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Sabes que as minhas filhas cozinham. Sobretudo a mais velha aprendeu muito cedo e ia cozinhando comigo. Com 10, 11 anos fazia bolos, fazia o lambe-lambe. Teve uma vez um bolo em que pôs corante cor-de-rosa e pôs brilhantes comestíveis em cima, uma coisa péssima. Mas ela depois pediu-me, porque sabia que eu trabalhava com a nossa convidada de hoje e que ela era especialista nestas coisas da cozinha, e pediu-me para eu levar para ela provar.

Para dar feedback.

Para dar feedback. E então a nossa convidada não só aprovou, como ainda disse: "liga aí o telefone, vamos gravar um vídeo, que é para eu fazer aqui a minha crítica". Então foi uma crítica muito querida a dizer: "está muito bom, Frederica, mas blá-blá-blá" e depois dava-lhe muito gentilmente e muito simpaticamente umas dicas para ela melhorar. No caso, era a consistência do bolo que precisava. Foi muito querida.

Mas eu já provei bolos feitos pela Frederica e posso dizer que não tem razão de queixa. Portanto, evoluiu.

Foi evoluindo precisamente até por estas dicas. Nós estamos no "Adivinha Quem Vem Jantar?", um podcast para quem acredita que o mundo pode explicar-se na cozinha e que a mesa é o maior palco de partilha que existe.

Eu sou o Tomás Toscano, sou cozinheiro de formação, mas não trabalho já na área. Sou um cozinheiro do dia a dia agora, em casa, para os meus.

E eu sou o Pedro Benovides, não sou cozinheiro, sou jornalista, gosto de cozinhar e gosto muito também de comer e de falar sobre cozinha. A nossa convidada, quem nos está a ouvir conhece-a pelo "Jornal da Noite" da SIC ou até dos Globos de Ouro, também da SIC, já os apresentou várias vezes. Mas há também quem a conheça pela paixão que tem pela cozinha, seja porque comprou os vários livros de cozinha que já publicou, seja porque são seguidores da nossa convidada nas redes sociais ou no site que criou precisamente para partilhar receitas, truques e técnicas, não só de cozinha, mas também, por exemplo, de bricolage.

E já chegou a nossa convidada. Vamos abrir a porta à Clara de Sousa.

Olá, Clara, bem-vinda.

Olá, obrigada pelo convite. Obrigada, Tomás.

Vou-te já dizer aqui uma coisa que nós dizemos a todos os convidados, alguns acham estranho, mas é assim que isto funciona. Nós convidamos as pessoas, mas são os nossos convidados que trazem o jantar. Portanto, o que é que nós vamos jantar hoje?

O que te apetece jantar? É melhor perguntar assim.

Eu entrego-me nas tuas mãos, porque eu conheço os teus dotes.

Queres viajar? Queres recuar às tuas memórias de criança? Queres viajar por outras culturas? O que é que tu queres provar?

Quero provar aquilo que tu mais terias gosto em oferecer-me se eu fosse jantar à tua casa. Coisa que não fui, já agora.

Fica a dica.

Eu diria que talvez te desse a provar algo que é uma coisa extremamente simples, mas é algo que sempre que faço tenho boas memórias, e não só eu, a minha família, e que me remete para a minha mãe. E que é uma coisa muito simples, que é um empadão de carne, mas não é um empadão qualquer. É um empadão em que a carne é aquela carne com que se fazem os croquetes. E é uma carne carregada, de facto, de carne de vitelo, carne de porco com chouriço, que é triturada, em que se faz um béchamel com aquele caldo em que coze a carne. E não leva nada de pão ralado, como os meus croquetes não levam, mas imagina o que é um empadão, que na verdade não tem grandes contrastes de textura, mas que se desfaz na boca e que é um sabor incrível. E eu acho que tu ias gostar.

É comida de conforto.

Eu ia gostar só de ouvir essa descrição.

Imagina o que é que é um empadão. Gostas de croquetes, certamente. Bons croquetes.

Claro.

Então ias gostar, certamente.

Ai, que bom! Gosto desse prato para nós.

Era para não complicar muito.

E fazes muito bem.

Também se come com os ouvidos, não é só com os olhos. Clara, toda a gente te conhece como jornalista, mas a cozinha surge na tua vida como?

A cozinha surge na minha vida, eu não vou dizer desde que andava de fraldas, mas a ver, sim. A fazer ali por volta dos seis, sete anos, quando a minha mãe me puxou para a cozinha para ajudar. Achou que eu já era suficientemente crescida para o fazer. E eu, de facto, era bastante matrona, era muito crescida para a minha idade.

Com que idade?

Seis, sete anos. Na altura não havia as máquinas que há hoje e a minha mãe deu-me uma faca para a mão e ensinou-me a descascar batatas. Algo que nós não faríamos hoje com os nossos filhos, se calhar.

Eu comecei com 12 e acho que comecei cedo. Seis anos é complicado.

É motricidade fina.

Não nos ocorreria pôr uma criança de seis anos a aprender a descascar batatas.

Têm umas facas próprias para crianças.

O descascador, talvez. Não, uma faca e uma mão, a mão direita dela na minha mão direita, a mão esquerda na minha mão esquerda, segurar a batata e ensinar-me. Isso eu lembro-me. E depois: "agora faz tu". E fazer devagarinho. Obviamente, ia tirar muito da parte de dentro da batata. Muito desperdício. E ela estava ali com paciência a ensinar-me. Isso foi um processo muito longo, até ela me dar, aos nove, três anos depois, a responsabilidade de fazer o jantar. Mas pelo caminho, aos fins de semana, para bater claras em castelo à mão com o fouetPorque não havia batedeira. Ou cortar batatas palha à mão, antes dela comprar a máquina que fazia a batata palha, que faz a cenoura ralada, essas coisas todas. Esse trabalho foi um verdadeiro workshop.

Mas o que tu sentias como a criança de seis, sete, oito, nove anos?

Eu ficava entusiasmadíssima. Eu adorava estar ali com ela. A cozinha, de facto, na minha casa, era o coração da casa, era por onde se entrava. Antes de todas as divisões, só havia uma entrada, era diretamente para a cozinha. E era ali que eu estava, era ali que via televisão ao jantar, era ali que eu também brincava com os Legos no chão. Era um espaço de convívio, por natureza, era aquele que elegemos como o principal. E eu adorava estar ali com ela e adorava aprender. Eu sempre fui muito curiosa, como tu sabes, muito espevitada. E estar ali a aprender a ajudá-la, para mim, essa parte funcional acabou por também se juntar à parte emocional e tu às vezes já não sabes muito bem onde é que é a parte prática e a parte emocional.

Onde é que começa uma coisa.

Exato.

A cozinha é mesmo isso.

O Tomás dizia aqui uma coisa interessante que é também se come com os ouvidos, mas o que, nessa tua aprendizagem, nesse teu crescimento, faz-nos aqui uma viagem para nós ouvirmos o que é que cheirava essa cozinha.

