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Eu ouvi a pergunta, mas ela não é uma pergunta.
Eu percebo as vossas perguntas, mas vamos com calma, está bem? Não quero que ninguém se magoe.
Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos.
Eu às vezes tenho mais para fazer do que estar a responder diariamente.
Calma, é isso.
Barack Obama já é pré-história, Bruno?
Se nós olharmos e fizermos as contas, Obama foi eleito pela primeira vez há quase 20 anos.
Não quero fazer essas contas.
É verdade. Mas entretanto houve tanta coisa que mudou e que aconteceu, que tudo isto parece que já foi há muito mais tempo, há uns 50 anos. Os antigos presidentes norte-americanos sempre se dedicaram, entre outras coisas, às palestras, a participar em conferências, e muito bem pagas, e por todo o mundo. Mas ver agora Barack Obama, que esteve em Lisboa neste fim de semana, não é apenas ouvir um ex-presidente norte-americano, agora num registo mais descontraído, sem aquele peso de estar na presidência. É comparar épocas já muito distintas. Uma que acabou precisamente quando Obama saiu da Casa Branca e outra que começou da primeira vez que Donald Trump para lá foi. Era um mundo diferente daquele em que vivemos hoje, muito diferente. Há quem diga que não, há quem não veja assim grandes diferenças, mas mesmo quem reconhece essas diferenças, uns dirão que é para melhor, outros que é para pior, mas as diferenças sem dúvida existem, e para percebermos essas diferenças basta ouvir Barack Obama.
Paulo, o Estado anda com vontade de voltar a brincar às empresas?
É verdade, devem ter saudades dos tempos em que o Estado punha e despunha nas empresas, numa grande parte das maiores empresas do PIB português, e isso não deu bons resultados. Mas este governo parece que quer voltar a esses tempos, com o argumento, desta vez, de se tratarem de posições estratégicas. Nas últimas semanas, o Estado já se tornou dono de quase 20% da REN, a Rede Elétrica Nacional, comprou as ações ao grupo Inditex, o dono da Zara, e também um lote de cerca de 5% do capital à seguradora Fidelidade e portanto chegou aos 20% da REN. E os jornais noticiam este fim de semana que o governo também anda de olho numa posição no BCP, no banco, cerca de 5% do capital do banco, que estão agora nas mãos dos chineses da Fosun. O Estado, neste caso da banca, já é dono de 100% da Caixa Geral de Depósitos, que tem cerca de um quarto do mercado. Fará sentido voltar às compras e com que estratégia é que isto é feito? Isso não se sabe bem. O que sabemos é que o Estado nunca foi bom empresário no passado, tirando raras exceções, e certamente não é agora que vai ser.
Bruno, então e António Costa, tem garantida a reeleição?
As coisas parecem, para já, estar bem encaminhadas para António Costa. António Costa pode ganhar a reeleição para presidente do Conselho Europeu. Até pode ficar em segundo lugar, continuando a presid-- ai, não, isso foi em 2015. Aqui não funciona assim, mas não haverá grandes dificuldades, mesmo que o governo mude de mãos em Espanha. E por que Espanha conta para esta reeleição também? É que atualmente os socialistas na Europa têm três líderes de governo no Conselho Europeu. Se Pedro Sánchez perder as eleições de novembro em Espanha, continuam com três, porque entretanto a Suécia foi recuperada, só que a percentagem de população europeia governada pelos socialistas cai de 12% para quase 4%. Aqui as contas para os altos cargos europeus não são muito fáceis de fazer, às vezes, porque a geometria dos poderes é muito complexa, depende da população, dos líderes de governo, mas quanto mais complexas forem as contas, maior será a tentação de optar pela saída mais simples, que é a reeleição de quem já está no poder.
Fica mais simples. Paulo, e é preciso muito amor à camisola para ser autarca?
É preciso amor à camisola, é preciso dedicação à causa e, já agora, abdicar também de rendimentos que podem ser maiores. Os autarcas são mal pagos e o trabalho que está a ser feito pelo Observador sobre o tema demonstra isso mesmo. Santana Lopes, num certo período, como comentador nos media, ganhava cinco vezes mais do que o salário de autarca da Figueira da Foz. Pode acontecer que os comentadores, alguns comentadores, como sabemos, sejam muito bem pagos, é certo, mas também é verdade que os autarcas são dos mais mal pagos da administração pública, em cargos de topo da administração pública, dos eleitos, se quisermos, isto para as responsabilidades que têm, e são bastantes, até em termos jurídicos e criminais. Dizer isto é muito impopular e o tema presta-se, obviamente, sempre que se fala de ordenados de políticos, presta-se a muita demagogia e hipocrisia. Mas não é por isso que deixa de ser verdade.
Eu ouvi a pergunta, mas ela não é uma pergunta.
Eu percebo as vossas perguntas, mas vamos com calma, está bem? Não quero que ninguém se magoe.
Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos.
Eu às vezes tenho mais para fazer do que estar a responder diariamente.
Calma, é isso.