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Eu ouvi a pergunta, mas ela não é uma pergunta.

Eu percebo as vossas perguntas, mas vamos com calma, tá bem? Não quero que ninguém se magoe.

Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos.

Eu às vezes tenho mais que fazer do que estar a responder diariamente.

Calma, Jesus.

Paulo, o governo é preso por ter rede e preso por não ter?

É isso mesmo. Desculpa a escrita deste provérbio. Luís Montenegro anunciou a entrada do Estado no capital da REN. Cá está a rede. REN, neste caso, Redes Energéticas Nacionais. No fundo, é a empresa que gere as autoestradas de energia do país, por onde circulam a eletricidade e o gás, que depois chegam às nossas casas através daquela rede mais capilar dos comercializadores, quando entram nas zonas urbanas e por aí fora. E por isso está a ser criticado, e criticado por todos. Os que não defendem que o Estado tenha que estar no capital da empresa dizem que a REN já é regulada pelo Estado por ser um monopólio natural e que o interesse público, se quisermos, já é salvaguardado dessa forma. Do outro lado, mesmo aqueles que defendem que o Estado deve ser dono de muitas empresas estratégicas estão a criticar a operação. É o caso, por exemplo, do PCP, que diz que os cerca de 13% de capital que o Estado acaba de adquirir não vão mudar nada no controle que as entidades públicas têm na energia. E portanto, cá está, o primeiro-ministro conseguiu ser criticado por todos, os que estão a favor e os que estão contra, e os que nem têm opinião, se quiser.

Paulo, e afinal Rui Cristina é acusado ou é vítima?

O próprio diz que é uma vítima, uma vítima do Ministério Público, que está a ser perseguido. Coitado. Falamos do presidente da Câmara Municipal de Albufeira, que foi acusado ontem pelas autoridades de discriminação e incitamento ao ódio. E em causa estão as suas declarações públicas numa assembleia municipal em novembro, uma das primeiras, se não mesmo a primeira, depois da tomada de posse após as eleições. E nessa altura, Rui Cristina disse que, e citamos: "Por sua opção, o município não iria gastar dinheiro no âmbito da habitação com um determinado grupo de cidadãos locais pertencentes a determinada etnia minoritária." Foi isto que ele disse. Agora vem contar uma versão diferente. Diz que estava apenas a dizer que não ia construir casas apenas para a comunidade cigana, porque claramente é disso que estamos a falar. Há aqui uma tentativa já de reescrever aquilo que disse ou de redizer, se quisermos, aquilo que disse. E claro que aproveita também na reação para se dizer vítima de perseguição pelo Ministério Público e por ser do Chega. No fundo, é a tática do costume.

E olhando agora também lá para fora, Paulo, caiu a política do mulher não entra no último bastião da Europa?

É um daqueles países de que poucos nos recordamos, mesmo quando estamos a jogar ao Stop e chegamos à letra L.

Tiveste que lembrar.

Lembrar os países começados por L.

Estávamos em Luxemburgo.

Luxemburgo. Também é pequeno esse, mas não é esse. É pequeno, muito pequeno mesmo. É uma antiga monarquia muito próspera, o Liechtenstein. E agora é notícia, o que é raro também, é raro o Liechtenstein aparecer nas notícias. E é notícia por quê? Porque o parlamento do país aprovou agora uma lei que passa a permitir o acesso de mulheres ao trono. De facto, nós olhamos para a Europa e pensamos que isso já não existia há muito tempo. A partir de agora será o primeiro filho a aceder ao trono, seja homem ou mulher. Até agora era o primeiro homem, sempre. E este era, de facto, ou é o último país europeu em que imperava uma lei de género, de desigualdade de género, se quisermos. Mas atenção que isto não vai ser assim de hoje para amanhã. O impacto real só se vai sentir daqui a pelo menos duas gerações. Com calma nas revoluções nestas matérias, porque aquilo funciona bem, deixem lá os capazes estarem em calma.

Eu ouvi a pergunta, mas ela não é uma pergunta.

Eu percebo as vossas perguntas, mas vamos com calma, tá bem? Não quero que ninguém se magoe.

Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos.

Eu às vezes tenho mais que fazer do que estar a responder diariamente.

Calma, Jesus.