Um bom refogado. Quando eu ouço aquelas pessoas: "Oh, refogado!" Não, um bom refogado. Sempre aquele cheiro que começa a deixar a casa com aquele cheirinho que é inbriante.

Abraça.

Sim, abraça. Há cheiros de carne, de cachaço de porco a assar no tacho, em slow cooking.

Quando isso não era moda sequer.

Mas nós fazemos, isso é uma receita que nós fazemos.

A verdade é que era. As pessoas cozinhavam no tacho em lume muito brando e iam colocando um pouco de líquido, ou de água, ou de vinho, a pouco e pouco. Ficava ali três, quatro horas, praticamente até quase se desfazer. Portanto, isso já vem de trás. É um bocadinho como o slow cooking dos fornos a lenha. Em que ainda hoje, quem usa, e há pessoas que ainda têm o privilégio de o ter, o fazem. Deixam aqueles cabritos e aqueles borregos horas a fio e as batatas que saem de lá maravilhosas, impregnadas de todo aquele sabor. E esse cheirinho da carne assada. A minha mãe era cozinheira.

Cozinhava para fora, não era?

A minha mãe cozinhava para fora, fazia casamentos, fazia batizados e ao mesmo tempo também trabalhava em casa da minha madrinha, onde numa primeira fase começou por servir, porque a minha mãe começou a trabalhar, era uma criança.

Aquela história clássica de muitos casos.

Claro, daquela geração. E depois a minha madrinha arranjou uma empregada e a minha mãe basicamente ia lá só cozinhar para ela, porque a minha madrinha tinha três filhos, dois rapazes e uma rapariga. Naquela casa comia-se bastante. E ela ia e fazia a comida para três dias, depois voltava mais um dia e fazia comida para mais três ou quatro. A vida dela era isso. E para mim isso era natural. Nunca pensei: "Eu quero ser cozinheira". Isso nunca pensei, porque na minha mente sempre foi um bocadinho outra coisa.

Seria sempre um hobby.

Sim, seria sempre um hobby. Professora foi aquilo que eu quis ser. Aquilo por não ser. Mas a cozinha, na verdade, a partir de uma certa idade, mesmo mais pequenino, eu percebo que os pais não queiram pôr facas nas mãos dos filhos. Eu própria não o fiz. Mas a verdade é que a cozinha é um espaço de organização, de concentração, de método.

De autonomia também.

De autonomia. E temos gerações, parte da nossa geração ou antes de nós, em que de facto essa autonomia nos dava a liberdade de encontrar as soluções. De arranjar uma coisa que estava estragada, não se deita fora, arranjava-se, porque não havia dinheiro para comprar outra. E isso estimula a criatividade da criança. E a cozinha também faz parte desse processo de crescimento, do meu crescimento, sim.

Incrível.

Tu já eras jornalista com uma carreira sólida. Por que de repente surgem livros e um blog de cozinha?

Olha, porque a Conceição Lino, que é a culpada disto tudo, começou um programa, a Boa Tarde, na SIC, já há uns anos. E na altura ela sabia, toda a redação sabia que eu gostava de cozinhar e levava sempre coisinhas para a redação. E a Conceição disse-me: "Tu tens que vir ao meu primeiro programa e vamos estrear a cozinha". Ainda nem sequer havia cozinha, porque aquilo eram umas bancadas. E eu pensei: "Ok, por que não? Vou lá divertir-me um bocadinho, faço uma coisa de que gosto".

Portanto, isto é uma fase em que as pessoas que te viam não sabiam que tu tinhas esse gosto e que tinhas esse talento.

Não sabiam. E eu fui e pensei: "Olha, então vou fazer uma coisa simples, que não exija coisas muito complicadas". Ela só teve a cozinha no programa seguinte, portanto, uma coisa muito simples, em cima da bancada, faço aqui um gravlax, mostro como é que se faz o gravlax, que também não precisa de nada, até faço em casa e depois explico aqui, para não andar com coisas de fogão e tudo mais, e de forno. E fui. E até fiz a mousse de lima, porque cozinha também é química. E, na verdade, foi o Henrique Feist, no casamento dele, que tinha me dito como é que se fazia aquela mousse de lima, que basicamente era só juntar as natas com a acidez da lima e com o leite condensado e fica compacta. E foi essa mousse de lima. Foi o Henrique primeiro a dar-me a receita, a Conceição a levar-me ao programa e a mousse de lima, em que de repente começou toda a gente: "Mas lança um livro, tu tens tanta coisa boa, por que não lanças um livro? Aquela mousse é fantástica, começa por aí, desenvolve, vais às receitas da tua infância, da tua mãe, dos teus amigos". Porque houve sempre muito esta partilha. E assim lancei o meu primeiro livro, que foiFoi espetacular. Foi mesmo um sucesso.

Mas é porque surpreendeu as pessoas.

Isto está lá uma grande parte de mim. E não só porque as pessoas fazem as receitas e elas funcionam, porque se eu fizesse um livro com receitas que não funcionassem, lá se ia a minha credibilidade. Eu na altura pensei bastante, pensei muito: "Não". E surgiu só o: "Por que não?" Depois de tudo isso. E o "por que não?" com a Maria João Costa sempre também a tentar convencer-me que era fantástico, sempre com aquela energia que ela tem, que consegue de facto dar-nos aquela adrenalina de que vai ser muito giro fazer isto. Lancei-me. De verdade, porque isto só pode ser feito se for de verdade. Se não for de verdade...

Quando dizes de verdade, é o quê? É entregaste-te mesmo, pensaste bem as receitas.

Sim, escreves os textos, explicas cada receita.

Não eras a cara, a Clara Sousa a dar a cara por este...

Não, é claro que muitas pessoas pensaram: "Ela escolheu ali umas coisinhas e alguém foi lá fazer por ela". Não. Aliás, eu na altura até fiz uma queimadura bem profunda.

Para provar.

Foi sim, sério. Várias partes do livro eu estou com o meu dedo protegido, porque foi uma queimadura bastante profunda, com vapor ainda por cima. E portanto, só pode ser de verdade. E eu cheguei à conclusão de que se isto for de verdade, as pessoas entendem. Tal como faço jornalismo de verdade, vou fazer isto de verdade.

Mas tinhas medo de perder a credibilidade enquanto jornalista? Até chegar a esse porque não.

Porque eu sei que ainda há muito preconceito. Na altura havia mais. Cada vez vai havendo menos. Porque a cozinha entrou nas nossas vidas de uma forma muito mais sexy. Olha o próprio Pedro, adora cozinhar e fala disso e também é um excelente jornalista. E ali não só. Na altura ainda havia um bocadinho aquela coisa das chupeiras que cozinham. Mas cada pessoa pensa o que pensa e isso só a ela pertence, a ela e às suas circunstâncias. As minhas circunstâncias são diferentes. Não romantizo muito, porque sou muito prática, mas eu gosto e quando gosto, entrego-me. E quando entrego, quero fazer bem e quero ser perfeccionista e quero explicar bem. E a cozinha, tal como no jornalismo, também tentamos fazer bem, às vezes erramos, mas é tentando não repetir o erro que melhoramos. E portanto, até aí, ela tem alguns pontos de contacto com a minha necessidade de fazer bem, ou pelo menos fazer o melhor que sei. E eu não partilho uma receita que comigo funcione mal. Nunca fiz isso, mesmo quando as pessoas dizem: "Mas está ótimo!" Eu digo: "Não, para mim não está bom." E então se não está bom, não partilho.

