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Eu ouvi a pergunta, mas ela não é uma pergunta.
Eu percebo as vossas perguntas, mas vamos com calma, está bem? Não quero que ninguém se magoe.
Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos.
Eu às vezes tenho mais que fazer do que estar a responder diariamente.
Calma, Jesus.
Foi você que pediu uma crise política?
Isto é para os antigos, estas coisas das publicidades de há 50 anos. Bem, não fui eu que pedi, o Paulo é que ontem já falou aqui do fantasma da crise política.
Pronto, agora é com o Paulo.
A culpa é do Paulo, que é antigo.
A culpa é sempre do Paulo.
É do Paulo. E anda por aí a pairar esse fantasma, embora ninguém queira assumir a paternidade, e percebe-se, ninguém quer ser pai de um fantasma. Em resposta ao Ministro da Defesa, Nuno Melo, que falou sobre a crise política, o secretário-geral do PS, José Luís Carneiro, veio logo dizer que o PS não quer crise política nenhuma, fazendo do tema uma espécie de espantalho que está a ser agitado pelo governo para se vitimizar. O certo é que a cada acordo falhado entre governo e partidos da oposição, e a cada acordo alcançado entre os partidos da oposição, a conversa da crise aparece, porque ora o país parece ingovernável, ora parece governado por quem não está no governo. A crise, na verdade, não é um buraco em que se cai, é mais uma espécie de atmosfera política que se respira, vai-se respirando, até se tornar irrespirável. Paulo, e o Estado e a tecnologia continuam a ser como a água e o azeite?
Por mais que se tente, parece que não conseguem mesmo misturar-se e conviver bem, fica sempre cada um para seu lado. Neste momento temos o caso da plataforma de classificação de exames nacionais, que está a dar os problemas conhecidos. Recentemente tivemos o outro caso do controle das fronteiras nos aeroportos, em que o sistema pifou. A expressão foi da então ministra da Administração Interna. E as dificuldades sentidas neste caso, não apenas em Portugal, levaram mesmo Bruxelas já a adiar a reentrada deste sistema de controle de fronteiras, a reentrada em funcionamento para o próximo ano. E temos, no nosso caso, isto para não ser muito exaustivo, a antiga e eterna dificuldade com o SIRESP, onde já enterrámos centenas de milhões de euros ao longo de duas décadas e o sistema também parece que não funciona 100%. No fundo, é uma convivência difícil esta entre o Estado e a tecnologia.
E falando agora de fé, Bruno, os patrões são homens de fé?
São homens persistentes, Luís, e disso ninguém pode duvidar. A reforma laboral foi metida na gaveta depois de não ter havido acordo na concertação social, depois de muita contestação dos sindicatos e depois também de não ter havido nenhum partido da oposição disposto a dar a mão ao governo, a dar a mão ou dar o braço a torcer. Só que os patrões não desarmam. Armindo Monteiro, presidente da CIP, a Confederação Empresarial de Portugal, falou nas jornadas parlamentares da AD, disse que precisamos de deixar de ter temor de abanar. O projeto do governo é que abanou, abanou tanto que caiu. Mesmo assim, a CIP, que diz que a reforma laboral não foi uma birra, pede um sobressalto à nação produtiva. Aqui é que as coisas ficam um pouco mais complicadas, porque nos leva também à questão de saber então qual será a nação improdutiva. Em princípio, será aquela que bloqueou o avanço da reforma laboral, isto do ponto de vista dos patrões, mas também não se sabe que forma é que poderia assumir um sobressalto cívico da nação produtiva. Uma manifestação a pedir a reforma laboral? Não me parece.
Paulo, então se não há dinheiro para premiar o mérito, há dinheiro para quê?
Pois, é uma excelente questão, Maria João, essa que colocas. E este caso vem a propósito de um caso passado no ISCTE, que é um dos maiores institutos universitários públicos do país. A reitoria decidiu acabar com a atribuição de bolsas de mérito para doutoramento que estavam previstas para o próximo ano letivo, de 2026, 2027, e o motivo é simples: não há dinheiro. A decisão afeta 26 alunos que teriam direito a um apoio da instituição de ensino para prosseguirem os seus estudos. Seriam cerca de 1300 € por mês para cada um. O ISCTE fala de poucas transferências do orçamento de Estado. O que é certo é que há quatro meses o próprio ISCTE anunciava o reforço de verbas para estas bolsas e nessa altura já o orçamento de Estado era conhecido e estava em vigor há vários meses. Portanto, chegamos a este ponto quando não há forma de premiar o mérito, indiretamente estamos a premiar a falta dele. Estamos a tratar por igual quem tem melhores e piores resultados. No fundo, isto é aquele nivelamento por baixo a que estamos cada vez mais habituados no país.
Eu ouvi a pergunta, mas ela não é uma pergunta.
Eu percebo as vossas perguntas, mas vamos com calma, está bem? Não quero que ninguém se magoe.
Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos.
Eu às vezes tenho mais que fazer do que estar a responder diariamente.
Calma, Jesus.