram pro aeroporto. E aí é que tenho esta experiência. Eu vim, eram perto das 19h, um bocadinho tarde, do aeródromo, que tinha uma avenida enorme desde a parte civil do aeródromo, comprida, e depois tinha uma bifurcação ali, tinha outra avenida, já dentro da cidade, mas na periferia da cidade. E eu comecei a me aproximar desse cruzamento e vi que estava tudo parado, uma grande bicha, e havia uns camiões do exército com malta armada. Fui andando, consegui chegar à esquina dessa ronda, havia uma esquadra da polícia portuguesa. Parei o carro, já não podia avançar pro outro lado. Fui ter com o comandante. Não sei qual era o posto dele, se era algum oficial ou se era um sargento. Eu disse: "Olhe, eu queria regressar ao aeródromo", porque vi aquela coisa toda. "Eu tenho que regressar ao aeródromo e já vejo que isto está tudo um caos." O senhor major: "Nem pense. O senhor nem pode ir pra frente, nem pode ir pra trás." E entretanto passavam as G3 com os Comandos aos tiros. Eu ouvi tiros deles. Maneira que fiquei ali, telefonei de lá pro comando do exército a pedir uma viatura pra sair dali e ir pro aeródromo. "Sr. Major, está tudo ocupado, anda tudo em patrulhas mistas, está numa grande efervescência. Eu vou dizer pela rádio ao que estiver mais próximo aí dessa esquadra da polícia pra passar por aí e recolhê-lo, mas olhe que eu não lhe posso garantir quanto tempo é que terá que esperar." E esperei, uma hora. Entretanto, continuavam a se ouvir tiros na caminho lá. Chegou a viatura, uma viatura blindada também, e reparei que era uma patrulha mista da FRELIMO e nossa. E o homem já não me podia levar pro aeródromo e disse: "Olha, eu antes de levar pro aeródromo, tenho que ir ali porque está uma família desesperada numa garagem à espera de ser acolhida porque estão a ser sitiados." Porque entretanto aquele tiroteio deles desencadeou, da parte da população negra, uma desordem.
Eles davam os tiros civis na rua?
Na rua, tudo que viam, acho eu. Também não tive muito tempo pra ver isso, porque eles foram passando.
Mas mataram muitas pessoas?
Mataram muitas pessoas. Neste caso, foram mais brancos até do que pretos. Foi morta muita gente, mas não muitos. Talvez 30 ou 50, mas não sei, já não me lembro bem. Eu tenho isso escrito, mas já não olhei pra baixo. Isso foi 20 de outubro. Um erro tremendo ter mandado aquela malta pro meio de uma cidade.
Isso explica-se como o quê? Imprevidência?
Eu não sei. Eu acho que a ação que o meu comandante teve de falar com o comando e dizer: "Não manda essa gente pra aqui", tinha sido uma boa ideia.
Por ter um tipo de tropa que não se adequava a uma zona urbana.
Exatamente. E realmente foi da tropa mais aguerrida em termos de combate. Eles estiveram muitas vezes sujeitos, no mato, a ser mortos e a matar a malta da FRELIMO. Portanto, é melhor que não tivessem o mesmo fair play que eventualmente outro tipo de tropa menos eficiente.
Menos envolvida.
Menos envolvida, exatamente. No caso dos nossos paraquedistas, tiveram a mesma coisa, mas eu não quero comparar, por razões óbvias. Não quero estar a comparar se são melhores os comandos ou os paraquedistas. Só sei que os nossos paraquedistas, que naquela altura ainda eram da Força Aérea, eu acho que era uma tropa mais bem enquadrada, provavelmente. Mas não estou a denegrir os outros. Isto aconteceu pela via normal, pelos resultados normais do que se tinha passado, e acho que a atitude do meu comandante teria sido importante se tivesse sido de seguida. Teria evitado o 20 de outubro.
A data marcante a seguir é o 11 de março?