És muito exigente também contigo própria.

Sou muito exigente com isso. E às vezes há coisas simples que saem muito melhor do que coisas que eu quero começar a fazer coisas mais... Não vale a pena. Depois também tenho que pôr os pés na terra, as pessoas que me seguem, não conhecem alguns ingredientes que eu conheço, querem coisas mais práticas, querem coisas que provavelmente naquelas do 30 minutos funcionem bem e tenham sabor. Por exemplo, a sopa de camarão e batata doce com lima, que eu partilhei esta semana.

Isto deve ser uma maravilha.

De inspiração mexicana, com várias camadas de sabor. Não é só uma sopa. É uma refeição, mas faz-se muito rapidamente e é fantástica. Tem páprica fumada, tem cominhos, tem orégãos, e tudo aquilo tem tomate, que fica ali a fervilhar. E que em meia hora consegue ficar muito bem. E faz-se o jantar em meia hora.

Exatamente. E mais, dás uma viagem às pessoas.

E dá uma viagem.

Não é o sabor que é estranho, é a mistura de sabores que é talvez mais diferente, mas com ingredientes que tu encontras em qualquer supermercado.

E não é aborrecido, não é uma sopa aborrecida, lá está. Mas, por exemplo, com esta eu consegui, mas há outras que eu às vezes tento ir buscar um ou outro ingrediente e às vezes até o próprio molho de soja para algumas pessoas é: "Mas eu não tenho molho de soja." O que para mim é normal, para muitas pessoas não é, e portanto eu às vezes tento fazer alterações, adaptar, tentar simplificar ao máximo, para que as pessoas possam ter uma experiência boa nas suas casas e surpreender os seus, porque são aquelas pessoas que também querem mimar os seus. E é essa experiência que eu gosto. E é por isso que eu aqui estou com este site, não é por mais nada.

Tu tens uma coisa engraçada, quem seguir o teu site das receitas, coisa que eu recomendo, porque eu faço isso muitas vezes lá em casa e já fiz receitas ótimas que surpreenderam as pessoas e deram-lhes alegria, que é uma coisa que nós também gostamos quando recebemos e quando oferecemos. Mas tu tens um cuidado, que eu estava a ouvir-te a falar, e que tu tens de facto esse cuidado, e que talvez possa haver aqui uma ponte também com aquilo que nós fazemos no jornalismo, que é que tu tens que simplificar a realidade. Não é simplificar a realidade achando que as pessoas são burras, és mediador, efetivamente. Ou seja, as coisas passam-se e a tua função é transmitir aquilo que se está a passar e de alguma forma também dar pistas para que as pessoas formem a sua opinião e entendam o mundo da forma como entenderem. Mas nós temos que falar para toda a gente.

Claro.

Temos que não insultar quem percebe do assunto e temos que não afastar quem não percebe.

Claro.

Tu achas que tu fazes isso também? Eu pelo menos sinto isso quando leio o teu blog, quando tu, por exemplo, falaste do gravlax e há um momento em que tu estás a explicar o que é o aneto, os vários nomes do aneto.

O endro, o aneto.

Exatamente. Tu fazes isso com essa preocupação, que é quem nunca ouviu isto ou nunca viu isto na vida.

Pelo menos fica a conhecer. É também dar informação em muitos aspetos. Sim, sem dúvida. Mas eu enquanto jornalista, se eu falho numa informação que dou, estou a desiludir as pessoas. Eu não quero que as pessoas fiquem mal informadas. Numa receita também, eu não posso partir do pressuposto que todas as pessoas têm as mesmas bases que eu. Ou a mesma intuição, porque já estou há muitos anos ligada à cozinha. E eu acabo por ser bastante descritiva numa ideia de que as pessoas que já entendem, quer dizer, abrem um livro da Maria de Lourdes ModestoÉ super resumido, que é para pessoas que já estão muito rotinadas na cozinha. Mas aquelas que não estão, dificilmente conseguem fazer uma receita bem feita dessas, porque faltam os tempos, faltam as temperaturas do forno, falta uma série de explicações mais básicas. Eu acho que quem sabe, não fica aborrecido para eu explicar um pouco mais. E quem não sabe, agradece. E, portanto, o meu cuidado é esse. Tal como não quero que no jornalismo as pessoas fiquem mal informadas e tudo o que é um pormenor importante eu dou, e se eu não dou no pivô, a peça dá, na cozinha é exatamente a mesma coisa, porque eu também não quero que as pessoas falhem. Primeiro, porque a vida está cara, os ingredientes estão caros e as pessoas querem o melhor resultado. E, portanto, a última coisa que eu quero é que a pessoa ache que aquilo está no lume fortíssimo e aquilo tem que estar no lume brando. Não quero que queimem coisas, nem nada. Quero que mexam, não se esqueçam de mexer para não queimar. E de vez em quando vou lá reforçar isso. Eu às vezes olho para aquilo e penso: "Estarei a exagerar?" Mas depois penso: "Não, não estou a exagerar". Portanto, são mais duas palavras, mexendo pontualmente.

E é uma conversa.

É uma conversa, no fundo flui.

Eu lembro-me de falarmos uma vez no livro da Pata Groel que tínhamos a expressão forno esperto. Se fores saber o que é forno esperto...

O livro de Pata Groel tem muito essa característica, é uma coisa vaga e claramente para quem tem experiência e quem sabe o que é. Leva forno esperto. Mas o que é que é forno esperto?

Não é burro.

Exatamente.

Não é nada burro.

O Paulo Varanda, o nosso amigo Paulo Varanda, que era o meu provador oficial durante muito tempo e que já não está na SIC. O Paulo ofereceu-me daqueles livros que comprava das alfarrabistas, sei lá, com 100 anos. Tu olhas para aquilo e, de facto, ou tu entendes alguma coisa, porque aquilo era para as donas de casa.

Claro, na altura acho que sim.

Basicamente era o que elas faziam. Ou tu entendes a cozinha e como é que são os métodos, como é que são os processos, ou então é muito difícil fazeres alguma coisa. É muito difícil.

Entretanto, nasceu a Clara de Sousa para nos explicar. Tu fazes inclusão, é isso?

Não nasceu nada. Mas acima de tudo, eu acho que isso tem a ver com a minha formação, que é eu gosto que me entendam. Se no caso do jornalismo é para as pessoas estarem mais bem informadas, mais atentas, perceberam isto. Na cozinha é exatamente a mesma coisa, para que as coisas funcionem, para que elas consigam ter resultado tão bom como aquele que eu tive em casa.

