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Eu ouvi a pergunta, mas ela não é uma pergunta.

A pergunta para um partido de errados?

Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos. Eu às vezes tenho mais para fazer do que estar a responder diariamente.

Estas perguntas são uma antecipação daquelas que a comunicação social vai fazer.

Está aprovadíssimo o orçamento. Todos prontos para a próxima batalha?

É isso, vamos ver qual será a próxima batalha. Deve ser a legislação laboral, talvez, dos grandes pacotes que estão aí, que a bancada da AD, aliás, e o governo ontem já começaram a defender, mesmo durante o encerramento da discussão do orçamento. Portanto, já a lançar aqui o próximo tema. E a legislação laboral tem, neste momento, um desfecho mais imprevisível do que tinha o Orçamento de Estado, porque a aprovação do orçamento estava já garantida há algum tempo. Depois do anúncio da abstenção do PS, atenção, uma abstenção exigente, como se viu. Ainda assim, apesar de alguma forma ter enterrado o machado de guerra, o PS e a AD não deixaram ontem de trocar argumentos fortes contra e favor do orçamento. O custo das alianças entre partidos da oposição, entre o PS e o Chega, no caso, que são aqueles que têm poder para fazer aprovar contra a AD medidas, está calculado em 100 milhões de euros. Aqui temos a continuação do congelamento das propinas e a abolição de algumas portagens, como as medidas que custam mais. No fundo, isso também é o preço que a AD paga pela falta de uma maioria absoluta. Quer dizer, não é a AD que paga, somos nós todos, os contribuintes. O bom e o mau somos nós que pagamos, mas politicamente é assim, não se tem maioria. Fica-se sujeito aos encontros da oposição.

Entretanto, Bruno, os tarefeiros são o elo mais fraco de um sistema que não funciona.

Vamos pôr as coisas da seguinte forma, que é uma forma que de certeza agrada ao Paulo. Quando nós devemos 100 mil € ao banco, nós temos um problema, quando devemos 100 milhões, o problema é do banco. E com os tarefeiros é um pouco assim, eles têm o problema de não ter um vínculo ao SNS, que também pode ser uma vantagem, mas quando o SNS se torna dependente dos tarefeiros, o problema passa a ser do SNS e não dos tarefeiros. Ou melhor, o problema passa a ser de todos nós, porque o sistema passa a funcionar ainda pior. E passa a ser um problema também dos tarefeiros. Aliás, como temos visto nos últimos dias com notícias de atrasos nos pagamentos aos médicos prestadores de serviços. O tarefeiro entrou já na gíria, mas eles são médicos prestadores de serviços, e atrasos nos pagamentos em algumas ULS, como por exemplo a de Castelo Branco, já vai dizer que a situação vai ser regularizada. Mas esse caso dos pagamentos em atraso é apenas mais um dos sinais de um sistema que, de facto, está desestruturado e em que aquela que seria uma solução de recurso se tornou o problema permanente. E uma coisa é certa: a culpa não é dos tarefeiros, de certeza.

E quantas vezes não gostávamos nós de ter assim um bom motivo para não revelar uma escolha, para não nos assumirmos, não é?

Tão bom, não é?

Dá muito jeito. Uma consulta.

Seja o que for, é verdade. É tão bom poder escolher o silêncio e não ser de alguma forma, enfim, não ficar mal esse silêncio de alguma maneira. António Costa está agora a ter essa sensação, claramente. Não vai revelar qualquer apoio nesta corrida presidencial, portanto, não diz em quem vota, nem tem que dizer, mas é normal que os políticos, de uma forma genérica, digam se apoiam o candidato A ou B. Bom, e foi isso que ele disse, que o próprio António Costa disse numa entrevista ao Expresso e à SIC. O motivo invocado é o óbvio. A sua condição como presidente do Conselho Europeu não o aconselha. Enfim, também ninguém levaria a mal que ele fizesse. Mas vamos olhar para isto com mais atenção. Em quem é que votaria ou votará ou quem é que podia apoiar António Costa? António Guterres Seguro, nem pensar. Isso eu acho que era o último da lista, talvez. Tem sempre, obviamente, o voto branco, mas depois se dissesse que apoiava outro candidato que não António Guterres Seguro, ficava naquela situação de estar em contramão com o apoio oficial do partido, que já declarou apoio a Seguro. Bom, e António Costa não é um militante qualquer, daqueles que têm uma certa liberdade de escolha nestas matérias. Acabou há pouco tempo de liderar o partido e foi primeiro-ministro durante oito anos. Assim, a sua escolha ficará no segredo da cabine de voto, o que é muito confortável nesta situação. Mas a quem é que ele irá votar? Dá para muita especulação.

Fica a dúvida ali na solidão do gabinete da votação.

Vota em branco, mas é uma excelente desculpa para não anunciar.

Vem mesmo a calhar.

Bruno, em Lisboa o alojamento local é para conter.

É para conter, mas devagarinho, para não matar aqui a galinha dos ovos de ouro da cidade, uma das galinhas. O turismo é muito importante, o alojamento local também é importante nesse ecossistema e o executivo camarário viu ser aprovada, com os votos do Chega, a proposta de definir como zonas de contenção absoluta as áreas em que o rácio de alojamento local ultrapassa os 10% e como zonas de contenção relativa aquelas em que o rácio é de 5%. O PS também tinha apresentado uma proposta que seria ainda mais restritiva, baixando essas percentagens, esses rácios, para o licenciamento dos alojamentos locais, mas a proposta foi chumbada e começaram logo as trocas de acusações. A oposição, PS, PCP, diz que Carlos Moedas escondeu o jogo antes das eleições, não disse aquilo que pretendia fazer. Já o vereador do urbanismo e da habitação diz que a proposta aprovada defende a população, o território, a economia, tudo expectável. Neste duelo, que deve continuar nos próximos meses, senão nos próximos anos, quem desempatou foi o Chega. Fica a nota.

Eu ouvi a pergunta, mas ela não é uma pergunta.

A pergunta para um partido de errados?

Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos. Eu às vezes tenho mais para fazer do que estar a responder diariamente.

Estas perguntas são uma antecipação daquelas que a comunicação social vai fazer