11 de março. Estávamos com os paraquedistas e normalmente eu, o meu comandante, mais os comandantes da companhia, íamos almoçar mais ou menos por essa hora, 11h30 ou 12h. Eu acho que foi por essa hora que foi o ataque ao Rálido. Quando ouvimos a notícia, olhamos uns para os outros. Os paraquedistas estavam ali, ficamos completamente: "O que se passa? Esta gente é doida." É claro que eu depois fiquei ainda mais furioso, porque a minha casa é na Portela, numa daquelas primeiras torres, e a minha casa é o 9º D, que tem toda a faixa virada pro Rálido. De maneira que a minha mulher e o meu miúdo de cinco anos assistiram do camarote ao ataque ao Rálido. E depois descreveram-me.
E estava obviamente preocupado com eles também. Mas depois ficaram a acompanhar o que aconteceu ao longo do dia pela rádio?
Sim, mas também não havia nada que a gente pudesse fazer.
E notou o impacto disso, por exemplo, na FRELIMO?
Não.
Ou mesmo nos portugueses que ainda estavam em Moçambique?
Não, eu acho que a tropa que estava em Moçambique, quer seja da Força Aérea, quer seja do Exército, quer seja da Marinha, penso eu, a reação deles foi igual à minha. Não compreende, não sabe o que é que acontece, o que está aqui. Isto é uma loucura.
E o ambiente em Moçambique? Já há um horizonte pra independência, que é junho, e há gente a sair de Moçambique. Havia muita gente a sair, notava-se isso?
Isso notava-se. A minha impressão é que correu relativamente bem, na minha perspectiva, vista de Lourenço Marques. E havia, entre a malta, alguma esperança que eventualmente aquilo pudesse levar a que ficassem muitos portugueses, embora muitos, a partir de certo tempo, começaram a sair. E depois aconteceu o que a gente sabe. Tiveram que pagar a fatura à União Soviética e aos outros, e correram com eles. Tornaram a vida impossível.
E aí a maior parte das pessoas saíam por via aérea?
Por via aérea e barco. Mas a TAP e o nosso Boing operou até à independência.
Sentiram isso, por exemplo, na vida em Lourenço Marques? Isto é, de repente os cafés terem menos gente ou os restaurantes.
Isso não. A vida em Lourenço Marques corria normalmente.
Portanto, havia uma expectativa.
Havia uma expectativa que a FRELIMO não fizesse o que acabou por fazer. Aliás, este homem, o Mabote, naquela conversa, eu pude perceber que ele não era muito da ideia. Achava que era pouco tempo de transição.
Antes de saíres de Moçambique, voltou a ver o comandante Mabote?
Não. Nunca mais voltei a falar com ele. Mas sei a história dele.
O que é que lhe aconteceu?
Foi totalmente posto de parte. E acabou tendo sido mandado para Cuba três anos a tirar um curso qualquer, uma espécie de licença sabática. E depois, quando chegou de Cuba, nomearam-no como presidente da Associação dos Ex-Combatentes, dos veteranos, como cá. E acabou morrendo. É uma situação complicadíssima. Morrendo na praia do Xai-Xai, que é uma praia de águas mansas e com água que até não sei quantos metros dá pro joelho Portanto, como é que o homem morre afogado na praia? Não sei mais.
Pois.
Mas que foi um homem, aqui está exemplo: nós estivemos em guerra com o outro, de repente há uma alteração da direção política e aqui estamos a colaborar.
Pois. Então voltou à metrópole em março de 75? Ainda a tempo das eleições, as primeiras eleições livres. Votou?
Foi um marco magnífico. Eu fui colocado na Base Área 6.
No Montijo?
Em 7 de abril, sim, no Montijo, para comandar a esquadra de Fiats. E vivi com muita intensidade aquele momento.
Como é que as eleições e o processo político, qual era o impacto dentro das unidades militares? Discutia-se política, falava-se de partidos?
