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Eu ouvi a pergunta, mas ela não é a pergunta.
A pergunta parte de um princípio errado.
Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos. Eu às vezes tenho mais para fazer do que estar a responder diariamente.
Estas perguntas são uma antecipação daquelas que a comunicação social vai fazer.
E por falar em antecipação, não é que a prendinha de Natal de Luís Montenegro chegou com uma semana de avanço?
É verdade, chegou ontem. A averiguação preventiva à Spin on Viva e a Luís Montenegro, claro, foi arquivada pelo Ministério Público e é o tal presente de Natal de que o procurador falava há umas semanas. Já agora, a expressão presente de Natal foi induzida pela pergunta do jornalista, na altura, não foi espontânea do procurador.
Não partiu do procurador.
Mas de qualquer maneira, ficou. Desaparece, sim, com este arquivamento, se quisermos, a espada que pairava sobre a cabeça do primeiro-ministro. Aliás, este tema, é preciso recordar, levou à queda do governo e à realização de eleições. Portanto, não é uma coisa menor.
Por causa da criação ou não de uma comissão parlamentar de inquériitos.
Exatamente, que o governo já se opunha e apresentou uma moção de confiança que foi chumbada no Parlamento, o governo caiu e fomos a eleições. E a AD reforçou a votação. Mas sobra a polêmica ainda sobre o secretismo do despacho de arquivamento desta averiguação preventiva. Já agora, esta averiguação preventiva é uma figura também de investigação jurídica que não é consensual entre os especialistas. E também a pergunta: deve ou não ser público este despacho de arquivamento? As regras dizem que não, a transparência diria que sim, como acontece, aliás, com todas as peças processuais. É uma boa questão para se questionar.
É ser ou não ser, eis a questão.
Exatamente.
E por falar em empresas e rendimentos, Marques Mendes também pode ter a sua Spin on Viva?
Pois, o caso de Montenegro abriu aqui uma caixa de Pandora sobre aquilo que é a atividade profissional, os rendimentos passados de responsáveis políticos ou de candidatos a cargos públicos. É o caso de Marques Mendes, que neste momento é apenas, aqui umas aspas no apenas, candidato à presidência. Até que ponto é que devem de fato ser tornados públicos logo com detalhe estes dados, enfim, da vida profissional das pessoas, que muitas vezes não tem nada a ver com o setor público. A revista Sábado perguntou a Marques Mendes que clientes de advocacia teve nos últimos anos. O candidato à presidência diz que fará a divulgação desses nomes, se quisermos, se os clientes o autorizarem, obviamente.
Ouvimos Montenegro com a mesma coisa.
A mesma coisa. A advocacia tem de fato essas regras. Não é suposto os advogados andarem a divulgar o nome das pessoas ou das instituições que defendem, a menos que as próprias o permitam. Portanto, eu não sei, é mais uma dúvida, não sei se estamos aqui por um bom caminho, se esta exigência passar a ser norma aplicável a todos aqueles que se candidatam a cargos públicos, porque senão corremos o risco de ter cada vez mais apenas pessoas que fizeram a carreira política da junta de freguesia, câmara municipal, bancada parlamentar e ponto. Vamos ver.
Estamos aqui à procura de conceitos, não é, Bruno? Porto Canal e um canal do Porto são a mesma coisa?
Não. A Porto Canal era até agora uma estação de televisão generalista, mas entretanto a ERC deu parecer favorável à alteração da licença para canal temático especializado em desporto, ou seja, o Porto Canal passa a ser o canal do Futebol Clube do Porto, oficialmente e legalmente. A deliberação da ERC já tem quase um mês, mas aproveitando as críticas do PCP a esta mudança, é bom lembrar que descentralização também significa visibilidade, conteúdos com marca, não só da cidade do Porto, mas também de toda a região Norte. Nada contra um canal do clube, os outros clubes grandes de Lisboa também têm, mas a pergunta é se não haveria aqui maneira de ter as duas coisas, um canal do clube e um canal generalista dedicado à cidade e também à região Norte. Como bem lembrou o PCP, o cenário é mais grave porque se insere aqui em um contexto de enfraquecimento da imprensa regional e também das secções locais de jornais nacionais como o Público. Com as possibilidades que são oferecidas pela tecnologia e o interesse até por uma informação de proximidade, é estranho que em Portugal canais regionais ou locais não se imponham e, pelo contrário, até neste caso, desapareçam.
E já que falamos no Porto, este é um tema que te é querido, Bruno.
Muito querido.
A cidade vai ser o centro do mundo literário no próximo ano?
É, quando um festival literário promete trazer ao Porto Margaret Atwood, Salman Rushdie, a Prêmio Nobel, Olga Tokarczuk e como conferencista de abertura o filósofo Byung-Chul Han, é caso para dizer que só pode ser mesmo o centro do mundo. Trata-se de um evento organizado pela Fundação Livraria Lello e que tem à sua frente, como organizador deste evento, Rui Coceiro, um disclaimer, meu antigo editor na Contraponto. E este evento promete alterar a relação entre festivais e hábitos de leitura, ou pelo menos de compra de livros, porque a maioria das sessões anunciada ontem será gratuita, mas para aquelas a que só se poderá aceder com ingresso, os bilhetes são adquiridos mediante a compra de um livro numa das 60 livrarias alfarrabistas da cidade. E aqui cria-se uma dinâmica que normalmente não acontece em outros festivais. Agora, sabem o que é que dava jeito?
Então.
É que houvesse um Porto Canal generalista para acompanhar este evento no próximo ano.
Já que fala nisso.
Ou uma televisão nacional.
Ou uma televisão nacional, que não viva só em Lisboa.
Não haverá falta de interesse.
Eu ouvi a pergunta, mas ela não é a pergunta.
A pergunta parte de um princípio errado.
Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos. Eu às vezes tenho mais para fazer do que estar a responder diariamente.
Estas perguntas são uma antecipação daquelas que a comunicação social vai fazer.