E estavas agora a falar de livros. Essas ideias para receitas surgem como? De pesquisas?

De pesquisa, também muitas vezes de improviso, coisas mais antigas, coisas que eu me lembro, que assisti a minha mãe a fazer, de muitas receitas que eu tenho nos meus livrinhos, de muitas teleculinárias do chefe Silva, que eu adoro, tenho uma coleção brutal.

Dos anos 80, por aí, não é?

Final de 70, 80. A minha mãe deixou-me os quatro primeiros volumes e a bisavó dos meus filhos deixou-me praticamente, sei lá, mais uns 10 ou 15 que eu tenho lá. Esses nem sequer estão colados.

Mas tu és rigorosa.

Mas vai surgindo de todo lado. Do que as pessoas me dizem, daquilo que eu vejo, daquilo que eu pesquiso. Eu neste momento até já estou a desenvolver receitas com a ajuda da inteligência artificial, em que eu dou os inputs, ele me dá os inputs, eu vou aperfeiçoando, vou vendo. É que depois quando tu entendes a cozinha, tu consegues perceber onde é que também eles erram, onde é que a inteligência artificial erra. E eu questiono e digo: "Mas espera aí, mas se for fazer isto, vai acontecer este resultado." E ele: "Tens razão." E depois vamos trabalhando em conjunto e já fiz algumas, vamos ver de que forma é que elas vão ser aceites, mas que dá para testar essas novas possibilidades. Isso é muito interessante.

E as pessoas pedem-te receitas para criar?

Já tive um caso em que me pediram: "Não me pode arranjar menu para um jantar para 12 pessoas para eu ter cá em casa?" Eu digo: "Eu peço desculpa, mas tenho uma vida muito ocupada. No site tem muita coisa, procure." Entradas, sopas, prato principal, peixe, carne, sobremesas. Faça a sua escolha.

Teria a Clara de Sousa feito.

Faça a sua escolha. O que eu tenho é muitas pessoas que me enviam receitas delas, que têm uma componente emocional muito grande para elas, e já testei algumas, outras não consegui, mas é muito interessante. Eu partilho com elas aquelas que me tocam também e elas partilham comigo. E também é uma forma de perpetuar a memória dessas pessoas, tal como eu perpetuo a minha. Por exemplo, se tu fores à questão, uma receita, por exemplo, os bolinhos alentejanos ou o pudim de laranja descansado ou o próprio leite creme da avó Maria. São três receitas que me passaram. A avó Maria, entretanto, morreu e eu fiz essa adenda, e fiz no desafio do Dia dos Avós. Foi uma coisa muito gira. Não pude fazer todas, mas depois houve uma que tinha que vencer. E também é uma forma de homenagear essas avós, que não são as minhas, são as dessas pessoas. E está lá a fotografia delas, conta um bocadinho a história delas, das experiências delas. E eu acho que isto é bonito, eu gosto de fazer, eu gosto que as pessoas também se sintam de alguma forma representadas e que partilhem as suas histórias, que são tão importantes para elas e que homenageiem aqueles que foram e são tão importantes para eles.

Por que tu achas que isso acontece? Nós vamos ter um episódio nesta série, que é precisamente sobre isso, sobre a cozinha de memória e como é que...

De conforto.

O conforto. Por que isto funciona? Mas no teu caso, o teu trabalho extra jornalismo, portanto, o teu trabalho nesta área da cozinha, também já percebi que vive muito disso, da partilha de memórias.

De experiências.

De experiências. É uma espécie de caderneta, quase de um álbum de família, e às vezes já nem são a tua própria família.

Sim, é a minha história. Às vezes até nem coisas muito simples do dia a dia, a minha história que se vai construindo a pouco e pouco, mesmo em casa.Para criar memórias também, porque tal como a minha mãe criou as minhas memórias, eu também cozinho para criar memórias aos meus. Acho que é importante pensar nisso. Pessoas que criam memórias, também em viagens, em experiências radicais, outro tipo de coisas, culturais, etc. Eu também gosto muito disso, mas no meu processo também passa muito por criar memórias através da cozinha. É tocante. Por exemplo, agora na Páscoa, eu tenho uma receita no site que é o folar da Filagosa, que é um folar de carnes. E eu estive num processo com uma prima minha para ela me dizer, porque obviamente que já muitos dos que o faziam também já faleceram. E eu partilhei-o, mas ao partilhar, eu contei a minha experiência em criança na ida à Filagosa, que é a terra onde nasceu e cresceu o meu pai. Quando se entra, a calçada, a Nossa Senhora, o castanheiro que morreu de pé, a casa da minha tia Alice, a casa da minha avó, a igreja, etc. As idas aos riachos gelados, as experiências em criança de liberdade, de risco, e os nossos pais nem sabiam o que é que nós andávamos a fazer. E é curioso. E quando se entrava e a panela de três pés preta no lume com uma sopa que só levava uns chouriços, mas que era a melhor batata do mundo, a melhor couve do mundo, na água pura que corria diretamente da nascente. E de repente tenho, não foi uma, nem foram três pessoas a mandar mensagem a dizer que se emocionaram e que choraram ao ler o texto.

Incrível.

Ou seja, as minhas experiências cruzam-se com as experiências de outras pessoas da minha geração, de uma liberdade e de uma felicidade, de ligação com a natureza. E isso marca-nos muito. E aí já não é só a questão da comida, é mesmo da forma como nós crescíamos naquela liberdade.

Sim, essa receita de folar noutro contexto não ia saber ao mesmo.

Não ia saber ao mesmo.

No fundo, é quase uma materialização dessas memórias. Nós estamos a provar as nossas memórias, estamos a sentir o cheiro e isso leva-nos para tudo.

Para momentos em que fomos muito felizes. E é isso. Se calhar por isso é que choraram, porque se emocionaram.

E há uma ligação entre a cozinha e a felicidade.

E momentos que não voltam mais.

Sim, que ainda por cima tem esse lado.

No meu caso, quando o faço, é uma viagem. Se eu fechar os olhos, faço uma breve viagem, quase que toco lá. Mas sinto algum conforto aí. E portanto, eu acho que isso acaba por ser positivo, obviamente sempre olhando para a frente, não ficando presa no passado a pensar que ele não volta, nada disso, mas vivendo essas memórias de forma saudável.

A cozinha permite mesmo isso, repetir esses pratos, permite prolongar essa felicidade.

Tal como as memórias daquelas pessoas que partiram.

Exatamente.

Há pessoas que nunca recuperam de perdas, de uma mãe, de um pai, e é um peso. Eu tento soltar o peso e puxar sempre pela memória mais leve. Porque o meu pai, por exemplo, é uma pessoa super leve. Então tento sempre lembrar-me das palhaçadas que ele fazia, da forma como ele encarava a vida. E isso ajuda-me a sorrir mais do que ficar mais triste por ele ter partido. Custa-me, obviamente, gostava muito que cá estivesse, mas não estando, escolho lembrá-lo dessa forma.

