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Eu ouvi a pergunta, mas ela não é uma pergunta.
A pergunta parte de um princípio errado.
Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos.
Eu às vezes tenho mais para fazer do que estar a responder diariamente.
Estas perguntas são uma antecipação daquelas que a comunicação social vai fazer.
Bruno, então quem está dentro não racha lenha?
Normalmente era para quem estava fora, para rachar lenha. Bem falta faz. Mas pode ser dentro, se quem estiver dentro for o Estado. Os prêmios aos gestores do fundo Lone Star e aos altos quadros do Novo Banco pela venda da instituição não podem ser travados pelo Estado, apesar de este ser acionista minoritário do banco. O PS questionou o governo sobre os prêmios e a resposta do governo, a que o jornal Público teve acesso, revela um executivo manietado e também se calhar com pouca vontade de se libertar. O Estado não pode dizer nada quanto às decisões da Lone Star e também não interfere nas decisões de gestão corrente do banco. Naquilo que é decidido em assembleia geral, também fica caladinho a um canto a assistir, porque lá está, é apenas acionista minoritário. O Estado salvou o banco, o banco recuperou, foi agora vendido por 6,4 mil milhões de euros e o Estado nada pode fazer quanto à distribuição dos prêmios, por muito obscenos que alguns pareçam, e alguns parecem sim um bocadinho exagerados. Está lá apenas a segurar a vela, que é isso que o Estado muitas vezes faz.
E Paulo, há bocadinho falávamos de relações. Montenegro e António Costa estão de acordo em pelo menos um ponto?
Sim, pelo menos um. O que não significa que tenha uma relação que iria além. Mas pronto, o assunto tem a ver com a legalidade das escutas feitas pelas autoridades de investigação. A polémica e as dúvidas sobre o caso Influencer regressaram, desta vez sobre a validação de vida das escutas em que António Costa foi escutado involuntariamente. Isto é, ele não estava a ser escutado o telefone dele, mas pessoas com quem ele falava ao telefone estavam e, portanto, obviamente que o outro interveniente na conversa é também escutado. Neste caso era ele. Montenegro veio ontem dizer que temos de ter toda a certeza em Portugal que as escutas que são feitas pelas autoridades de investigação são escutas feitas dentro da legalidade. Qualquer pessoa assinaria isto por baixo, penso eu. Pois temos, e António Costa também, por maioria de razão. Pois temos de ter essa certeza, de facto, e neste momento temos dúvidas. Parece que pelo menos uma escuta não seguiu os procedimentos legais de validação. Aguardamos que as autoridades esclareçam, em nome da legalidade e do escrutínio. A justiça não está livre de escrutínio ou está? Parece que às vezes está livre sim.
Ainda bem que faz essa pergunta.
Pois.
E Bruno, e se o televoto chegar à política?
Não deve estar para breve. Não, e se chegasse à política, não deve estar para breve, até porque mesmo a Eurovisão vai reduzir o peso do televoto. Sabiam disto? É verdade. Isto é para não favorecer Israel e outros países.
Não, depois sindicatos de voto, de alguma maneira, informais.
Então o televoto fica só para o Big Brother.
Só para o Big Brother. O público, o voto do público. Mas se o televoto chegasse à política, Ana Paula Martins estaria agora a fazer as malas para sair do governo. Isto porque de acordo com o último barômetro da Intercampus para o Correio da Manhã, 58,4% dos inquiridos acham que o melhor seria a ministra da Saúde abandonar o cargo.
Sair da casa.
Sair da casa. De malas feitas a acenar. E contente.
E todos a chorar também.
Muitos a chorar e ela a chorar de alívio.
Ia dizer que foi ela própria.
Exatamente. E muito frontal.
Muito frontal.
E diz aquilo que pensa. Isto vale o que vale, mas demonstra que de facto há uma grande insatisfação com o SNS e com os resultados prometidos pelo governo e que teimam em não aparecer. Nestas situações, já se sabe que quem fica com a batata quente é a ministra, é quem está no cargo agora. Irá o primeiro-ministro resistir à pressão e manter a ministra? Pelo que vimos até agora, Montenegro não é político para fazer a vontade à Vox Populi, mas quando houver remodelação, é quase certo que a Ana Paula, não é a remodelação do "Querida, mudei de casa", é a remodelação ministerial. É quase certo que Ana Paula Martins será das primeiras a sair.
Não é favorita do público.
Não é.
Não é.
Longe disso.
E agora vamos aqui ao momento indignação. Então agora já não se pode ter uma mera curiosidade eletrónica, Paulo? Já não é isso?
Por este andar, onde é que vamos parar?
Agora nada. São tão sensíveis.
É uma injustiça, um pacato cidadão tem problemas com a justiça só porque gosta de saber como funcionam os aparelhos eletrónicos que o rodeiam.
Foi assim que o Bill Gates começou.
A desmontar coisas, a desmontar aparelhos.
Exatamente. Veja-se o caso de Jair Bolsonaro, que anda de pulseira eletrónica e no sábado foi detido preventivamente por risco de fuga. E por quê? Porque foram assinados alertas que o ex-presidente do Brasil estava a tentar, imaginem, tirar o aparelho do tornozelo. Mas não era nada disso. Bolsonaro explicou que apenas meteu um ferro quente aí, que era um ferro de soldar.
Muito bom, Paulo.
As imagens são fantásticas. Vê-se aquilo tudo descarapetado.
E ele queimou-se.
Queimou-se, claro, porque o ferro de vez em quando resvala. E está quente. E portanto faz ali uma queimadura. Portanto, as imagens de facto são elucidativas. E por que ele fez aquilo? Bolsonaro explicou à polícia: por curiosidade. Só tinha curiosidade em saber como é uma pulseira eletrónica por dentro. Ele queria testar a solidez do material, do aparelho, saber como funciona. Enfim, mas as autoridades brasileiras parece que preferem pessoas sem interesse pelo mundo, pelo funcionamento das coisas, pessoas tecnologicamente ignorantes.
Só queria ver se era realmente boa.
Sim, e como é que aquilo funciona, como é que é o sistema de alerta, tem chips, não tem chips, e a bateria. Quer dizer, há toda uma curiosidade. Vocês não desmontavam brinquedos quando eram miúdos?
Claro que eu estou ali agarrada à tela.
Eu espero não desmon-- ah, sim, desmontar brinquedos, sim. Eu estava a dizer, espero um dia não desmontar nenhum.
Não, uma pulseira eletrónica não. Mas pronto, é isso.
É só ver como era por dentro.
Eu ouvi a pergunta, mas ela não é uma pergunta.
A pergunta parte de um princípio errado.
Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos.
Eu às vezes tenho mais para fazer do que estar a responder diariamente.
Estas perguntas são uma antecipação daquelas que a comunicação social vai fazer.