Não. Nós tentamos sempre manter o mínimo de disciplina que permitisse o funcionamento da unidade. Estou a falar da Base Área 6, nas outras unidades haveria também. Estou a falar da Força Aérea. Dos outros não posso, porque não conheço. A nossa preocupação era sempre essa: não parar os voos. Porque na Força Aérea, não há um avião a voar sem haver uma equipa enorme. O avião só voa se tiver um mecânico de aeronáutica que fez a inspeção e corrigiu as falhas, se houver um mecânico de rádio que tenha os rádios a funcionar.
É uma equipa grande por trás de um avião.
E as responsabilidades dos escalões mais jovens, até dos cabos, são enormes, e as missões são sempre a sério, mesmo que não haja guerra. Quando se vai para o ar, pode não se poder aterrar, porque há uma falha ou outra coisa qualquer. Talvez por isso, por a missão ser sempre a sério, há este espírito de sentimento de um trabalho de equipa e isso jogou muito a favor da manutenção da disciplina na Força Aérea, embora eles tivessem sofrido um ataque maciço, como se fosse hoje um ataque informático. Aquilo foi um ataque maciço de ideologia para tentar subverter a disciplina ao nível dos cabos e dos sargentos.
Como é que era esse ataque?
Aquilo começou com a aceleração que, na minha perspetiva, o PCP imprimiu ao seu projeto de neutralizar as Forças Armadas com o fim que a gente estava a ver mesmo qual seria. Havia constantes contactos, havia dois ou três que tinham influências, que tinham conhecimentos nos partidos da esquerda e o PCP era o mais influente, e houve tentativas de transformar a base numa indisciplina total. Em relação aos sargentos, o PCP utilizou, na Força Aérea, suponho nos outros ramos terá sido a mesma coisa, uma arma terrível, que é o terror. O terror do saneamento, que funcionou em termos dos sargentos, que era a classe mais vulnerável do que os oficiais. Tinham as suas famílias, com vencimentos que davam para manter minimamente as suas famílias, mas que não podiam viver sem esse vencimento. Eles foram todos ameaçados com o saneamento se não seguissem a linha do PCP, que era a linha da comissão, uma comissão que havia no Estado-Maior da Força Aérea, feita por oficiais e sargentos, que controlavam a vida ao nível do Estado-Maior da Força Aérea. E essa ofensiva foi muito eficaz. Houve resistentes, felizmente, mas foi muito eficaz.
Esta comissão de sargentos no Estado-Maior da Força Aérea era formal ou era informal?
Era formal.
Era formal. E era o quê?
Era todos do PCP.
Pois. Assumidamente?
Assumidamente. Não sei se na altura eles diziam, mas a gente sabia que eles eram.
E como é que se formalizava a ameaça de saneamento? Como é que isso se processava?
Porque havia os conselhos das especialidades e das classes de sargentos que reuniam periodicamente, como havia para os oficiais. Houve saneamentos, alguns deles, na minha experiência, porque também fiz parte de algumas comissões da especialidade de pilotos, alguns deles até foram marginalizados. Estou a falar da Força Aérea. Por razões corretas, a gente procurava ser isso. Mas em relação àquela gente, não. Era mesmo para os abafar.
Portanto, quem não alinhava...
Quem não alinhava corria o risco.
Quem não alinhava nestes termos mais comunistas.
Quem alinhava com o comando sabia que corria o risco de poder ser saneado.
O saneamento era passagem à reserva, o quê?
Era ser expulso.
Era ser principalmente expulso das Forças Armadas.
Eu não sei as consequências legais disso, mas eram marginalizados.
Eram marginalizados. Houve muita gente saneada?