E ajudas também outras pessoas a fazer o mesmo através destas viagens.

Sim, eu acho que sim.

Que elas próprias também vão partilhando contigo.

Honrando-as, sim. Eu acho que elas ficam um bocadinho mais felizes também com isso. Eu acho que é uma coisa importante, sim.

E é bonito.

É bonito, eu gosto.

Clara, em tua casa tu tens utensílios quitados espetaculares ou básicos tradicionais, o que gostas mais?

Os homens muitas vezes gostam muito de ir a aqueles gadgets todos. Eu sou gadgets de cozinha. "Vai isto, não sei o quê, vai a coisa do slow cooking ou de cozer na água." O meu filho usa muito. O sous-vide. Sim, o sous-vide, tenho lá tudo. Nunca uso. É basicamente só quando ele vai lá a casa, mas eu tenho lá para qualquer situação. Por que eu não uso? Porque eu tinha comprado para mim, para fazer, e até poderia ter feito em casa, mas depois eu tenho que estar sempre a fazer receitas para partilhar. Agora, eu vou partilhar uma receita de sous-vide para o meu site. A maior parte das pessoas não tem sous-vide. Dizem: "Air fryer." Mas eu: "Air fryer, mas tenho um forno pequenino, por que eu vou tirar air fryer?" Não, também não vou. A Bimby tenho lá, mas também praticamente errá-los a usar.

Mas podes fazer sous-vide no forno.

Pois, pois podes.

Que eu não tenho.

A técnica em si já é uma técnica...

O nome assusta, o nome pode assustar.

Tal como podes, ao invés de air fryer, a air fryer é um forno mais concentradinho. E então tento sempre uma coisa mais prática de forno normal, tacho normal.

Mas adoras comprar gadgets.

Mas adoro comprar gadgets para experimentar, exatamente. E portanto, a minha cozinha está cheia de coisas, umas que eu uso muito e outras que uso muito pouco. Desde o que faz a cruz nas castanhas, desde o triturador de alho, que é só fazer assim e rolar, que aquilo pica o alho de uma forma maravilhosa.

Mas dás uso.

Esses dou uso. Para filmar, não, para filmar eu pico à mão, porque é mais...

É mais realista, é mais próximo.

Mas noutras situações é pôr aquilo naquela rodinha. Aquelas rodinhas onde andam os almoços, estás a ver? Mas em ponto pequeno. Aquilo é espetacular. Ando sempre a ver coisas aqui e ali, os tapetes disto, mas esquece. Qualquer dia não, já praticamente não há espaço numa cozinha tão grande, já quase não há espaço para isso. Mas sou muito de gadgets de cozinha.

Mas deixa-me então perguntar-te uma coisa, porque tu efetivamente tens essa preocupação de fazer receitas das pessoas comuns, das pessoas reais.

Ou de vez em quando tirá-las do seu espaço de conforto.

Ou tirá-las, mas sem nunca...

Com ingredientes acessíveis.

Mas nunca levá-las para outra estratosfera, onde as pessoas não se sintam confortáveis.

Claro.

Mas hoje em dia a cozinha, também por força das circunstâncias e da evolução da nossa vida cultural, também se tornou quase umUm fator de sofisticação e de aprendizagem de novas coisas e de novas experiências. Tu, não fazendo isso nessa tua vertente mais pública, tu és uma apreciadora, por exemplo, do fine dining. Tu gostas de cozinhar aventuras, tem coisas com técnicas mais ousadas?

Não, eu adoro ir onde servem o fine dining. Um jantar que eu tenha feito recentemente, que as pessoas gostaram imenso, um gravlax para entradas, além de outras entradas.

Quem já agora não sabe o que é gravlax.

O gravlax é esse salmão curado em sal. É uma coisa que os nórdicos fazem e que é supersimples, e que é melhor do que o salmão fumado, é menos enjoativo e que basicamente todos os meus amigos já aprenderam a fazer e fazem, e sai muito mais barato, apesar do salmão estar caríssimo. Depois fiz um chambão, pernil de borrego, só encontro num sítio, que vem da Nova Zelândia, é fantástico. Cá é um pouquinho difícil de fazer, mas eu também dou a alternativa de comprarem uma perna e cortarem em pedaços. Mas pronto, servir um chambãozinho é sempre muito mais bonito o prato. Em que leva canela, leva umas especiarias mais quentes e adocicadas, que fiz com batata doce e batata normal no forno, com tomilho, com alho, aquilo ficou uma coisa fantástica. E no final fiz a sericaia, que foi uma recente que eu desenvolvi melhor e que ficou também espetacular. Mas foi um dining que não foi tão fine.

Com cheiro a outono.

Foi ótimo. Foi agora no final, sim, antes do início da primavera. Eu gosto de ir a um restaurante em que tenha uma sequência de 12, 13 pratos pra ir provando, fazer essa viagem.

E tu gostas do quê? Gostas do sabor ou gostas de te surpreender com a técnica, com a criatividade?

Gosto de tudo, mas sobretudo o que me impacta mais é sabor e texturas. Porque muitas vezes o cheiro até às vezes é um pouquinho enganador, porque muitas vezes cheira uma coisa e depois parece quando comemos tem um sabor que nos leva pra outra dimensão e é completamente diferente daquilo que imaginávamos. E, portanto, eu gosto de vez em quando perder a cabeça, ir a um desses restaurantes e ter essa experiência. Mas no dia a dia, obviamente que tem que ser algo muito mais prático, deixar para o fim de semana algo mais elaborado. E se estiver sozinha, na verdade, eu vou dizer, eu não cozinho pra mim. Isso pode parecer uma contradição, mas eu não cozinho pra mim. Eu, na verdade, cozinho mais para os outros e junto-me a eles à refeição. Se eu estiver sozinha em casa, eu faço algo muito mais simples, faço uma boa omelete, também de manjericão, por exemplo, adoro.

Tem a sua técnica, uma boa omelete também.

Exatamente. Uma omelete à francesa, mais macia, etc. Eu, só pra mim, não tenho essa necessidade.

Eu percebo isso, mas imagina, estás sozinha e dizes: "Vou só fritar aqui um bife e vou fazer aqui arroz branco". Isso acontece?

Raras vezes.

Não é fácil.

Raras vezes. Prefiro fazer uma salada. Sim. Eu pra mim não cozinho muito.

Mas essa salada vai ter qualquer coisa.

Sim, mas pode ser uma salada simples, coisas que eu tenha, um queijo feta, uns tomates cereja, uma alface, o que houver. Às vezes é o que houver. Mas para cozinhar, para me dedicar um bocadinho mais, eu gosto que seja mais em grupo. No fundo, é também um momento mais de sociabilizar, de falar também do que se está a comer. E é uma experiência que eu sozinha acho que não a teria da mesma maneira. Então não invisto tanto só em mim para esses momentos. E, no fundo, como dizia o Mia Couto, cozinhar é um ato de amor. Parece que não há amor próprio. Há, mas é um ato de amor, sobretudo para o outro.

