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A questão é difícil.

Eu acho que a sua questão é muito importante.

Eu não lhe vou responder essa pergunta, porque não me apetece.

Ficará eventualmente a pergunta no ar.

É uma boa pergunta, essa.

E esta terça-feira falamos do direito ao silêncio, do peso do silêncio, mas começamos à espera de fumo branco. Paulo, a fasquia está elevada para o sucessor do Papa Francisco.

Está elevada, está muito elevada mesmo. A popularidade global da Igreja Católica está muito dependente daquilo que é a popularidade, obviamente, e da simpatia de cada papa. Bento XVI, austero e mais intelectual do que popular, transmitiu a imagem de uma igreja conservadora e pouco dada a uma abertura doutrinária. E agora Francisco trouxe uma nova dinâmica popular, mais dado ao contato com as massas, com o discurso simples e muito alinhado com os grandes debates globais: capitalismo, inclusão, ambiente. Ele tornou-se assim uma espécie de uma pop star acarinhada por católicos e, dizem até, por ateus. O perfil do seu sucessor determinará, de facto, se esta dessacralização da hierarquia da Igreja vai continuar ou se regressamos à tradição mais antiga da pouca abertura. A proveniência geográfica do novo papa também dará um sinal do caminho que estes 135 cardeais eleitores vão querer seguir.

Mas isto aqui leva-nos até à questão, Bruno. O papa é como um presidente da República, o próximo tem de ser diferente do antecessor.

É a regra do equilíbrio, Carla, uma regra que acabei de inventar. Mas se nós olharmos para o caso da Presidência da República, e não só, noutros cargos também funciona um pouco, depois do austero e muito formal Cavaco Silva, em Portugal, o país precisava de desapertar um botão e desatar a tirar selfies. Menos institucionalismo, mais fotografias em tronco nu na praia de Carcavelos. Com os papas também é assim, embora a escolha não seja feita por um país inteiro, mas por uma centena e qualquer coisa de cardeais. E é bom lembrar, muitos destes foram escolhidos já por Francisco. O certo é que depois de Bento XVI, a Igreja precisava de um calorzinho humano, de afetos e de abraços. Será que agora precisa de voltar à rigidez europeia ou ainda há espaço para um Francisco II?

Não perca os próximos dias. E quantos dias são precisos para que um partido afaste um dirigente suspeito de violência doméstica?

Ora bem, Carla, são quatro dias, quatro dias bem medidos. Foram precisos, de facto, quatro dias para que a direção do Partido Socialista apontasse a porta de saída a Vítor Hugo Salgado, presidente da Câmara de Vizela e líder do PS Braga. O Observador noticiou no dia 17 que este dirigente socialista é suspeito de violência doméstica sobre a mulher, que terá dado entrada nas urgências após alegadas agressões. A Procuradoria-Geral da República e a GNR confirmam que há um inquérito aberto contra ele e só ontem, depois do caso ser lembrado e de ser sublinhado o silêncio do partido ao longo destes dias, que foi estranhado aqui no Observador e no Público, é que o PS exigiu a saída dos cargos partidários e retirou o apoio à recandidatura do autarca à Câmara de Vizela. Vamos assumir que esta demora foi devido à pausa pascal e não na insistência da comunicação social, mas por uns dias suspeitámos que o entre marido e mulher não metas a colher estava de volta.

E agora, silêncio, que se vai andar de transportes públicos.

É isso é o que desejam muitos utentes dos transportes públicos, Maria João, sobretudo aqueles que passam duas ou três horas por dia em autocarros, comboios e barcos e além do cansaço das deslocações, têm de levar com a artilharia sonora de passageiros, digamos, menos civilizados. Um pesadelo, que afinal pode ser combatido. A Autoridade da Mobilidade e dos Transportes já aplicou coimas a utilizadores dos transportes públicos que violam os deveres dos passageiros. Existem deveres para os passageiros e entre esses deveres inclui-se a utilização comedida de aparelhos sonoros, altamente sonoros. A CP também está sensibilizada para este problema e pondera a criação das carruagens silenciosas, onde os passageiros estão proibidos até de falar em voz alta. Quem nos dera a todos que esse tempo chegasse.

A questão é difícil.

Eu acho que a sua questão é muito importante.

Eu não lhe vou responder essa pergunta, porque não me apetece.

Ficará eventualmente a pergunta no ar.

É uma boa pergunta, essa.