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Eu ouvi a pergunta, mas ela não é uma pergunta.

Eu percebo as vossas perguntas, mas vamos com calma, está bem? Não quero que ninguém se magoe.

Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos. Eu às vezes tenho mais para fazer do que estar a responder diariamente.

Calma, Jesus.

Paulo, é caso para dizer isto aos javalis. Calma.

Para trás.

Para trás. Calma. Ninguém quer saber dos javalis que estão a entrar, que entram nas nossas cidades?

Não, agora está a acontecer em Setúbal, na zona de Setúbal, zona urbana.

São imensas as imagens que circulam.

Exatamente, da serra. Mas em plena cidade, nos jardins, nos canteiros de cidade e por aí fora.

E ainda só nas cozinhas, mas assim na rua.

Pois, e já pendurados. Em frente.

A Carla diz: "mata-te, bispo". A todas as lábios passa isso. Veja aí na laranja, a seguir iam ter a laranja.

Na boca. Mas tu gostas de fruta sempre, claro. Uma alimentação mais saudável.

Mais saudável.

Claro, é verdade. Os javalis regressaram aqui na zona da Serra da Arrábida, próximo de Setúbal, começaram a invadir as zonas urbanas. Por vezes, também gostam de ir à praia, também há relatos disso. E os entendidos dizem que é preciso tomar medidas para controlar a população desta espécie de porcos bravos, selvagens. Muito bem, é preciso então fazer isso, mas quem é que tem de arregaçar as mangas e começar com a tarefa? A autarquia diz que as ações de controle da população de javalis competem ao Instituto de Conservação da Natureza e Florestas, o ICNF, mas o ICNF não concorda e diz que não atua em áreas urbanas. Portanto, o ICNF chega ali, vê a placa de Setúbal, para. Não pode entrar. E aqui estamos, claramente, perante uma área urbana. Temos, basicamente, cada vez mais funcionários públicos, temos entidades públicas que se atropelam umas às outras, mas depois perante um problema concreto, parece que ninguém é responsável para tratar disso. O Jornal de Notícias diz que estas duas entidades devem reunir-se hoje para decidirem em conjunto então o que é que deve ser feito para manter longe da cidade os animais selvagens. Vamos ver se conseguem entender, senão ainda tem que se criar uma comissão que vai fazer um livro branco e tem a seguir vir um grupo de trabalho para lidar com o assunto. Ninguém quer saber de javalis. E não é uma zona de caça. Sinceramente, a caça regulada serve também para regular as populações.

Claro. E por que andamos sempre a correr atrás do javali e do prejuízo?

Do prejuízo. Isso está um pouquinho no nosso ADN. Um traço forte da nossa cultura, não planear nada, antecipar pouco e depois improvisar e remediar quase tudo. Dois exemplos destes dias, os grupos traficantes que andaram aos tiros, não sei se foi só um, pelo menos um atingiu uma turista, aos tiros na Baixa de Lisboa. Há anos que toda a gente, a começar pelas autoridades ou antes mais as autoridades, sabem o que se passa com os vendedores de falso haxixe ou haxixe que afinal é louro prensado. Portanto, isso é de conhecimento geral, as notícias, reportagens que foram feitas sobre isso. Mas será que alguém fez alguma coisa? Não. Mas agora promete-se, de facto, um reforço do policiamento na zona. E nas estradas é um pouco a mesma coisa, há anos que o país não consegue baixar os níveis de sinistralidade rodoviária, ao contrário do que vai acontecendo na Europa. Agora que o assunto está nas notícias, o Ministério da Administração Interna promete reforçar a vigilância nas estradas no próximo fim de semana. Portanto, esqueçam que o assunto vai ser resolvido. Sábado e domingo podem pôr aí na agenda. Depois os assuntos acabam por sair das notícias e toda a gente se esquece disso e volta tudo à passividade habitual.

Paulo, e acabou-se. Foi bom o espetáculo?

Foi bom.

É bom, não foi?

Exato.

Foi bonita a festa.

Foi. E foi rápida também, não sentimos mais do que outros, como é evidente. E a intensidade também foi diferente, mas cumpriu o que tinha sido anunciado. Nalgumas zonas o sol ficou completamente oculto. Noutras houve sempre uma luzinha, aqui em Lisboa eram 6% que não estavam cobertos pela lua. Portanto, houve sempre luz suficiente para mal darmos pelo eclipse à vista desarmada, se não olhássemos para ele, sempre com aqueles óculos, claro. Bragança foi por um dia, de facto, a cidade mais interessante do país, para onde muitos foram. Cá está, foi rápido, não custou nada, foi gratuito.

Foi a horas.

Foi a horas. Agora um parecido só daqui a mais de 100 anos. Mas atenção, até lá vamos ter regularmente vários eclipses parciais, uns mais visíveis do que outros, e depende da geografia também, como sempre. Por isso, Carla, guardava os óculos naquela gaveta lá de casa, porque vão voltar a ser úteis.

E há de haver totais, é andarmos à procura deles, como o caçador de eclipses aí em Portugal.

É isso. 90 já que ele viu, não é?

É.

Sim, ontem terá visto o eclipse número 90. É verdade, os quióquios.

Como ontem alguém dizia, ele já terá visto mais o sol coberto do que descoberto.

Um sol descoberto. Eu ouvi a pergunta, mas ela não é uma pergunta.

Eu percebo as vossas perguntas, mas vamos com calma, está bem? Não quero que ninguém se magoe.

Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos. Eu às vezes tenho mais para fazer do que estar a responder diariamente.

Calma, Jesus.