E de partilha.

Para o outro, sim. Para partilha.

E no meio desses jantares todos para os outros, o que mais gostas de cozinhar? Se existe algum prato que gostes muito de fazer.

Depende um bocadinho, porque, por exemplo, uma coisa é pra ser para seis pessoas, outra coisa é pra ser para 50. Por exemplo, num aniversário. Eu o último aniversário que fiz há um tempo, que tinha assim muitas pessoas em casa, fiz um butter chicken, porque como tenho tacho, aquele panelão grande que dá pra essa gente. E tinha que ser uma coisa prática, porque iam comer e ia volante. Portanto, não podia ser de faca e garfo. Fiz um butter chicken com todos os pedaços de carne à medida e uma coisa macia, maravilhosa, com um pãozinho naan a acompanhar. Isso também faço, faz-se facilmente, é fácil de fazer. E portanto, nesse aspecto, estou a falar do prato principal.

Certo.

E depois de sobremesas, às vezes vario, faço duas, três, faço uma coisa de chocolate ou faço um bolo ou faço uma mousse. Tento fazer coisas diferentes para poderem provar um bocadinho de cada. Mas sim, tento que seja uma coisa boa, mas com uma componente prática.

Tens algum prato preferido, que seja aquilo que tu mais gostas de cozinhar?

Eu tenho tantos pratos que eu adoro cozinhar, que eu acho que vou dizer alguma coisa errada, mas o bacalhau com broa é um prato que eu adoro cozinhar, porque é muito simples, dá pra fazer uma prep antecipada, fica tudo pronto e antes das pessoas chegarem, é só montar as camadas e meter no forno. Eu também adoro risoto, o problema do risoto é que depois temos que estar agarrados ao tacho aqueles 20 minutos que não estamos a confraternizar.

E hoje a cozinha é um sítio onde isso acontece.

Isso quando acontece, exatamente, vai tudo para a cozinha.

Eu digo isso que não gosto muito de fazer risoto. Eu, moleira. E depois sempre quando: "Não, mas eu estou ali a falar e estou a mexer." Não, eu não gosto de estar. Quando estou a cozinhar, não gosto de andar muito a conversar, gosto de estar concentrada. E então, não dá, porque depois alguma coisa falha, e a pessoa vai buscar um copo de vinho, e depois fica a falar: "Ai, o risoto!" E lá vai a correr. E depois aquilo já passou do ponto.

E há pratos que tu tenhas notado que são muito populares, que as pessoas gostam todas, muito consensuais, que tu faças? Tu até podes nem achar muita graça.

O gravlax é um deles. O gravlax é super consensual.

Impressiona as pessoas, que é uma coisa incrível, que as pessoas ficam mesmo impressionadas.

"Fumado em casa?"

Não, não é fumado.

Pois não, mas o comentário das pessoas é esse. "Fumado em casa?"

É mesmo muito fácil. Algo que as pessoas gostem mesmo muitoNos Natais, se bem que no Natal é bacalhau e coisas do género, eu faço sempre para a família, porque pedem-me todos os anos a perna de peru no forno, que fica maravilhoso. Foi uma forma de homenagear a minha primeira empregada doméstica, onde eu vivo agora, já há muitos anos. Ela já faleceu, foi uma forma também de a homenagear. Ela foi uma pessoa incrível para mim e para os meus filhos. E ela ensinou-me que na perna de peru, para retirar aquele sabor que as pessoas às vezes não gostam do peru, colocam-se orégãos. Então a perna fica a marinar naquela pasta de pimentão doce, orégãos, alho, azeite, sal, uma boa pasta. Um dia, mais um pedacinho de banha, que ao contrário do que as pessoas dizem, não é nada mau, há um grande mito em relação à banha, porque é uma gordura natural.

Exatamente.

E o sabor da banha é fantástico. E depois, de repente, vais comer aquela carne que parece de vitela. E é só uma perna de peru.

E, portanto, esse é um pedido que-

É barato e é bom.

É tradicional e é o que se quer.

Quero, pedem-me sempre isso.

Há bocadinho já falaste sobre isso, mas eu gostava agora que tu concretizasses. Alguma coisa que tu tentes fazer e que tu dizes: "Não vale a pena, isto não me sai bem. As pessoas até podem dizer que estava bom, mas isto não me sai bem."

Ainda recentemente estava a desenvolver uns cookies de pistácio. Fiz três tentativas, eram uns cookies que eu usei uma pasta de pistácio, tipo a manteiga de amendoim, mas em pistácio, e eu não consegui gostar daquilo. Primeiro achei a textura muito densa, depois a segunda já foi um bocadinho melhor, e a terceira foi já um bocadinho melhor e todas as pessoas estavam a dizer, desde o primeiro, que eu sabia que não estava bem, que estava ótimo. Desapareceu num instante. Sabes o que é que eu não gostei? Depois, mesmo quando já gostei da textura, tem uma entrada, de repente, muito fraca. Depois ganha um bocadinho. À medida que vais dando dentadinhas, ela vai ganhando. Mas o facto de ter uma entrada muito fraca, é como um vinho que não te conquista logo. Então, mesmo que ele me conquista à quarta ou quinta dentada, já não é a mesma coisa.

Pois.

Já me conquistou muito tarde.

E tu consegues perceber o que é que te falta aí quando tu tens essa experiência e dizes: "Eu quero que seja isto"?

Eu acho que é mesmo o próprio pistácio em si. O pistácio tem um sabor que demora.

Precisa de muitos auxiliadores para se ativar.

Pois, não sei se algum sal para ajudar. Não sei. Mas eu cheguei a uma altura que disse assim: "Eu não vou investir mais do meu tempo e da minha disponibilidade neste cookie. Vou simplesmente esquecê-lo. Vou esquecê-lo, não vale a pena." Outros não, por exemplo, eu quando comecei a fazer, e eu sou uma pessoa que não me dou por vencida.

Sim.

Eu quando fiz pela primeira vez macarons, porque depois também tenho uma grande capacidade de estudo e sendo jornalista, o que eu faço? Pesquiso.

E de facto macarons não é...

Vou até ao fim do mundo para entender o processo. Porque enquanto eu não entender o processo, vai continuar a falhar. E eu fiz três vezes e só da primeira vez percebi os erros. Corrigi.

Como é que te saiu essa primeira vez?

Não saiu bem. Não saiu nada bem.

Visualmente e tudo?

Nem fez pé, nem fez nada. Aquilo foi horrível. Foi tudo achatado, esquece. Não estava em lava.

Em lascas.

Não, esquece, ficou horrível. Da segunda vez esteve um bocadinho melhor, mas não estava ainda naquele ponto perfeito. E depois de eu entender como é que era, o tempo de não mexer muito, só envolver, a textura da lava a cair, o tempo, a umidade da casa, tentar pôr numa divisão que tenha menos umidade.

Pastelaria tem muita química.