Houve alguns. E isso levou a que o comando, o meu comandante, segundo comandante e o comandante do grupo. O meu comandante, infelizmente, já morreu, o tenente-general Vasquez, que deveria ser a figura com quem vocês deviam estar a falar neste momento, porque foi o homem essencial e o principal responsável pelo crédito da Força Aérea no desempenho que teve no 25 de novembro. Foi ele, tenente-coronel Vasquez, na altura tenente-coronel. Para ele era uma grande preocupação.
Eles não conseguiam impedir.
Ele fez tudo para impedir.
Estavam a ser afastados bons militares?
Atenção, havia essa ameaça Portanto, não é que fosse uma debandada, porque eles também não queriam. Viviam sob essa ameaça. De tal maneira que, uns dias antes do 25 de novembro, o meu comandante foi à casa de banho, que era no corredor do comando, no Montijo, e sente entrar alguém e sair, e sente uma coisa qualquer no bolso. Era um sargento que lhe estava a comunicar uma informação, mas não podia.
E era o quê?
Era que havia uma ameaça de sanearem o comandante.
Nesses meses, os comandos, uma grande parte do pessoal está sob essa coação de sanções políticas e profissionais.
Sim, que eram mais sentidas ao nível dos sargentos, que era uma classe mais vulnerável. Ao nível dos oficiais também houve alguns, mas havia mais consistência. Eu acho que começou por essa altura aquilo a que eu chamo o nosso movimento de resistência, que a gente começou a ver: "Isto vai parar mal".
Nosso de quem?
Nosso. Neste caso concreto, o meu grupo da Base Aérea 6. Que era o meu comandante, era o segundo comandante, hoje major general Cardoso, comandante de grupo na altura tenente-coronel, hoje tenente-general Bispo, eu que era o comandante de esquadra. O meu comandante formou, ao nível da unidade, um círculo de confiança. Mas esse círculo de confiança, para vocês verem o ambiente que a gente viveu, era os três do comando e depois o resto contava-se assim. Eram mais de 10 pessoas no total. Em que ele nos reunia, uma hora que ninguém sabia quando é que era, e nos ia transmitindo as suas instruções e qual era a estratégia para a gente manter isto.
E essas reuniões faziam parte de um plano, abertamente e assumidamente, para tentar contrariar essa estratégia da comissão.
Num ambiente clandestino, ambiente de resistência, porque até o Estado-Maior era contrário. As gerações novas que não viveram isso perguntaram-me: "Mas a gente não encontra nenhum plano nos arquivos." Como é que eu vou encontrar num ambiente clandestino? O plano estava na nossa cabeça.
Claro.
E nas instruções que recebíamos do nosso comandante, estou a falar da Base Aérea 6.
Pois, de 75.
O Documento dos Nove, quando saiu, o nosso grupo, este tal grupo, apoiou o Documento dos Nove. E o comandante fez uma reunião, uma assembleia-geral da Base Aérea 6. Havia assembleias-gerais.
Assembleias-gerais.
Para fazer sair uma mensagem a dizer que a Base Aérea 6, isso é para vocês verem o ambiente, a Base Aérea 6 aprova o Documento dos Nove ou apoia o Documento dos Nove, não é aprovar, é apoiar o Documento dos Nove. Porque nós vimos ali, este grupo que eu digo dos resistentes, vimos ali: isto é a hipótese de a gente dar a volta a esta hegemonia do PCP. E não conseguiu. Quando ele começou a falar e disse: "Vamos mandar uma mensagem", o sargento, chefe da malta do PCP retinto, esse conhecia eu muito bem: "Aqui os sargentos falam por uma só voz e os sargentos da Base Aérea 6 não apoiam o Documento dos Nove." Depois os praças também, lá muito bem instrumentalizados: "Eu também não." Sabem o que é que saiu de lá? Uma mensagem: "Os oficiais da Base Aérea 6 apoiam o Documento dos Nove." Os oficiais. E conseguimos, que havia dois ou três, ou meia dúzia que não alinharam.
Isso foi para a comunicação social?
Não.
Foi para onde essa mensagem?
