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Eu ouvi a pergunta, mas ela não é uma pergunta.

Eu percebo as vossas perguntas, mas vamos com calma, está bem? Não quero que ninguém se magoe.

Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos.

Eu às vezes tenho mais para fazer do que estar a responder diariamente.

Calma, Jesus.

Não sei se isto é sobre saúde, Paulo, mas se nem nos entendemos no diagnóstico, como vamos entender-nos sobre a cura?

Pode ser sobre saúde e sobre qualquer coisa da discussão política em Portugal. Neste caso, é sobre a Segurança Social e o debate que está em curso desde há dois dias. De facto, por regra, as divergências políticas revelam-se nas propostas de medidas que são colocadas em cima da mesa pelos vários atores. Neste caso concreto da Ação Social, essas divergências acontecem muito antes, elas estão logo na fase do diagnóstico. Para alguns mais à esquerda, a Ação Social está bem, está confortável, tem excedentes, é sustentável. E para outros, mais à direita, é óbvio que é necessária uma reforma para evitar que as pensões encolham cada vez mais, porque a sustentabilidade não está garantida. Nem sequer há entendimento sobre, imagine-se, um número, sobre o cálculo do déficit ou do excedente, o que diz bem sobre o grau de subjetividade que nós conseguimos colocar na matemática.

Que é uma ciência exata, supostamente.

Para nós não é exata, para nós é uma ciência social a matemática, claramente. Portanto, se partimos de pontos que são divergentes, dificilmente será encontrado aqui um caminho comum.

Paulo, as entidades que tratam da violência doméstica e da proteção de crianças não deveriam dar explicações ao país?

Deviam, devem dar. Estão devedoras dessas explicações, que notoriamente não gostam nada de dar. Aliás, nos últimos anos vão-se sucedendo vários casos que justificariam, de facto, que se falasse às pessoas, mas nada disso acontece. Aliás, várias autoridades fazem isso com regularidade. O caminho feito pelas forças de segurança nas últimas décadas a esse nível foi notável. Era muito difícil há 20, 30 anos ter pessoas porta-voz da polícia ou da GNR a comentarem casos de segurança e hoje em dia eles prestam-se.

Tivemos isso esta semana aqui no Contracorrente há dois dias.

Completamente. Prestam-se para isso. No fundo, veem isso como parte da sua função comunicar com o país. Mas falamos neste caso da Comissão para a Proteção de Crianças e Jovens, por exemplo, ou dos tribunais de família, que vão preferindo o silêncio absoluto perante os casos que vão sendo conhecidos e em que estas entidades estão envolvidas. São entidades públicas que têm como missão defender alguns daqueles que são os mais vulneráveis nas nossas sociedades e que, obviamente, não conseguem ser sempre bem-sucedidos em tudo e é impossível evitar todas as tragédias, como é evidente. Mas não lhes ficava nada mal se explicassem ao país o que fazem, sobretudo como fazem, para evitar estes casos mais dramáticos. A descoordenação entre organismos parece evidente à medida que vamos ouvindo os relatos sobre aquilo que foi feito em cada caso concreto. O ascendente também dos procedimentos burocráticos sobre a eficácia é outro traço que estes casos também denotam. E explicarem o que se passa era um bom começo de conversa, digo eu.

Claro. Paulo, e na Europa o rei vai nu?

Vai nu e tem cada vez mais a noção disso, pelo menos. Não vai ali todo pimpão a pensar que faz uma grande figura como na história.

É prepositado aqui.

É prepositado. E o alerta vem agora de Christine Lagarde, a presidente do Banco Central Europeu. Alerta que o modelo de crescimento europeu está corroído, a palavra é da própria, e pede uma aposta na inteligência artificial. Lagarde recorda que a Europa ficou em grande medida à margem, ficou para trás na primeira revolução digital, aquela que aconteceu nos anos 90, basicamente, com a internet e por aí fora. E diz ela agora que não podemos dar-nos ao luxo de repetir essa experiência com a inteligência artificial. Mas provavelmente também já é tarde. Já perdemos esse comboio, porque a inteligência artificial já está aí. E aquela que há de chegar nos próximos tempos já está nos laboratórios em trânsito também. Tal é o atraso da Europa face aos Estados Unidos e à China nesta matéria, por exemplo. O imobilismo é, de facto, fatal. O diagnóstico foi bem feito, por exemplo, há dois anos por Mario Draghi, mas até esse relatório foi parar à gaveta. Portanto, a Europa não quer muito saber destas coisas. Eu ouvi a pergunta, mas ela não é uma pergunta.

Eu percebo as vossas perguntas, mas vamos com calma, está bem? Não quero que ninguém se magoe.

Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos.

Eu às vezes tenho mais para fazer do que estar a responder diariamente.

Calma, Jesus.