Claro que sim. E então só à terceira é que eu consegui, mas aí consegui, ficaram perfeitos, ficaram maravilhosos. Mas partilhei na altura, acho que no Facebook. Por acaso ainda não os pus no meu site por uma razão muito simples: é porque o meu site não é só cozinhar, é filmar, é editar, montar o vídeo para o Facebook e para o YouTube, depois fazer o reels, fazer os shorts. Eu faço isso tudo no meu telemóvel. Escrever, editar as imagens, fotografar. E portanto, todas as fotografias que eu tenho da altura eram fotografias sem iluminação, como eu tenho hoje, com câmaras de há 15 anos, portanto esquece em termos de resolução. Portanto, eu tenho que começar o processo de novo. E ainda estou a tentar ter algum tempo, que não tem sido muito, para publicar com todos os pormenores que não se podem falhar. Portanto, eliminei tudo o que era erros.

E tens isso tudo anotado e sabes tudo.

Tenho tudo anotado. Portanto, não me dou por vencida. E enquanto eu não entender, eu vou até ao fim do mundo para descobrir. Faço pesquisas por todo lado, por sites de referência, por sites de chefs que eu sigo. Os British Chefs, por exemplo, têm sempre coisas fantásticas e explicam muito bem. Pronto, é isso.

Cozinha e tentativa/erro.

Exato. E a cozinha é muito erro também. Nós tentamos que no jornalismo não seja tanto erro.

Pois, sim.

Mas aqui também na cozinha não, a responsabilidade pode ser um bocadinho menor.

Claro. E no jornalismo também vais seguindo pistas até ires eliminando aquilo que não está certo e, portanto, desejavelmente, é isso que tu vais fazendo.

Mas aí os teus erros são privados e, na verdade, quando publicas à partida, já estará tudo ultrapassado. Mas como eu te disse há pouco, não há uma receita que não me corra bem ou que eu diga que não gosto, que eu partilhe. Não partilho, porque o que eu partilho tem que ser um reflexo, de facto, de mim, daquilo que eu gostoSó assim é que eu acho que faz sentido.

Isso é uma experiência, é um privilégio de quem trabalha na SIC. De facto, tu já falaste também disso, mas eu vou passar a explicar. Tu experimentas muitas coisas.

Já não é a mesma coisa, já não levo tanto.

Isso agora já não preocupes.

Já não estás lá.

Mas havia uma coisa que era maravilhosa, que é a Clara de Sousa experimentar as suas receitas e levar para a redação.

Para o provador.

E levavas sempre uma coisa. Às vezes era sonhos, bolos que tu fazias, muffins, cookies, tudo. E de facto eram sempre um sucesso. As redações são se calhar pouco exigentes.

Estão esfomeadas.

E tu dizias: "Não, mas isso não me saiu bem, porque não sei o quê." E toda a gente a olhar, a comer e a pensar: "Não estou a perceber onde é que isto não está bom."

Sou eu. "Não, mas isto ainda não está bem, mas queria que me dissesse o que é que há." "Não, está ótimo." "Não, isso não está bem. Diz-me lá o que é que falta."

Se calhar é um bocado a veia jornalística, de querer saber mesmo.

Exactamente.

Tu fazias isso para tentar ter outro público ou porque já tinhas aquilo e ias partilhar, ou porque sabias também que ia dar gozo às pessoas?

Não. Muitas vezes eu levava coisas que eu achava que tinham saído logo bem. Mas muitas outras vezes era à procura de feedback. "O que é que tu achas? O que é que achas que faz falta? É a textura que não está muito bem, falta aí o quê? Um bocadinho mais de açúcar, um bocadinho menos de açúcar?" Porque depois os palatos também são um bocadinho diferentes. Mas é um bocadinho isso. Eu não estava à espera da validação que eu própria dou quando sei que para mim está bom.

Certo.

Mas muitas vezes também procurava. Quando estava bom, levava para as pessoas desfrutarem, simplesmente.

Claro.

Mas muitas outras vezes era para isso, era para me ajudarem a melhorar.

E o público não ajudava muito, toda a gente ficava contente.

Às vezes também ficava contente por eles gostarem.

Falas muito da cozinha como partilha e do quanto gostas de receber pessoas, cozinhar para os outros, mas quando é o contrário? Sentes que há pessoas que já deixaram de te convidar para jantar?

Não, de maneira nenhuma. Estão sempre a dizer aquela coisa: "É uma responsabilidade." O quê? Convidar o Tomás é que é uma responsabilidade, ele é um chef provisional.

A minha mulher tem essa desculpa também em casa, então cozinho eu todos os dias. Cozinhar para ti? Não, nem pensar.

Não. E depois só ficas feliz com o quê? Com uma carcaça com manteiga, boa manteiga. E uma fatia de bom queijo.

Exacto.

Tão bom. Ou um ovo estrelado bem feito.

É ótimo.

E nós aqui com tanto fine dining. Mas não.

Mas as pessoas dizem sempre isso. "Não, atenção, isto é..."

Mas sim, elas dizem o mesmo. Não, de maneira nenhuma, eu vou, eu quero é estar com elas, quero divertir-me. Está sempre tudo ótimo. A verdade é que está sempre tudo ótimo.

E procuram muito a tua validação, a tua opinião sobre o que cozinharam?

Sim, perguntam, mas perguntam a todos. E nós começamos logo: "Está fantástico." E a verdade é que está. Às vezes as coisas saem melhor quando estamos bem, felizes uns com os outros. E as pessoas com quem eu mais privo também gostam imenso de cozinhar, portanto têm já a técnica muito desenvolvida. Por exemplo, quando eu for à tua casa, que também ainda não me convidaste.

Verdade.

De certeza que vais fazer alguma coisa fantástica.

Pois vou, mas é que eu vou estar ciente disso. A gente pensa: "Não, isto para a Clara, eu sou esta pessoa." Vem a Clara, eu vou fazer e gosto disso.

Às vezes as coisas mais simples são as melhores.

Sim, mas têm que estar bem feitas.

Sim, têm que estar bem feitas.

Eu próprio já passei vergonhas. Uma vez tive uns amigos que fiz uma sopa, que também era super criativa, e depois fiz uma coisa que até era mais ou menos simples, que era uma pasta daquelas negras com camarão. E de repente, tu serves a pasta, tu comes e dizes: "Isto não está bom."

Não estava al dente.

E olhas para a cara das pessoas, e o pensamento delas está a passar pela testa. Tu sentes uma humilhação e pensas: "Isto é mesmo humilhante", mas entretanto há uma pessoa que te sugere uma coisa que resolve o problema, mas que a ti te humilha ainda mais, que é: "Ainda a sopa, é que se puserarmos um bocadinho da sopa aqui em cima." E de facto, nós fizemos isso e ficou ótimo e eu senti-me péssimo, mas isto não acontece muitas vezes.

Muito bom.

Quando fores lá jantar, eu vou tentar que isto não aconteça, Clara. Mas se acontecer, pronto, eu vou seguir o teu conselho.