Isso foi para o Estado-Maior da Força Aérea. E o Estado-Maior não estava a nosso favor.
Tinham sinais claros disso?
Pois, com certeza! O chefe do Estado-Maior ainda votou a expulsão do Conselho da Revolução dos membros que assinaram o Documento dos Nove, juntamente com o general Acosta Gomes e com o Vasco Gonçalves.
Ele tinha noção da vossa resistência.
Portanto, era o general Moraes e Silva.
Exato.
Depois mudou. Antes não, com muita pressão. Com muita pressão e ainda a tempo do 25 de novembro, mudou.
Ele tinha noção da vossa resistência, o Moraes e Silva, e tentava de alguma forma-
Sim, ele deu-me instruções para não apoiarmos o Documento dos Nove.
Ah, ele deu-lhes instruções.
Vernais.
Verbais, claro. Diga-me uma coisa, esse círculo de confiança que o comandante da base criou foi baseado em conversas entre vocês ou já se conheciam antes e tinham relações pessoais? Como é que foi?
Relações de operação e de funcionamento de uma Força Aérea ao nível de uma esquadra de voo. O tenente-coronel Vasquez, na altura tenente-coronel, tinha sido meu comandante de esquadra na OTA e meu instrutor.
Ah.
Portanto, conhecia-me muito bem e eu conhecia-o muito bem a ele. Foi tudo à base deste-
Da relação pessoal.
E do que convivemos no Ultramar. Aliás, há um aspeto muito giro, porque, por exemplo, um cabo uma vez vem ter comigo e diz: "Ó meu major, estão para aí a dizer que o senhor é o representante da burguesia e não sei que mais, que os oficiais são burgueses, os sargentes não se sabe muito bem o que é que são, e nós somos os proletários." Eu disse assim: "Mas eu então estive consigo. Esteve consigo a moça? Eu conheço o senhor major." Pois é, era isto. Os oficiais eram a burguesia.
A burguesia.
Os cabos eram os proletários e os sargentos eram uma mistura, porque os sargentos também comandavam. Aí o PCP teve um grande problema com os sargentos. Conseguiu amedrontá-los com o saneamento, mas tinha um grande problema: em que categoria que os havia de pôr?
Chegaram a ter sinais evidentes ou provas da articulação entre o partido, entre o PCP, e essa comissão?
Absolutamente.
Como é que isso se materializava? Além da ideologia.
Há um aspeto aqui, a grande ofensiva do PCP em relação à Base Aérea 6. Eu vivia, porque a certa altura, como eu já vos disse, nós gostávamos era de voar, queríamos manter a esquadra pronta, em termos operacionais, e portanto não ligávamos muito ao resto que se passava com as assembleias e nem íamos a todas as assembleias porque tínhamos aquela desculpa. Até que um dia o comandante me chamou e disse: "Olá, vocês estão-se a baldar às assembleias da unidade. E informou-me: "Agora, daqui em diante, às quartas-feiras, vem cá uma pessoa não sei de onde, que vem fazer palestras à malta. E eu não quero estar sozinho lá vocês. Deixam de voar e vão todos, pilotos todos, quero os pilotos todos na assembleia." E numa dessas assembleias, vem um senhor. Como é que a gente sabia que ele era do PCP? Não tinha problema nenhum, vinha almoçar conosco e mostrava-nos o cartão do PCP. Eles estavam numa impunidade absoluta.
E a palestra era sobre a Revolução Comunista.
Era sobre a Revolução Comunista, exatamente. Aliás, esse nome fixou-me, eu agora não me lembro do nome, mas sei que era um advogado, que depois deu a volta também. A certa altura, passados 15 ou 20 anos, era um dos advogados aí nessas empresas de advogados de Lisboa, que defendia as grandes fortunas.
Fica aqui a primeira parte da conversa com o general Vaz Afonso. Voltaremos para a semana para uma segunda parte sobre o 25 de novembro de 1975 em Portugal.