Uma coisa assim, uma fatia de queijo. Uma coisa simples, eu fico feliz.

E agora acho que voltamos aqui só um bocadinho para trás, que é perguntar-te: tu cozinhavas com os teus filhos?

Pouco, mais com a minha filha. O meu filho nunca foi muito de cozinhar, era mais de sentar para comer. A minha filha ajuda-me mais e às vezes também faz algumas coisas. É um bocadinho mais dada a isto. Tem um bocadinho mais de pé com a mãe para fazer.

Tu falavas muito da questão da intuição. De mão, dessa coisa de ter uma mão para a cozinha ou da intuição. A tua filha partilha isso? Herda isso?

Sim, tem uma boa motricidade fina e gosta de cozinhar. Sim, sem dúvida.

Mas não é ela que é cozinheira.

Tal como também gosta imenso, como eu, de trabalhos manuais. De colar coisinhas em tecidos. Ela é professora de ginástica acrobática também, e portanto, quando tem aquelas competições, as meninas têm de ir sempre com aqueles fatos cheios de brilhantes, que têm que ser colados um a um. E ela fica ali horas a colar com aquela imensa paciência.

E tu revês nisso.

Sim, porque eu também já ajudei e fico ali horas, se for preciso, também com aquela imensa paciência. E enquanto estás ali a fazer aquilo, tu só estás a pensar: "Isto vai chegar ao fim e o trabalho vai ficar incrível." E pronto, é só isso que te faz continuar, porque aquilo é um trabalho repetitivo.

Imagino que a pessoa se arrependa.

Cansativo de ser repetitivo. Mas ela tem mais queda para a cozinha. Quer dizer, agora já não posso dizer o mesmo, porque o meu filho mudou.

Pois, porque ele é que é cozinheiro, é que isso é que tem graça. Quer dizer, nunca foi uma coisa que apostaste. Nunca apostarias que era esse o futuro dele.

Não, nunca. Foi uma surpresa. Mas ainda bem que ele encontrou uma alternativa. Ele era designer 3D, foi à procura de uma oportunidade em Londres, na Warner, e de repente, para se sustentar lá, ele disse: "Mãe, vou para Londres lavar pratos." Eu disse: "Filho, que é meu, não vai lavar pratos."O meu filho não vai lavar pratos para Londres, nem pensar nisso.

Mas ele foi.

Mas ele foi. E eu tive um dia a pensar naquilo e disse: "Por que eu estou a tentar protegê-lo de uma coisa que lhe vai fazer bem?" No sentido do crescimento. Tal como eu tive, por exemplo, dessa liberdade, dessa autonomia, desse obrigar-te a ser criativa, a te desenvencilhares perante dificuldades. E depois ele acabou por apanhar lá a Covid e ficou lá no confinamento. E começou a lavar pratos e começou a viver basicamente grande parte do seu tempo, 10, 12 horas, na cozinha.

No ambiente de um restaurante.

Justamente, numa cozinha que era numa cave quente de assar, portanto, de condições duras, como muitas cozinhas são. Acabou por ficar. E depois começou a desenvolver algum gosto, depois deram-lhe uma tarefa para tratar, não sei se das entradas, se das sobremesas. Depois a coisa foi evoluindo e hoje é cozinheiro profissional.

E tu já provaste, gostas, revês-te ali ou achas que é outra coisa?

Hoje em dia o meu filho não faz um bacalhau à Brás. O meu filho, quando é assim coisas que queira fazer diferente, pergunta: "Mãe, lembras-te como é que a avó fazia isto?" E acho sempre bonito ele falar da avó, porque vai buscar: "Dos livros que tens aí da avó..." Houve uma altura que ele estava numa cozinha que havia comida com a qual ele não se identificava tanto, porque era uma cozinha mais tradicional portuguesa, e eu tive a dar algumas dicas, obviamente, de tudo aquilo que eu tinha e que sei. Mas o meu filho é um apaixonado pelo Japão, por ele vivia no Japão, portanto é mais virado para o Oriente, para os sabores orientais, e sobretudo japoneses, que é onde ele continua agora. E sempre que faz alguma coisa em casa, digamos que quer sempre surpreender-nos. Não faz um bacalhau à Brás, vai fazer uma coisa X, PTO.

Um twist asiático.

Sempre com um twist asiático. A última foi agora há quelques dias, fez-nos uma sopa, por acaso foi um red curry tailandês, em que ele fez um red curry de camarão, mas depois também foi comprar uns peitos de pato, porque há pessoas que comiam carne, há pessoas que só comiam peixe, e então quem quisesse também podia acrescentar umas fatias do peito de pato e fazer uma mistura entre a carne e o camarão naquele caldo super picante do red Thai curry. E ficou espetacular. Eu fiz a sobremesa, mais as entradas, e ele tratou do jantar principal. Ele quer sempre surpreender de alguma forma. Não foi um red Thai só daquele. Não, tinha ali tudo que era de citronela, da folha de lima-cafir, tudo. Portanto, aquilo não era simplesmente um suposto adaptado. Não.

"Viu o que tenho aqui em casa, vou fazer aqui qualquer coisa."

Não, fomos às compras propositadamente para fazer aquele curry. E ficou espetacular. Picante que delira.

Mas memorável.

Memorável. Foi para marcar os 30 anos.

Começamos com um empadão, terminamos com um red Thai. Obrigado por esta viagem.

Olha, foi maravilhoso. Obrigada, Oriano.

Eu estou com uma fome que não vos consigo explicar.

Eu acho que vamos sair daqui e vamos comer qualquer coisa.

Mas acima de tudo fazer quando, contrariado, não. Há que apetecer e tentar ganhar algum gosto e de facto ter um resultado que surpreenda as pessoas. Eu acho que isso também é o nosso combustível.

E antecipar, às vezes. Isso acontece-me a mim, às vezes. Estou a tentar antecipar as pessoas. "As pessoas vão gostar disto."

Sim.

Não é qualquer coisa.

E é isso que nos move também. É verdade. Tal como no jornalismo, isto é importante fazer. As pessoas têm que ter uma perceção do que está a acontecer. É importante esclarecê-las. É isso que nos move.

É isso.

É sempre para ter um impacto no outro, também. Em ambos os casos.

Muito bem. Obrigado.

Muito obrigada, um beijinho para os dois.

Um beijinho. E vamos combinar o tal jantar, então.

Está bem, vamos combinar.

Tomás, tu não conhecias a Clara.

Não conhecia.

Foi uma boa conversa, não foi?

Foi ótima conversa. E acho que fiquei, porque me identifico muito com isto, com esta ideia de que cozinha é mesmo uma herança. Já cozinhava a mãe, cozinha a Clara, cozinha o filho da Clara. Eu acho que a cozinha é mesmo isto, é uma partilha que passa de geração para geração e assim também prolongamos a memória das pessoas que nos são muito queridas.

Esse é um bom final para este episódio. Despedimo-nos aqui no "Adivinhe Quem Vem Jantar?". Até à próxima.

Até à próxima.